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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 4 de abril de 2026

Rio de Onor, uma aldeia unida pela fronteira

 Rio de Onor e Rihonor de Castilla são duas aldeias transfronteiriças separadas por um rio mas com tradição e dialecto comuns.

No único café de Rio de Onor, o Bar da Associação, alguns idosos trocam dois dedos de conversa enquanto esgrimem argumentos a jogar às cartas. Cartas espanholas, bem mais explícitas nos naipes do que as portuguesas. Em redor, impera a calmaria e a paisagem que cambia do frio cortante do Inverno para as tardes de canícula do Verão.

Os diálogos são travados em rionorês, descendente da língua asturo-leonesa e do período em que o limite da fronteira era incerto e difuso.

Não muito distantes, correm as águas do rio Onor e, na outra margem, meia dúzia de casinhas de xisto abrigam a população de Rihonor de Castilla, com não mais de 20 habitantes.

A fronteira entre Portugal e a província espanhola de Castela e Leão está traçada entre as duas aldeias, mas tudo fica acessível através da ponte romana sobre o rio e, para os habitantes, é indiferente se existem, ou não, limites fronteiriços nos mapas.

Cerca de meia centena de aldeãos portugueses consideram que ambas são um único povoado e atestam-no de forma comunitária: no moinho, no forno, na Casa do Touro (adaptado a espaço museológico), no culto religioso, na partilha do único rebanho, nas casas de xisto de dois andares nas quais o piso térreo é, com frequência, reservado para o gado e para cereais e, claro, no dialecto que vem dos tempos de antanho. Rio de Onor não é a única povoação transfronteiriça com Espanha, mas é quase única, pois esta singularidade geográfica ditou uma evolução linguística específica, acarinhada pelos falantes das duas aldeias. Em muitos aspectos, Rio de Onor é uma típica aldeia transmontana. Apesar do crescimento gradual do turismo, as ruas estreitas, a antiga igreja de xisto e a ponte romana continuam preservadas.


O bucolismo é a sua segunda pele e, neste recanto do Parque Natural de Montesinho, a essência e o peso das tradições travam o avanço das páginas do calendário. Na sua Viagem a Portugal, o escritor José Saramago deteve-se por aqui. Com o calor próprio das gentes da montanha, ofereceram-lhe bagaço, logo a ele, com “um organismo que repele aguardentes”. A custo, aceitou. “Uma plaina não seria menos áspera. Há uma explosão no estômago, o viajante sorri heroicamente e repete. Talvez para reparar os estragos, a mulher abraça o pão contra o peito, tanto amor neste gesto, corta um canto e uma fatia, e é o seu olhar que pergunta: ‘Quer um bocadinho?’” Não há melhor alegoria para explicar Rio de Onor.


Paulo Rolão

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