(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Na vagarosa Mindelo, dolente e pacífica capital cabo-verdiana, onde os cães se sentam pacificamente nas ruas, sem se incomodarem com quem calcorreia os passeios, exceto se uma cadela no cio os leva a alvoroçar toda uma esplanada de turistas ou um inesperado líder canino os incentiva a uma corrida desenfreada no areal da Baía das Gatas, na Mindelo solarenga de cores pastel onde o vento se passeia, sem cerimónias esquadrinhando o Quintal da Artes onde a veia artística se espraia em pequeníssimas lojinhas térreas e sem outras condições que a pura imaginação indígena expressa em obras de puro enlevo, onde uma simples T-Shirt envergada pelo mais simples dos transeuntes pode trazer, repetido até à exaustão, um slogan que ganhou, subitamente, um significado acrescido, no mundo em que vivemos (“freedom is not for free” cujo apelo à liberdade e a referência ao seu custo perde força quando traduzido), nas ruas estreitas da baixa mindelense, por onde a sombra de Cesária se estende por todo o lado e tudo cobre, tudo engloba, tudo protege e, como uma mãe grande e omnipresente, a todos embala na remansada lembranças dos suaves e melancólicos tons da Morna; ao lado do CNAD, cuja fachada de tampas coloridas de latas de tinta formam a icónica fachada desse centro cultural, numa rua estreita, em direção à Praia da Laginha, encontra-se uma vivenda, de aspeto modesto, de portas e janelas fechadas (convenientemente, como a seguir se verá porquê), ostenta no pilar da entrada um logotipo cuja inscrição principal diz: Mistério da Poesia.
Porém, engenhosamente, partindo, de forma acertada, do facto de tal enigma se encontrar no interior (o que convém, como facilmente se depreende), mão artística recorreu à expressão anglófona para preposição designativa de “dentro” (“in”) e, habilidosamente transformou o Mistério em M”in”istério coisa que agrada a quem passa, desperta a curiosidade e satisfaz, suponho eu, quem dentro se compraz com a companhia de Calíope e de todas as restantes diáfanas moradoras do Parnaso.
Mesmo com as portas fechadas (tem um horário tardio e boémio, como convém) foi-me impossível passar pelo número 35 da Avenida 5 de julho, no Mindelo, sem me ver compelido a refletir sobre a superior oportunidade, benefício e proveito que adviria, num tempo em que os ministérios da defesa são renomeados como ministérios da guerra, em que as próprias batalhas conseguem o inacreditável feito de se desumanizarem ainda mais, em que homens, mulheres e crianças são feridos, destruídos e mortos por máquinas de plástico e metal, em que a inteligência artificial é capaz de dar substância e cumprimento ao que mais horrendo a inteligência animal e natural, num tempo bárbaro e cruel, de atropelo sem limites nem barreiras sobre a dignidade de todos os seres vivos e se destrói toda a natureza em nome de caprichos e ambições desmedidas, que benesses e proventos poderiam vir, repito, com a institucionalização de um Ministério para a Poesia, que tivesse, à porta, vigilante, o slogan “freedom is not for free”, de entrada livre e sem quaisquer constrangimentos ou pressupostos com a única condição de fraternal convivência entre todos os seres vivos de boa vontade…
Porém, de regresso ao Hotel são bombas e mísseis, drones, canhões e porta-aviões que enchem os noticiários e como um geladíssimo duche nos acordam para a triste e preocupante realidade, crua nua e sem qualquer mistério em que os sombrios tempos nos envolvem e sufocam.
José Mário Leite, Nasceu na Junqueira da Vilariça, Torre de Moncorvo, estudou em Bragança e no Porto e casou em Brunhoso, Mogadouro.
Colaborador regular de jornais e revistas do nordeste, (Voz do Nordeste, Mensageiro de Bragança, MAS, Nordeste e CEPIHS) publicou Cravo na Boca (Teatro), Pedra Flor (Poesia), A Morte de Germano Trancoso (Romance) e Canto d'Encantos (Contos), tendo sido coautor nas seguintes antologias; Terra de Duas Línguas I e II; 40 Poetas Transmontanos de Hoje; Liderança, Desenvolvimento Empresarial; Gestão de Talentos (a editar brevemente).
Foi Administrador Delegado da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana, vereador na Câmara e Presidente da Assembleia Municipal de Torre de Moncorvo.
Foi vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
É Diretor-Adjunto na Fundação Calouste Gulbenkian, Gestor de Ciência e Consultor do Conselho de Administração na Fundação Champalimaud.
É membro da Direção do PEN Clube Português.


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