O meu poema preferido é o “Cântico Negro”, de José Régio. Não só como preferência literária, mas também porque se tornou, ao longo da minha vida, uma espécie de espelho, um manifesto interno, uma bússola que nunca deixei de consultar. Há quem encontre guias espirituais, outros encontram filosofias e partidos políticos, outros encontram livros inteiros. Eu encontrei um poema, este poema, que me ensinou a reconhecer e a proteger aquilo que sou.
Sempre me impressionou a coragem das suas palavras. A firmeza quase indomável de alguém que olha o mundo e, sem medo, afirma: “Não, não vou por aí!” Não como capricho, não como rebeldia vazia, mas como fidelidade absoluta a uma voz interior que não admite traição. Quando li o “Cântico Negro” pela primeira vez, senti que alguém tinha colocado em verso aquilo que eu mal conseguia formular em pensamento. Era como se Régio tivesse emprestado linguagem ao que eu já vivia, mesmo sem o saber.
É por isso que digo, com clareza e sem hesitação que vivi sempre assim. Não por desafio, mas por necessidade íntima. Nas escolhas, nos desvios, nas teimosias que muitos confundiram com resistência, e que sempre nasceram desse mesmo impulso, o de seguir o meu caminho, mesmo quando ele se apresentava mais solitário, mais íngreme, mais incómodo.
O “Cântico Negro” ensinou-me a aceitar esse modo de ser. A não pedir desculpa por ele. A entender que há quem precise de seguir estradas limpas e retas, e há quem precise de abrir mato com as próprias mãos. Eu sou dos segundos. E reconheço isso com uma serenidade que chegou quase de imediato ao tentar caber em molduras que nunca me serviram.
Por isso, quando afirmo que este poema é o meu favorito, o meu poema, não falo apenas de gosto literário. Falo de identidade. Falo de uma maneira de estar no mundo. Falo de um pacto comigo mesmo, o de não renunciar ao que sou para agradar a caminhos que não me pertencem.
E assim continuo… fiel ao que sinto, atento à minha própria verdade, disposto a pagar o preço, e a receber os legados, de escolher sempre a rota que nasce de dentro.
“Não, não vou por aí!”
E é justamente por isso que sigo adiante sem me incomodarem os que não percorrem o mesmo caminho…

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