Nos anos 70, acampar não era montar uma tenda nem improvisar uma fogueira sob o céu aberto. Era, acima de tudo, um gesto quase sagrado de liberdade, uma forma de existir sem amarras, de deixar para trás o peso das horas e das preocupações quotidianas. Era um regresso ao essencial, ao que verdadeiramente importava, como se cada um de nós, ao chegar àqueles lugares, despisse não só a roupa da cidade, mas também as pressas, os medos e as máscaras.
Partíamos quase sempre sem grandes planos, guiados mais pelo instinto do que por mapas. A estrada era uma promessa, e o destino, um pretexto. O que realmente procurávamos não estava nos lugares, mas no que sentíamos ao alcançá-los. E quando chegávamos à ponte de Castrelos ou à ponte de Soeira, ou até ao El Folgoso, aqui ao lado, sabíamos, sem precisar de palavras, que tínhamos encontrado um pequeno pedaço de eternidade.
As águas corriam mansas. Trutas Escalos e Bogas. Havia uma música constante naquele murmúrio, uma espécie de embalo que nos desacelerava o coração. As árvores, Freixos e Olmos, altas e generosas, inclinavam-se sobre nós como velhas guardiãs, oferecendo sombra durante o dia e um abrigo quase maternal à noite. O vento passava leve sem nos fazer sentir frio, trazendo o cheiro da terra húmida, da lenha, da liberdade.
Ali, o tempo deixava de ter pressa. As horas não se contavam, sentiam-se. Um pôr-do-sol podia durar uma eternidade, e uma noite à volta da fogueira parecia conter uma vida inteira. O crepitar da madeira a arder era o nosso relógio, e as conversas, essas, não tinham fim nem destino, por vezes, imagino, nem sentido. Falava-se de tudo e de nada, de sonhos ainda por cumprir, de amores que começavam ali mesmo ou que ficavam por dizer, de um mundo que acreditávamos poder transformar.
Vivíamos com tão pouco, e ainda assim tínhamos tudo. Um pedaço de pão partilhado tinha outro sabor, talvez por ser dividido entre risos e cumplicidade. Um copo de vinho passava de mão em mão como um ritual, sem receio de vírus, ingenuidade talvez mas que saudades dela, aquecendo não só o corpo, mas também a alma. Havia sempre um “bagacito” a circular, umas cervejas a refrescar a tarde, e uma guitarra ou uma viola que, sem esforço, encontrava o seu lugar entre nós. Bastava um acorde, e de repente estávamos todos a cantar, mesmo sem sabermos bem a letra, porque o importante nunca foi acertar “a letra e o tom”, mas sentir.
Um pente e o plástico que envolvia o maço dos cigarros, transformava-se, de repente, numa orquestra…
E depois havia o riso. Um riso solto, genuíno, daqueles que nasce do fundo sem vergonha. Ríamos das pequenas coisas, de histórias repetidas, de silêncios partilhados. Ríamos porque estávamos vivos, juntos, livres.
Quando a noite caía, o céu transformava-se num espetáculo impossível de esquecer. As estrelas pareciam mais próximas, mais intensas, quase como se pudessem ser tocadas. Deitados na relva, nos calhaus ou encostados uns aos outros, ficávamos em silêncio, olhando para aquele infinito, deixando que ele nos invadisse. Era nesses momentos que sentíamos, com uma clareza rara, que fazíamos parte de algo maior, não como espectadores, mas como fragmentos vivos daquele universo.
Acampar naquela época era um ato de entrega total. Era pertencer ao rio que corria, à pedra que sustentava os nossos passos, ao vento que nos atravessava. Era esquecer o mundo lá fora, a uns poucos quilómetros de distância, para encontrar um outro dentro de nós. Não havia filtros, apenas presença.
Aqueles dias não passaram. Continuam vivos em cada lembrança, em cada saudade que nos aperta o peito, em cada sorriso que surge quando fechamos os olhos e voltamos, por instantes, a esse tempo em que tudo era simples, e, por isso mesmo, absolutamente perfeito.
Saudades… e no dia seguinte tudo acontecia, mas só a partir da hora em que nós queríamos e estipulávamos.

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