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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Novos livros de Antero Neto lançam outra luz sobre a história do concelho

 O autor e investigador Antero Neto apresentou ao público duas novas obras literárias de “teor monográfico” que vieram enriquecer o espólio literário do concelho de Mogadouro.


Segundo autor mogadourense, o primeiro livro apresentado tem o título de capa “Bruçó, da Pré-história ao 25 de Abril” e debruça-se sobre a extensa diacronia da ocupação humana daquele território, iniciando-se com a descoberta de um relevante painel de arte rupestre, trazido a lume pela primeira vez pelo autor e culminando com a implantação da democracia e a sua repercussão na aldeia.

“Este livro representa um ato de amor para com a minha terra natal. É uma dádiva que lego aos meus conterrâneos e que permite honrar a história de uma aldeia prenhe de tradição, revelando imensos aspetos da vivência intemporal que a própria comunidade desconhece”, concretizou Antero Neto.

O também investigador explica, apontando como elemento um conjunto de “arte rupestre” no sítio da “Pena Abonida”, naquela freguesia junto ao Douro Internacional.

“Nunca ninguém se tinha apercebido deste conjunto anteriormente”, vincou.

A obra aborda ainda aspetos tão diversos como a administração durante o séc. XX, a história escolar da aldeia, a emigração para o Brasil, o caminho de ferro e o envolvimento das gentes da aldeia nas convulsões liberais do séc. XIX e na Primeira Guerra Mundial.

Já o segundo livro, intitulado “Memórias da Antiga Freguesia de Vila dos Sinos”, consagra um estudo monográfico sobre a pequena, mas emblemática aldeia do concelho de Mogadouro.

“Esta obra compila uma série de apontamentos dispersos sobre a história da aldeia, com especial enfoque na imensa riqueza arqueológica que este espaço nos foi revelando ao longo dos tempos, onde me permito destacar a quantidade de esculturas zoomorfas, vulgarmente designadas por berrões, que aqui foram encontradas, bem como os painéis de gravuras rupestres das Fragas do Diabo”, decresceu em nota enviada ao Mensageiro.

O autor disse ainda que ficou “fascinado” por saber que neste local existiu “a figura do Chocalheiro".

“Nessa senda, aproveitei o ensejo para lançar o desafio à população no sentido de a recuperar”, observou.

Este livro fecha uma trilogia dedicada pelo autor à União de Freguesias de Vilarinho dos Galegos e Ventozelo, uma vez que já tinha elaborado as monografias das restantes aldeias.

Francisco Pinto

NOSSOS MONTES

 Artigo de opinião por Valter Hugo Mãe – escritor

Quando ia com a Odete a Vila Flor acontecia de estarmos sempre à pressa, a sairmos e voltarmos à Quinta da Veiguinha com muita fome de almoçar ou jantar. Comprávamos o pão feito no forno tradicional, a descolar a folha de jornal do fundo, e era uma alegria completa, não parecia necessário haver mais nada. Julgava eu, ignorante, que Vila Flor fosse a primeira praça e uma infinidade de campos. Agora, tendo andado ali a ver o incrível complexo das piscinas, a albufeira, a variante, a vista deslumbrante sobre a vila, com a igreja levantada em coração branco, descubro o trabalho incrível que ali se tem feito e admito que procuro moça herdeira e casadoira que me meta num daqueles palácios brasonados, lindos de perder o fôlego. Deixo a dica para aquele casarão que foi cenário de novela e tudo, que poucas vezes se viu fachada mais bonita.

Pude visitar as obras da casa que albergará o Encontro das Artes, um espaço de Graça Morais, essa genial que amo, e fiquei maravilhado. O projecto é de António Portugal, infelizmente falecido entretanto, e de Manuel Maria Reis, e é de uma beleza profunda. O uso do xisto, o desenho dos espaços, a varanda, a sala superior do segundo piso, estão para a arquitectura como o violino está para a música de Vivaldi. Há anos que ouvia falar daquela casa como sendo para honrar a grande pintora transmontana, há anos que a via como pequena, embora bonita na praça. O espanto é, pois, enorme quando entramos e descobrimos a amplitude interior, como a porta se torna magia para um mundo de Alice onde tudo subitamente se agiganta. Já mal posso esperar que fique pronta. É já um património essencial para a identidade e auto-estima de Vila Flor e de toda a região.

Andar por estes montes é, pois, catar surpresas. Em Torre de Moncorvo, por exemplo, um complexo escultório da autoria de Hélder Carvalho homenageia três autores brilhantes cujas vidas e obras tocam naquela terra. Borges, Torga e Saramago estão digníssimos levantados em ferro, imortais e para sempre estudando a humanidade. O que impressiona na obra de Hélder Carvalho é a sóbria grandeza, um certo efeito límpido de caminhar entre figuras que se tornam míticas e, ao mesmo tempo, tão perto de um abraço. Sinto-me comovido pela oportunidade de regressar ao abraço de Saramago. Lembra-me como chorei ao abraçar o José Afonso do Pedro Figueiredo.

Chego ao calor de Alfândega da Fé para abrir uma exposição curada por António Franchini, incluída no projecto Onda Bienal, da Bienal de Gaia, uma direcção de Agostinho Santos. Não sei ver-me como artista plástico. Deparo-me com as obras enquanto sempre observador, alguém que encontra mais do que cria, e é gratificante essa relação inexplicável. “Um pouco depois da terra muito antes da morte”, assim chamei à exposição que vai na Galeria José Rodrigues, é uma reflexão sobre a espiritualidade, citando El Greco, lembrando o meu pai, Cruzeiro Seixas e buscando um auto-retrato que possa apaziguar-me com a tragédia de não vivermos mais nada, de não nos vermos mais, de não nos podermos mais amar.

Ando pelos montes a intensificar, e colher um figo poderá ser, por tão simples, um fim de vida perfeito. Uma perfeição que Vila Flor conserva.

Foto: Lela Beltrão

Aldeia de Rio de Onor distinguida com o Prémio Cinco Estrelas Regiões

 Rio de Onor, no concelho de Bragança, foi distinguido com o Prémio Cinco Estrelas Regiões, na categoria Aldeias e Vilas


Esta distinção é atribuída consoante o grau de satisfação dos utilizados, pelos produtos, serviços e marcas de origem portuguesa. Um prémio que vai atrair mais turistas à aldeia, diz o presidente da União de Freguesias de Aveleda e Rio de Onor, Mário Gomes. “É, de facto, relevante, quer para a união das freguesias, quer apenas para Rio de Onor, quer mesmo para o concelho de Bragança, uma vez que irá manter ou melhorar o número de pessoas que nos visitam. É graças aos elementos culturais, aos recursos naturais, aos monumentos e, sobretudo, à hospitalidade das pessoas que este prémio nos veio parar às mãos”.

