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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Os Bailes dos Anos 70 no Liceu Nacional de Bragança


 Há memórias que não envelhecem. Ficam guardadas num canto luminoso da alma, onde o tempo não ousa tocar. Os bailes dos anos 70 vivem nesse lugar. Eram rituais de passagem, pequenas eternidades dançadas sob luzes modestas, quando as havia, e sonhos imensos.

O salão do liceu transformava-se como por encanto. Durante o dia, era espaço de aulas, e futuros ainda por escrever. Mas, numa noite de baile, tornava-se território sagrado da juventude. As cadeiras encostadas às paredes, a bola de espelhos improvisada, as luzes coloridas a girar lentamente. Bastava isso. Não era preciso mais nada para que o mundo se tornasse mágico.

A música vinha dos gira-discos, os vinis rodavam com um ligeiro estalar que hoje soa quase como batimento cardíaco da memória. Quando começavam a tocar canções dos Bee Gees ou dos ABBA, o chão parecia vibrar sob os nossos pés. E quando surgia uma balada dos The Beatles, o mundo abrandava. As luzes tornavam-se mais suaves, os risos mais contidos, os olhares mais profundos.

Havia sempre aquele momento suspenso antes do convite para dançar. O rapaz ensaiava a coragem durante minutos que pareciam horas. A rapariga fingia distração, enquanto sentia o coração a bater no pescoço. Um simples “queres dançar?” podia carregar o peso de todos os medos e todas as esperanças. E quando a resposta era um tímido “sim”, abria-se um universo.

Dançava-se devagar, quase em silêncio. As mãos encontravam-se com uma delicadeza que hoje parece rara. Uma pousava hesitante na cintura, a outra encaixava-se na palma aberta como quem segura algo frágil e precioso. Havia uma distância respeitosa, mas também uma proximidade elétrica. Os passos da dança eram descobertos ali, no improviso, entre o nervosismo e o encantamento.

Os namoricos nasciam assim, entre uma música lenta e um sorriso roubado. Olhares que se cruzavam do outro lado do salão. Recados passados por amigos cúmplices. Passeios curtos até à porta da escola, prolongados só para adiar a despedida. Eram amores de intensidade pura, vividos com a urgência de quem sente tudo pela primeira vez.

E havia a roupa escolhida com cuidado quase cerimonial. As camisas mais coloridas, as calças à boca-de-sino bem passadas, os vestidos rodados que acompanhavam cada volta no salão. O espelho era testemunha de nervosismos e ensaios de confiança. Queríamos ser vistos. Queríamos ser lembrados.

Mas talvez o mais bonito desses bailes fosse a inocência. Acreditávamos que o futuro era vasto e brilhante, que a vida nos aguardava como uma estrada aberta sob o sol. Falava-se de profissões, de viagens, de mudar o mundo. Entre uma dança e outra, sonhava-se alto. Éramos ingénuos, sim, mas essa ingenuidade era força, era esperança intacta.

Os nossos bailes eram capítulos da nossa história. Havia o baile em que alguém ganhou coragem. O baile em que um coração se partiu pela primeira vez. O baile em que dois amigos se tornaram inseparáveis. Fotografias ligeiramente desfocadas guardam esses instantes, mas a verdadeira imagem permanece viva dentro de nós, mais nítida do que qualquer fotografia.

Antes da hora para mudar de dia, o Tango dos Barbudos e logo a seguir… a Valsa da Meia-noite. Era o sinal de que o sonho já estava a terminar…

Hoje, quando ouvimos uma dessas músicas antigas, tudo regressa. O cheiro do perfume adolescente, o som das gargalhadas no salão de festas, a sensação das mãos suadas e felizes. Por instantes, voltamos a ter dezassete anos. Voltamos a acreditar que basta uma música lenta para que o mundo pare e nos pertença.

Os salões mudaram. A tecnologia avançou. As festas tornaram-se maiores, mais ruidosas, talvez mais espetaculares. Mas aquela simplicidade dos anos 70 tinha algo que não se fabrica, autenticidade.

Ficam as saudades, não apenas de um tempo, mas de uma versão de nós mesmos. Lembro-me de mim, mesmo sem ser muito envergonhado, era um rapaz que quase tremia antes de convidar para dançar. Lembro-me daquela rapariga que sorria com o coração aos pulos. Lembro-me da certeza ingénua de que a vida era infinita e estava apenas a começar.

E talvez seja isso o que mais dói e mais aquece ao mesmo tempo. Saber que aqueles bailes eram a nossa juventude a dançar antes de aprender que o tempo também sabe despedir-se… e dói… continua a doer e não há remédio que cure…!

HM
Março de 2026

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