Há muito de curioso e quase melancólico nas entrevistas de rua que a televisão nos fornece diariamente. As vozes dos entrevistados raramente soam como o português que alguns imaginam como “puro”, “de Portugal”. Não é impressão. É o reflexo de um país que já não cabe nas velhas molduras da memória. A língua, essa pele da alma de um povo, move-se, respira e transforma-se com aqueles que a habitam. E quem habita Portugal hoje é diverso, plural, estrangeiro e familiar ao mesmo tempo.
O “Portugal” que alguns populistas idealizam e prometem é uma ilha imaginária, flutuando sobre o tempo, incapaz de se ancorar na realidade. Esse país não existe. Nunca existiu. O país real é feito de encontros e desencontros, como dizia o meu homólogo, de sotaques que chegam de longe, e de histórias que cruzam oceanos. As palavras pronunciadas na rua são um fio que tece uma tapeçaria viva, complexa e, por vezes, imperfeita, mas infinitamente mais rica do que qualquer sonho de homogeneidade. Hoje fiz mais uma amiga. É de nacionalidade Belga e é voluntária em Bragança na Cruz Vermelha. Um sorriso que não engana e uma vontade de ajudar os outros que nos ilumina.
O português que vamos ouvindo na televisão é a prova de que a língua não é propriedade de um grupo, nem nenhum monumento a um passado fixo e imutável. É, antes, o reflexo do corpo social que a fala. Quando ouvimos vozes que nos parecem “estranhas”, não estamos diante de perda, mas de expansão. É no gesto de acolher o outro, na sua pronúncia, no seu ritmo, no seu léxico, que Portugal se renova. A língua não é composta apenas de regras. A língua é sangue que corre e pulsa com a vida que escolhe este país para lhe chamar de lar.
Ao mesmo tempo, é importante refletir sobre a função da televisão e dos órgãos de comunicação social neste fenómeno. Os media reproduzem a realidade tal como a encontram nas ruas. Quando entrevistam cidadãos em diferentes cidades, bairros ou contextos sociais, captam-se expressões autênticas, não encenadas. Portanto, a ausência do português “puro” não é uma falha da língua nem uma ameaça à identidade nacional, é um espelho da diversidade social, e consequentemente cultural, que carateriza o país. Pessoalmente, orgulho-me desse “espelho”.
Portugal só sobrevive com aqueles que decidem investir nele. Vivendo, trabalhando, amando, criando. Todos são fundamentais para a continuidade do país. O mito do “Portugal fechado” é uma ilusão que se desfaz quando olhamos, com olhos de ver, para a realidade. Uma verdadeira nação, como a nossa, não se ergue sobre a exclusão, mas sobre a soma de todos os que aqui vivem.
Com todos, todos, todos a rua torna-se um poema. As entrevistas são um verso improvisado, onde a língua se transforma e se reinventa. Há beleza nessa transformação, uma melodia que nos lembra que Portugal não é um lugar que se guarda, mas um espaço que se acolhe. O futuro não pertence aos que tentam prender o passado, mas aos que permitem que todas as vozes, todos os sotaques, todas as histórias se entrelacem na canção coletiva da nossa pátria.
A realidade é que Portugal é hoje um país plural, multicultural e em constante mudança. As ruas, as escolas e os locais de trabalho estão habitados por pessoas cuja origem, vivência e forma de expressão não se encaixam em moldes históricos rígidos. As influências linguísticas das comunidades migrantes, a globalização dos media e o contacto contínuo com outras variantes da língua portuguesa, do Brasil a África, passando por comunidades de imigrantes recentes, transformam naturalmente o modo como se fala em contextos informais. Não se trata de uma degradação do idioma, mas de uma evolução viva, dinâmica e inevitável.
Quem nos atende na NOS? Na MEO? Na Vodafone? Quem nos leva o churrasco a casa? Quem nos atende nos restaurantes e nas grandes superfícies? Com quem nos cruzamos nas ruas da cidade… ?
Bragança, como Portugal, é um corpo vivo, feito de muitos corpos. E na diversidade das palavras, na multiplicidade dos acentos, está a força que lhe garante não apenas a sobrevivência, mas a grandeza que nunca se aprisiona. As vozes que se erguem na rua são um alerta de que o país só existe quando se abre ao outro, e é nesse abrir-se que reside a verdadeira poesia da nossa terra.
Longe de ser motivo de preocupação, a diversidade linguística e cultural que se observa nas entrevistas de rua é um sinal de vitalidade. Lembra-nos que a nação não se define pela uniformidade, mas pelo pluralismo e pela capacidade de se reinventar. O desafio não é preservar um passado idealizado, mas criar pontes entre experiências diferentes, valorizando o contributo de todos os que escolhem dizer que Portugal é o seu lar. A língua, como a sociedade, vive e adapta-se, e é nessa adaptação que se encontra a força para o futuro do país.
A ideia de um “Portugal puro” é um mito. A sobrevivência e a vitalidade do país dependem do contributo de todos aqueles que escolhem viver, trabalhar e constituir família em solo português, independentemente da origem ou da variante linguística que utilizem. Respeitando as regras.
22 de Maio de 2026. Sinto-me cansado. Demasiado calor para um dia de Maio. As alterações climáticas são mais que evidentes e os donos do mundo desvalorizam-nas em prol do lucro egoísta e inconsequente já que restringe a possibilidade de sobrevivência das novas gerações. Nunca, como agora, se torna necessário ponderarmos, bem, o sentido dos nossos votos mesmo que em países democráticos assumidos, mesmo que não "praticantes".

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