A aldeia distingue-se pela prática do comunitarismo que era vivido entre os moradores em tempos ancestrais. Ainda assim, há hábitos que nunca se perdem, como a limpeza do rio. Ficam agora para visitar espaços como a casa do touro, o forno e o moinho que remontam a esse regime de partilha.

E este verão turistas foi o que não faltou na aldeia. “Houve um ligeiro decréscimo face a 2020, entre Maio e Setembro, mas estamos com níveis muito interessantes”.

O Prémio Cinco Estrelas Regiões divide-se em três categorias: aldeias e vilas, monumentos nacionais e museus. No distrito de Bragança, Rio de Onor foi a única localidade a receber a distinção, que tem a duração de 12 meses. Tem ainda a vantagem de participar num plano de comunicação que inclui Televisão, Imprensa, Exterior, Rádio e Digital.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Ângela Pais

História de Salselas, Limãos e Valdrez já está em livro

PRAIA FLUVIAL É O OÁSIS DE MIRANDELA EM DIAS DE CALOR

Bragança vai acolher refugiados afegãos

 A Casa de Trabalho - Patronato de Santo António, em Bragança, foi uma das instituições candidatas a acolher refugiados afegãos, tendo sido escolhida para receber crianças orfãs ou afastadas dos progenitores.


A candidatura foi aprovada no âmbito do FAMI - fundo para o asilo, a migração e a integração, 
aprovada pelo Alto Comissariado para as Migrações, para o acolhimento de refugiados menores não acompanhados.

Também a Delegação de Bragança da Cruz Vermelha Portuguesa já manifestou vontade em contribuir para esta causa.

"[A delegação de Bragança] foi a primeira a responder internamente e a pedir um mapeamento de disponibilidades para as necessidades que aí vêm", sublinhou Duarte Soares, presidente da Cruz Vermelha de Bragança.

No entanto, o clínico aponta a "falta de património" como um constrangimento para levar a cabo este tipo de projetos.

"Em Bragança, ainda temos um constrangimento, que é a falta de património próprio que possa dar acolhimento a estas pessoas. Temos os recursos técnicos e humanos para os integrar e acompanhar mas faltam locais", frisou.

No entanto, Duarte Soares lembra o sucesso com o programa já em vigor.

"Os seis migrantes que estão connosco estão todos a trabalhar ao fim do primeiro mês. Só ganharemos escala quando tivermos essas instalações", frisou Duarte Soares, que deixou um pedido:

"Lançamos o apelo às instituições da cidade para que, em parceria, nos permitam ter acesso a instalações para o acolhimento eficaz dessas pessoas", concluiu.

AGR

Cooperativa dos Lavradores do Centro e Norte promove processo de registo IGP da Amêndoa de Trás-os-Montes

 O primeiro passo já foi dado, com a entrega do pedido para o registo da Indicação Geográfica Protegida junto da direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte
Armando Pacheco, desta cooperativa, explica que a iniciativa pretende ser uma mais-valia para a comercialização da amêndoa produzida na região. “Achámos que devíamos certificar esta região, tendo depois as mais valias de a amêndoa ser IGP, porque depois as vendas são superiores. É importante realçar a importância de Trás-os-Montes”.

Atualmente já há uma Denominação de Origem Protegida (DOP) da amêndoa do Douro, no entanto a certificação IGP a que se propõe esta cooperativa pretende ser mais abrangente. “Tem que ser produzida em Trás-os-Montes, onde aumentámos as variedades, porque já existem outras, mas algumas com pouco rendimento”.

A Cooperativa dos Lavradores do Centro e Norte está a liderar o processo, mas espera que outras organizações de produtores se juntem e possam vir a comercializar com deste selo IGP a amêndoa, uma produção que tem vindo a crescer na região. “Vai continuar a crescer. Nos últimos, a plantação, anos mais de 60% na nossa região mas terá que aumentar ainda muito”.

O processo de certificação como IGP, depois de analisado pelos serviços de Agricultura a nível nacional, seguirá depois para Bruxelas, sendo esperado que se prolongue por vários meses.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Olga Telo Cordeiro

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

“Música na Paisagem”: os concertos de música clássica regressam à aldeia de Montesinho

 A 3.ª edição de “Música na Paisagem”, no fim de semana de 4 e 5 de Setembro, regressa à típica aldeia transmontana de Montesinho


No próximo fim de semana, a aldeia de Montesinho, em Bragança, recebe a terceira edição da iniciativa «Música na Paisagem», uma oportunidade para ouvir música clássica ao ar livre e em contacto com a natureza. 

Na paisagem que caracteriza Montesinho, o «Música na Paisagem» tem o pianista Jun Bouterey-Ishido, a violinista Matilde Loureiro e o clarinetista Horácio Ferreira que apresentam dois momentos musicais, no sábado, dia 4 de setembro, às 11h00, na Travessa da Carreira e o outro no domingo, dia 5 de setembro, às 17h00, na Igreja da aldeia.

O evento, produzido pelo Município de Bragança e pelo Teatro Municipal de Bragança, é o culminar de uma residência artística e assume-se como uma iniciativa de interpretação musical para todas as idades, apresentando obras de B. Bartók, D. Scarlatti, F. Chopin, G. Enescu, J.S. Bach e M. Ravel.  

A direção artística e coordenação é de Matilde Loureiro e a co-direcção e produção de Jun Bouterey-Ishido.

 A entrada é livre, até ao limite de lotação dos espaços.

Sobre

Montesinho é uma aldeia tipicamente transmontana. Situada em pleno Parque Natural de Montesinho, encaixada na Serra, faz fronteira com Espanha, onde a exposição viva de paisagens, a simplicidade e afeto das gentes, aliada a uma arquitetura singular são motivos que apelam à visita.

No inverno, não raras vezes, surpreendemo-nos pelo manto branco da neve e pela ribeira cristalizada pelo frio agreste das geadas, aquele que ajuda a temperar as carnes e fazer o típico fumeiro de paladar único.

Calcorrear as ruas e vielas, todas empedradas, respirar ar puro, visitar a Igreja, o Museu e o Núcleo Interpretativo, ouvir e ver a avifauna abundante e trocar impressões com os residentes que simpaticamente interagem e nos contam histórias típicas de outros tempos, é uma sensação única. Na noite tranquila, é possível sentir o silêncio e apreciar o intenso brilho das estrelas que parecem estar suspensas na imensidão de um céu límpido.

