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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Presidente dos Pioneiros acusa o município de estar a fazer um bloqueio financeiro ao clube e Hernâni Dias refuta a afirmação

 Ricardo Pires, presidente dos Pioneiros, acusa o município de Bragança de estar a fazer um bloqueio financeiro ao clube. Já o presidente da autarquia, Hernâni Dias, nega as acusações e explica que sem o relatório de actividades aprovado e a dívida saldada a autarquia não pode proceder ao pagamento da verba estabelecida no contrato de desenvolvimento desportivo.
Os Pioneiros de Bragança atravessam dias difíceis e a situação financeira do clube agravou-se.

Segundo o presidente do emblema brigantino, Ricardo Pires, já não há recursos “para pagar despesas como água ou luz”, o clube foi mesmo “despejado das instalações onde funcionava a academia” e até “as carrinhas estão paradas por falta de pagamento do imposto de circulação”.

Os Pioneiros não recebem o apoio mensal da autarquia de Bragança desde o passado mês de Fevereiro, pelo facto de o clube ainda não ter liquidado uma dívida com o município relativa à utilização do Pavilhão Municipal. 

Entretanto, foi chumbado o relatório final de actividades o que também não permite receber a verba que lhe estava destinada. “A mesma estrutura do modelo do relatório final de actividades que tem sido usado este ao foi definido que, de acordo com algumas leis, não cumpria o disposto nessas cláusulas. Isso mostra muito daquilo que é a intenção do município e as dificuldades que nos estão a criar”.  

Para Ricardo Pires há “um bloqueio financeiro” por parte do Município de Bragança aos Pioneiros. “Não nos restam dúvidas das intenções do município relativamente ao futuro do clube. Esta é a passagem mais triste da história dos Pioneiros e muita gente vai ficar associada a isso. Nós, claro, também temos essa responsabilidade”. 

Já o presidente da Câmara Municipal de Bragança, Hernâni Dias, garante que não há qualquer bloqueio financeiro. “O Município de Bragança não está a fazer nenhum bloqueio financeiro mas a exigir dos Pioneiros o integral cumprimento das suas obrigações para com esta instituição, tal como fazemos com as restantes entidades beneficiárias do apoio municipal”.

Segundo o autarca foi assinado, no passado dia 24 de Fevereiro, um contrato de desenvolvimento desportivo com os Pioneiros no valor de 17.724,59 euros a pagar em várias prestações. 

O mesmo documento exige a entrega de relatórios da actividade do clube, mas de acordo com Hernâni Dias o último não estava devidamente preenchido. “A direcção dos Pioneiros foi informada da necessidade de rever o relatório, completá-lo e apresentar uma nova versão para análise e aprovação. Tinham que ser retiradas as referências à época 2018/290129 uma vez que o relatório não era relativo a essa temporada. Entretanto, não foi apresentada uma nova versão. Eu tive uma reunião presencial com o presidente dos Pioneiros e alguns elementos da direcção para lhe dar conta daquilo que estava em causa”.  

O presidente do município esclarece que sem o relatório aprovado e a dívida saldada, que ronda os 5800 euros, a autarquia “não pode proceder ao pagamento da verba”.

Hernâni Dias frisa que o município tem apoiado todas as colectividades desportivas do concelho e que até mesmo na fase de confinamento “a câmara municipal não deixou de apoiar os clubes”. “Só não aconteceu com os Pioneiros porque o seu presidente entendeu que não deveria cumprir aquilo que está no contrato programa de desenvolvimento desportivo”, acrescentou o autarca. 

O presidente brigantino diz estar preocupado com a situação financeira dos Pioneiros mas garante que esta não foi causada pelo município. “Eu até compreendo que o senhor presidente da direcção dos Pioneiros de Bragança esteja preocupado com a situação financeira do clube, mas ele não pode responsabilizar o município pelos seus actos de gestão. Posso dizer, por exemplo, que, só este ano, o clube acumulou uma dívida na Federação Portuguesa de Futebol de mais de 13 mil euros só de multas. O que significa que não houve, de facto, uma preocupação de fazer uma gestão compatível com as exigências do clube”. 

Também a nível desportivo o panorama não é favorável aos Pioneiros de Bragança, já que o clube não vai competir em seniores nem nos escalões de formação devido à falta de meios financeiros.

Jornalista: Susana Madureira

Vinho e azeite sobre seda (e o Douro)

 É conhecida como “vila manuelina” e está em território agreste e remoto, a planar nas arribas do Douro. Freixo de Espada à Cinta está a caminho de nenhures, mas com vontade de ser um destino: a geografia deu-lhe história convulsa, beleza natural e vida dura - um território único.
Maria Júlia Martins, 69 anos, é quem supervisiona o trabalho no Museu da Seda e do Território. Já perdeu a conta às vezes que ensinou a arte da sericultura

