Os trabalhadores do Matadouro Industrial do Cachão (MIC) admitem estar “muito apreensivos” com o seu futuro profissional devido ao processo de insolvência que está em curso, mas com uma réstia de esperança que o plano de recuperação, que a Administração pretende apresentar à Assembleia de Criadores, possa vir a reverter o encerramento da caridade de abato do Conselho de Mirandela.
Disso mesmo deu conta Henrique Afonso, em declarações exclusivas à Terra Quente FM. “Há uns mais apreensivos, outros menos, devido às idades, até já sou um dos mais antigos, mas há alguns ainda novos, casados e pais de filhos que ainda são muito novos e estão em princípio de vida”, refere aquele funcionário que já está na empresa desde 1988.
“Estamos descontentes, porque ao fim de tantos anos isto poderá parar, fechar, vai causar muitos incómodos e contratempos”, acrescenta. Ainda assim, acredita que pode haver solução com o plano de recuperação. “Só a morte é que não tem solução, de resto tudo é possível”, afirma.
Henrique Afonso ressalva que a administração informou os trabalhadores que “é para continuarmos a trabalhar com o mesmo profissionalismo e a mesma dedicação, é o que estamos a fazer, mediante a qualidade e a quantidade de serviço que há”, conta.
Declarações de um dos 23 trabalhadores do MIC proferidas, esta tarde, após estarem reunidos com dirigentes do SINTAB (sindicato dos trabalhadores da agricultura e das indústrias de alimentação, bebidas e tabacos de Portugal, que acusa as sucessivas administrações desta unidade de abate, divididas entre os municípios de Mirandela e Vila Flor, de serem os “responsáveis pela situação financeira insustentável” que já ultrapassa os 2 milhões de euros, sem esquecer os dirigentes políticos locais, por prometerem constantemente planos de revitalização do complexo, nunca concretizados.
José Andrade, do Sintab, adianta que o intuito da reunião foi “recolher algumas informações que ainda faltam e são necessárias para efetuar a reclamação de créditos dos trabalhadores no processo de insolvência, mas também para aquilo que chama de repor a verdade aos factos e esclarecer a opinião pública”, alegando que tenha sido repetida a acusação de que o Sintab teria afirmado que o Matadouro se encontra encerrado. Ora, aquele dirigente afirma que “é uma narrativa falsa”, até porque considera que o Matadouro é “demasiado importante” para fechar portas, porque “não há aqui na região nenhuma outra infraestrutura que preste este serviço. Os três Matadouros que aqui estão à volta, um ainda não abriu, outro está fechado para obras e o outro está previsto a sua relocalização. E portanto, não há neste momento ninguém que faça o abate de bovinos desta forma, de forma tão célere e barata e com tanta qualidade, como faz o MIC”, refere.
Apesar de lamentar que a administração só agora tenha avançado com o plano de recuperação, José Andrade quer acreditar que não seja tarde demais. “Espero bem que não. Aliás, a importância da infraestrutura continua e é o grande alicerce da capacidade de manutenção dos postos de trabalho”, diz. “O importante é que haja vontade para isso”, lembrando que “quando os trabalhadores ouvem agora falar numa dívida que começou em 800 mil euros e já vai em 2 milhões e 300 mil euros, claro que ficam assustados. E é preciso que os responsáveis que deixaram isto chegar a esse ponto venham ao terreno”, afirma.
O dirigente do Sintap também critica as sucessivas promessas, que considera “demagógicas”, promovidas pelos diversos atores políticos locais durante as campanhas eleitorais para as autárquicas nos últimos 20 anos. “Como é que foi possível explicar que em todas as campanhas eleitorais venham a acenar com projetos de revitalização do complexo do Cachão e ao mesmo tempo estejam a deixar que uma dívida chegue a este ponto, o que deixa entender que nunca foi objetivo nenhum revitalizar o complexo”, lamenta.
José Andrade também desconfia das intenções do Fundo de Investimento, que agora reclama os créditos neste processo de insolvência. “Não sei qual é o interesse de fundos de investimento que compraram dívida, não sei. Os trabalhadores querem muito que isto se mantenha, mas não parece que seja essa a intenção de quem, neste momento, tem isto nas mãos”, diz.
Na mesma reunião, marcou presença à CDU para mostrar “solidariedade para com os trabalhadores nesta hora de impasse”, adianta o eleito na Assembleia Municipal de Mirandela, Jorge Humberto. “Porque os funcionários são o elo mais fraco e não podem ficar ao abandono por decisões que nem eles próprios sabem o que é que se está a passar”, critica.
“Devia ser um processo transparente e explicar às pessoas como é que se chegou até aqui. Há responsabilidade das Câmaras Municipais, desde 2005, porque o que está aqui em causa são dívidas contraídas com um empréstimo de 750 mil euros, há 20 anos, e que resultou na hipoteca de vários lotes deste complexo, que têm ido a hasta pública, têm sido comprados não sabemos por quem e obviamente que aqui há uma questão criminal que tem de ser posta em causa”, acusa.
Jorge Humberto acrescenta que “esta empresa que detém estes créditos cedidos e comprados ao Novo Banco com a falência do BES, está a fazer agora uma pressão sobre as Câmaras Municipais, atirando 22 trabalhadores, 22 famílias, provavelmente, para o desemprego”, lamenta o eleito da CDU na Assembleia Municipal de Mirandela.

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