ONDA LIVRE TV – Livro “Carrapatas – Terras do Arcebispo” já foi apresentado à população

Vinhais: a caminho do Alto da Ciradelha

 Em Vinhais, os castanheiros imperam na paisagem, mas o que surpreende a caminho do Alto da Ciradelha são os bosques de carvalho-negral, tão densos que mesmo com o sol forte se mantêm numa penumbra em que é difícil penetrar com o olhar.


Lá no alto, a vista estende-se por montes e vales. Estamos a 1020 metros de altitude e, apesar de a região ser montanhosa, o miradouro abarca uma vasta extensão.

O carvalho impera na paisagem

Chegar ao Alto da Ciradelha é fácil. O percurso Biospots leva-nos por um caminho florestal. Este é um dos Nove Passos por Terras de Trás-os-Montes, um percurso circular de 1,6 quilómetros com um desnível de 150 metros facilmente ultrapassável. O trilho começa no Parque Biológico de Vinhais em direção ao miradouro e leva-nos pela descida em direção ao fotogénico baloiço da chouriça, para regressar por outro estradão.

Biospots: um percurso para fazer devagar
Na app Nove Passos diz-se que o percurso tem uma duração de cerca de duas horas, mas se não o fizermos com a única intenção de queimarmos calorias, o melhor é reservar toda a manhã ou o final da tarde para o fazer, porque serão muitas as vezes em que parará ou em que se aventurará para lá do trilho.

A principal razão para as paragens serão os voos das borboletas. Não é por acaso que a este percurso foi dado o nome Biospots. A melhor altura para o fazer é a Primavera, mas mesmo no princípio do Verão são muitas e de muitas espécies as que borboletam à volta das flores e é fácil perdermos a noção do tempo à procura de as vermos pousadas e de asas abertas a mostrar toda a sua beleza.

Ao chegarmos perto do Alto da Ciradelha, encontramos os restos dos muros que envolviam o castro daquele que terá sido o povoado que posteriormente deu origem a vinhais.

A 1020 metros de altitude

Lá mesmo no topo do percurso, é certo e sabido que quereremos que toda a beleza do miradouro seja apreendida. Sentar-nos-emos nos penedos a olhar para as várias camadas. No vale, junto a Vinhais, encontraremos a mais vasta área de nogueiras do concelho e, para lá da vila, teremos os montes que se vão sucedendo até à longínqua serra do Marão.

Hit the Road no Alto da Ciradelha

A Vera e o Marcelo, do Ir em Viagem, e a foto no baloiço da Chouriça

Parar para ver a paisagem no Alto da Ciradelha

Pelos trilhos Biospots

Começamos a descer por um trilho mais estreito, que apenas se adivinha no terreno e que está bem marcado, em direção ao baloiço da chouriça. Mais um spot do percurso, este ali colocado para as fotos e selfies da ordem.

Depois, é sempre a descer até ao Parque Biológico de Vinhais.

O Parque Biológico de Vinhais
Um parque biológico não é um zoo, é um equipamento de preservação das espécies, que recebe exemplares encontrados e que já não têm hipóteses de sobreviver no seu habitat. Isso não impede que a ele recorramos para ver animais.

No Parque Biológico de Vinhais estão animais que não podem ser largados na natureza

No Parque Biológico de Vinhais, as aves estão em espaços demasiado pequenos para poderem voar. Mas isso tem uma explicação. Incapazes de o fazer (todas fizeram testes de túnel de vento), a exiguidade do espaço tem por objetivo evitar o stress dos animais.

Já com os restantes animais acontece precisamente o contrário. Todos têm muito espaço. É por isso que, por vezes, pode não ser fácil vê-los. Depende também da hora do dia, uma vez que se refugiam quando o calor aperta. Mas, mesmo assim, os corsos, os gamos e os veados fazem a delícia de todos, assim como o javali.

A Lorga de Dine

A Lorga de Dine foi habitada entre o 4º e o 1º milénio a.C,

O concelho e Vinhais é grande e de povoamento muito disperso, contando com mais de 100 aldeias. Uma das que exige visita é Dine. Aqui, temos a Lorga de Dine e os fornos de cal. A visita pode ser marcada através do Parque Biológico de Vinhais e garantimos que não se vai arrepender.

Não apenas irá saber sobre o método ancestral de fazer cal e vestígios da ocupação humana do território que remontam ao Calcolítico, como irá conhecer Judite Lopes.

Judite Lopes fala sobre as propriedades das plantas

De sorriso gaiato que se adivinha atrás da obrigatória máscara, Judite Lopes é daquelas pessoas que nos enche as medidas. É ela quem nos mostra a Lorga de Dine, mas pelo caminho vai-nos alertando para esta ou aquela planta, apanha-a, dá a cheiras e explica as suas propriedades. Algumas são medicinais, outras de utilidade vária. Judite Lopes não para, fazendo do caminho até aos fornos de cal um momento de diversão e de aprendizagem.

Os fornos da cal são estruturas algumas centenárias, onde se fazia a cal para argamassa e também para pintar as casas. Em 1965, o último forno da aldeia deixou de funcionar. Pertencia ao pai de Judite, que não chora esses tempos. Ao invés, gosta de mostrar o que torna a sua aldeia tão especial.


Mais abaixo, a meia encosta, temos uma abertura na rocha fechada a cadeado. É a Lorga de Dine. A gruta foi alvo de uma extensa prospeção arqueológica em 1964 e nela foram descobertos vestígios de ocupação humana datados da Pré-História recente e da Proto-História. O local foi habitado entre o 4º e o 1º milénio a.C.

Os Cuscos também se fazem em Vinhais


Iguaria da cozinha do médio oriente, os couscous têm uma versão transmontana. Em Vinhais, fazem-se os cuscos. A tradição esteve quase esquecida, até ao momento em que Lurdes Diegues voltou à vila depois de muitos anos por Lisboa e resolveu pôr mãos na massa.

Os cuscos são feitos com farinha da barbela, água e sal. Nada mais. E servem-se como o arroz, de preferência malandrinhos. O processo de transformar a farinha em cuscos é moroso e exige a perícia e a paciência de quem o faz.
 
Na aldeia de Padrão, Lurdes Diegues segue à risca a receita ancestral. Começa por estender a farinha numa masseira forrada com um pano de linho e vai polvilhando-a com água com sal. Mexe-a e remexe-a e volta a repetir.

Quando os cuscos têm a consistência de umas bolinhas pouco maiores do que o couscous que conhecemos, está feito.

Não se sabe como é que o couscous chegou a este concelho do nordeste transmontano. Há quem diga que são resquícios da ocupação árabe da Península Ibérica, e quem afirme que a tradição foi trazida por judeus que se refugiaram por estas terras. Mas a verdade é que não se sabe.

O que sabemos é que são saborosos, quando acompanhados por chouriça tradicional, e que se cozinham como o arroz, mas com mais água: por cada medida de cuscos devem ser colocadas duas medidas e meia de água.

