Nas aldeias do Nordeste Transmontano, o tempo não corre, arrasta-se. Como as sombras dos velhos que ali ficaram, teimosos, fiéis à terra onde nasceram, e que agora caminham devagar pelas ruas de xisto, onde o eco já não responde. Há lugares onde o silêncio deixou de ser paz para se tornar presença, constante, pesada, viva.
A Tia Laurinda tem 87 anos. Mora sozinha numa casa com paredes grossas e janelas pequenas, onde a televisão é a única companhia que não adoece nem morre. Tem filhos espalhados pela França e pela Suíça, netos que falam mais francês do que português e que já só conhecem a aldeia pelas fotografias emolduradas no móvel da sala. "Eles vêm no verão", diz ela com um sorriso triste, "mas o verão é tão curto..."
No largo da igreja, o banco de pedra está vazio. Já não se joga à sueca, já não se discutem as colheitas nem se comenta o tempo. A farmácia mais próxima fica a vinte quilómetros. O médico vem uma vez por mês, se não chover. O autocarro deixou de passar. Quem tem carro ainda vai à cidade, quem não tem fica, à espera que a campainha toque, que o telefone toque, que alguém toque à porta. À espera.
Por entre casas de pedra com telhados a cair, há vestígios de outro tempo, chaminés altas, silêncios cheios de memória. A escola primária está fechada. O café, também. Sobra a igreja, que abre ao domingo, se o padre quiser.
As políticas esquecem estas aldeias como se fossem notas de rodapé no país. Mas ali, no meio dos montes, há gente que ainda sente, que ainda resiste. E essa resistência é uma forma de amor. Um amor entranhado, rugoso, como as mãos que já só servem para acenar, de longe, quando um carro passa.
As aldeias do Nordeste não precisam de pena. Precisam de futuro. De caminhos abertos, de redes móveis que funcionem, de médicos que não venham de mês a mês, de ideias novas com raízes antigas. De gente que não venha só no verão. De quem olhe para estas terras não como museus do passado, mas como sementes por regar.
Enquanto houver um velho à janela, uma luz acesa na encosta e um nome sussurrado à lareira, a aldeia ainda respira. Mesmo que devagar. Mesmo que em silêncio.


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