(colaborador do Memórias...e outras coisas...)
A 4 de julho de 1827, embarquei para o Rio de Janeiro a bordo do brigue Invencível, onde cheguei a 1 de agosto de 1827, a bordo da galera Príncipe Real.
Tinham-me dito que, no Brasil, havia de enriquecer logo… abanar a árvore das patacas e regressar a Portugal vestido de branco, com um dente de ouro e chapéu da mesma cor. Então, já podia casar contigo… e ver-te espadar o linho, tecer a colcha, criar os filhos… e o teu pai, judeu, já não havia de dizer, para toda a praça, que era um pelintra, um morto de fome… que só tinha um macho podre, o que até era mentira, pois nunca se viu macho mais valente nas cinquenta léguas ao redor.
… Depois, morri em 1830… de saudade… da falta dos montes… de febres bravas… e da tua ausência!
Lá longe, os sinos tocavam às Trindades, e tu fiavas o linho sentada à tua porta, e o teu sorriso era uma brisa fresca… e eu prometi que havia de voltar… Um judeu regressa sempre a casa… não se sabe em que vida… ou em quantas vidas!
.... Aqui estou!… Quantas vidas… quantas mortes… eternos emigrares…
… Judeu errante… Portugal… de novo pelo mundo… quantas vidas… quantas mortes… eternos emigrares!…
… Até quando?!
Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança.
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.


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