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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 11 de abril de 2026

Viver na cidade: soluções baseadas na natureza reduzem até 40% o stress físico ligado ao calor

 Uma equipa internacional de investigadores comparou os efeitos de diferentes soluções de planeamento urbano para combater os efeitos das altas temperaturas, como aumentar as sombras verdes e reduzir o asfalto e outras superfícies impermeabilizadas. O estudo realizou-se na Área Metropolitana de Lisboa e em Islamabad, no Paquistão.

Foto: Helena Geraldes/Wilder

Até que ponto conseguimos diminuir os efeitos negativos do calor nas cidades, se retirarmos o alcatrão dos parques de estacionamento? E quais são os benefícios de se plantarem mais árvores ou de se criarem mais “telhados verdes” em espaços urbanos, face ao aumento das temperaturas que vai acontecer nos próximos anos?

Estas e outras perguntas foram lançadas por uma equipa internacional de 16 investigadores, que lhes deu resposta num artigo agora publicado na revista científica Landscape and Urban Planning. Neste estudo, participaram dois cientistas do CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. O foco da investigação foram a Área Metropolitana de Lisboa (AML), que nos seus 18 municípios acolhe três milhões de habitantes – 27% da população nacional – e também a cidade de Islamabad, no Paquistão.

“O que procurámos foi analisar de que forma as medidas baseadas na natureza têm um impacto concreto e substancial nestes contextos e quais são as vantagens e limitações de cada uma”, explicou Inês Gomes Marques à Wilder.

Os investigadores concluíram que soluções baseadas na natureza, como o aumento de áreas verdes, a plantação de árvores e a remoção de superfícies impermeabilizadas, conseguem diminuir “significativamente” o stress térmico das populações urbanas. No estudo, este foi reduzido em geral até 40%, “em especial através do fornecimento de sombras que protegem do sol direto e pela redução das temperaturas em superfícies terrestres”, indicam.

O stress térmico resulta da exposição a temperaturas extremas, como acontece em dias de calor muito elevado, e provoca reações físicas negativas como desidratação e insolação, podendo levar mesmo à morte. Em todo o mundo, cerca de 500.000 pessoas morrem por ano devido a temperaturas demasiado elevadas, e esta é uma situação que vai piorar devido às alterações climáticas.

Nos últimos anos, já foi provado também que o calor extremo tem outros impactos, como por exemplo o aumento das taxas de crime e mais depressões e doenças mentais, nota a mesma equipa. Uma vez que o aquecimento global é já uma realidade e vai continuar – mesmo que as metas do Acordo de Paris sejam alcançadas – é urgente perceber quais são as melhores estratégias para adaptar as cidades, sublinham.

Diferentes soluções, resultados distintos

Ao compararem os efeitos de diferentes soluções, a equipa concluiu que “durante o dia, as árvores são particularmente eficazes na redução das temperaturas diurnas, em especial quando são plantadas em áreas alargadas e contínuas”. O resultado traduz-se em reduções de temperatura até cerca de 0,5°C, enquanto que o número de dias com stress térmico pode baixar até 50%.

Em contrapartida, esses benefícios registados diminuiam rapidamente quando se saía das áreas plantadas, que ainda para mais tendiam a ser partes da cidade onde vivem menos pessoas, perceberam também os cientistas. Além disso, durante a noite o calor tende a ficar “aprisionado” sob o arvoredo, aumentando as temperaturas noturnas.

Por outro lado, remover superfícies impermeabilizadas como alcatrão, betão ou asfalto, mostrou ter maior efeito na diminuição das temperaturas durante a noite. Essa medida reduz entre 10% e 20% o número de dias com stress térmico, “beneficiando um maior número de pessoas e sendo crucial para travar a perda de sono associada às ondas de calor”, destaca uma nota de imprensa do CE3C.

“Não existe uma solução perfeita”, resume por sua vez Inês Gomes Marques. “Extensões muito grandes de árvores são particularmente eficazes durante o dia, em zonas urbanas, mas isso dependerá dos cuidados que temos com a forma como são plantadas, e deve ser feito em parceria com a diminuição de superfícies impermeáveis”, explica esta investigadora.

Tiago Capela Lourenço e Inês Gomes Marques, co-autores do estudo publicado. Foto: D.R.

Soluções analisadas à lupa

O estudo agora publicado prolongou-se por três anos, durante os quais a equipa realizou também workshops com representantes dos municípios da AML, em especial dos departamentos que estudam formas de lidar com os efeitos das alterações climáticas. “Em conjunto, fomos discutindo diferentes soluções e como é que seriam mais facilmente aplicadas”, resume a investigadora do CE3C. Os resultados dessas estratégias foram mais tarde avaliados e discutidos à volta da mesma mesa.

Mas a investigação não ficou por aqui. Além da análise realizada para toda a área da AML, feita com recurso a modelos computacionais, foram intervencionadas e analisadas três áreas de estudo mais ao pormenor: duas na Grande Lisboa – situadas em Marvila e Almada – e outra em Islamabad. Nesses locais, foram aplicadas diferentes soluções baseadas na natureza, como a plantação de árvores e arbustos de diferentes espécies, a instalação de telhados verdes e a eliminação do asfalto em parques de estacionamento, exemplifica Inês Gomes Marques. E os impactos foram avaliados “à lupa”.

Entretanto, apesar dos resultados positivos alcançados com a aplicação deste tipo de estratégias, “as soluções baseadas na natureza, por si só, não são suficientes para compensar os impactos futuros das alterações climáticas, especialmente  face às políticas atuais”, afirma uma nota de imprensa sobre esta investigação, enviada à Wilder.

“O estudo mostra que o planeamento urbano inteligente pode fazer uma diferença real na qualidade de vida das populações urbanas, mas também evidencia que existem limites claros à adaptação. Reduzir emissões e travar o aquecimento global continua a ser fundamental”, reforça Tiago Capela Lourenço, outro dos co-autores.

Prioridade às zonas mais povoadas

A prioridade neste tipo de soluções deve ser para as zonas densamente povoadas, conclui também a equipa, que sublinha que o planeamento urbano deve integrar soluções verdes e azuis de forma estratégica.

“A adaptação ao calor urbano exige uma abordagem combinada entre planeamento, políticas climáticas e justiça social, dado o maior impacto em populações vulneráveis”, afirmam.

A equipa do CE3C na Faculdade de Ciências da Universidade Lisboa participa atualmente num projeto europeu chamado AdaptationHubs. Este projeto apoia a criação de um Hub de Adaptação em Portugal, no âmbito da Missão para a Adaptação às Alterações Climáticas da União Europeia, que tem o objetivo de aumentar a informação disponível sobre diferentes estratégias para enfrentar as alterações climáticas em áreas urbanas, tal como a partilha de soluções já estudadas e aplicadas em diferentes cidades.

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