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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

A Mentira da Verdade

Por: Paula Freire
(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


 Houve tempos em que os seres humanos eram mais complexos, mais difíceis de classificar. Felizmente, hoje, isso já não acontece. A simplificação ganhou terreno e a espécie parece ter descoberto forma eficaz de se organizar, praticamente, em dois grandes modelos. 

Se é oficial? Claro que não. Se houve lugar a decreto? Também não foi necessário. Bastou-nos a conveniência, a repetição, a indiferença e, sobretudo, a preguiça de pensar. 

E a máquina segue, iludida de que gira exatamente como deveria girar. Observemos com alguma atenção para compreender como tudo se organiza quando o mundo acorda. 

A luz acende-se. Os gestos repetem-se. Há trânsito. Os semáforos mudam de cor, as pessoas atravessam. Cafés apressados. Reuniões e opiniões muito urgentes. Pouca coisa exige paragem suficiente para ser entendida. Afinal, está tudo a acontecer. E parece funcionar.

Hoje é Dia da Consciência Social e do Bem-Estar Coletivo. Dizem que há um evento público patrocinado por uma conhecida marca de produtos dietéticos e um banco qualquer: o Fórum Nacional Para a Proximidade Humana. Título suficientemente elucidativo para dispensar explicações. 

Obviamente, por razões diversas, quer Osório Frio como Glorinha da Ribalta sabem que é pertinente marcarem presença.

À entrada do moderno auditório, a palavra “transformação” salta à vista em vários painéis cheios de cores. 

Osório Frio é meticuloso no cumprimento de horários. Educado nos gestos, atencioso nas palavras, com notáveis competências para deixar os seus interlocutores sentirem-se importantes. 

Não nasceu assim, irrepreensível, digno homem de valor. Aperfeiçoou-se para se tornar ator de excelência num papel pelo qual tem um sentimento de total desprezo. Aprendeu a imitar emoções, de modo assaz preciso, com o objetivo de persuadir os outros. 

Sem se distrair com desnecessidades nem com rostos, Osório Frio dirige-se, passo calculado, para um lugar estratégico da sala. Posiciona-se num ponto onde pode ser visto sem se mostrar largamente disponível. Fundamental para observar fragilidades, ambições e vaidades. Analisar riscos, benefícios e eventual préstimo daqueles que se cumprimentam, vão conversando ou que se evitam.

Glorinha da Ribalta. As primeiras horas da manhã começam logo, em modo monólogo, a fazer perguntas aos espelhos como se estivesse a interpelar uma assembleia. Prefere chegar atrasada a qualquer lugar. Os atrasos não são inocentes. É para ter oportunidade de se fazer notar enquanto gravita em torno dos presentes. 

Sente que aquele dia, para si, irá ser renovador. Entusiasmada com a antecipação das emoções, verte nos palcos digitais uma sequência de episódios e sucessos que ainda não aconteceram, legendados por frases sem conteúdo. Um “spoiler” do seu futuro fantástico ao longo das próximas 24 horas, repletas de múltiplas aprendizagens sobre a vida (sim, 24 horas, porque Glorinha da Ribalta acredita convictamente conseguir viver maravilhosos acontecimentos universais até mesmo enquanto dorme).

Quando chega, a primeira intervenção já decorre há uns largos minutos. Um orador fala sobre empatia e a importância de cada um se colocar no lugar do outro. Glorinha da Ribalta, com uma expressão de felicidade exagerada, desliza, saltitante, por entre cadeiras e corpos alinhados em filas ordenadas, a uma velocidade de quem não encontra o lugar certo para ficar.

Algumas cabeças viram-se. Quer acreditar que é por admiração.

— Peço imensa desculpa, estive numa sessão de meditação… — disse a ninguém em particular pois ninguém, em particular, se mostra efetivamente interessado nela. 

Antes de se sentar faz uma pausa dramática. Pensa que aquele auditório parece indiferente ao seu estado interior. O meio que a circunda, afinal, não entende a sua profundidade.

Não muito distante, Osório Frio observa e avalia. Desconsidera.

