A observação de eclipses deu origem a mitos antigos mas também a esforços racionais com vista à compreensão física do fenómeno e das suas consequências na Terra.
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| ALAMY / CORDON PRESS - Por influência dos jesuítas, a astronomia chinesa incorporou muitos conhecimentos europeus a partir do século XVI. |
Há muito que o monumento megalítico de Stonehenge, no Sul de Inglaterra, fascina os estudiosos. A sua enigmática estrutura e propósitos difíceis de descodificar têm desafiado especialistas de diversos domínios científicos.
Todavia, no início da década de 1960, os astrónomos britânicos Gerald Hawkins e, um pouco depois, Fred Hoyle propuseram que o monumento pré-histórico fora utilizado para prever a ocorrência de eclipses. Num documentário televisivo produzido na época, Gerald Hawkins afirmou, confiante, que “gerações de arqueólogos têm-se interrogado sobre o significado de Stonehenge… Bem, eu tenho a resposta”.
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| ALAMY / CORDON PRESS - Eclipse solar visto através de um dos portais do monumento megalítico de Stonehenge. |
Hawkins conseguira utilizar o recém-inventado computador electrónico nos seus cálculos: um único minuto no computador do centro Smithsonian-Harvard permitira-lhe cruzar milhares de alinhamentos possíveis. Segundo ele, quatro alinhamentos das pedras de Stonehenge com posições extremas do Sol e da Lua visíveis no horizonte formavam um rectângulo perfeito e isso só se verificava para aquela latitude. Seria este facto intencional ou mera coincidência? Com os 56 buracos de poste igualmente espaçados e dispostos em circunferência, o monumento poderia ter sido usado para prever eclipses.
Por sua vez, os arqueólogos, que não encontravam nos seus dados qualquer motivação para se interessarem por eclipses, consideraram a proposta demasiado sofisticada para os contextos culturais da pré-história. E, até prova em contrário, também os peritos que hoje se dedicam à astronomia cultural olham para o “previsor de eclipses” de Stonehenge como um mito moderno.
A criação de histórias mitificadas para explicar os eclipses tem raízes profundas. Nas tabuinhas cuneiformes da Mesopotâmia, os mais antigos registos escritos conhecidos, encontram-se referências a eclipses lunares e solares. Os primeiros textos, que associavam corpos celestes a presságios, datam da primeira metade do segundo milénio antes da nossa era. Quatro destas tabuinhas contêm presságios relacionados com eclipses da Lua e outros relativos a eclipses do Sol. Mas o auge desta tradição astral babilónica ficou expressa no conjunto de setenta tabuinhas, celebrizado pelas palavras que iniciam a primeira: Enūma Anu Enlil. Entre este grupo de tabuinhas, oito possuem referências relacionadas a eclipses lunares e sete a eclipses solares. Os mais antigos exemplares do Enūma Anu Enlil pertenciam à biblioteca de Assurbanípal e estão datados do século VII a.C.
Os presságios da Mesopotâmia devem ser entendidos no contexto de uma religião politeísta segundo a qual uma multiplicidade de deuses era responsável pelas várias vicissitudes do mundo e interessava-se sobremaneira pelo destino dos humanos. Em especial, o interesse dos deuses recaía sobre os reis, vistos como os seus representantes na Terra. Os presságios faziam assim parte de uma linguagem de comunicação com as próprias divindades, que por sua vez expressavam as suas intenções através desses sinais. Os eclipses lunares foram assim interpretados com frequência como anúncios da morte iminente do rei da Assíria, de Babilónia ou de terras vizinhas. Quando tal prognóstico surgia, foi muitas vezes adoptada a prática de entronizar e executar ritualmente um rei-substituto, tipicamente um prisioneiro, satisfazendo os deuses e poupando ao mesmo tempo o monarca reinante.
Na China antiga, e na verdade até ao século XX, o céu estrelado foi considerado um reflexo dos acontecimentos terrestres, sendo que o imperador, o eixo em torno do qual tudo girava, era espelhado na fixa estrela Polar. Rainhas e príncipes, guardas e oficiais da corte ocupavam a região circumpolar. Ou seja, cada “funcionário” no céu tinha um correspondente no palácio imperial. Por exemplo, o Príncipe da Coroa governava a Lua, enquanto o Grande Imperador governava o Sol. Quando o Sol perdia o brilho a meio do dia, o poder do Imperador poderia estar em causa, e logo que na Lua cheia surgisse uma sombra, o Príncipe ficava também inquieto.
Na China antiga, tudo o que acontecia no céu era registado– especialmente fenómenos invulgares – e analisado pelos astrólogos da corte, do ponto de vista dos presságios. A técnica era aplicada exclusivamente à família real e, dadas as implicações políticas, o fabrico de registos (ou seja, reportar um “falso prodígio”) era punido com a pena capital.