Maria Júlia Martins já quase perdeu a conta às vezes que foi chamada pela autarquia para ensinar a arte da sericultura e da tecelagem de seda. Aos 69 anos, já reformada e depois de uma operação devido a uma ruptura nos tendões, “por causa do tear”, está uma vez mais a supervisionar o trabalho no Museu da Seda e do Território (2015). “Nem todos fizeram curso, mas muita gente aqui na vila sabe a arte”, conta. Na sua família até havia tradição, mas ela não a seguiu. “Ia para a geira. Dos 14 aos 37 anos trabalhei no campo.” E, então, aos 37 anos entrou “para esta casa” e ficou sempre com um pé dentro. Tem muito orgulho no que faz. “É muito bonita a nossa seda”, exclama, “no nosso país este é o único sítio onde se faz como se fazia no século XVII. Nada de máquinas.”
Neste canto do país encostado a Espanha, a caminho de nenhures, como ouviremos repetidas vezes, a cultura da seda - a sua produção e tecelagem - manteve-se um anacronismo que desde alguns anos é cabeça-de-cartaz: Freixo de Espada à Cinta apresenta-se como “Terras de Seda”, parte de um esforço para recuperar uma actividade tradicional que está imbricada na história do concelho e que, reivindicam, se mantém como a única artesanal na Península Ibérica. Nos últimos 40 anos, duas associações tentaram manter vivo o ofício, mas a última extinguiu-se em 2019 e o município decidiu assumir a gestão da seda.
Maria Júlia começou com uma formação, ainda nos anos de 1980, e com ela Júlia Brás, 58 anos. “Comecei de solteira”, recorda, e “havia mais gente a fazer”. “Quando o artesanato [Associação para o Estudo, Defesa e Promoção do Artesanato] fechou, muitas venderam os teares. Fiquei só eu e a [Maria] Júlia.” “Isto é pouco rentável”, nota Maria Júlia, “aqui, estamos a recibos verdes, mas pode acabar”. “Logo no primeiro curso, se tivessem deixado três ou quatro efectivos podíamos ter uma indústria boa”, lamenta. Em 2018, foi promovida a mais recente formação, um curso profissional, e agora são oito as mulheres a trabalhar, sendo as duas Júlias as mais experientes no museu, onde todo o ciclo da seda se pode observar - ao vivo. Desde os bichosda-seda, dispostos em tabuleiros amplos margeados por arçã ou rosmaninho, com abundantes folhas de amoreira, (alguns já são casulos, brancos, “os melhores”, ou amarelos) às várias fases da preparação da seda, terminando no trabalho no tear.
É no tear, concentrada, numa sala envidraçada do primeiro andar, que está Júlia. Está a trabalhar algodão, por isso o toque “é forte”. Quando trabalha a seda, “muito fina”, o toque dos teares é feito “com carinho, devagarinho”, explica. “Se não for bem feito, fica solto.” Nesta sala, mais tranquila que a oficina do rés-do-chão onde toda preparação da seda se faz, tem a companhia de Otilde, e Elodie (“do curso, fui a mais nova a ficar, muitas não queriam” - tem 30 anos), que trabalham “maranhos” - “seda de segunda”, mais grossa, resultado de casulos rompidos, como nos explicara Maria Júlia - “para as franjas duma bolsa”. As incursões pelo tear ainda são tímidas - mas esse é o objectivo.
Júlia também passou pelo ritual. “Não sabia nada, iniciei a fiar e fui aprendendo.” Um dia, pediram voluntárias para trabalhar no tear.
“Eu fui.” E foi ficando; agora faz uma toalha em três semanas. Toalhas, carteiras, porta-moedas, porta-chaves, écharpes fazem parte da oferta na loja do museu - “antes só trabalhávamos por encomenda, agora fazemos, as pessoas vêm e compram”, assinala Maria Júlia -, onde se percorre a história da sericultura, que caminha paralela à da região.
Foi no final do século XVIII que a produção da seda atingiu o seu apogeu em Freixo de Espada à Cinta, território de fronteira com pergaminhos na defesa do país, que tem na sua natureza agreste a sua bênção e a sua maldição: belo de ver, difícil de trabalhar. Em pleno Parque Natural do Douro Internacional e região demarcada do Douro (a adega cooperativa local, Montes Ermos, tem como slogan “O Douro começa aqui”), este concelho é predominantemente rural e a vinha e o olival dividem o protagonismo - “não há mais olival porque não é valorizado”, opinam (e o amendoal parece estar a regressar, pelo menos atendendo às novas plantações que se avistam). Entre vinhos (e os brancos são especiais), azeites, cervejas e algo mais, percorremos as estradas sinuosas deste canto do Douro Superior.
Heranças e sonhos vínicos
Quando a mãe de Manuel Gomes Mota nasceu, em Lisboa, o avô levou um bocado de terra de Freixo de Espada à Cinta para a maternidade.
É um “apelo telúrico”, reflecte, que manteve a família ligada à vila mesmo já não vivendo aqui há três gerações, desde que esse avô, precisamente, deixou Freixo de Espada à Cinta para ingressar na Marinha. A família passou a vir apenas nas férias, na quinta dos avós. Não é essa a quinta onde estamos hoje, mas ambas faziam parte do conjunto de quintas que o trisavô de Manuel, José Junqueiro Júnior, pai do poeta Guerra Junqueiro, comprou em Freixo em meados do século XIX.
Na Quinta de Maritávora faz-se vinho há 150 anos e há uma vinha velha, “icónica”, de 1890, que fascinou o enólogo da quinta, Jorge Serôdio Borges. É uma vinha velha branca, “uma raridade”, de onde agora sai o Maritávora Grande Reserva Branco: “Acho que tem a ver com o facto de terem sido mulheres a tomar conta da quinta desde a minha bisavó”, brinca Manuel, “as mulheres sempre preferiram o vinho do Porto branco, por isso não a arrancaram”.
E vinho do Porto era o produto da Maritávora, que o vendeu sempre à Cockburn’s e à adega cooperativa.
Até que, em 2003, Manuel, que mantém a sua actividade profissional em Lisboa (é gestor), tomou as rédeas e fez uma “mudança radical”: decidiu começar a fazer o seu próprio vinho, DOC, e reactivou a adega, a que gosta de chamar a “adega mais pequena do Douro”.
O edifício branco está agora rente à estrada, que daí a umas poucas centenas de metros desagua na vila e guarda história. A sala dos lagares (onde a pisa continua a ser feita a pé) ainda mantém os originais; as pedras das paredes estão assinadas - “Eram do castelo, de certeza. As casas antigas por aqui têm-nas”. Guarda também uma cautionary tale: Manuel aponta o tecto, novíssimo - em 2012 decidiu fazer uma cuba de inox (“às vezes terminamos a fermentação lá”) à medida; quando esta chegou não passava pela porta. “Tive de desfazer o telhado para a instalar e mantive a cor diferente para me lembrar da burrice”, diz.
À espera de restauro estão alguns edifícios de pedra que espreitam na propriedade. Vão ser convertidos em unidades de alojamento, uma aposta no enoturismo, que terá como porta de entrada uma loja de vinhos com sala para provas orientadas. Porque, acredita Manuel, o vinho, como prática cultural que é, tem de ser explicado,
“como as gravuras de Foz Côa”.
“O vinho é expressão de tudo o que temos aqui, é necessário prová-lo com enquadramento”, defende. As castas, por exemplo, são “uma prática cultural” e aqui “resultam da tradição
de séculos”, que emprestam aos vinhos “uma personalidade muito própria”.
Na Quinta Maritávora essa é a filosofia. Na vinha velha, onde permanecem três oliveiras, a lembrar o tempo em que eram aqui culturas complementares, e a tradicional bordadura de amendoeiras, mantêm-se, por exemplo, 15 castas, Códega de Larinho à cabeça, a casta “nativa” de Freixo que esteve quase extinta, e Rabigato, por exemplo. Nos tintos, não foge às “três principais do Douro”, a Touriga Nacional, a Tinta Roriz e a Touriga Franca, “o trio maravilha”, avalia.
E, para tentar que os vinhos “sejam mesmo resultado de onde vieram”, em 2009 fez a transição para a agricultura biológica. Tem, admite, “outro tipo de mercado, com menos concorrência”. Mas é, sobretudo, mais sustentável, defende. “Eu herdei uma vinha com 130 anos porque só durante 20 ou 30 não foi biológica”, sustenta, “se a quero deixar para os Meus filhos tem de ser assim”.

Andreia Marques Pereira (texto) e Paulo Pimenta ( fotos)

Trânsito condicionado no castelo entre quinta-feira e sábado

 A câmara municipal de Bragança informa que durante a preparação para o acolhimento da Gala Final da Declaração Oficial das 7 Maravilhas da Cultura Popular em Bragança, que se realizará a 5 de setembro (sábado), o trânsito junto ao Castelo estará temporariamente condicionado.

𝗦𝗜𝗧𝗨𝗔𝗖̧𝗔̃𝗢 𝗔: 𝟯 > 𝟱 𝗗𝗘 𝗦𝗘𝗧𝗘𝗠𝗕𝗥𝗢 (𝗤𝗨𝗜𝗡𝗧𝗔-𝗙𝗘𝗜𝗥𝗔 𝗔 𝗦𝗔́𝗕𝗔𝗗𝗢)

O acesso à Cidadela de Bragança estará proibido para qualquer tipo de veículo motorizado, à exceção de comerciantes locais e moradores, que deverão aceder ao local, exclusivamente, pela Rua Dom Fernão “O Bravo”. Nessa via, o trânsito circulará nos dois sentidos, sendo a circulação regulada por semáforos temporários. Os turistas e visitantes poderão deslocar-se à cidadela sem constrangimentos, mas apenas por via pedonal.

𝗦𝗜𝗧𝗨𝗔𝗖̧𝗔̃𝗢 𝗕: 𝟰 > 𝟱 𝗗𝗘 𝗦𝗘𝗧𝗘𝗠𝗕𝗥𝗢 (𝗦𝗘𝗫𝗧𝗔-𝗙𝗘𝗜𝗥𝗔 𝗘 𝗦𝗔́𝗕𝗔𝗗𝗢)

No Castelo de Bragança, onde decorrerá a Gala Final das 7 Maravilhas, o trânsito será proibido, sem exceções, entre as 19h00 e as 00h30, de dia 4, e entre as 14h00 e as 00h30, de dia 5, para ensaios e transmissão da Gala. Durante esse período, o acesso à cidadela deverá ser feito apenas por via pedonal.

A zona envolvente ao Largo do Castelo, local onde decorrerá a gala, será, a todo o momento, restrita à organização das 7 Maravilhas.

