(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Quando era rapazote ia com meus pais, veranear a pequena povoação do Vale da Vilariça.
Depois da janta, familiares e amigos, abancavam-se na escaleira de velho e delapidado solar, cujas salas serviam de arrecadação a alfaias agrícolas, e as portas desvidraçadas, abriam-se a largas varandas, que permitiam entrada a andorinhas, em voos certeiros para os ninhos
Nessa nova " Corte na Aldeia", havia letrados e “analfabetos”, que aprenderam a ler e escrever, à custa de dolorosas reguadas.
Obtido o diploma, deram” às de Vila Diogo”, abandonando a escola e os livros.
Nessa época não havia TV; e o único aparelho de TSF, movido a bateria, pertencia a lavrador abastado, que era colocado, em dia de festa, à janela, para quem quisesse bailar ao som de música da Emissora Nacional.
Como disse, à noitinha, pela fresca, depois de uma tarde cálida, acomodávamos nas escadas do velho casarão brasonado.
Conversava-se, contávamos tradicionais historietas, e advinhas... até que aproveitando pausa de silêncio, saltou de súbito, a pergunta:
- Qual é o ato mais importante da vida?
Ouve-se murmúrios, e uma voz se ergueu: É o casamento!...
Risinhos... e prosseguiu.: Quem pode, e sabe, realizar matrimónio por amor, com companheira, que o ajude nos abrolhos da vida, acha um tesouro. Não é verdade, que por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher… que o acompanha, quase sempre, na sombra?
Sacerdote, presente no serão, ergueu-se, discordando:
- Isso é uma verdade de La Palice..., Mas Jesus não pensa assim. O que deseja - é que leiam o Evangelho e O cumpram.
Então recordou, rapidamente, a curiosa passagem evangélica, que fala de Marta e Maria. Esta, vendo Marta aninhada ao pé de Jesus, escutando-O, pede a Jesus: " Diz a Marta que me venha ajudar...” Responde-lhe Jesus: " Marta, Marta, inquietas-te com muitas coisas; mas uma só é necessária! Maria escolheu a melhor – Lc.10:42.
Rematando: o ato mais importante da vida, é portanto: - Amar a Deus, e cuidar da Salvação. É o Caminho, que nos deve preocupar. O único para que nascemos. O resto é: vaidade, orgulho, conhecimento… tudo é efémero, já que tudo acaba, após a morte...
Levantou-se profundo silêncio. Como já fora tarde, cada qual se recolheu a casa, dando as habituais boas-noites; e, sonolentos todos diziam: Vá com Deus; Bom descanso...Deus o guarde…
Humberto Pinho da Silva nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG” e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ".


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