As culturas nativas americanas também se inquietavam com os eclipses solares e um dos mais conhecidos mitos daquela região mostra bem como se esforçavam por resolver uma ameaça entendida como um perigo iminente. O espanhol Garcilaso de la Vega registou nas suas crónicas as reacções dos incas do Peru: “Quando havia um eclipse solar, diziam que o Sol estava zangado por alguma ofensa cometida contra ele, uma vez que a sua face aparecia perturbada como a de um homem zangado! E previam, como os astrólogos, a aproximação de um grande castigo… Eram então tomados pelo medo e tocavam […] todos os instrumentos que encontravam para fazer barulho. Atavam os cães, grandes e pequenos, batiam-lhes com muitos golpes e faziam-nos uivar e chamar a Lua pois, de acordo com uma certa fábula que contam, pensavam que a Lua gostava de cães em troca de um serviço que estes lhe tinham feito e que, se ela os ouvisse chorar, teria pena deles e acordaria do sono causado pela sua doença.”
Maus presságios
Durante a Idade Média, a astronomia geométrica grega recebida da Antiguidade foi cultivada, desenvolvida e integrada com contributos persas e indianos através dos astrónomos árabes. Na verdade, o interesse dos sábios do islão pela astronomia estava intimamente relacionado com a religião. Rezar na direcção de Meca ou determinar os momentos da oração requeria conhecimentos astronómicos. Todavia, como atesta o testemunho do grande astrónomo árabe al-Bīrūnī, sobre o eclipse total do Sol de 11 de Abril de 1176, aparentemente a carga mítica do fenómeno já se dissipara: “Era a manhã de sexta-feira dia 29.º do Ramadão… quando era jovem e na companhia do meu professor de aritmética. Quando o vi [eclipse], tive muito medo… O meu professor era conhecedor das estrelas e disse-me: ‘Agora verás que tudo isto irá passar’, e passou rapidamente.”
É curioso notar que, quando a ciência moderna deu os primeiros passos para racionalizar as interpretações e os estudos matematizados, fê-lo num contexto em que ainda convivia com prognósticos de grandes calamidades.
A CIÊNCIA E AS OBSERVAÇÕES
Na segunda metade do século XIX, a melhoria dos sistemas de transportes e o crescente apoio logístico proporcionado por autoridades locais e coloniais, fizeram das expedições aos eclipses totais do Sol um dos principais empreendimentos da investigação astronómica. O interesse pelos eclipses solares foi também incrementado pelo surgimento de novas técnicas de observação e registo, como a fotografia e a espectroscopia, que permitiram o estudo da física e química do Sol. Nesse contexto, a Península Ibérica foi um palco importante da história das observações solares, uma vez que foi em Rivabellosa (Espanha), no eclipse de 18 de Julho de 1860, que foram obtidas as primeiras fotografias da coroa solar (“atmosfera” exterior do Sol). O autor da façanha foi o britânico Warren de la Rue. De la Rue era um abastado químico victoriano e foi ele próprio a financiar a expedição a Rivabellosa. Alem disso, foi um infatigável inventor: criou uma câmara especial para fotografar o Sol e uma das primeiras lâmpadas eléctricas.
Logo após a Guerra Civil Inglesa, num período conturbado, ocorreu o eclipse da “Segunda-feira Negra”. O eclipse de 29 de Março de 1652 foi visível em Londres e desencadeou um debate sobre a legitimidade da astrologia. O Conselho de Estado sentiu necessidade de proclamar que os eclipses eram fenómenos naturais, mas tal não impediu a publicação de panfletos repletos de profecias e interpretações astrológicas, incluindo a chegada de mais uma peste como a de 1593, a ruína das monarquias europeias ou a extinção do Sol. Quando o Sol nasceu na terça-feira após o eclipse, os astrólogos ingleses saíram em defesa da sua reputação, culpando os italianos pelos prognósticos nefastos.
A ciência dos eclipses deve a Edmond Halley, o astrónomo inglês mais conhecido pelo cometa a que deram o seu nome, os primeiros mapas da faixa da totalidade. Em 1715, Halley publicou um mapa das Ilhas Britânicas onde assinalou a trajectória da sombra da Lua na superfície terrestre naquele ano. Comparando o percurso efectivo da sombra com os seus cálculos em 1715, elaborou depois nova carta para o eclipse total que passaria a norte de Londres em 11 de Maio de 1724, e incentivou o público a observar e registar o fenómeno. Ainda hoje esses mapas são de capital importância na preparação das observações, já que o eclipse só é total na estreita faixa atravessada pela sombra da Lua.
Diversos desenvolvimentos técnicos que deram origem ao surgimento da astrofísica foram protagonizados por astrónomos amadores, vários dos quais com fortuna pessoal. No eclipse de Julho de 1860, esteve presente também uma delegação portuguesa onde se destacava o astrónomo do Observatório da Universidade de Coimbra, Rodrigo de Sousa Pinto.