Importa salientar que o Museu Militar estará encerrado nos dias 5 e 6 de setembro, para montagem de grande parte da logística associada ao evento.


Muito Obrigado à C.M.B. Bragança ficou mais bonita

SENHORA DA ASSUNÇÃO

Por: José Mário Leite
(colaborador do Memórias...e outras coisas...) 

No verão, muito mais do que no inverno, chegam saudades da Terra Quente Transmontana. Este ano, por causa da Covid, são maiores, compreensivelmente, por ter feito muito menos visitas. A receita é clássica e tem já vários anos: aproveito os momentos de lazer para ler os bons autores do nordeste. João de Sá é um dos eleitos. 

A prosa do escritor vilaflorense é de leitura muito agradável e muito poética. A minuciosa descrição da paisagem, dos edifícios e dos vários intervenientes está recheada de metáforas e de várias considerações pessoais emocionadas e de enorme sensibilidade. Não lhe conheço (ainda) a obra toda mas as “Últimas Memórias” é, sem dúvida, das que li, a mais elaborada e envolvente. São variados os quadros vivos que desfilam pela pena do autor remetendo-nos para as suas lembranças de Vila Flor, desde a meninice até há poucos anos atrás, com uma sensibilidade realista, transportando-nos para o passado recente de muita gente da vila da Flor de Lis. Leio-o e sinto, inevitavelmente, nas minhas costas a presença do anterior autarca de Vila Flor, Artur Guilherme Vaz Pimentel, sussurrando-me ao ouvido: “Ó engenheiro, ora leia, ora leia... Isto é tão lindo!”. Foi ele que me deu a conhecer o poeta e narrador João de Sá, com os seus elogiosos e contagiantes comentários. O escritor faz-lhe justa homenagem, nas suas memórias, enaltecendo o genuíno e empenhado labor do saudoso Presidente da Câmara em prol da cultura. Porque esta, como muito bem refere, não se inventa nem se compra; vive-se e partilha-se. A memória de hoje versou a grandiosa romaria da Senhora da Assunção. Lembrei-me, a propósito, do livro “A Romaria do Cabeço” escrito pelo meu tio padre Joaquim da Assunção Leite, igualmente com o patrocínio da autarquia de Vila Flor. Complementam-se. O padre Leite relata-nos a participação na festividade, pelo lado de dentro, pelos olhos dos devotos e romeiros, enquanto João de Sá nos retrata a vila que, na véspera, saía à rua para ver a alegre, festiva e ruidosa chegada dos ranchos de populares, na madrugada seguinte assomava às janelas para lhes observar o cansado regresso e que, no próprio dia, ficava deserta pois todos os moradores, com raríssimas exceções, a 15 de agosto, rumavam ao monte sobranceiro a Vilas-Boas para homenagear a Virgem Maria. 

Por razões que não vale a pena esclarecer, conheço bem esta segunda visão. Durante muitos anos vi, nesse festivo dia, despovoar-se completamente a minha aldeia. A povoação acordava depois, languidamente e cansada, ao som das cornetas de plástico que os mais novos insistentemente tocavam, sem parar. 

Em conversa recente, com o meu tio, soube da apreensão com que este ano se preparou a festividade. Soube, posteriormente, dos cuidados e das enormes restrições com que, apesar de tudo, se realizou a mais importante romaria transmontana. A Covid veio fazer a súmula dos dois textos, sem poesia, sem qualquer consideração pela fé do povo, sem qualquer pingo de humanidade. 

Sinais dos tempos.

José Mário Leite
, Nasceu na Junqueira da Vilariça, Torre de Moncorvo, estudou em Bragança e no Porto e casou em Brunhoso, Mogadouro.

Colaborador regular de jornais e revistas do nordeste, (Voz do Nordeste, Mensageiro de Bragança, MAS, Nordeste e CEPIHS) publicou Cravo na Boca (Teatro), Pedra Flor (Poesia) e A Morte de Germano Trancoso (Romance) tendo sido coautor nas seguintes antologias; Terra de Duas Línguas I e II; 40 Poetas Transmontanos de Hoje; Liderança, Desenvolvimento Empresarial; Gestão de Talentos (a editar brevemente).
Foi Administrador Delegado da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana, vereador na Câmara e Presidente da Assembleia Municipal de Torre de Moncorvo.
Foi vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
É Diretor-Adjunto na Fundação Calouste Gulbenkian, Gestor de Ciência e Consultor do Conselho de Administração na Fundação Champalimaud.
É membro da Direção do PEN Clube Português.

Nós Transmontanos, Sefarditas e Marranos: OS LEDESMA – FAMÍLIA E MOBILIDADE: JUDAIZAR NOS CÁRCERES DA INQUISIÇÃO

 

Nasceu em Ponte de Lima por 1481. Ignoramos o nome judeu que os pais lhe deram e que ficaria escrito nos livros da sinagoga. Terá sido batizada pela Páscoa de 1497, no cumprimento da ordem do rei D. Manuel, recebendo o nome cristão de Isabel Dias. Em 11.6.1556, sendo já viúva e moradora em Braga, foi presa pela inquisição de Lisboa, acusada de ser “judia rabina e muito sabida nas coisas da lei de Moisés”.(1)

Muitos cristãos-novos de Braga ficaram assustados com a sua prisão, pois que Isabel era mesmo “rabina” que “ensinava coisas dos judeus a todos os cristãos-novos entre Douro e Minho” e que, sendo parteira, “tinha circuncidado muitas infindas crianças”.

Defendeu-se bastante bem das acusações que lhe faziam dizendo que era mulher de 75 anos, que, efetivamente andou errada na fé, mas que abjurava dos erros passados e prometia ser boa cristã. Saiu no auto-da-fé celebrado em 27.2.1557.

Como de costume, ficou no cárcere da penitência, frequentando o colégio da doutrina da fé, para ser bem instruída na doutrina cristã. Foi um alívio para a “nação” de Braga onde, a notícia do auto foi levada por Gaspar Oliveira, “que estivera presente no auto passado e levara a nova a Braga, como Isabel Dias sua sogra não culpara ninguém”. E Gaspar Lopes, falando com Gaspar de Ceia, ourives de Braga, faria um comentário bem elogioso, dizendo:

— Isabel Dias merecia muito porque, podendo falar de muitas pessoas, não falara senão naquelas que a acusaram, que eles estavam em Braga mais cagados que lavados, pelo temor que tinham da dita Isabel e João Gomes dizerem deles.(2)

Em vez de fazer penitência pelos pecados que os senhores inquisidores lhe tinham perdoado, Isabel andava pelo cárcere a doutrinar companheiros e companheiras, ensinando-lhes orações, dizendo-lhe as datas em que caíam os jejuns judaicos e avivando-lhes a fé na lei de Moisés. E nesta missão doutrinadora, Isabel tinha muitos aderentes, a fazer fé na seguinte declaração de Pero Fernandes, solicitador, que andava pelos cárceres a espreitar:

— O dito Pero Fernandes, de Braga, louvando uma Isabel Dias, que era mulher discreta e avisada e que nunca dela puderam (os inquisidores) tirar nada, por mais apertos que lhe fizessem, porque pudera ele dizer muito, porque mais era ensinar e fazer, e então começou a nomear Fulano e Fulano e (…) outros muitos até 17 pessoas, dizendo isto como que sabia ela Isabel Dias destas pessoas segundo as práticas que tinham e que lhe ouviu dizer mais que Isabel Dias tivera cá muita aderência.(3) 