O discurso prossegue. Fala-se sobre as grandes competências essenciais dos tempos modernos. Construir sociedades mais despertas, responsáveis e ligadas entre si. Osório Frio, contido nos movimentos, escuta com interesse disfarçado e a certeza absoluta de que nada alcançará de produtivo se abandonar o próprio lugar para habitar o daqueles que não são vantajosos para os seus interesses.

Por sua vez, Glorinha da Ribalta transborda sem direção. Comenta, concorda com fervor, acrescenta.

— Estas coisas tocam-me extraordinariamente! — Não compreende exatamente porque o diz, mas sabe que o sente.

Ninguém pergunta nada. Ela inquieta-se e aumenta o volume.

Intervalo. O público, satisfeito, aplaude.

Glorinha da Ribalta levanta-se.

— Tenho de ir partilhar isto.

Osório Frio levanta-se.

— Tenho de ir aproveitar isto.

No recinto, pessoas circulam. Outras acenam. Por cima da máquina de café, um cartaz policromático aconselha: “Seja a mudança que quer ver no mundo”. Paira um aroma a poucas expetativas. Ninguém parece muito disposto a interpretar a frase para além do mero registo visual. 

Osório Frio, olho astuto, e Glorinha da Ribalta, cara de luz artificial, cruzam-se pela primeira vez. Sorrisos simulados.

— Há qualquer coisa em si que me inquieta — declara Glorinha da Ribalta.

— É possível. Costuma sentir isso frequentemente?

— Sim. Sabe que tenho uma conexão muito intensa com as pessoas?

Osório Frio sorve um golo de café e pousa o copo de plástico na palma da mão. Ouve. Não interrompe. Recolhe dados enquanto Glorinha da Ribalta lhe fala, num exercício impecável de escuta ativa de si própria, sobre o seu percurso, sobre abraçar quem se é de modo autêntico e sobre permanecer conectado com as pessoas, em especial, as que têm medo de sentir.

— Interessante. E em que medida isso lhe é útil?

— Utilidade? Estou a contar-lhe sobre ser… humano. As pessoas precisam de sentir-se.

— As pessoas precisam de funcionar. Tenho preferência por compreender.

— Compreender não chega.

— Sentir também não.

— Você tem um vazio que inquieta. 

— Você tem um exagero que incomoda.

— Você usa as pessoas.

— Você usa-se a si própria.

— Pelo menos sou verdadeira.

— Não. É apenas convincente.

— Olha quem fala! Você é desumano e isso é assustador! É certamente um homem muito só. 

— E você é irrelevante e isso é terrível. É, sem dúvida, uma mulher muito sozinha.

Olham um para o outro como dois dialetos que partilham somente vocábulos, mas não o significado. Duas lógicas incompatíveis a tentar ocupar o absurdo do mesmo espaço. Duas peças do mesmo sistema convencidas do problema estar instalado, inequivocamente, no outro extremo.

De novo sentados nos respetivos lugares. De um lado, os que gostam de usar. Do outro, os que gostam de ser vistos. Nos dois lados, os que tiram partido. Perigosamente eficazes numa sociedade que tem uma relação abundantemente superficial com a verdade e em que a aparência dita a decisão final.

No fim da peça, à saída, a agenda temática de boas intenções do dia, evapora-se pelas condutas do ar condicionado. A matriz coletiva regressa ao seu estado de decoração. Crentes de terem retirado daquele encontro tudo o que pretendiam, Osório Frio ajeita os óculos em cima do nariz e o colarinho da camisa, Glorinha da Ribalta digita, no telemóvel, os discursos do dia como se fossem inspirações da sua autoria. 

E a vida continua.

Paula Freire


Paula Freire
. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome. 
Acredita que a vida não dá certezas absolutas nem tem respostas fáceis. E que a sensibilidade humana nunca deve ser confundida com fragilidade.
É psicóloga e psicoterapeuta. Publicou “Lírio: Flor-de-Lis” e “As Dúvidas da Existência: Na Heteronímia de Nós”. Este último (em coautoria), assinado pelo seu heterónimo Lázaro Rios, a sua forma de liberdade mais pura e crua. 
Gosta de viver sem ruídos desnecessários e inteira dentro da sua escrita. Tudo o resto são só excessos.

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