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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Mistérios da Poesia

Por: José Mário Leite
(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)


 Na vagarosa Mindelo, dolente e pacífica capital cabo-verdiana, onde os cães se sentam pacificamente nas ruas, sem se incomodarem com quem calcorreia os passeios, exceto se uma cadela no cio os leva a alvoroçar toda uma esplanada de turistas ou um inesperado líder canino os incentiva a uma corrida desenfreada no areal da Baía das Gatas, na Mindelo solarenga de cores pastel onde o vento se passeia, sem cerimónias esquadrinhando o Quintal da Artes onde a veia artística se espraia em pequeníssimas lojinhas térreas e sem outras condições que a pura imaginação indígena expressa em obras de puro enlevo, onde uma simples T-Shirt envergada pelo mais simples dos transeuntes pode trazer, repetido até à exaustão, um slogan que ganhou, subitamente, um significado acrescido, no mundo em que vivemos (“freedom is not for free” cujo apelo à liberdade e a referência ao seu custo perde força quando traduzido), nas ruas estreitas da baixa mindelense, por onde a sombra de Cesária se estende por todo o lado e tudo cobre, tudo engloba, tudo protege e, como uma mãe grande e omnipresente, a todos embala na remansada lembranças dos suaves e melancólicos tons da Morna; ao lado do CNAD, cuja fachada de tampas coloridas de latas de tinta formam a icónica fachada desse centro cultural, numa rua estreita, em direção à Praia da Laginha, encontra-se uma vivenda, de aspeto modesto, de portas e janelas fechadas (convenientemente, como a seguir se verá porquê), ostenta no pilar da entrada um logotipo cuja inscrição principal diz: Mistério da Poesia.

Porém, engenhosamente, partindo, de forma acertada, do facto de tal enigma se encontrar no interior (o que convém, como facilmente se depreende), mão artística recorreu à expressão anglófona para preposição designativa de “dentro” (“in”) e, habilidosamente transformou o Mistério em M”in”istério coisa que agrada a quem passa, desperta a curiosidade e satisfaz, suponho eu, quem dentro se compraz com a companhia de Calíope e de todas as restantes diáfanas moradoras do Parnaso.

Mesmo com as portas fechadas (tem um horário tardio e boémio, como convém) foi-me impossível passar pelo número 35 da Avenida 5 de julho, no Mindelo, sem me ver compelido a refletir sobre a superior oportunidade, benefício e proveito que adviria, num tempo em que os ministérios da defesa são renomeados como ministérios da guerra, em que as próprias batalhas conseguem o inacreditável feito de se desumanizarem ainda mais, em que homens, mulheres e crianças são feridos, destruídos e mortos por máquinas de plástico e metal, em que a inteligência artificial é capaz de dar substância e cumprimento ao que mais horrendo a inteligência animal e natural, num tempo bárbaro e cruel, de atropelo sem limites nem barreiras sobre a dignidade de todos os seres vivos e se destrói toda a natureza em nome de caprichos e ambições desmedidas, que benesses e proventos poderiam vir, repito, com a institucionalização de um Ministério para a Poesia, que tivesse, à porta, vigilante, o slogan “freedom is not for free”, de entrada livre e sem quaisquer constrangimentos ou pressupostos com a única condição de fraternal convivência entre todos os seres vivos de boa vontade…

Porém, de regresso ao Hotel são bombas e mísseis, drones, canhões e porta-aviões que enchem os noticiários e como um geladíssimo duche nos acordam para a triste e preocupante realidade, crua nua e sem qualquer mistério em que os sombrios tempos nos envolvem e sufocam.


José Mário Leite
, Nasceu na Junqueira da Vilariça, Torre de Moncorvo, estudou em Bragança e no Porto e casou em Brunhoso, Mogadouro.
Colaborador regular de jornais e revistas do nordeste, (Voz do Nordeste, Mensageiro de Bragança, MAS, Nordeste e CEPIHS) publicou Cravo na Boca (Teatro), Pedra Flor (Poesia), A Morte de Germano Trancoso (Romance) e Canto d'Encantos (Contos), tendo sido coautor nas seguintes antologias; Terra de Duas Línguas I e II; 40 Poetas Transmontanos de Hoje; Liderança, Desenvolvimento Empresarial; Gestão de Talentos (a editar brevemente).
Foi Administrador Delegado da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana, vereador na Câmara e Presidente da Assembleia Municipal de Torre de Moncorvo.
Foi vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
É Diretor-Adjunto na Fundação Calouste Gulbenkian, Gestor de Ciência e Consultor do Conselho de Administração na Fundação Champalimaud.
É membro da Direção do PEN Clube Português.

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