Podem ser comprados online, no site Saber a Vinhais.

Uma aldeia comunitária
Na extremidade noroeste do concelho de Vinhais, mesmo junto à fronteira, fica Moimenta da Raia e a Fraga dos Três Reinos. É neste ponto que ficam os limites de Portugal, da Galiza e de Castela. Este sempre foi um ponto de passagem e, também, de contrabando.

Em Moimenta da Raia, uma aldeia comunitária

Os habitantes de Moimenta da Raia ainda hoje preservam o sentido comunitário que souberam manter ao longo dos tempos. Duarte Pires, o presidente da Junta, explica que “ainda hoje se trabalha o campo de forma comunitária. Um agricultor tem uma máquina, outro outra… e trabalham os campos uns dos outros”.

Antigamente era mais visível. São visitáveis hoje os fornos comunitários (como a aldeia é grande havia três), a forja comunitária e os moinhos que também eram do povo.

Os moinhos comunitários de Moimenta

A cada pessoa calhava uma hora de um dia para utilização dos equipamentos, sendo que nos moinhos cada hora correspondia a um dia. Conta-se o caso de um agricultor que deixou a mó pela noite a moer a farinha. Quando ao outro dia regressou, nada mais encontrou que um bilhete que dizia “a este moinho entrei, um saco de farinha levei. Para o ano retornarei”. Foi alguém – explica Duarte Pires – que num momento de necessidade levou a farinha, mas que prometia devolver no ano seguinte”.

E a água que era utilizada para fazer girar as mós, abastecia também um gerador que fornecia eletricidade à aldeia. Moimenta da Raia teve eletricidade muito antes de ser abastecida pela rede pública. Os vizinhos pagavam por cada lâmpada que tinham em casa,

Contrabandista e Guarda Fiscal
Nos tempos em que não existia a livre circulação de pessoas e bens, o povo de Moimenta da Raia dedicava-se ao contrabando para equilibrar o orçamento familiar. Contrabandeava-se gado, consoante o preço estivesse mais alto de um lado ou outro da fronteira.

Contrabandistas e guardas de Moimenta

Duarte Pires explica as rotas do contrabando

Mas o café era o principal produto que se contrabandeava para Espanha. “Os contrabandistas eram os donos das lojas. Esses sim, ganhavam dinheiro. Os que levavam os fardos remediavam. Recebiam 100 pesetas (a antiga moeda espanhola) se a viagem fosse para uma das aldeias mais próximas, ou 200 pesetas se fosse para uma das mais longínquas”. A rota do contrabando podia durar 4 horas, sempre de noite, por caminhos difíceis.

Duarte Pires sabe do que fala. Entre os 16 e os 18 anos carregou fardos para o outro lado da fronteira. Depois do serviço militar, ingressou na Guarda Fiscal que vigiava as fronteiras e passado uns anos ficou colocado na sua aldeia natal. Fechava os olhos às mulheres que levavam meia dúzia de quilos escondidos na cintura, mas só a essas…

Como chegar e onde dormir em Vinhais
No extremo norte de Trás-os-Montes, a melhor forma de se chegar a Vinhais é pela autoestrada A4, a partir do Porto ou Vila Real, saindo na saída 33 (Mirandela Norte) e tomando a Nacional 103, durante 55 quilómetros. O trajeto faz-se facilmente, uma vez que a A4 não tem muito trânsito e a estrada que nos leva a Vinhais está em boas condições.

Se a opção for por ir de autocarro, recomendamos um Expresso até Mirandela ou Bragança e fazer a ligação a partir de uma destas cidades.

No concelho de Vinhais encontramos fundamentalmente espaços de turismo rural e de alojamento local. Uma boa solução são os bungalows do Parque Biológico de Vinhais, mas é necessário reservar com uma boa antecedência. O parque tem ainda a opção de campismo.

Onde comer e o que fazer em Vinhais
Na vila de Vinhais não são muitos os restaurantes, mas a carne é bem tratada, ou não estivéssemos no nordeste transmontano. Em todos eles, as entradas incluem o fumeiro, com destaque para as alheiras e para o presunto, que são sempre de qualidade.

De ambiente familiar, a churrascaria Vasco da Gama é célebre pelo cordeiro grelhado

No restaurante O Silva, coma-se a posta, servida no ponto.

Ao pé das piscinas, no restaurante Paulus experimentámos os cuscos, um prato tradicional de Vinhais feito à base de farinha de trigo da barbela, servida malandrinha como o arroz e, no caso, com chouriça.

Finalmente, no Delfim foi-nos servido leitão, de pele estaladiça como se impõe.

O Parque Biológico de Vinhais é de visita obrigatória. Aqui, é possível ver o trabalho de conservação e ainda andar a cavalo ou de burro, percorrer trilhos a pé ou de bicicleta, jogar paintball ou experimentar o arborismo. O Centro Interpretativo do Lobo é muito interessante.

Aproveite que aqui está para fazer o trilho do Alto da Ciradelha, o percurso Biospots integrado nos 9 Passos nas Terras de Trás-os-Montes

Na vila, e se calhar como ponto de partida, visite-se o Centro Interpretativo do Parque Natural de Montesinho, para se perceber o território.

Muito bom é o Centro Interpretativo do Porco e do Fumeiro, localizado bem no centro da vila.

Aproveite e dê um salto ao Solar dos Condes de Vinhais, o centro cultural onde pode ficar a saber porque é que Vinhais é “uma terra dos diabos”.
Centro Interpretativo do Porco e do Fumeiro

No Solar dos Condes de Vinhais ficamos a saber porque é esta uma “terra dos diabos”

Na aldeia de Dine é possível visitar a Lorga de Dine, uma gruta cuja ocupação humana remonta ao final do Neolítico, e conhecer mais sobre os achados no Centro interpretativo. A visita pode ser marcada através do Parque Biológico de Vinhais

Ainda nesta aldeia, visite os fornos de cal que apenas deixaram de ser utilizados em 1965.

No outro extremo, em Moimenta da Raia, o pequeno museu do contrabando conta as histórias de fronteira. Passeie pelas ruas da aldeia e entre em contacto com a junta de freguesia para ter acesso aos fornos, à forja e aos moinhos comunitários.


