Há um momento na vida de todos em que as distâncias passam a ser maiores, eu sei, as decisões mais confusas, os caminhos mais íngremes, os transportes mais difíceis, o corpo e a mente menos disponíveis. Para muitos idosos que vivem nas aldeias, esta não é uma metáfora, é uma realidade concreta. Falta a visão, o ouvido… a farmácia fica longe. O centro de saúde implica deslocação. O autocarro … não passa. E, ainda assim, continua a exigir-se que sejam eles a mover-se, a organizar transporte, a pedir boleias, a suportar horas de espera, como se o peso dos anos não contasse. Com que direito obrigam um idoso com 98 anos a deslocar-me a Bragança para tomar uma vacina? Com que direito?
A vacinação dos idosos não pode ser pensada apenas como um ato clínico. É um ato de justiça. É uma medida de saúde pública que protege não apenas o indivíduo, mas toda a comunidade. E, por isso mesmo, deve ser organizada com humanidade, proximidade e respeito.
Não faz sentido que quem já deu uma vida inteira ao país, com trabalho, criando filhos, sustentando famílias, mantendo vivas as aldeias, tenha que enfrentar obstáculos físicos e logísticos para aceder a um direito básico. Se a ciência avança, se o Estado se tenta organizar, se existem meios e profissionais qualificados, então é razoável exigir que a vacinação vá ao encontro dos idosos, e não o contrário.
Nas aldeias, o envelhecimento é mais visível e mais solitário. Há casas dispersas, e portas que se fecham cedo. Muitos idosos vivem sozinhos, dependentes, muitas vezes, de vizinhos ou familiares que nem sempre estão disponíveis. Pedir-lhes que se desloquem dezenas de quilómetros para uma vacina é ignorar a realidade concreta da sua vida diária. É desenhar políticas a partir de gabinetes urbanos, esquecendo o território real.
Levar as equipas de enfermagem às aldeias é uma questão de eficiência, é um gesto de reconhecimento. Significa dizer que “Não nos esquecemos de vós.” Significa compreender que a proximidade salva vidas, não apenas pelo efeito da vacina, mas pelo impacto da confiança. Quando o enfermeiro bate à porta ou instala um posto temporário na junta de freguesia, cria-se um espaço de segurança. O idoso não é um número numa lista, é uma pessoa conhecida, com nome, com história.
Além disso, a vacinação itinerante não é novidade nem utopia. Já foi feita em outros contextos, em campanhas anteriores, em situações de emergência. Existe capacidade logística para organizar equipas móveis, para articular com as autarquias, para planear roteiros por freguesia. O que é necessário é vontade política e sensibilidade social.
Senhores e Senhoras das cadeiras do “poder”, canalizem os vossos esforços para as coisas sérias e deixem-se de tricas partidárias e negociatas. Trabalhem para as PESSOAS!
Há também uma dimensão ética. A sociedade é avaliada pela forma como trata os mais vulneráveis. Exigir que o mais frágil suporte o maior esforço é inverter a lógica da proteção. A equidade não significa tratar todos da mesma maneira, significa tratar de forma diferente quem tem necessidades diferentes. E os idosos das aldeias têm necessidades específicas que não podem ser ignoradas.
Quando se leva a vacinação às aldeias, reforça-se o vínculo entre o Estado e o cidadão. Mostra-se que os serviços públicos não existem apenas onde há maior densidade populacional. Combate-se o sentimento de abandono que tantas vezes marca o interior do país. E, acima de tudo, protege-se a vida com dignidade.
Não se trata de paternalismo. Trata-se de respeito. Respeito por quem já percorreu um longo caminho. Respeito por quem enfrenta limitações físicas reais. Respeito por quem, a maioria das vezes, não reclama, não protesta, não escreve cartas nem envia e-mails… mas sofre em silêncio.
A imagem deveria ser simples. Uma carrinha de saúde a chegar à aldeia, um pequeno posto montado no salão da junta, um enfermeiro que cumprimenta pelo nome, uma vacina administrada com cuidado, uma palavra tranquila. Um gesto simples que transmite cuidado coletivo. E talvez lhes “tocasse” um belo salpicão, ou uma alheira, no final da jornada. Um sorriso e o coração cheio de gratidão eram garantidos.
Se queremos uma sociedade coesa, se queremos um país e uma região que não abandona as suas raízes, então temos de agir com coerência. Não são os idosos que devem ir à procura da vacina, é a vacinação que deve ir ao encontro deles. É uma questão de consciência… e de justiça.

Sem comentários:
Enviar um comentário