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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 12 de abril de 2026

Há fronteiras entre o Estado e a Igreja!?


Depois de assistir, on-line, à “cerimónia” da apresentação da Revista Brigantia, com um suplemento dedicado ao Abade de Baçal, na Igreja Matriz de Baçal, ocorrida ontem, 11 de Abril de 2026, não posso deixar de manifestar a minha apreensão por ver que continua a haver algo de profundamente errado, e até intelectualmente desonesto, na forma como, em pleno século XXI, as autarquias do interior de Portugal continuam a comportar-se como extensões paroquiais em vez de instituições republicanas. Não se trata de tradição, nem de identidade cultural, trata-se de submissão. Submissão política, simbólica e, em muitos casos, quase servil a uma instituição religiosa que nunca deixou verdadeiramente de exercer poder onde não devia.

Bem sei que é uma questão polémica mas isso não me impede de escrever umas linhas para que quem quiser pense e avalie. Eventos Republicanos deviam ser separados dos espaços religiosos.

É inaceitável que Câmaras Municipais, financiadas por todos os contribuintes, se prestem a encenar devoções oficiais, a patrocinar festas religiosas com dinheiro público ou a misturar cerimónias civis com rituais de fé como se isso fosse normal. Não é. É um anacronismo gritante. É a República a abdicar da sua própria razão de existir.

A separação entre Estado e Igreja não é um detalhe decorativo do regime democrático, devia ser um dos seus pilares. Ignorá-la não é apenas um deslize, é uma traição ao próprio conceito de República. E quando isso acontece de forma sistemática, sobretudo em territórios onde o escrutínio é menor e o conformismo maior, deixa de ser negligência para passar a ser cumplicidade.

No período do ano, que vivemos recentemente, a Páscoa, alguém se apercebeu onde começava e acabava a República (Câmara e Juntas) e onde começava e acabava a Igreja?

Há quem tente suavizar isto com o argumento fácil da “tradição”. Mas a tradição não pode ser um escudo para práticas retrógradas. Se fosse, ainda hoje aceitaríamos a censura, a ausência de direitos fundamentais ou o domínio absoluto das elites não eleitas. Invocar a tradição para justificar a promiscuidade entre poder político e religião é, no fundo, admitir que não se quer evoluir.

E o elefante na sala? O estatuto privilegiado da Igreja. Enquanto os cidadãos e empresas são esmagados por impostos, a Igreja continua a navegar num regime de exceção fiscal que a coloca acima do esforço coletivo. Pior ainda, beneficia desse privilégio ao mesmo tempo que mantém influência direta e indireta sobre decisões e agendas locais. Isto não é apenas desigualdade, é um insulto à ideia de equidade numa sociedade democrática.

Mais grave ainda é o silêncio cúmplice. Quantos autarcas evitam confrontar esta realidade com medo de perder apoio local? Quantos preferem perpetuar este teatro para não beliscar sensibilidades? Essa cobardia política tem um custo, e esse custo é pago em atraso civilizacional.

Não, isto não é uma cruzada contra a fé. Cada um acredita no que quiser, como quiser. Mas a fé pertence ao domínio privado. Quando invade o espaço institucional, deixa de ser expressão de liberdade para se tornar instrumento de poder. E a República não pode, nem deve, tolerar isso.

Continuar a fingir que esta mistura é inofensiva é um erro grave. É assim que se normalizam abusos. É assim que se aceita o inaceitável. E é assim que, passo a passo, se reabre a porta a um passado que deveria estar definitivamente enterrado.

Se as instituições republicanas não tiverem a coragem de se afirmar como verdadeiramente laicas, então não passam de uma fachada moderna a esconder práticas arcaicas. E nesse caso, sejamos honestos, não estamos assim tão longe daquilo que gostamos de fingir que já ultrapassámos, um tempo em que o poder político se ajoelhava perante o altar.

A Missão da República e da Igreja (das Igrejas) até se podem cruzar, pontualmente, o problema passa a ser quando as missões de ambas se confundem.

HM
12 de Abril de 2026

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