AUTORES:
Jorge Montez (texto) Miguel Montez (imagem)

Paxaricos, Professor, Paxaricos

Será que os mercados sabem que o Joel se levantava às seis da manhã para ir botar as canhonas ao lameiro antes de ir para a escola?
Será que os mercados sabem que o Alexandre, no intervalo para almoço, voltava após cinco minutos porque, simplesmente, não almoçava?
Será que os mercados sabem que a Inês, com seis anos de idade, levantava-se sozinha porque a mãe, avinhada da noite anterior, não tinha aparecido em casa ou não tinha saído da cama?
Será que os mercados sabem que o Martim cresceu sem os valores dos pais, demasiado ocupados nas suas carreiras de sucesso?
Será que…
Podia continuar. A verdade é que aparecem cada vez mais crianças nas salas de aula, desnorteadas, abandonadas a si mesmas por razões diversas. Continuam as miseráveis, que sempre existiram, mas também aquelas, outras, que os pais simplesmente não lhes dedicam qualquer tipo de atenção ou atenção de qualidade. Crianças que não dormem o tempo necessário para o seu crescimento saudável, não dormem nas condições mínimas de conforto, higiene e sossego. É sabido que um dos estádios do sono serve precisamente para assimilar as aquisições cognitivas do dia anterior, que de nada serve pensar na implementação de estratégias de ensino adequadas a este ou àquele aluno, se ele não dormir o tempo adequado à sua idade. Mas também crianças vítimas da propaganda agressiva e altamente eficaz da indústria alimentar, viciadas em açúcar, em corantes, em sódio…
Perdermo-nos amiúde em análises demoradas de comportamentos desviantes e dificuldades de aprendizagem. A explicação pode ser simples. O estilo de vida destes nossos novos dias está a criar crianças desregradas, obsessivas, obesas, com uma atividade demasiado acelerada ( para evitar o termo estafado da hiperatividade), egocêntricas e não poucas vezes, criamos pequenos ditadores, impositores de vontades e regras.
Os pais de hoje não sabem dizer não. Como dizia Daniel Sampaio, quem disse que pais e filhos devem ser amigos? Claro que devem ser mas estão obrigados a dizer não quando necessário e a não dar porque não podem ou mais importante, porque dando cedem a vontades supérfluas e criam nos menores uma ideia falsa de vida fácil. É notório um grande défice em competências parentais, mesmo salvaguardando que podemos ter ideias divergentes sobre aquilo que queremos para os nossos filhos.
Apesar de tudo, as crianças continuam a ser a melhor coisa do mundo. Estão cada vez mais despertas, mais conhecedoras, mais extrovertidas e comunicativas mas estão sujeitas a demasiada oferta. Perdem-se. Dispersam-se.
O Joel das canhonas não tinha tablet, ténis de marca e canais por cabo. Não tinha instalações sanitárias em casa, dizia “ eu vou a monte, professor”. Também ao Alexandre faltava o essencial:
- Alexandre, o que almoçaste?
- Paxaricos, professor, paxaricos.
- E mais?
 - Besuntei o pão na frigideira…
Curiosamente, a momentos, via nos olhos destas crianças uma alegria momentânea, genuína que nem sempre vejo nos olhares das crianças que têm tudo ou quase tudo. Tinham espaço para correr, subir às árvores, nadar no ribeiro, conhecer os animais, podiam sujar-se, colher os frutos da natureza, apanhar amoras.
As crianças de hoje não têm tempo para brincar, brincar em liberdade, jogar à bola na rua do bairro ou andar de bicicleta pelas ruas da cidade.
Em tempos, uma associação de pais questionava os seus associados se estariam interessados em alargar o horário escolar até às dezanove horas, organizando um prolongamento acompanhado. Um pai, cidadão inglês, escreveu no papel do questionário: “ Não estou interessado, já há escola a mais em Portugal”. Tratava-se de alguém com formação superior. Paradigmático. Na verdade, este modelo de escola a tempo inteiro, serve a necessidade dos pais, com horários de trabalho nada flexíveis, impedidos de acompanhar os filhos. A pergunta que se impõe é se este modelo serve a necessidade da criança em simplesmente, ser criança. Na minha opinião, não serve.
Concentram-se às centenas, aos milhares em escolas muito bem projetadas ou não ( sabiam que nas escolas modernas não se podem abrir as janelas ???), em salas exíguas, ruidosas e com fracos materiais de construção. Crescem em espaços muito bem qualificados mas impessoais. Muito bem higienizados mas nada arejados.
Mas enfim, deve ser isto que faz bem aos mercados.
Encontremos uma solução intermédia onde o Joel não tenha necessidade de ir a monte e o Martim possa estar mais tempo com os pais.

Rui Machado

NOTA: Os nomes das crianças foram alterados e a crónica não se refere a nenhum contexto específico.

EMIGRANTES QUE VÊM PARA O “QUERIDO MÊS DE AGOSTO” JÁ SÃO MAIS MAS AINDA NADA SE COMPARA A OUTROS TEMPOS

 Está terminado mais um “querido mês de Agosto”, pelo qual, como diz a canção de Dino Meira, os emigrantes levam o ano inteiro a “sonhar”
A letra é simples, os filhos da terra vêm de “sorriso no rosto”, porque sabem que estão de volta, mas o mês de eleição para os emigrantes regressarem ao abraço dos seus chegou ao fim. A passagem, para quem vem, é sempre curta, ainda mais agora, que muitos dos que vieram já não estavam por cá há bastante tempo, por causa da pandemia.

Emigrantes com vontade de gastar dinheiro

O último fim-de-semana foi de despedidas para muitas pessoas que tiveram que deixar o concelho em busca de uma vida melhor, longe do país de origem, ou para os que já lá nasceram, por imposição das circunstâncias. É o caso de Frederico Ferreira. O jovem, de 28 anos, que rumou novamente a França, no domingo, nasceu fora de Portugal porque os pais já vivam por Paris. Com origens em Coelhoso, no concelho de Bragança, veio, este ano, de férias no Verão, porque “nem se punha outra hipótese que não vir”. “Não tive receio nenhum, nem este ano nem no que passou. Venho sempre, preciso ver a minha família”, rematou. A trabalhar e viver em Versalhes, Frederico Ferreira também por cá esteve no Verão passado e, comparando este com o de 2020, “nota-se que houve muita mais gente”. 

Ainda que tenham vindo mais, há uma questão que se impõe: vieram ou não os emigrantes com vontade de gastar dinheiro? “A mim parece-me que os que não tinham vindo no ano passado e agora puderam regressar contribuíram bastante para a economia do concelho. Os restaurantes da cidade estavam sempre cheios. Os cafés e bares também tinham bastante gente, mas parece-me que, este ano, a preferência foi ficar pelas aldeias, a conviver”, esclareceu. André Caleja Lopes, natural de Alimonde, também já nasceu em França, mais precisamente em Paris, porque o destino que os pais procuraram o impôs. As malas já as tem feitas, mas diz que anda no vai não vai. A vontade de deixar o país é pouca ou nenhuma, mas lá terá que ir. Apesar da pandemia veio sempre, tanto este ano como no outro. Não se lembra de um Verão que não o passasse cá. E comparando com o ano passado.... “gente não faltou” e “quem veio quis gastar algum dinheiro que poupou não tendo vindo em 2020”.

