(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Os meus padrinhos, Manuel Amaro e Áurea, pertencem àquela categoria rara de adultos que, sem alarido, nos dão chão. Com eles aprendi que a infância também se faz de estradas — e que uma viagem pode ser um modo de cuidado.
Lembro-me dos passeios pelo Alentejo: o calor a engrossar o ar, a luz muito branca, e aquela sensação de imensidão que só existe onde o horizonte não encontra obstáculos. Parecia que o mundo se tinha aberto e que a estrada não tinha fim.
Todos estávamos felizes e até os contratempos serviam de motivo para brincadeira. Íamos até Vila Fernando, em Elvas, onde, para mim, havia uma bica e uma taberna — e onde o apelido Amaro soava tão natural como o nome de uma rua.
O chão queimava os pés, e isso ficou-me como uma verdade física do sul: não era apenas calor, era fogo que vinha da terra e do céu, mal domesticado, abrasando o próprio ar. Sempre que podia, escapulia-me — saltitando nas lajes ferventes — para me sentar na borda da fonte com os pés dentro de água, como se aquilo bastasse para colocar tudo outra vez no lugar.
Era ali, nessa pausa fresca, que pensava não existir mais ninguém no mundo — ninguém, exceto o Amaro da taberna, que vinha falar comigo. Não para me entreter à pressa, mas com a naturalidade de quem reconhece numa criança alguém inteiro. Ainda hoje me lembro da forma como me dirigia a palavra, como se eu tivesse já idade para merecer conversa.
E depois havia as “manas” — as filhas deles, irmãs de coração. Eu era mais novo; elas já adolescentes, com aquele misto de impaciência e ternura que a adolescência sabe ter quando decide proteger. Cuidaram de mim muitas vezes, e a memória delas ficou-me como a de uma família alargada sem formalidades.
A madrinha tinha um carinho e uma doçura prática — dessas que se revelam no gesto de endireitar uma camisa, no olhar que pergunta sem interrogar, no cuidado de garantir que nada falta antes de alguém se lembrar de pedir.
Do padrinho lembro-me da presença confiante. Não era um homem de exuberâncias, mas trazia consigo uma segurança tranquila, como quem sabe onde está e, por isso mesmo, dá descanso a quem o rodeia. Ao lado dele, as coisas pareciam menos complicadas.
Havia também uma espécie de alegria doméstica feita de pequenas lealdades: estar presente, chegar a horas, cumprir a palavra, conduzir com cuidado. São coisas que uma criança percebe sem saber nomeá-las — e que, mais tarde, reconhece como pilares.
De regresso a casa, os cães faziam parte do retrato como se fossem gente: o Sabu, pequeno, branco e preto, e o Zulu, de pelo vermelho comprido. Ainda os vejo a mexerem-se pela casa e pelo quintal, com aquela energia simples dos animais que pertencem a um lugar e o confirmam.
Mais tarde, vieram as horas passadas no carro a distribuir as encomendas da tipografia. Eu aprendia sem dar conta: ruas, nomes, atalhos, e uma cartografia afetiva do Porto que não vem nos mapas. Entre paragens e entregas, o padrinho ia falando — e eu ia guardando.
Falava-me da história do Porto como quem conta uma coisa de família: o porquê de certos nomes, a vida escondida por trás das fachadas, as camadas de tempo que uma cidade vai acumulando. Eu ouvia com a seriedade de quem está a ser iniciado em qualquer coisa importante.
Também me ensinou a não me deixar iludir pelas primeiras impressões. “Às vezes parece uma coisa e é outra”, dizia — e aquela frase, tão simples, ficou a trabalhar em mim durante anos.
E havia, sempre, o benefício da dúvida: olhar para as pessoas com uma espécie de justiça tranquila, sem pressa de condenar. Não era filosofia dita com nomes grandes; era uma maneira de estar que se passava de adulto para criança por contágio.
Agora, revolvendo fotografias de uma infância feliz, cansadas dos anos e do manuseamento, relembro estes rostos queridos que lentamente se desvanecem nas brumas da memória.
Resta-me uma última recordação, talvez a mais pequena e, por isso mesmo, das mais nítidas: a da Páscoa e do ramo que nunca cheguei a levar. Os meus pais não concordavam com a tradição de levar o ramo ao padrinho na Páscoa: achavam que era uma forma de ir pedir dinheiro e, por isso, nunca me incutiram esse hábito. Anos mais tarde — já o padrinho tinha falecido — a madrinha contou-me que, por essa altura, às vezes dizia num tom entre o ralhete e a saudade: “O Manuel Amaro não apareceu.” E ele respondia, no seu jeito calmo e risonho: “Lá se perdeu no caminho. Qualquer dia aparece por aí.”
Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
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