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| Lince-ibérico. Foto: António Rivas/Programa de Conservación Ex-situ |
A sentença considera provado que o arguido matou Nenúfar, uma fêmea de lince-ibérico (Lynx pardinus) equipada com um radiotransmissor para monitorização, incorrendo num crime contra a fauna por negligência grave, noticia a agência de notícias espanhola EFE.
Os factos remontam a junho de 2019, altura em que o condenado praticava caça ilegal de raposas com a licença caducada e fora do período autorizado.
Nenúfar foi encontrada a 14 de junho de 2019 no município de Menasalbas, graças ao sinal GPS do seu colar. Este animal fazia parte do programa de recuperação do lince-ibérico e foi reintroduzida nos Montes de Toledo em fevereiro de 2017. Os resultados da necrópsia confirmaram que morreu devido a um disparo. Uma das suas crias foi encontrada morta por inanição e desidratação.
A juíza aplicou uma pena de multa durante vários meses, bem como a inibição, por três anos, do exercício de atividades relacionadas com a caça.
A Federação de Caça de Castela-La Mancha, constituída como assistente no processo, recordou a necessidade de reforçar a responsabilidade na prática cinegética e sublinhou o seu envolvimento na perseguição de crimes contra espécies protegidas, participando como assistente em casos particularmente graves, como envenenamentos ou mortes de fauna.
A organização WWF Espanha já saudou a condenação deste “grave crime contra a fauna selvagem”, segundo um comunicado.
No entanto, a organização considera que “a pena aplicada é insuficiente e não reflete adequadamente a gravidade dos factos nem o impacto na conservação da espécie”.
“No momento da sua morte, a fêmea estava a criar quatro crias. Uma delas foi encontrada morta poucos dias depois, e as outras três, que não puderam ser localizadas, provavelmente também não sobreviveram, por dependerem totalmente da mãe.”
A WWF Espanha recorda que, à data dos factos, o lince-ibérico estava classificado como Em Perigo de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e beneficia do nível máximo de proteção.
Apesar desta organização ter valorizado o facto de “a sentença estabelecer uma responsabilidade civil significativa, com uma indemnização de 100.800 euros”, considera insuficiente a resposta penal.
A WWF Espanha reiterou que “disparar contra um lince-ibérico constitui um crime grave contra a fauna. Este caso é particularmente preocupante por envolver uma fêmea reprodutora, cuja perda tem um impacto direto na recuperação de uma espécie emblemática e ameaçada”.
Os disparos, juntamente com o uso de armadilhas ilegais e venenos, continuam a ser uma das principais causas de mortalidade não natural do lince-ibérico, apenas atrás dos atropelamentos.
A organização sublinhou ainda que “estes crimes continuam a ser largamente sub-detetados”, estimando-se que menos de 10% dos casos cheguem a ser conhecidos.
“Os crimes contra a fauna selvagem não são menores. Têm consequências profundas para a biodiversidade e, no entanto, muitas vezes ficam impunes ou são alvo de sanções pouco dissuasoras. Por isso, a WWF Espanha considera essencial reforçar o quadro legal e a sua aplicação.”
O lince-ibérico vive hoje uma fase de consolidação, depois de mais de duas décadas de recuperação, graças a sucessivos projetos de conservação. Estima-se que existam hoje na Península Ibérica, pelo menos, 2401 linces, 354 dos quais em Portugal.
Para isto tem sido crucial o papel dos centros de reprodução dedicados a esta espécie emblemática, um dos quais em Portugal. Em 2025 conseguiram um total de 62 crias, 48 das quais sobreviveram e estão a ser libertadas este ano.
Segundo as contas da EFE, desde 2005 nasceram em cativeiro mais de 800 crias e dessas mais de 400 já foram reintroduzidas na natureza.
Neste momento, o lince-ibérico continua numa das três categorias de ameaça definidas pela Lista Vermelha da UICN, ainda que esteja na mais baixa, Vulnerável.
O seu futuro está longe de estar garantido.


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