Filhos da terra preferiram as aldeias à cidade

Ludgero Afonso cresceu em Castrelos. A pacatez da aldeia teve que a trocar, há 12 anos, pela agitação da Suíça, onde o ordenado mínimo, pelo menos em alguns cantões, é dos mais altos do mundo. Por cá, as ofertas de trabalho eram poucas e lá foi, em busca de estabilidade. Ir, Ludgero Afonso, de 34 anos, até vai, mas a verdade é que admite não passar grande tempo sem voltar. Em Bragança esteve, e ainda está, este verão, assim como não deixou de visitar a terra, no mês de Agosto de 2020. “Independentemente do que aconteceu, tenho vindo na mesma, sempre três ou quatro vezes por ano. As saudades do meu país, sobretudo da minha aldeia e cidade são muitas, não consigo estar muito tempo longe”, justificou, salientando parecer-lhe também que “houve muito mais emigrantes este Verão”. Ainda que os restaurantes tenham estado “bem compostos”, os bares e cafés, ou seja, o pouco que continua a haver em termos de diversão nocturna, “estiveram sempre com pouca gente”. “Acho que as pessoas preferiram ficar nos cafés das aldeias, assim como nas associações que há, em muitas delas. Eu também o prefiro e foi o que acabei por fazer”, referiu, dizendo que “a pandemia mudou alguns destes hábitos” e que agora “parece que preferimos estar no nosso canto com os nossos” e não tanto em cafés ou bares rodeados de gente desconhecida.

Férias fora roubaram gente à região

Susana Afonso é natural de Bragança mas está há cinco anos em Paris. Apesar de ter regressado tanto neste Verão como no último, 2021 é o segundo ano consecutivo que não cumpre os planos. “Habitualmente vinha também no Natal e na Páscoa. No outro ano não consegui e este, para já, só mesmo Verão”, esclareceu. Emigrada na França, tendo ido porque o namorado lá vivia e porque aqui havia poucas propostas laborais, Susana Afonso admite que “este ano havia mais gente”, aliás, “notou-se pelos restaurantes, em que é preciso marcar lugar”, mas no resto não foi bem a mesma coisa. “Ao se olhar apenas para os cafés parecia que não tinha vindo quase ninguém. Quem mais os frequenta, os jovens, dá a ideia que passaram grande parte das férias fora daqui, nomeadamente no Algarve. Como os mais velhos se ficam pelas aldeias, não se via grande gente”, assinalou a emigrante, que considerou ainda que os emigrantes, este ano, ainda que em maior número, pouco ajudaram a mexer com os negócios de Bragança.

Jornalista: Carina Alves

Trindade Coelho: "Abyssus Abyssum..."

 Nesse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio. Assim eles tivessem uma coisa boa!... Mas que tentação para ambos, o rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de ameaça, aquelas terríveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia que lhe apareceram em casa tarde e às más horas.

— Ouvistes? — ralhara-lhes a mãe. — Olhai se ouvistes: se voltais ao rio, mato-vos com pancada. Andai lá...

Ih! como ela dissera aquilo, Mãe Santíssima! Colérica, ameaçadora, com a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras... Lembravam-se de haver tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob aquela ameaça terminante. E então, nesse dia, eles não tinham ido ao rio. Aos pássaros sim... — lá estavam as calças rotas do Manuel a dizê-lo —...aos pássaros é que eles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe que o soubesse...

Ah, mas então não os deixassem dormir naquele quarto. Logo de manhã, mal abriam as janelas, a primeira coisa que viam era o rio, uma corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos salgueiros. Lá estava a ponte velha, donde os rapazes se atiravam despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do fidalgo, — lindo barquinho! — sempre à espera que o fidalgo o desamarrasse para passar à grande quinta que tinha na margem de lá.

De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois rapazes era o de irem por ali abaixo, muito madrugadores, tão madrugadores como os melros, meterem-se dentro do barco, desprendê-lo da praia, e deixá-lo ir então por onde ele quisesse, contanto que fosse sempre para diante... Quando fechavam as janelas para se deitar, a sua vista seguia, mesmo através da escuridão da noite, a linha que ia dar ao barco. Era o seu — «adeus até amanhã!» — àquele pequeno objeto que valia tesouros, que para os dois valia mais que tudo, tudo...

Ah! tivessem eles assim um barquinho, que não queriam mais nada...

— Mais nada?

— Isso não... mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto.

Mas nessa manhã, bela manhã, na verdade! a mãe viera acordá-los mais cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida — gente que passava para os campos, os solavancos dos carros no empedrado péssimo da rua, os patos da vizinhança que saíam em rancho para a digressão pelos prados, grasnando ruidosamente, levantando-se em voos curtos, espantados da agressão acintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que ali perto se ouvia o retimtim agudo do martelo do ferrador atarracando cravos na bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e vagaroso, as chaves da igreja na mão esquerda e na direita a cabacita do vinho. E àquela hora, onde iria já a missa! A última beata, encapuçada e lenta, recolhera, trazendo consigo a esteira em que ajoelhara na igreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua, dava com valentia num carro cujo eixo “ardera” na véspera, e que era urgente compor, pelos modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a loja, e subira à varanda a regar os manjericos. Começos da labuta diária, enfim; os senhores sabem.

Pois como lhes disse, a mãe viera nessa manhã acordar mais cedo os dois pequenos.

— Fora, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal está! Ai, ai, dia claro há que tempos, vem aí o sol, e os morgadinhos na cama. — E enquanto falava, ia-lhes abrindo as janelas. — Persignar e vestir, vamos! Calças... colete... os jaquetões... tomem.

E pôs-lhes tudo sobre a cama.

— Mãe, a bênção! — balbuciaram os dois, tontos do sono ainda.

— Deus os abençoe. Que Deus não abençoa mandriões, ouviram? Ora eu já volto. Queira Deus que não vos encontre cá fora, tendes que ver.

Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os olhos àquela hostilidade viva da luz que invadira o quarto num jato repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito que eles afagavam numa última carícia, suavemente, docemente. Seria tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego morno da cama, onde se estava tão bem! onde os sonhos eram tão lindos!

Mas a mãe não tardava ali. Era preciso vestirem-se, que remédio! Foi então que o Manuel, mais esperto do sono, olhando para o campo o achou encantador, todo resplandecente de verduras.

— Bonita manhã, não vês? As árvores parecem mais lindas, repara. Porque será?

O outro encolheu os ombros, não sabia: só se fosse por não haver nuvens...

