O que é a polinização? O que sabemos sobre a origem deste processo de transferência de pólen? Que tipos de polinização existem? Como alterou a polinização entomófila a história evolutiva dos seus intervenientes? Respondemos-lhe a estas quatro questões neste artigo primaveril.
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| Flor do género Iris. As zonas amarelas servem como sinalização da localização dos nectários aos polinizadores, como que dissessem “aterre aqui”. |
Com a chegada da Primavera, multiplicam-se as flores pelos campos numa tentativa de perpetuar os genes das plantas a que pertencem, atraindo polinizadores, ou utilizando as forças da natureza para disseminar as suas sementes. De onde vem esta longa relação entre as plantas e agentes como o vento ou os animais, e como modelou ela a evolução das plantas e dos animais que as polinizam? Seguem-se as respostas.
O QUE É A POLINIZAÇÃO?
Desde cedo na história das plantas, estas tiveram de resolver uma questão essencial: a de como garantir a fecundação, já que, excepto no caso das briófitas, as suas células reprodutoras não são capazes de se moverem autonomamente. Assim, para resolverem este problema, desenvolveram estratégias de polinização, ou seja, de transporte de grãos de pólen desde a estrutura masculina (a antera) até à estrutura feminina (o estigma), utilizando para tal uma grande diversidade de meios.
Consoante o meio de transferência utilizado, podemos classificar a polinização como hidrófila, anemófila ou zoófila – respectivamente utilizando a água como dispersor do pólen (como muitas espécies de fetos), recorrendo ao vento para o mesmo fim (como acontece com as gramíneas) ou usando animais como dispersores. Na última destas três categorias, um caso particularmente interessante é o da polinização entomófila (feita por insectos), em que ocorreu um autêntico processo de co-evolução unindo as Angiospérmicas, que também podem ser chamadas “plantas com flor”, e uma enorme multiplicidade de espécies de insectos.
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| Um exemplo de polinização entomófila: o girassol é uma planta de polinização cruzada e esta abelha-do-mel (Apis mellifera) o agente polinizador. |
O QUE SABEMOS SOBRE AS ORIGENS DA POLINIZAÇÃO?
As polinizações hidrófila e entomófila são extremamente antigas, tendo sido as primeiras soluções que as plantas desenvolveram para garantir diversidade genética através de reprodução sexuada. Têm como senão o facto de a planta não ter qualquer garantia que o seu pólen aterrará numa planta da mesma espécie, estando sujeita à imprevisibilidade das forças da natureza. Já a polinização zoófila é bastante mais tardia, e terá surgido com a aparição das flores, há cerca de 130 milhões de anos, sendo Archeofructus um possível exemplo ancestral, embora outros estudos apontem para uma origem ainda mais remota.
Através das flores, onde se situam as estruturas reprodutoras das plantas, e do néctar, fluido geralmente adocicado que a planta produz em estruturas dedicadas para atrair possíveis polinizadores, a planta consegue atrair a si animais que mais tarde, muito provavelmente, voltarão a pousar em plantas da mesma espécie, transportando assim o pólen.
Embora algumas plantas usem vertebrados, como morcegos, aves e até roedores como vectores do seu pólen, a sua relação mais forte é com vários grupos de insectos. Na verdade, um estudo recente de cientistas de várias instituições australianas aponta para que a polinização entomófila nas Angioespérmicas seja um carácter ancestral, tendo esta relação entre estes grupos existido durante mais de 80 por cento da totalidade da existência das Angiospérmicas Outras estratégias como a polinização anemófila ou por vertebrados terá surgido neste grupo secundariamente, tendo-se aliás verificado reversões nesta última de voltar à polinização entomófila.
A mais antiga ave polinizadora ver AQUI.
COMO ALTEROU A POLINIZAÇÃO ENTOMÓFILA A HISTÓRIA EVOLUTIVA DOS SEUS INTERVENIENTES?
A resposta a esta pergunta é “muitíssimo”. Afinal, a ascensão das plantas com flor abriu uma série de oportunidades na exploração de novos recursos alimentares para muitos grupos de insectos, com certos grupos como os das abelhas ou das moscas-das-flores a especializarem-se totalmente na exploração destes recursos (uma situação mais rara em vertebrados, embora também aconteça, por exemplo, nos beija-flores). Também para as plantas esta relação permitiu uma explosão de diversidade muito rápida, devido à extrema eficácia desse novo método de disseminação, levando a que famílias inteiras surgissem num espaço de tempo de menos de dez milhões de anos, um instante em termos evolutivos.
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| Orquídeas-de-Darwin, com os tubos que levam aos nectários visíveis. |
Na verdade, existem alguns pares de planta-polinizador de tal forma adaptados um ao outro que a existência de um foi primeiramente deduzida simplesmente pela observação de um dos intervenientes: é o caso da orquídea madagascarenha Angraecum sesquipedale, também conhecida como a orquídea-de-Darwin. A localização dos nectários desta flor ao fundo de um tubo extremamente longo (mais longo do que o probóscide de qualquer borboleta conhecida à altura da sua descrição) levou o famoso cientista a afirmar que se podia deduzir a existência de uma espécie de borboleta com um probóscide grande o suficiente para o alcançar, uma vez que esta seria necessária para que a planta conseguisse completar o seu ciclo de vida. Anos depois, seria descrita uma borboleta nocturna que ainda hoje mantém o recorde de maior probóscide, e que se confirmou ser polinizador dedicado desta planta e que recebeu, adequadamente, o nome científico de Xanthopan praedicta.
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| A borboleta nocturna Xanthopan praedicta (embora esteja identificada como X.morgani, entretanto confirmou-se ser uma espécies distinta). Fonte: Museu de História Natural de Londres. |
É também muito comum o desenvolvimento nas plantas de colorações e estruturas petalares ou sepalares específicas para atrair e indicar às espécies-alvo a sua presença: é o caso não só de muitas espécies de orquídeas, como, por exemplo, as do género Ophrys, mas também de outras como as Iris (ver imagem no topo do artigo).




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