Naturalmente que o proselitismo de Isabel Dias deu nas vistas e os inquisidores decretaram o seu regresso à prisão. E Isabel decidiu proclamar abertamente a sua crença na lei de Moisés. Assim, no dia 12 de Março de 1558, Isabel Dias apresentou-se perante os “senhores inquisidores, deputados e bispo do Algarve”. Perguntada como se chamava, respondeu que seu nome era “Donoyro porque as judias depois que tinham filhas casadas, tinham sobrenome”. Convidada a colocar a mão sobre a Bíblia, cuja capa ostentava uma cruz, respondeu “que tirassem dali aquela cruz, se queriam que ela jurasse”. Tiraram a Bíblia e ela jurou sim, mas “por Deus todo-poderoso que fez o céu e a terra e nunca quis pôr a mão sobre o livro dos Evangelhos”. Perguntaram-lhe se sabia o Credo e ela respondeu:

— Creio em Deus Todo-Poderoso, que fez o céu e a terra – E que não podia dizer mais.(4) 

Antes contou que, em vez do Credo, rezava com as companheiras o “Shemah Israel” e outras orações que ela “rezava em hebraico e as tornava em português para que elas entendessem”. Perguntou-lhe o inquisidor Jerónimo de Azambuja, a razão por que decidira revogar as confissões que tinha feito e afirmar-se judia. Respondeu:

— Porque Nosso Senhor, Rei celestial, a movera a vir desdizer as falsidades que tinha falado contra a Sua Majestade! Disse que cria no Deus de Abraão, de Isaac, Jacob, Moisés, Aarão, David, Salomão e dos santos profetas (…) Que esperava ainda que Nosso Senhor vai mandar o Messias a livrar os filhos de Israel donde estão cativos.(5)

Referiu depois muitas situações de práticas judaicas, no seu ofício de parteira que chegou a ir de Braga a Matosinhos a catequizar uma Catarina Vaz, que também estava no cárcere. Apenas um episódio muito significativo do amor à cultura e aos livros, por parte de Isabel e dos judeus, em geral. Disse que Grácia Pires, de Viana do Castelo, também companheira no cárcere, lhe falou de um livro que lhe deram “que tratava de toda a lei do Senhor” e que seu irmão Francisco Álvares, com medo que lhe apanhassem o livro e o prendessem, o lançou ao rio e que, a partir daí “só lhe vieram infortúnios”.

Escusado será dizer que Isabel Dias foi queimada no auto-da-fé celebrado em Lisboa em 15.5.1558, contando 77 anos de idade. Morreu porque quis afirmar-se “judia rabina e muito sabida nas coisas da lei de Moisés”. O seu nome bem merece ser inscrito entre os mártires do judaísmo.

Voltemos aos cárceres da inquisição de Coimbra, onde então se encontravam muitos “judeus” Trasmontanos, nossos conhecidos. Em particular 3 mulheres que, de algum modo, se relacionaram com a Bracarense Isabel Dias. Veja-se esta apresentação de uma delas, feita pela própria Donoyro:

— No tempo em que esteve nestes cárceres, antes de ir para o colégio, esteve presa com Isabel Lopes, de Torre de Moncorvo, mulher de João da Trindade; e praticando ambas, Isabel Lopes disse que dava graças a Nosso Senhor porque a pusera em companhia dela, Isabel Dias, para a alumiar, porque ela, Isabel Lopes não sabia coisa alguma destas, porquanto tivera dois maridos que não sabiam nada destas coisas, nem seu pai nem sua mãe lhe ensinaram; mas pedira a Isabel Lopes que não dissesse que a ensinara.(6)

Beatriz Lopes foi outra das suas companheiras de cárcere e aparece referida por Isabel Dias nos seguintes termos:

— E assim disse Beatriz Lopes, de Vila Flor, que era verdade o que ela declarante dizia do Messias, e que esperava por ele, ela Beatriz Lopes e que a lei do Senhor era boa e a cantava.(7)

Ignoramos também o nome que os pais lhe deram quando nasceu em Vila Flor, cerca de 1492. Seria “batizada em pé” na Páscoa de 1497, recebendo então o nome de Beatriz Lopes. Os pais, esses faleceram judeus, segundo o testemunho de Beatriz. Opinião diferente tinha a sua conterrânea e companheira de prisão, Ana Gonçalves, dizendo que seu pai “casara suas filhas fora, sendo rabi dos judeus”, em Vila Flor.(8)

Na verdade, Beatriz Lopes foi casar em Bragança, com um criado (escudeiro) do alcaide Lopo de Sousa,(9) chamado Rui Lopes.

Maria Álvares foi outra companheira de Isabel Dias nos cárceres da inquisição, e que a denunciou perante os inquisidores, na forma seguinte:

— Disse que, no colégio jejuou com Maria Álvares o Tisabeth, que tem dito no começo, não comendo senão à noite e disse que se aparecera o Senhor naquele dia, e outras coisas, de quando em quando, como era dizer que andava em penitência em aflição.(10)

Do libelo apresentado pelo promotor de justiça, retiramos a acusação relacionada com Isabel Dias:

— Além das culpas atrás, sobre que estava já riziado, acresceu à ré agora a culpa de Isabel Dias, de Braga, que diz que cantava diante dela (Maria Álvares) coisas de judia, e ele ré folgava e chorava, que é grande sinal de quem tem ainda lembrança daquelas coisas. E diz mais a testemunha que lhe dizia a ré que o Messias havia de vir e que a havia de livrar…(11)

Notas:

1 - Inq. Lisboa, pº 1330, de Isabel Dias.

2 - Pº 1330-L, tif 111.

3 - Idem, tif 107. Se, porventura, pode dizer-se que as celas da inquisição eram fábrica de judeus, o caso de Isabel Dias é verdadeiramente exemplar.

4 - Idem, tif 130.

5 - Idem, ttif. 134-135.

6 - Idem, tif 153. Ver: ANDRADE e GUIMARÃES, Isabel Lopes a estalajadeira de Torre de Moncorvo que esperava a vinda do Messias, in: Terra Quente, de 15.2 2007; IDEM, Nós Trasmontanos, Sefarditas e Marranos, Isabel Lopes (c.1503-depois de 1585), in: Nordeste n.º 1075, de 20.6.2017.

7 - Idem, tif 141.

8 - Inq. Lisboa, pº 13299, de Beatriz Lopes, tif 96.

9 - Lopo de Sousa (1501-1564), alcaide-mor de Bragança, era filho de Pedro de Sousa, da descendência do rei D. Afonso III e de Maria Pinheira, filha de Pedro Esteves Cogomilho, ouvidor da Casa de Bragança, tido como descendente de judeus. Em 1503, Lopo de Sousa era proprietário do edifício que fora sinagoga dos judeus de Bragança, a qual vendeu naquele ano à câmara de Bragança, para servir de cadeia. Ver: ALVES, Francisco Manuel, Memórias Arqueológico Históricas do Distrito de Bragança.

10 - Pº 1330-L, tif 146. Tisabeth será o Tishá B’Av, o 9.º dia do mês de Av, o dia de luto mais pesado e rígido entre os judeus, o culminar de um período de 3 semanas de introspeção e penitência, expiando os pecados e lamentando os 5 acontecimentos mais terríveis da história do povo judeu como foram a destruição do Templo de Jerusalém pelos Babilónios e depois pelos Romanos. É tempo de abstinência e expiação, não devendo comer-se carne ou beber vinho, vestir roupas lavadas e tomar banho. Devem também evitar-se as atividades agradáveis e promotoras de explosões de alegria. É também ocasião de ler o Livro de Job e das Lamentações, não outros, nem mesmo da Torah.

11 - Inq. Lisboa, pº 2893, de Maria Álvares, tif 155.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães

Autarquia atribui apoios de 85 mil euros a associações culturais e desportivas

 Cerca de 73 mil euros terão como destinatários associações que prestam trabalho relevante na área da cultura e do apoio social.
A Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros decidiu atribuir apoios financeiros a várias entidades associativas do concelho, num total que ronda os 85 mil euros.

