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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 7 de junho de 2026

O golpe militar de 28 de Maio de 1926: o início da ditadura em Portugal

 Recuamos, hoje, até ao momento da instauração da Ditadura Militar. Quais foram os seus principais protagonistas? Que características tinha este novo regime? Que precedentes propiciaram a sua instauração e o seu fim?

Museu do Aljube - Uma caravana de 13.000 homens, liderada pelo marechal Manuel Gomes da Costa, desfila em Lisboa a 6 de Junho de 1926, assinalando a vitória do movimento militar que encetou o golpe do dia 28 de Maio. 

Quando, a 25 de Abril de 1974, um conjunto de militares restaurou a democracia em Portugal, estava não só, mas também a desfazer o que outros militares haviam realizado a 28 de Maio de 1926. Ao evento que marcou o final da tumultuosa Primeira República em Portugal seguiram-se dezasseis anos de... agitações internas, externas e tudo o que há de permeio, porém com outros protagonistas.

Quando, a 25 de Abril de 1974, um conjunto de militares restaurou a democracia em Portugal, estava não só, mas também a desfazer o que outros militares haviam realizado a 28 de Maio de 1926. Ao evento que marcou o final da tumultuosa Primeira República em Portugal seguiram-se dezasseis anos de... agitações internas, externas e tudo o que há de permeio, porém com outros protagonistas.

Após um flirt breve autoritário com Sidónio Pais, a década de 1920 trará aquele que costuma ser o factor principal de qualquer revolução em Portugal: a manifestação do descontentamento militar. Ajudado por um clima de tensão constante graças às actividades bombistas de anarquistas ligados a sindicatos de trabalhadores, pairava no ar a sentença de morte do regime. Em 1921, a demissão de Liberato Pinto – um entre as dezenas de presidentes do Ministério que a Primeira República conheceu e chefe do Estado Maior da Guarda Nacional Republicana (GNR) durante sete anos – é seguida de um dos eventos mais marcantes deste período: a fatídica Noite Sangrenta.

A noite sangrenta

De 19 para 20 de Outubro, Lisboa foi cruzada por uma camioneta-fantasma, que raptou conhecidos membros do Partido Republicano, incluindo o líder do governo, António Granjo, executando-os a tiro no Arsenal da Marinha. Embora oficialmente a responsabilidade tenha sido atribuída puramente a militares descontentes, vários historiadores actualmente consideram que houve mão de uma ala militar mais conservadora e até de alguns simpatizantes monárquicos, desejosos de fazer cair o regime. O impacto foi tal que a população saiu à rua, querendo linchar os revoltosos. Uma breve conversa pública sobre o regresso da pena de morte instalou-se, sem que a ideia tenha avançado. À GNR – na prática, a salvaguarda de manutenção da Primeira República – foi retirado grande parte do poder que detinha e as ondas de choque que este episódio causou só seriam apuradas cinco anos depois.

PARLAMENTO.PT - A camioneta-fantasma, numa notícia da Ilustração Portuguesa, de 12 de Novembro de 1921, p. 357.

As discussões sobre quem teria, de facto, conspirado não se dissiparam. Forças que procuravam o regresso da monarquia tentaram culpar movimentos anarquistas como a Formiga Branca. Cresce então o sentimento de insegurança e instabilidade política, com atentados semanais, greves e manifestações que frequentemente descambaram em violentos confrontos e indisciplina militar: em 1924, a colecção de tentativas de revolta dentro dos vários ramos das Forças Armadas daria uma caderneta de várias páginas. Em Junho, revoltam-se os militares aviadores; no mês seguinte, é a vez da GNR se digladiar com o Exército; em Agosto, mais duas, uma no forte da Ameixoeira e outra no castelo de São Jorge. O passatempo referido dos soldados e oficiais portugueses parecia ser o desacato; e o operariado, apertado por condições sociais miseráveis, ia atrás. Nos bastidores, forças conservadoras aguardavam a oportunidade perfeita. 

A 18 de Abril do ano seguinte, a direita assume então a sua tentativa, com uma revolta militar de peso, ao envolver generais no activo, algo que não acontecia desde 1870. A participação da Cruzada Nun’Álvares, um movimento nacionalista com simpatias pela ditadura de Primo de Rivera no país vizinho, não deixava espaço a enganos. Surgem aqui alguns militares, como Sinel de Cordes ou Gomes da Costa, que darão também a cara no golpe de 1926.

É uma lição do que o futuro traria: em primeiro, ocuparam-se os arsenais e quartéis mais importantes de Lisboa. De seguida, deixando que a situação evoluísse, Sinel de Cordes foi propor um acordo entre os revoltosos e o governo ao Quartel do Carmo; os principais jornais são ocupados e suspensos. A única verdadeira consequência é nova queda do governo. Ainda mal se investigava este golpe, estavam os militares novamente a conspirar. Nem sequer se punha em causa a legitimidade destas intentonas: o que estava em causa era a pátria. Os últimos movimentos na Europa mais ocidental funcionava como uma profecia: o crescimento do autoritarismo de direita, prometendo estabilidade e ordem, manifestava-se em vários países e seduzia uma instituição militar que, desejosa de protagonismo, preferia controlar e desenhar o que se adivinhava um novo sistema político.

