Depois de assistir, on-line, à “cerimónia” da apresentação da Revista Brigantia, com um suplemento dedicado ao Abade de Baçal, na Igreja Matriz de Baçal, ocorrida ontem, 11 de Abril de 2026, não posso deixar de manifestar a minha apreensão por ver que continua a haver algo de profundamente errado, e até intelectualmente desonesto, na forma como, em pleno século XXI, as autarquias do interior de Portugal continuam a comportar-se como extensões paroquiais em vez de instituições republicanas. Não se trata de tradição, nem de identidade cultural, trata-se de submissão. Submissão política, simbólica e, em muitos casos, quase servil a uma instituição religiosa que nunca deixou verdadeiramente de exercer poder onde não devia.
Bem sei que é uma questão polémica mas isso não me impede de escrever umas linhas para que quem quiser pense e avalie. Eventos Republicanos deviam ser separados dos espaços religiosos.
É inaceitável que Câmaras Municipais, financiadas por todos os contribuintes, se prestem a encenar devoções oficiais, a patrocinar festas religiosas com dinheiro público ou a misturar cerimónias civis com rituais de fé como se isso fosse normal. Não é. É um anacronismo gritante. É a República a abdicar da sua própria razão de existir.
A separação entre Estado e Igreja não é um detalhe decorativo do regime democrático, devia ser um dos seus pilares. Ignorá-la não é apenas um deslize, é uma traição ao próprio conceito de República. E quando isso acontece de forma sistemática, sobretudo em territórios onde o escrutínio é menor e o conformismo maior, deixa de ser negligência para passar a ser cumplicidade.
No período do ano, que vivemos recentemente, a Páscoa, alguém se apercebeu onde começava e acabava a República (Câmara e Juntas) e onde começava e acabava a Igreja?
Há quem tente suavizar isto com o argumento fácil da “tradição”. Mas a tradição não pode ser um escudo para práticas retrógradas. Se fosse, ainda hoje aceitaríamos a censura, a ausência de direitos fundamentais ou o domínio absoluto das elites não eleitas. Invocar a tradição para justificar a promiscuidade entre poder político e religião é, no fundo, admitir que não se quer evoluir.
E o elefante na sala? O estatuto privilegiado da Igreja. Enquanto os cidadãos e empresas são esmagados por impostos, a Igreja continua a navegar num regime de exceção fiscal que a coloca acima do esforço coletivo. Pior ainda, beneficia desse privilégio ao mesmo tempo que mantém influência direta e indireta sobre decisões e agendas locais. Isto não é apenas desigualdade, é um insulto à ideia de equidade numa sociedade democrática.
Mais grave ainda é o silêncio cúmplice. Quantos autarcas evitam confrontar esta realidade com medo de perder apoio local? Quantos preferem perpetuar este teatro para não beliscar sensibilidades? Essa cobardia política tem um custo, e esse custo é pago em atraso civilizacional.
Não, isto não é uma cruzada contra a fé. Cada um acredita no que quiser, como quiser. Mas a fé pertence ao domínio privado. Quando invade o espaço institucional, deixa de ser expressão de liberdade para se tornar instrumento de poder. E a República não pode, nem deve, tolerar isso.
Continuar a fingir que esta mistura é inofensiva é um erro grave. É assim que se normalizam abusos. É assim que se aceita o inaceitável. E é assim que, passo a passo, se reabre a porta a um passado que deveria estar definitivamente enterrado.
Se as instituições republicanas não tiverem a coragem de se afirmar como verdadeiramente laicas, então não passam de uma fachada moderna a esconder práticas arcaicas. E nesse caso, sejamos honestos, não estamos assim tão longe daquilo que gostamos de fingir que já ultrapassámos, um tempo em que o poder político se ajoelhava perante o altar.
A Missão da República e da Igreja (das Igrejas) até se podem cruzar, pontualmente, o problema passa a ser quando as missões de ambas se confundem.

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