Cerca de 73 mil euros terão como destinatários associações que prestam trabalho relevante na área da cultura e do apoio social, como são os casos da Associação Caretos de Podence, da Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados ou da Associação Recreativa e Cultural dos Pauliteiros de Salselas. Também a Associação Desportiva e Recreativa das Arcas, a Associação Cultural e Recreativa de Murçós, a Associação de Diabéticos do Distrito de Bragança, a Associação Desportiva e Recreativa da Bela Vista, o Grupo Cultural e Recreativo da Casa do Povo de Macedo de Cavaleiros, a Associação “Os amigos do Museu Rural de Salselas”, a Associação Cultural e Recreativa de Vale da Porca, a Associação Filarmónica e Recreativa do Brinço e a Associação Banda 25 de Março vão receber apoios por parte da autarquia.

Na área do desporto, a autarquia vai disponibilizar uma verba total de 12 mil euros, para associações que atuam em modalidades ligadas sobretudo ao desporto aventura, mas também ao ciclismo. São os casos do Clube de Ciclismo de Macedo de Cavaleiros, da Associação Juvenil de Melhoramentos de Vilar do Monte, da BôAr Parapente, do Clube Mototurístico de Macedo de Cavaleiros e do Clube Azibo Aventura.

Os valores afetados destinam-se a diversos fins, entre os quais a execução de obras, realização de eventos de reconhecido interesse para Macedo de Cavaleiros ou apoiar atividades de natureza social, cultural educativa, desportiva e promoção das potencialidades do território, ações essas que têm sido desempenhadas pela Confraria do Mel e pela Confraria do Javali com assinalável exito. “O movimento associativo impulsiona o desenvolvimento de vários setores da nossa vida social e é um elemento afetivo na consolidação do sentimento de pertença e de identificação com o território, pelo que, dentro das nossas possibilidades financeiras, nunca deixaremos de apoiar as associações que com o seu dinamismo prestam um serviço relevante à comunidade”, considera Benjamim Rodrigues, presidente da Câmara Municipal.

Novo diretor do Teatro Municipal de Bragança quer ouvir as pessoas e as instituições

 

O diretor do Teatro Municipal de Bragança (TMB), João Cristiano Cunha, quer que a comunidade sinta que esta sala é delas, com uma aposta num serviço educativo que ausculte as instituições e as pessoas que estão no terreno.

João Cristiano Cunha chegou em janeiro ao TMB e, imediatamente a seguir, tudo o que tinha pensado caiu devido à pandemia da covid-19. Em entrevista à Lusa, não esconde que “houve uma ponta de frustração”, mas os tempos foram de “aprendizagem” e preparação do regresso a cena.

A nova temporada abre no próximo sábado com as limitações impostas pela pandemia, mas o diretor, está “bastante confiante de que o Teatro Municipal de Bragança vai receber mais público e conseguir convocar mais pessoas da cidade e fazer com que as pessoas sintam que o teatro é delas, (que) esta casa é das pessoas e é para as pessoas”.

João Cristiano Cunha, professor de educação estética e artística, tem para o TMB, como “grande objetivo, a fidelização de públicos, a criação de novos públicos e o reforço inequívoco de um serviço educativo que ausculte as instituições e as pessoas que estão no terreno”.

“Mais do que impormos espetáculos, devemos ouvir o que as pessoas querem, obviamente com a qualidade sempre como chancela, como denominador comum porque há coisas que não fazem sentido num teatro municipal desta envergadura”, defendeu, em entrevista à Lusa.

Para o diretor “é impensável” fazer um arraial no Teatro ou alguns apontamentos de comédia que as pessoas pedem. Todavia, entende que não pode descurar, nem pôr completamente de parte o que o público quer.

“Não podemos é baixar a fasquia da qualidade”, vincou, destacando a vertente educativa que este espaço tem na formação de públicos.

“Nós não podemos gostar daquilo que não conhecemos, mas para conhecer tem que frequentar, tem que ver, tem que ouvir, tem que sentir e tem que lhe ser proporcionado”, reiterou.

O diretor quer “dialogar com as instituições, ouvir quem está no terreno, professores, educadores, as restantes pessoas de outras instituições e associações”, para programar em conjunto e de algum modo “ir ao encontro dos gostos e interesse dessas pessoas e daquilo que faz sentido, nos seus projetos educativos, e naquilo que faz sentido nos seus planos anuais de atividades”.

“Poderei ter cinco espetáculos para a infância, mas eu quero ouvir um representante de cada agrupamento de escolas dizer-me: se calhar isto faz mais sentido, tendo em conta o nosso projeto educativo; é importante ouvirmos”, concretizou à Lusa.

João Cristiano Cunha acredita que ouvindo, também consegue convocar “as pessoas a virem mais ao teatro e a trazerem os seus alunos que são os públicos de amanhã”.

Numa altura em que o interior de Portugal ganhou nova visibilidade com a procura turística pela segurança, o diretor quer que o Teatro Municipal de Bragança seja “uma mais-valia na promoção e projeção do próprio território, para as pessoas que ali vivem, mas também para quem visita a região.

“Esta questão de fruir a natureza e depois à noite vir ver um espetáculo de qualidade, se calhar é apelativo para as pessoas ficarem e, se calhar, passam mais uma noite nas unidades hoteleiras locais, e ficam mais um dia e visitam ainda mais umas aldeias”, considerou.

O Teatro Municipal de Bragança está encerrado há cerca de cinco meses, devido às medidas de contingência da pandemia da covid-19, e reabre no próximo sábado, com uma programação que preenche todos dos fins de semana, de setembro a dezembro.

Teatro Municipal de Bragança reabre para escape da rotina da pandemia

O Teatro Municipal de Bragança (TMB) reabre no próximo fim de semana com a expectativa de servir de escape em tempo de restrições e de que a pandemia leve mais gente à principal sala de espetáculos da cidade.

A programação de setembro a dezembro apresenta propostas de música e teatro e algumas estreias nacionais, com todos os fins de semana preenchidos, entre 05 de setembro e 19 de dezembro, e bilhetes entre seis e onze euros, com espetáculos gratuitos para a infância e adolescência.

“Não é pelos custos associados à bilheteira que os brigantinos não vêm ao teatro”, realçou à Lusa o diretor João Cristiano Cunha, convicto também de que a pandemia covid-19 não será também um obstáculo e até pode servir de incentivo à procura deste espaço cultural.

Para o diretor, “o medo que está instalado e esta instabilidade que estamos a viver pode ser até uma forma de incentivar as pessoas a virem ao teatro”.

“Nós precisamos de um escape porque estamos um bocadinho cansados desta rotina e do casa e do confinamento. Apelo às pessoas que podem vir, temos todas as condições de segurança e de higiene”, assegurou à Lusa.

A sala de 400 lugares ficará reduzida a 200, com planos sanitários para garantir segurança “no regresso à Cultura”, que o diretor do TMB entende como “importante também para o equilíbrio mental, para a nossa a saúde mental, para o nosso bem-estar emocional”.

A programação que abre a temporada 2020/2021 promete “companhias de primeira linha a preços bastante reduzidos”, com alguns reagendamento de espetáculos que a crise sanitária cancelou na época interrompida em março.

Os espetáculos arrancam fora de portas, sábado e domingo, com “Música na Paisagem” e quartetos de cordas e pianistas que estarão em diferentes locais da emblemática aldeia de Montesinho, incluindo debaixo de um castanheiro, a tocar Beethoven e Mozart.

