(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
A tia Idalina aparece-me primeiro como uma figura pequena e redonda, gorducha, de rosto muito redondo e bochechas cheias. Trazia o cabelo apanhado numa trança enrolada em coque, bem preso na nuca. Curiosamente, não me recordo da sua voz — recordo, sim, a presença, o modo como ocupava o pouco espaço que tinha, como se o quarto fosse maior por ela estar ali.
Eu teria uns oito ou nove anos quando comecei a ir vê-la com regularidade. Era tia-bisavó — irmã da avó da minha mãe e da avó da prima Elvira — e era a minha família (os meus pais) e os meus primos Fernando e Elvira que se certificavam de que não lhe faltava nada.
Vivia num pequeno quarto alugado por baixo de uma casa burguesa. O quarto era exíguo: uma cama de ferro, a mesa de cabeceira, duas mesas e um armário guarda-vestidos.
Uma mesa, estava ocupada com um pequeno fogão de duas bocas em esmalte branco pousado em cima, com algumas, poucas, pequenas panelas onde aquecia a comida ou a sopa que lhe mandavam a minha mãe ou a minha prima. Por baixo, uma botija cinzenta de Gazcidla.
Por vezes, o quarto estava inundado por aquele cheiro a roupa quente: a Idalina ainda passava a ferro, com um ferro de brunir maciço, aquecido numa braseira, ou no próprio lume do fogão.
Junto à janela, outra mesa: ali ela comia, ali estava o rádio, e era ali também que eu escrevia as cartas. A janela dava para o jardim da casa; havia luz, mas, com a orientação do sol, ficava muitas vezes à sombra da escada.
À esquerda de quem entrava, estava o guarda-vestidos de madeira castanha trabalhada, de uma só porta, mas com espaço para os dois lados.
Ela trazia consigo uma vida inteira de trabalho. Fora feirante, dessas pessoas que aprendem a falar com o mundo de frente e a negociar a vida ao cêntimo, sem perder a compostura. E havia também a história do marido, que fora para o Brasil (tal como o pai dela) e, quando ela foi ter com ele, não se deu lá; ele não quis voltar e nunca mais se viram. A Idalina dizia isso sem se lamuriar — como quem enuncia um facto antigo que já não dói porque, de tanto doer, se gastou.
O pequeno rádio de pilhas estava quase sempre ligado, a debitar a missa ou o Terço. Ela era fervorosa, e lembro-me em particular de como defendia o papa Paulo VI, que ouvia com uma atenção séria, como se aquelas palavras tivessem, para ela, peso de visita importante. Só se desligava o rádio quando ela ia ditar as cartas.
Eu ia lá muitas vezes para lhe escrever as cartas que mandava para amigos que tinha em França e para lhe ler as respostas, sentado na mesa junto à janela. Ela não sabia ler, mas ditava com perfeição — com fórmulas de introdução, desenvolvimento e despedida que me surpreendiam, mesmo com a minha idade. Para alguém que não lia, havia nela um sentido muito claro de ordem e de forma. E, se nas letras precisava de mim, nas contas não havia quem a enganasse.
Nessa altura, o restolhar das folhas de cidreira secas no saco de pano, anunciavam o cheiro morno do chá. Uma caneca fumegante, acompanhada das bolachas Maria que estavam na lata da Paupério, de onde os biscoitos sortidos haviam desaparecido há muito. Ela comia-as amolecidas, num gesto paciente, como se até a doçura tivesse de ser domada pela falta de dentes.
A junta de freguesia pagava-lhe os medicamentos e oferecia-lhe um pão de sêmea por semana — uma caridade para as pessoas com poucos recursos. Para ela, porém, aquele pão era dela, pertencia-lhe, e havia que o ir buscar e lá ia eu. Como não o conseguia comer porque era duro, dava-o para nós; ela ficava-se por pequenos pães de leite. Se um dia ela quisesse a sêmea, seria um problema, porque eu devorava metade no caminho.
Também era autoritária, daquelas pessoas que não se deixam infantilizar pela idade nem pela fragilidade. Quando o médico ia consultá-la em casa, já nem lhe dizia grande coisa: perguntava-lhe o que ela queria, e ela é que lhe dizia o que ele ia receitar. Dizia os medicamentos que lhe faziam bem e os que não. Lembro-me de uma vez lhe chamar a atenção: da última vez, apesar de ela o ter lembrado, ele esquecera-se de um determinado remédio. Quando isso acontecia, era eu que ia a casa do médico pedir-lhe que passasse a receita. Assim que eu acabava “o trabalho”, tratava de me pôr ao fresco rapidamente, para ir brincar com os outros miúdos. Talvez por isso a sua voz me falte na lembrança: a tia Idalina ficou-me mais como um conjunto de rituais — o rádio, o papel e a caneta, o chá de cidreira — e como a sensação rara de ser levado a sério por alguém que tinha tão pouco e, ainda assim, fazia questão de mandar no que era seu.
Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/


Sem comentários:
Enviar um comentário