Pela janela aberta, avistava-se um trecho de paisagem que a luz viva da manhã fazia muito nítida. As vinhas tinham um verde encantador, muito suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das laranjeiras que cerravam alas nos pomares úmidos das baixas. Revestidos de folhagem, ascendiam ares fora os olmos gigantescos. Pedaços de horta estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.

Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que nessa manhã deslizava muito sereno, esverdeado de águas, espelhante sob aquele céu imaculado.

— Ah! ah!... — riu-se o Manuel, contemplando-o. — O rio! Que te parece? Olha que é lindo, o rio; ora é, ó Antônio?

— É, lá isso... Mas "também" de que vale? — tornou-lhe com desalento o irmão. — A gente não pode lá ir... Olha se a mãe o soubesse, han? — E mirando por sua vez a paisagem perguntou: — Já reparaste no barco, ó Manuel?

— Tão bonito!

Os dois riram.

— Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara.

— Pudera!... — explicou o Manuel —...amarrado com uma corda... — E depois  radiante, gesticulando para o irmão: — Mas eu era capaz de o desamarrar...

— Ai eras! — disse duvidoso o Antônio, para o incitar.

Calaram-se. Era bom podê-lo desamarrar, lá isso era. Ambos dentro dele, sozinhos, isso é que seria bom! E eles então que estavam mortos por ir às  azenhas, e pelo rio era um instante enquanto lá chegavam. O barco! Era tão bom andar no barco! E aquele então era lindo, como não tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido — olhem lá não esquecessem! — aquelas tardes em que o fidalgo os levara dentro do barquinho, ensinando-lhes como se remava.

O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito à janela. Passava naquele instante um bando de andorinhas, chilreando.

— Está um dia lindo, avia-te.

— Olha avia-te! pra quê? — perguntou o Antônio torcendo e retorcendo o pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama.

O Manuel sorriu-se, triste. — Era verdade... Aviarem-se pra quê? A mãe não os deixava ir ao rio... E se não que fossem! «Mato-vos com pancada se desceis a ladeira.» Já se vê que depois disto... — E os dois suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos!

Nisto o Antônio chegou-se também para a janela. Que lindo, o campo! Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demônio de tentação! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo o comprimento, uma faixa azul-clara destacava nitidamente, parece que apenas meio palmo acima do nível da água.

— Tate, ó Manuel! E se fugíssemos?

— Ora! se fugíssemos!... E depois? A gente tínhamos de voltar...

Ora aí esta! isso é que era o pior! A mãe, depois, era capaz de fazer o que tinha prometido. E arregalando muito os olhos, imitando a cólera da mãe: — «Se voltais ao rio...» Ai, ai, a triste sorte!

Recaíram em silêncio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia ao nascente, numa explosão violenta de luz, acendendo coloridos na largura muito ampla da paisagem.

— Mas palavra que o barco parece pintado de novo... relembrou com alegria o Manuel.

— Mas é que está, palavra que está. Agora é que há de ser bom andar dentro dele...

Os dois riram-se muito àquela ideia encantadora de andarem no barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? Por isso, cobrando ânimo, o Antônio disse resoluto:

— Olha agora o medo! Seguro que nos mata. — E puxando-o pela jaqueta: — Vamos lá, ó Manuel?

O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se vinha a mãe. Como não vinha, disse baixo ao irmão:

— À tardinha, hein? dois pulos e estamos lá. Não é tão fácil dar pela nossa falta, ali à tardinha. A gente finge que vai para o adro. Levam-se os peões...

— Há de ser mesmo assim! à tardinha! — concordou o Antônio. — Eh! eh! Eu cá desatraco.

— E eu remo, — disse logo o Manuel com gesto de quem remava.

— Ao leme vou eu: o leme é aquilo que regula — explicou.

— Pois sim, mas à vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quiseres assim...

— Pois está bem, quero! Assim mesmo é que há de ser!

E recapitulando, para melhor ficarem combinados:

— Ao pra baixo remo eu, ora remo?

— Remas.

— E tu regulas, ora regulas?

— Regulo.

— Ao pra cima é às  avessas, ora é?

— É.

Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se impuseram segredo...

— Schiu!...

— Schiu!

*****

A tarde descaía límpida. Na vasta cúpula do céu, penachos de nuvens alvejavam, imóveis.

Acesas naquela explosão rubra do ocaso, as arestas dos montes franjavam-se de púrpura e oiro, na decoração mágica dos poentes. Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquila dos crepúsculos, e uma quietação dulcíssima e vagamente melancólica entrava de adormecer a natureza para o grande sono reparador de toda a noite.

...E a tarde ia descaindo, cada vez mais límpida.

Naquela luz indecisa de crepúsculo que mansamente se ia acentuando, os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas, imobilizados num fundo em que se iam apagando ao de leve todos os cambiantes de luz. Os pormenores da paisagem perdiam-se naquela indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma espécie de silêncio confrangedor dominava a natureza toda, recolhida num como espasmo amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as formas às  coisas...

Muda de gorjeios, atravessando o espaço em voos muito rápidos, a passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava. Caíam já pesadas sobre os vales as sombras das montanhas, e um fumozito subtilmente azulado nadava à flor das coisas, velando-as para o tranquilo sono em que iam adormecer.

E a tal hora e no meio de tal silêncio, o barquinho branco deslizava mansamente sobre a água tranquila do rio, onde as primeiras estrelas começavam de lampejar. Dentro dele, os dois irmãozitos silenciosos iam-se deixando enlevar naquele ruído suave dos remos abrindo fendo nas águas... Não! era bem certo que eles não tinham jamais sentido uma tão poderosa e viva alegria — alegria doida que lhes transvazava do peito, fundindo-se em energia nos músculos e cristalizando-se nos lábios em sorrisos.

Dentro daquele adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres de admoestações alheias, sozinhos, independentes. E esta feliz convicção de liberdade alcançada, fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de alegria. Por certo eles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o seriam jamais?... No entanto a noite acentuava-se. Espertava nas margens o marulho da água nas raízes fundas dos salgueiros. No céu alto e sereno cintilavam as estrelas em cardumes.

— Remas, Antônio? — perguntou o do leme. — Olha se a vês... — E apontava para Vésper, a estrela que mais brilhava.

Tinham os dois concebido o estranho desejo de alcançar a estrela cujo brilho diamantino os fascinava. Tão linda!

— Anda-me tu com o leme! — tornou-lhe com intimativa o Manuel. — Ai a estrelinha! Deixa que ela faz-se fina, mas havemos de passar-lhe adiante, só por isso...

— Olha o milagre! Ela está queda! — fez o outro, convencido da facilidade da empresa.