“É fruir a música e a paisagem, aquilo que nós temos de melhor e, de algum modo, implicarmos as comunidades locais, quem nos visita, e abrindo a porta para o teatro, ir buscar o público lá fora”, explicou à Lusa.

Na sala do TMB estarão em cena, nos quatro meses, espetáculos como “Napoleão ou o complexo de épico”, com a companhia Chapitô, “Fake", de Inês Barahona e Miguel Fragata, produzida com o Teatro Nacional D. Maria II, e o projeto de espetáculo e oficina de formação do Teatro de Garagem com o Museu Nacional de Arte Antiga.

Bragança recebe a estreia nacional da comemoração do centenário da fadista portuguesa com o espetáculo “Amália no Mundo”, pela Tradisom, que integra uma exposição de capas de vinis do mundo inteiro, alguns inéditos, apresentação do livro e o concerto com Custódio Castelo, o único intérprete de guitarra portuguesa, vivo, que acompanhou a Amália.

A programação inclui também novo circo, com o espetáculo em corda bamba e arame “Asas d`Areia” do Teatro do Mar, sobre os refugiados na Grécia.

Na área da música, está prevista a viagem a um reino maravilhoso, dos Lavoisier, inspirados em Miguel Torga, a despedida de Bragança dos Dead Combo, no âmbito da digressão “Fim”, e atuações de The Gift, da fadista Carminho e de Rodrigo Leão, que fechará a temporada, em dezembro.

Há ainda um recital de ópera com Montserrat Martí Caballé, filha da conhecida soprano, que vai cantar áreas mais conhecidas e reconhecidas de óperas, usadas em múltiplos contextos, incluindo até de anúncios de televisão, e a comemoração dos 250 anos do nascimento de Beethoven, com a Orquestra das Beiras e um concerto comentado.

Outros espetáculos previstos são "Próspero", a partir de “A Tempestade”, de William Shakespeare, e “O Lago dos Caretos”, que se estreou no ano passado e que sobe ao palco em Bragança, quando se comemora um ano da elevação a Património da Humanidade dos Caretos de Podence.

O diretor do teatro municipal sublinhou que a programação teve sempre “como pilar a qualidade dos espetáculos, procurando uma abrangência cada vez maior, no sentido de criar novos públicos e [de os] fidelizar”.

Mas tem também “um reforço do serviço educativo”, pois, para o diretor, “um espaço cultural de excelência deve contemplar um serviço educativo que vá ao encontro de todas as faixas da sociedade, do pré-escolar até à idade maior”.

A agenda tem seis espetáculos de serviço educativo do pré-escolar e primeiro ciclo, um dos quais em estreia nacional ("Os Três Porquinhos").

Devido à imprevisibilidade da pandemia, não será possível adquirir bilhetes para toda a temporada como anteriormente, mas para dois meses, de cada vez, concretamente para setembro/outubro e novembro/dezembro.

Foto: António Pereira

Nota de Imprensa | Já foram submetidas as primeiras 10 candidaturas ao programa 1º direito em Alfândega da Fé

 Alfândega da Fé submeteu as primeiras 10 candidaturas para reabilitação de habitações no âmbito do programa 1º Direito. 

O Município identificou 140 situações habitacionais que reúnem os requisitos necessários para poderem aderir ao programa “1º direito”, sendo que a autarquia está a prestar apoio na submissão das candidaturas a este apoio.

FIM DE VERÃO A CHORAR POR VITELA NA SERRA E NOS CHÃOS

 
Não faltam no nosso território marcas de relação vital com o sagrado, esse espaço/tempo de pulsões, intuições, angústias e desesperos, mas também da esperança, da alegria, da festa que nos mantém cheios de vontade de viver.
Muitos dos santuários que ainda atraem multidões já eram lugares especiais de contacto indizível com o sobrenatural no período pré-cristão. Os santos de hoje herdaram funções de múltiplas divindades protectoras que os humanos não dispensaram ao longo de milénios, numa relação com o mundo carregada de espantos, inquietações e medos, que os levaram a acreditar na magia da proximidade com o divino, tranquilizadora mas sempre efémera, porque os amanhãs trazem sempre desagradáveis surpresas.
Nas romarias de fim de Verão há quem se prepare espiritualmente para enfrentar as incertezas do Inverno, mas também quem lá vá para dar largas à celebração da fartura do tempo das colheitas, na senda do velho Epicuro e do seu herdeiro literário, Horácio, porque, afinal, a vida é melhor vivê-la do que vê-la passar.
Mas este ano não haverá na Senhora da Serra o cheiro empolgante das pavias da terra quente, nem os figos que tornaram famoso um jovem de uma aldeia próxima da cidade, na década de quarenta do século passado, que mandou contar um cento e quando a vendedeira contou o último já ele tinha engolido os outros noventa e nove.
Também não haverá as tabernas, que serviam para alimentar os peregrinos durante a novena, mas se foram tornando verdadeiro chamariz para gente da cidade e arredores se ir encher de vitela, tenra ou nem por isso, antes de arriscar uma nota nas bancas de sorte ou de azar que, durante décadas, conviveram com missas e procissões, mesmo se ali se perderam pequenas fortunas, deixando almas geladas, tanto como ficavam os corpos dos incautos que subiam à serra à tarde sem contar com o frio cortante das noites.
Enquanto se vai a meio da novena na Serra, começa a dos Chãos, lugar de referência para o mercado de gado, ali levado das quatro partidas da terra fria, um plaino com santuário, ao fim da serra, onde continuaria a peregrinação dos palatos pelas carnes suculentas dos herbívoros do nosso contentamento.
Aos que descerem da serra restará lamentar-se por também ali não haver onde enterrar a dentuça, mas também pela falta das memórias dos jogos que a tradição trouxe até aos dias que vivemos, cada vez mais próximos do esquecimento, porque já ninguém se importa com as malhas do fito, o vinte, o lançamento dos calhaus ou do ferro, apesar dos que resistem e ainda costumam dar ares da sua graça.
Dos Chãos sobra o registo das deslocações dos lavradores e criadores, que calcorreavam caminhos para comprar e vender cabeças de gado. Havia quem saísse de casa à uma da madrugada para chegar ao recinto da feira pelas dez da manhã, a conduzir a cria. Depois, a viagem de volta significava outro tanto, porque os animais que permitiam a continuação da vida podiam não conhecer o caminho.
Este ano chora-se pela carne que faltou às festas. Em breve ninguém se lembrará sequer das festas de fim de Verão no território onde o perfil da Serra de Nogueira domina o horizonte.

Teófilo Vaz

Situações de perigo não apagam vontade dos bombeiros em ajudar o próximo

 Milhares de bombeiros, por todo o país, põe a vida em risco, sobretudo no verão, no combate aos incêndios. No distrito, o amor ao próximo e à profissão não fica por mãos alheias

Por esta altura, em 2015, os bombeiros de Mogadouro foram chamados para o combate a um incêndio em Castelo Branco, naquele concelho. Para Lúcia Mendes, da corporação mogadourense, o desfecho não foi o esperado. A bombeira voluntária, há cerca de 25 anos, ficou ferida com a explosão de uma botija de gás. Ao saltar para se proteger acabou por cair nas chamas. O filho, também ele bombeiro, e presente naquele incêndio, foi quem a ajudou. “Eu não ardi nem a farda ardeu. Foi a roupa que me queimou. Eu assei por dentro. A dor era tanta que já não sentia nada mas saí do INEM pelo meu próprio pé”.

Lúcia Mendes ficou com 80% do corpo queimado e esteve internada sete semanas no Centro Hospitalar Universitário de Coimbra e outras duas no Hospital de São João, no Porto. Chegou a estar em coma induzido porque, para além da gravidade das queimaduras, teve ainda problemas de estômago devido à medicação que estava a tomar. Pensar num amanhã melhor ajudou-a a sobreviver. “A que me agarrei? Em pensar que no dia seguinte tudo seria melhor. Tinha que sobreviver porque tenho filhos. Dou graças a Deus por ainda estar cá para contar”.