© Museu da Presidência da República / Em Domínio Público - O marechal Gomes da Costa foi o décimo presidente da República Portuguesa e o segundo da Ditadura Nacional, o regime instaurado na sequência do golpe de Estado de 1928. 

A jogada decisiva dos militares conservadores

Ora, a 26 de Maio, realizava-se em Braga um congresso dedicado à Virgem Maria. Uma parte importante dos rostos do conservadorismo político e religioso português afluiu à cidade dos arcebispos, com Cunha Leal e Gomes da Costa em destaque. Não era por acaso. Leal inflama os participantes num jantar a 27 com discursos onde insulta todas as grandes figuras do Partido Republicano e apela ao fim daquilo que classifica como organismo parasitário.

Cunha Leal está, então, a montar o cenário para que Gomes da Costa surja e lidere uma maralha popular que na madrugada do dia seguinte, às seis da manhã, se dispõe avançar sobre Lisboa. Gentes de outras cidades, como Coimbra ou Leiria, juntam-se pelo caminho e, em Lisboa, os quartéis militares rapidamente abandonam o governo democrático, deixando o presidente Bernardino Machado quase isolado.

Mendes Cabeçadas, que fora a cara de uma das tentativas de golpe anteriores, entrega-lhe um manifesto de intenções. No dia seguinte, está claro que o regime não tem o apoio das suas forças de segurança. António Maria da Silva, o primeiro-ministro, entrega a sua demissão e Machado não tem outra solução que não convidar Mendes Cabeçadas a formar governo. Este age rapidamente: coloca como governador civil da capital João Ferreira do Amaral, que à altura liderava de forma brutal e violenta a polícia da cidade, e este rapidamente começa a controlar potenciais revoltosos. Gomes da Costa faz avançar as suas tropas e assim, tudo pode seguir como planeado.

© Centro Português de Fotografia - O comandante José Mendes Cabeçadas Júnior (aqui ladeado dos seus ministros numa reunião no Palácio de Belém) torna-se o primeiro presidente do Ministério de Portugal da Ditadura Nacional, mas por pouco tempo: ficará 18 dias no poder, sendo sucedido no cargo por Manuel Gomes da Costa.

Cabeçadas segue o guião clássico de transformação de uma democracia numa ditadura: manda encerrar o parlamento, obriga à demissão do presidente eleito e reúne uma coligação variadas de forças de direita que tentam tomar o controlo dos acontecimentos. Os militares foram úteis no derrube da democracia; mas agora, está na hora de decidir que corrente dominará a ideia de governo e de acção.

Gomes da Costa monta quartel na Amadora, onde lidera a parte militar; Mendes Cabeadas, agora acumulando a presidência, após demissão de Bernardino Machado, e a liderança do governo, começa a tentar construir o futuro da nação: convida uma série de professores universitários de Coimbra para algumas pastas importantes. Todos aceitam, menos um, o escolhido para a Instrução Pública: António de Oliveira Salazar sente que este não é um momento e regressa a Coimbra.

MUSEU DO ALJUBE - O parlamento é fechado após o golpe militar de 28 de Maio de 1926. 

No entanto, Cabeçadas e Costa discordam em aspectos importantes: o primeiro acredita que o regime necessita de uma reforma profunda, mas que é possível fazê-lo dentro de um sistema democrático; o segundo, vitalizado pela recepção apoteótica da sua entrada na cidade de Lisboa, visto como herói nacional, anseia por uma regeneração verdadeira. Obviamente que Gomes da Costa se via a si mesmo como o homem indicado para a tarefa. Num novo golpe palaciano, retira o poder a Cabeçadas, que se vê forçado a exilar-se. Gomes da Costa, no entanto, é incapaz de conter a ambição de outros dos seus correligionários, como o marechal Óscar Carmona e, numa grande ironia, a mesma instabilidade governativa que os revolucionários diziam combater instala-se nesta ditadura: ninguém consegue criar um ministério estável.

Carmona obriga Gomes da Costa também a exilar-se em Angra do Heroísmo, longe da capital do país, tomando para si o poder. Juntando uma linha dura de utópicos de direita radical, arranja por fim uma massa crítica sólida que o mantém no poder e termina com todo este corrupio e baile das cadeiras. O caminho para o futuro Estado Novo fica aberto.

Surge o Estado Novo

É em 1928 que Salazar vê a sua oportunidade chegar num clima político mais estável. Ocupa a pasta das Finanças e estabiliza as contas portuguesas com algumas manobras financeiras de maquilhagem. Emerge, no entanto, como o salvador da Nação e uma das figuras mais respeitadas em Portugal. Salazar centra em si o seu poder, à imagem de outros caudilhos da Europa e, em 1933, faz votar uma nova constituição, anti-democrática, que o legitima como líder de um Estado Novo. Salazar promete ordem, valores tradicionais, o regresso à boa e velha paroquialidade portuguesa. Carmona será o seu presidente e, por esta altura, como em muitos outros casos, a revolução militar já tinha despachado os seus mentores para longe e esquecera o seu papel no desenho de um Portugal ditatorial.

Bruno Fernandes
Actualizado a 28 de maio de 2026

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