Por sua vez, o eclipse de 6 de Abril de 1894 foi observado no Árctico pelo explorador norueguês Fridtjof Nansen e pelos seus companheiros Hjalmar Johansen e Sigurd Scott-Hansen. Nansen partiu para norte com a intenção de imobilizar o seu navio Fram no gelo e prosseguir até ao Pólo Norte. Pelo caminho, testemunhou o eclipse do Sol como um eclipse parcial. Este foi um dos raros eclipses híbridos: numa estreita faixa percorrida pela sombra da Lua, o eclipse começou como eclipse anular, passou a total e terminou como anular. A expedição teve de ser abandonada quando ficou patente que o Fram não conseguiria navegar até ao Pólo Norte e as tentativas para alcançar o Pólo com trenós puxados por cães falharam. Os membros da equipa tiveram de ser salvos por outra expedição.
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| ALAMY / CORDON PRESS - A expedição polar de Fridtjof Nansen observa o eclipse do Sol de 6 de Abril de 1894 através de um teodolito e de um telescópio. |
A partir do início do século XX, as condições e meios técnicos envolvidos no estudo da física solar, e em particular os instrumentos e técnicas usadas nas expedições aos eclipses totais, ficaram fora do alcance dos astrónomos amadores.
Deste modo, o estudo da coroa, das protuberâncias (erupções de plasma na superfície visível do Sol), da composição química e da ligação do ciclo solar à actividade magnética na Terra foi levado a cabo essencialmente por equipas profissionais e desenvolvido num contexto institucional.
O astrónomo Francisco da Costa Lobofoi um dos pioneiros da astrofísica em Portugal. Costa Lobo observou o eclipse solar de 17 de Abril de 1912, em Ovar, acompanhado por um grupo de alunos da Universidade de Coimbra, e utilizou a nova tecnologia da cinematografia. Este foi o primeiro eclipse filmado extensivamente, com câmaras registando o fenómeno em Portugal, Espanha, França, Bélgica e Alemanha. A partir da análise do filme, Costa Lobo chegou à conclusão de que o pólos da Lua seriam ligeiramente achatados.
A teoria não foi aceite na época pela comunidade internacional, que considerou que a hipótese do subtil achatamento se devia antes às irregularidades do relevo lunar. Contudo, medições realizadas em 2009 pelo satélite japonês Kaguya (Selene) confirmaram o achatamento dos pólos da Lua dentro dos parâmetros avançados por Costa Lobo, há mais de um século.
Depois de algumas tentativas frustradas para confirmar a teoria da relatividade generalizada de Albert Einstein, em 29 de Maio de 1919, na então portuguesa ilha do Príncipe, dois britânicos desesperavam perante uma manhã chuvosa. Arthur Eddington e o fabricante e técnico de relojoaria Edwin Cottingham deixaram Liverpool a 8 de Março no vapor H.M.S. Anselm, com o objectivo de registar um eclipse total do Sol. Pretendiam, naquela ilha do golfo da Guiné, medir o deslocamento aparente das estrelas observadas junto do limbo do Sol e, dessa forma, testar as previsões de Einstein. Tinham sido acompanhados até à ilha da Madeira por Andrew Crommelin e Charles Davidson, que seguiram para Sobral, no Norte do Brasil, com o mesmo objectivo.
As duas expedições foram organizadas por um comité especial criado em Inglaterra com vista a apoiar os astrónomos nos seus esforços para observar eclipses solares.
O eclipse de Maio de 1919 oferecia uma excelente oportunidade. Em Março de 1917, o astrónomo real de Inglaterra Frank Dyson publicou um artigo em que chamava a atenção para a circunstância de o eclipse se dar numa região do céu em que se observavam inúmeras estrelas. Um observador terrestre veria nas proximidades do Sol o enxame estelar das Híades, na constelação Touro, o enxame aberto mais próximo da Terra (um enxame estelar é um grupo de estrelas ligadas entre si pela interacção gravitacional e com uma origem comum). A observação de um razoável número de estrelas brilhantes tornava-se importante pela imperiosa necessidade de fazer um tratamento estatístico das observações.
No dia 6 de Novembro de 1919, numa reunião conjunta da Royal Society e da Royal Astronomical Society, foram finalmente revelados os resultados das expedições. Em Inglaterra, os grandes jornais fizeram eco imediato do sucesso dos seus astrónomos, bem como das extraordinárias implicações da relatividade generalizada. Em 7 de Novembro, The Times publicava sob o título “Revolução na Ciência” a notícia: “As ideias de Aristóteles, Euclides e Newton, que são a base das nossas concepções actuais, não correspondem ao que pode ser observado na estrutura do universo (…) Aqui e ali, passado e presente são relativos, não são absolutos, mudam segundo o referencial escolhido (…).” Era o final de uma longa maratona.
Artigo publicado originalmente na edição nº 26 da revista National Geographic História.









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