Em Agosto deste ano, um incêndio em Torre de Dona Chama, no concelho de Mirandela, também deixou João Carvalho, bombeiro de Bragança, com um história para contar. No combate ao fogo que consumia uma habitação, o bombeiro estava a tentar controlar as chamas e teve que se aproximar delas, tendo ficado com queimaduras nas pernas. "Temos que nos manter frios e tentar resolver a situação o melhor que pudermos, estando em segurança, mas, às vezes, não conseguimos controlar a força da natureza. Há uns anos, em Rabal, também estive numa situação um pouco perigosa mas tudo se resolveu com a força da equipa".


Apesar destas situações, João Carvalho, bombeiro há 15 anos, está a cumprir um sonho de criança com a profissão que escolheu. "Foi sempre a vontade de ajudar o próximo. Proporcionou-se entrar para os bombeiros. Inscrevi-me, fiz a escola e cá estou".

João Carvalho garante que nem estes episódios o fizeram desistir de nada e que tem cada vez mais vontade de continuar, ainda que na época de incêndios chegue a passar praticamente as 24 horas do dia nos bombeiros e no terreno.

A história de dois bombeiros do distrito de Bragança que, apesar das situações de perigo que já viveram, decidiram que virar costas à profissão não era sequer uma possibilidade.

Escrito por Brigantia

Número de acidentes com vítimas cai no distrito

 A Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária divulgou o relatório de sinistralidade e fiscalização rodoviária relativo aos primeiros sete meses de 2020.
O mês de Julho foi o que apresentou o maior número de vítimas mortais e de feridos graves. Morreram 49 pessoas nas estradas portuguesas, mais 48,5% em relação ao mesmo mês de 2019, quando morreram 33, e 212 pessoas sofreram ferimentos graves, número semelhante ao do ano passado.

Já os acidentes rodoviários diminuíram 17% em Julho face ao mesmo mês de 2019, tendo ocorrido 2.696 desastres, contra os 3.254 registados no ano passado.

Entre Janeiro e Julho do presente ano registaram-se 14.217 acidentes no país, dos quais resultaram 216 vítimas mortais ocorridas no local ou durante o transporte até à unidade de saúde. Há ainda a acrescentar 991 feridos graves e 16.493 feridos leves. No entanto, comparativamente ao mesmo período de 2019 observou-se uma melhoria na sinistralidade rodoviária com menos 43 mortes e menos 269 feridos graves.

A colisão foi a natureza de acidente mais frequente, apesar do maior número de vítimas mortais ter resultado de despistes.

Quanto ao tipo de via, a maioria dos acidentes com vítimas ocorreram em arruamentos e o maior decréscimo de vítimas mortais registou-se nas estradas nacionais (-13) e o de feridos graves em arruamentos (-157) face ao mesmo período de 2019.

Em 2019, de Janeiro a Julho, o distrito de Bragança registou 235 acidentes com vítimas e no mesmo período de 2020, 140. Em 2019 lamentaram-se cinco vítimas mortais e em 2020, três.

No distrito de Vila Real, em 2019 ocorreram 344 acidentes com vítimas, contra 271 de 2020. Também no que toca a vítimas mortais foram registadas cinco em 2019 e três em 2020.

Escrito por Onda Livre (CIR)

Bombeiros Voluntários de Bragança modernizam com nova imagem institucional

 A Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Bragança tem uma nova imagem institucional.
Inovar e modernizar o símbolo que identifica a corporação da capital de distrito foi o objectivo desta mudança, segundo o presidente da Associação Humanitária, José Moreno. "Tivemos que começar pelo logotipo, algo que fosse mais chamativo, que toda a gente gostasse. É preciso dar um ar de modernidade. Este logotipo já estava gasto, já era muito cansativo".

O tesoureiro da corporação, Luís Braz, explica que a imagem corporativa mais moderna inclui vários elementos com simbolismo para os bombeiros e a cidade. "Na parte central fazemos uma alusão ao fogo e ao monumento de homenagem ao bombeiro, mesmo em frente à nossa associação. Também tem as asas da fénix, que simboliza todas as corporações de bombeiros, um pássaro muito resiliente que renasce das cinzas. Por fim, fizemos um transporte imaginário visual da cidade, através do seu monumento ex-libris, a domus municipalis. Como imagem de sombra colocámos um bombeiro".

O brasão vai manter-se, mas a nova imagem já está a ser usada pela corporação nas ambulâncias e outras viaturas, tal como nos documentos oficiais e vai figurar o novo site, que está também a ser desenvolvido para ajudar a aproximar a corporação dos sócios e da população do concelho.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Olga Telo Cordeiro

DALMA REIS, MÃE E AVÓ A TEMPO INTEIRO

 


Já há alguns anos que Dalma Reis faz parte do núcleo de ouvintes e participantes do nosso programa. Nasceu em 1948, em Bragança, filha do falecido Manuel Reis, rei das bicicletas e motorizadas da nossa cidade. Trabalhou na costura alguns anos, mas não se sentia realizada e passou a dedicar-se inteiramente à família. Mãe de dois filhos, o Rui Santos, de 44 anos, casado e com duas filhas, e o Rogério Santos, solteiro, de 42 anos, que têm a particularidade de terem nascido no mesmo dia e mês, 15 de Outubro.

O seu filho mais velho, o Rui, é professor e começou a leccionar na ilha da Madeira, nunca conseguindo a efectividade. Regressou a Lisboa e, juntamente com a esposa, também professora, decidiram abrir um jardim-de-infância. Quando tudo parecia estar alinhavado, eis que, em 2016, surgiu a oportunidade de irem os dois leccionar para Inglaterra, onde estiveram dois anos, mas não se adaptaram àquela forma de vida. Em 2018 surgiu a hipótese de irem para o Canadá, mais precisamente Calgary, província de Alberta, no sudoeste daquele país, a mil quilómetros de Vancouver, a três mil e duzentos de Toronto e a duzentos e vinte da fronteira com os Estados Unidos da América, onde ainda continuam a viver e a trabalhar.

De realçar que a tia Dalma Reis e o seu filho mais novo, o Rogério, sempre acompanharam o Rui, ficando temporadas com ele, tanto em Lisboa como na Madeira e Inglaterra e agora no Canadá, ajudando na lida de casa e a tratar das netas, uma com seis anos e outra com um ano e meio, ouvindo e participando no nosso programa, de todos os sítios por onde têm passado. Tem sido mãe e avó a tempo inteiro. Há cerca de um ano que está no Canadá, apesar de a lei só permitir que permaneça meio ano, mas devido ao Covid-19, tem-se mantido por lá e só tem voo marcado para Outubro, sem ser coisa certa, devido ao vírus.

Ouvem-nos diariamente através da internet e participam quase todas as semanas por telefonema através do Messenger. Como a diferença horária são menos sete horas que em Portugal, ouvem-nos entre as 23:00 h. e a 1:00 h. da manhã, ou seja, ao deitar, em vez de ser pela manhã.

É também através das redes sociais que mantêm o contacto com alguns membros da nossa família, como é o caso da tia Irene, na Suíça, e da tia Aidinha, de Sobreiró de Baixo (Vinhais). Quem por cá sente muito a falta da tia Dalma Reis é o seu vizinho, Ernesto Oliveira, que deixou de poder contar com a sua preciosa ajuda.

E assim ficámos a conhecer um pouco da sua opção de vida para cuidar da família.

Tio João

ONDA LIVRE TV – Apresentado livro que conta a história centenária de Vale da Porca e Banreses

Campónios e Extraterrestres

Por: Manuel Amaro Mendonça
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...") 