— Está queda, está queda, mas sempre na frente de nós; vai lá entendê-la. Olha como brilha, ó António.

— Mas rema que eu cá vou, falta pouco. Ao direito daquela fraga é que ela está.

Não era difícil passar-lhe adiante, qual era? Era menos de meia hora era certo alcançá-la.

E engastada no azul escuro do céu, a estrela parecia brilhar mais, quanto mais a olhavam.

— De que são feitas as estrelas? — perguntou o mais novito.

— De prata, pois está visto.

Então o outro, lançando um amplo olhar à vastidão infinita do céu, exclamou:

— Eh! tanta prata!

— O sol, esse é de oiro — disse ainda o Manuel.

— Bem de ver! — volveu-lhe convencido o irmão. — Que eu, se me dessem à escolha, antes queria as estrelas. Olha que rebanho!

— Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, sempre é mais grande.

E enquanto falavam, os dois não desfitavam olhos da estrela feiticeira que perseguiam. Os remos, no entanto, iam abrindo fenda na água, com certo ruído muito doce... E lá no alto céu, dir-se-ia que de instante para instante a feiticeira estrela mais brilhava, incitando-os.

— Vê-la a fazer assim? — e pôs-se a pestanejar, imitando a palpitação crebra e irregular da luz sideral.

— É que tem sono — respondeu o outro.

— Olha que não. Aquilo é a fazer-nos negaças, também to digo.

— Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo, bem se afoga... — E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir: — Eh, “boieira”!

Neste momento, uma estrela cadente abriu esteira de prata no azul, sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram em tom de reza as palavras rituais:

Deus te guie bem guiada,

Que no céu foste criada.

— Vês? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso. — Torna a apontar para elas... Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos.

— A ti talharam-te o ar, ó Manuel.

— Diz a mãe. À meia-noite levaram-me à fonte e esparrinharam-me água para o corpo. E a água havia de estar fria... observou, encolhendo os ombros. Depois, viraram-me para as estrelas e disse então a mãe:

Ar vejo,

Lua vejo,

Estrelas vejo:

O mal do meu corpo

Pr'a trás das costas o despejo.

Riram muito. O Manuel, despidinho, couracho ao colo da mãe, havia de ser engraçado. E então todos de volta, a ver quando o ar se talhava.

— Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por ano, ao menos uma vez por ano, tenho de olhar pelos ralos do lenço pra “cinco chagas”, umas estrelas que além estão, e rezar uma ave-maria.

— Sempre, sempre?

— Até que morra. Depois de morrer vou morar três dias com três noites dentro de uma.

— Ora! tornou-lhe incrédulo o irmão. — Tu não cabes lá...

— Não sei: assim é que anda nos livros.

...Mas os braços doíam já dos remos, doíam muito...

Devia ser tarde, e eles sem darem fé, enlevados como iam no desejo louco de alcançar a estrela.

A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um silêncio contínuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a água da corrente ia espumando na quilha, com certo ruído de uma brandura suavíssima e doce.

...Mas os braços cada vez doíam mais!...

Agora, no céu, havia muitas estrelas brilhantes, muitas, mas nenhuma como aquela, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar menos para ela, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o peito, e as pálpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço.

...E os braços sempre a doerem!...

Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente, cortando-a com levíssimo ruído. Imobilizara-se também o cabo do leme, sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do súbito desleixo do outro.

...E os braços já não doíam, nem ao de leve sequer...

O pequeno barco vogava agora à mercê da corrente, sem impulso algum estranho. Dentro dele... a música levíssima das respirações dos dois pequenos adormecidos...

Algum tempo assim. Senão quando, um ruído surdo, e logo um movimento brusco de balanço, fez acordar o do leme.

Na grande alucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou imediatamente:

— Manuel! Ó Manuel!

O remador acordou, sobressaltado.

— A estrela? Ainda lá está, olha! — disse incoerente, estonteado pelo sono.

— Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? É já muito tarde! — continuou aflito o Antônio.

— Então não lhe passamos adiante? — perguntou ingenuamente o Manuel, referindo-se ainda à estrela.

Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamá-lo à realidade, de novo lhe gritou, com lágrimas na voz:

— Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel!

E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam num choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrível susto que a hora e o lugar aumentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho aquele marulhar contínuo da corrente, afligia-os como se fosse o psalmodiar monótono e rouco de uma legião de espíritos maus, preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os rochedos informes das margens afiguravam-se-lhes negros gigantes, que num requinte de malvada indiferença houvessem jurado assistir impassíveis e mudos à escura tragédia da sua desgraça.

E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem dali. Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguém viesse acudir-lhes, alguém que ouvisse de longe os seus aflitivos gritos.

Crudelíssimo transe!...

E então os braços continuavam a doer, doía-lhes agora o corpo todo, ao mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes oprimia o espírito, parece que embrutecendo-os.

— Mas a estrela sempre além... — notou ainda o Manuel, balbuciante de medo, como se quisesse increpar a própria estrela da sua indiferença criminosa, no meio daquele enorme infortúnio em que por causa dela se haviam precipitado. — Se ela pudesse acudir-nos...

Até que por fim, prostrados da fadiga e das lágrimas de novo se deixaram adormecer, era já alta noite.

Mas na sua fúria constante, a corrente que ali era muito forte não cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que após tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as águas se contorciam em remoinho, e entrou de girar com ele, violentamente. Quando a água se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de súbito acordados romperam em gritos lancinantes:

— Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale!

Tinha surgido a manhã, serena, tranquila, cheia de gorjeios e de azul. Mas como ninguém acudisse e a luta no rio fosse desigual, num repelão mais violento o pobre barco esfacelado investiu de proa com o abismo e lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no último paroxismo da sua enorme dor desesperada, os dois irmãozitos abraçados sumiram-se também com ele!...

*****

 ...Nesse mesmo instante... — e mais longe do que nunca —...a estrela feiticeira acabava de cerrar também a pálpebra luminosa!...

Nota:
Trindade Coelho: "Os Meus Amores" (1891)

PJ deteve homem de 19 anos por suspeita de abuso sexual de crianças em Bragança

 Foi detido um homem fortemente indiciado pela prática do crime de abuso sexual de crianças, em Bragança.
A Polícia Judiciária, através do Departamento de Investigação Criminal de Vila Real, informou que identificou e deteve um homem de 19 anos pela presumível autoria do crime de abuso sexual de crianças.

Os factos ocorreram no mês de Julho deste ano, numa residência em Bragança, sendo a vítima uma jovem com 13 anos de idade.

 O detido vai ser presente a interrogatório judicial para aplicação das medidas de coacção adequadas.

Escrito por Brigantia

SÃO BARTOLOMEU (ARGOZELO/Portugal) 2021.