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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sexta-feira, 27 de março de 2026

A Aldeia Onde Nasceram Mais Casas do Que Pessoas


 O meu olhar percorre as ruas vazias como quem folheia um álbum antigo, onde cada pedaço de terra parece guardar histórias que já ninguém conta em voz alta.

É numa dessas aldeias onde nasceram mais casas do que pessoas.

Durante anos, construiu-se com esperança. Cada nova casa erguida era um pensamento de que havia futuro. Filhos que cresceriam, famílias que se expandiriam, vidas que se enraizariam naquele pedaço de terra. As paredes subiam com esforço, tijolo a tijolo, muitas vezes erguidas por mãos calejadas de quem sonhava deixar algo sólido para os que viriam depois… com francos e marcos que o câmbio valorizava e ajudavam a diminuir a saudade e a distância.

Havia vida em todos os cantos.

As crianças corriam pelas ruas, vozes a gritar, portas sempre entreabertas. As noites eram feitas de conversas à soleira, de risos, de uma comunidade que se conhecia pelo nome, e pelo coração.

Mas o tempo, silencioso e inevitável, começou a mudar o ritmo da aldeia.

Os jovens partiram.

Partiram em busca de trabalho ou de sonhos, de oportunidades, de uma vida que ali já não conseguiam construir. Foram para as cidades, para outros países, para realidades onde o futuro parecia mais possível. E, aos poucos, as casas foram ficando para trás.

Primeiro, uma.

Depois, outra.

E mais outra.

Hoje, muitas dessas casas continuam de pé, firmes, resistentes, mas vazias. Algumas mantêm as janelas fechadas, como olhos que recusam ver o passar do tempo. Outras mostram sinais de abandono. Telhados cansados, portas gastas, paredes que começam a ceder à força dos anos.

São casas sem voz. São só casas.

Casas que foram feitas para acolher vidas… e que agora guardam apenas sonhos e memórias.

Na aldeia onde nasceram mais casas do que pessoas, há espaço de sobra. Há ruas inteiras onde o silêncio pesa, onde o som dos passos se torna estranho por ser raro. 

Mas não há apenas tristeza.

Há resistência.

Há quem tenha ficado por escolha ou por amor. Pessoas que continuam a cuidar das casas, das terras, das tradições. Que mantêm viva a chama de um lugar que não querem ver desaparecer completamente.

Porque é que quem de direito não valoriza devidamente, com justiça, estes derradeiros defensores da nossa ruralidade? Já sei a resposta… os foguetes, os foguetes…

E depois há os regressos.

No verão, por breves momentos, a aldeia volta a respirar de forma diferente. As casas abrem-se, o pó é sacudido e os risos regressam. Filhos e netos voltam às origens. Trazem movimento, vida, esperança renovada.

As ruas enchem-se outra vez, não como antes, mas o suficiente para lembrar o que já foram.

E nesses dias, a aldeia parece acordar.

Mas o verão passa.

E o ciclo repete-se.

As portas voltam a fechar-se, as janelas a escurecer, o silêncio a instalar-se, a triste realidade a voltar-se a revelar. Voltarei a sorrir no próximo mês de agosto se ainda por cá andar.

A aldeia onde nasceram mais casas do que pessoas é um retrato de muitos lugares. Lugares onde o passado é mais povoado do que o presente. Onde as construções resistem melhor do que os sonhos que as criaram.

Mas talvez essas casas não estejam realmente vazias.

Talvez estejam cheias de tempo.

De histórias que ainda vivem nas paredes. Histórias de quem ali nasceu, cresceu, partiu… mas nunca esqueceu.

Uma casa não deixa de ser casa quando fica vazia.

Deixa de ser casa quando é esquecida.

Mesmo que a aldeia  tenha mais casas do que pessoas.

HM
Março de 2026

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