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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 7 de abril de 2026

A tia Idalina

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 A tia Idalina aparece-me primeiro como uma figura pequena e redonda, gorducha, de rosto muito redondo e bochechas cheias. Trazia o cabelo apanhado numa trança enrolada em coque, bem preso na nuca. Curiosamente, não me recordo da sua voz — recordo, sim, a presença, o modo como ocupava o pouco espaço que tinha, como se o quarto fosse maior por ela estar ali.

Eu teria uns oito ou nove anos quando comecei a ir vê-la com regularidade. Era tia-bisavó — irmã da avó da minha mãe e da avó da prima Elvira — e era a minha família (os meus pais) e os meus primos Fernando e Elvira que se certificavam de que não lhe faltava nada.

Vivia num pequeno quarto alugado por baixo de uma casa burguesa. O quarto era exíguo: uma cama de ferro, a mesa de cabeceira, duas mesas e um armário guarda-vestidos.

Uma mesa, estava ocupada com um pequeno fogão de duas bocas em esmalte branco pousado em cima, com algumas, poucas, pequenas panelas onde aquecia a comida ou a sopa que lhe mandavam a minha mãe ou a minha prima. Por baixo, uma botija cinzenta de Gazcidla.

Por vezes, o quarto estava inundado por aquele cheiro a roupa quente: a Idalina ainda passava a ferro, com um ferro de brunir maciço, aquecido numa braseira, ou no próprio lume do fogão.

Junto à janela, outra mesa: ali ela comia, ali estava o rádio, e era ali também que eu escrevia as cartas. A janela dava para o jardim da casa; havia luz, mas, com a orientação do sol, ficava muitas vezes à sombra da escada.

À esquerda de quem entrava, estava o guarda-vestidos de madeira castanha trabalhada, de uma só porta, mas com espaço para os dois lados.


Ela trazia consigo uma vida inteira de trabalho. Fora feirante, dessas pessoas que aprendem a falar com o mundo de frente e a negociar a vida ao cêntimo, sem perder a compostura. E havia também a história do marido, que fora para o Brasil (tal como o pai dela) e, quando ela foi ter com ele, não se deu lá; ele não quis voltar e nunca mais se viram. A Idalina dizia isso sem se lamuriar — como quem enuncia um facto antigo que já não dói porque, de tanto doer, se gastou.

O pequeno rádio de pilhas estava quase sempre ligado, a debitar a missa ou o Terço. Ela era fervorosa, e lembro-me em particular de como defendia o papa Paulo VI, que ouvia com uma atenção séria, como se aquelas palavras tivessem, para ela, peso de visita importante. Só se desligava o rádio quando ela ia ditar as cartas.

Eu ia lá muitas vezes para lhe escrever as cartas que mandava para amigos que tinha em França e para lhe ler as respostas, sentado na mesa junto à janela. Ela não sabia ler, mas ditava com perfeição — com fórmulas de introdução, desenvolvimento e despedida que me surpreendiam, mesmo com a minha idade. Para alguém que não lia, havia nela um sentido muito claro de ordem e de forma. E, se nas letras precisava de mim, nas contas não havia quem a enganasse.

Nessa altura, o restolhar das folhas de cidreira secas no saco de pano, anunciavam o cheiro morno do chá. Uma caneca fumegante, acompanhada das bolachas Maria que estavam na lata da Paupério, de onde os biscoitos sortidos haviam desaparecido há muito. Ela comia-as amolecidas, num gesto paciente, como se até a doçura tivesse de ser domada pela falta de dentes.

A junta de freguesia pagava-lhe os medicamentos e oferecia-lhe um pão de sêmea por semana — uma caridade para as pessoas com poucos recursos. Para ela, porém, aquele pão era dela, pertencia-lhe, e havia que o ir buscar e lá ia eu. Como não o conseguia comer porque era duro, dava-o para nós; ela ficava-se por pequenos pães de leite. Se um dia ela quisesse a sêmea, seria um problema, porque eu devorava metade no caminho.

Também era autoritária, daquelas pessoas que não se deixam infantilizar pela idade nem pela fragilidade. Quando o médico ia consultá-la em casa, já nem lhe dizia grande coisa: perguntava-lhe o que ela queria, e ela é que lhe dizia o que ele ia receitar. Dizia os medicamentos que lhe faziam bem e os que não. Lembro-me de uma vez lhe chamar a atenção: da última vez, apesar de ela o ter lembrado, ele esquecera-se de um determinado remédio. Quando isso acontecia, era eu que ia a casa do médico pedir-lhe que passasse a receita. Assim que eu acabava “o trabalho”, tratava de me pôr ao fresco rapidamente, para ir brincar com os outros miúdos. Talvez por isso a sua voz me falte na lembrança: a tia Idalina ficou-me mais como um conjunto de rituais — o rádio, o papel e a caneta, o chá de cidreira — e como a sensação rara de ser levado a sério por alguém que tinha tão pouco e, ainda assim, fazia questão de mandar no que era seu.


Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/ 

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