O sol principiava grandiosamente a aparecer no topo das montanhas a leste. Raios de fogo projetavam-se em todas as direções, anunciando a chegada do astro-rei e o início de um novo dia.

Caminhando, no trilho calcado que seguia entre as árvores, o homem conhecido por Tone Canhoto, bufava com as costas carregadas por um grande saco de lona. Trazia um chapéu surrado e envergava um casaco demasiado grande. À cinta, no pedaço de couro que lhe segurava as calças, que não chegavam às botas cansadas, uma faca e a coronha decorada de uma pistola de fecho de pederneira espreitavam.
Repentinamente, apercebeu-se que não seguia ninguém atrás dele e pousou o saco no chão, olhando em volta, confundido.
— Xico…? — Chamou quase a medo. — Zé?
Ninguém respondia e não havia meio de aparecer alguém, nos cerca de cinquenta metros de caminho que conseguia ver até à curva.
— Raios partam… — Gemeu baixinho. — Onde demónios se encafuaram aqueles dois?
Com esforço, tornou a carregar o saco nas costas e avançou em sentido contrário, a procurar os companheiros.
— Vais morrer!!! — Uma voz forte gritou de entre as árvores, enquanto dois vultos lhe saltam ao caminho.
— Credo, em Cruz, mãe de Deus! — O Canhoto arregalou os olhos de susto e soltou um grito estrangulado, antes de reconhecer os amigos, que riam do terror que lhe haviam infligido. — Seus gandulos, artajeiros! Quase que me esfoiro todo de susto!
— Só queria que visses a tua fuça! — O mais magro do trio, chorava de rir, encostado a uma árvore.
— Mijaste-te, maninho? — Também o mais forte, a quem chamavam de Xico Zangão, tinha lágrimas de tanto gargalhar.
— Ah, vão à m**. Isto não se faz. — O Canhoto ainda tinha as pernas a tremer.
— Coitadinho… — O mais magro, conhecido por Zé Patranhas, fez menção de o acarinhar, mas foi prontamente sacudido.
— Sai-te daqui! Pincha-Grilos de um raio! Andas sempre à turra e à maça com o meu irmão, mas me fazerem galdrumeiras, já se ajuntam!
— Então, Tone. — Tornou o Xico. — Não sejas assim, borraste as ceroulas foi? — Soltou nova gargalhada em uníssono com o Zé.
— Raio que vos pele! — Amuou Tone, alombando novamente o saco e virando-lhes as costas, retomando o caminho.
Os outros dois, ainda a rir, correram a buscar os seus sacos, que esconderam no mato e tornaram para junto do companheiro, para o atazanar mais um pouco.
— Valeu a pena assaltar a casa do velho Menezes ou não valeu? — O Patranhas queria reconhecimento. — O Badocha deu-nos uma boa dica.
— Até gostava de voltar lá… — Riu o Canhoto. — A criadita era bem engraçada.
— Mesmo a mulher do Menezes, um velho asqueroso com uma lasca daquelas! — Acrescentou o Zangão. — E sorria-se toda para mim, parecia até que gostava de ser assaltada.
— E gostava! — Gargalhou o Patranhas. — Estava toda consolada, que eu estava a apalpar-lhe as cascas!
— Mentiroso! — Xico enfureceu-se. — Pantominas de um raio…
— Vá, calem-se lá, já vão começar novamente? — Interveio Tone, conciliador. — Temos aqui um bom saque para dividir e ir vender ao Galego de Chaves. Ou só se juntam contra mim?
Ai, é verdade! — Xico soltou uma sonora gargalhada. — Precisavas mesmo ver a tua cara de cagaço!
Enquanto estavam nestas brincadeiras, um enorme objeto voador, fortemente iluminado, passou a baixa altitude, quase roçando as copas das arvores e levantando uma nuvem de poeira, folhas e ramos soltos. Logo de seguida, o silvo grave que perseguia o objeto, ensurdeceu-os por segundos, até tudo se quedar num silêncio pesado. Uma enorme árvore seca caiu, mais à frente deles.
— Que demónios foi isto? — Perguntou o Patranhas assustadíssimo.
— Vinha a voar, com muita luz! Era um anjo! — Exclamou o Canhoto.
— Com aquele barulho dos infernos?!? — Discordou o Zangão. — Era na certa obra do mafarrico!
— Vamos embora, depressa. — O Zé não tirava os olhos da direção tomada pelo estranho objeto.
— Acho que está ali, por trás daquelas árvores. Vêm-se as luzes. — Apontou Tone. — Deve estar naquela clareira que há ali abaixo.
— Vou lá espreitar. — Anunciou o Zangão.
— É melhor não… — O Patranhas tremia visivelmente. — Anjo ou demónio, pode não gostar de ser visto.
— Sim, acho que, seja lá o que for, devemos deixá-lo em paz… — Concordou o Canhoto, para as costas do irmão, que abandonara o saco no chão e já se pusera a caminho.
— Oh, raios me partam, lá vai ele meter-nos em sarilhos! — A voz do Zé também tremia. — Com homens grandes ou mal-encarados eu cá me entendo, mas com estas coisas, não gosto nada de estar por perto.
Como o companheiro os ignorasse e, de varapau na mão, descesse o carreiro na direção da clareira, os outros dois olharam um para o outro, indecisos.
— É meu irmão… — Desculpou-se o Canhoto, empunhando a sua pistola.
Sozinho no caminho, o Patranhas olhou em volta, para as sombras das árvores, ainda mal saídas das sombras para o brilho do sol que nascia. Ficar ali, enquanto eles iam, também não lhe parecia grande ideia. Num resmungar choramingado, tirou os sacos abandonados no caminho para a vegetação e correu atrás dos outros dois. Tirou a pistola do cinto e armou-a.
Quando chegou junto dos outros, eles estavam escondidos na vegetação, fora da estrada e fizeram-lhe o gesto de silêncio, antes de lhe indicar que se aproximasse.
Para além do giestas e ramos onde se acoitavam, ficava uma enorme clareira, de mato rasteiro, que era por onde se arrastava um pequeno ribeiro, nas fúrias repentinas das chuvas invernais. Eles chamavam-lhe a praça dos recos bravos, pois, normalmente, viam-se imensos por ali. Agora, porém, era verão e o ribeiro estava quase seco e grande parte da clareira estava ocupado pelo que parecia ser uma imensa, luminosa e fumegante casa, sem janelas. Sentia-se uma forte emanação de calor que partia da inusitada construção.
Quando o Patranhas ia manifestar o seu espanto, o Zangão voltou a gesticular para que fizesse silêncio e apontou para o lado direito da construção, onde havia quatro pequenas pessoas vestindo o que parecia ser uma roupa inteiriça, cinzenta, da cabeça aos pés.
Os elementos do pequeno e estranho grupo gesticulavam entre eles apontando o céu e emitiam assobios e estalidos. Um deles, com o que parecia um pequeno graveto luminoso começou a escrevinhar em pleno ar e o extraordinário é que os gatafunhos apareciam e ficavam estáticos na frente dele. Outro deles, apagava alguns símbolos e substituía por outros, numa aparente correção, enquanto tagarelavam animadamente.
— Aquela porcaria vale uma pipa de moedas! — Sussurrou o Canhoto, olhando espantado para os outros dois.
— Vamos botar-nos a eles. — Sentenciou o Zangão. — Aparecemos-lhes de três lados diferentes. Eu quero uma caneta daquelas, como não sei escrever, pode ser que com ela não seja preciso.
— Mas… já viste? — Observou o Patranhas, pouco animado. — Eles são tão estranhos… que tipo de bicho são eles?
— São de fora, que queres? Não podem usar os paramentos que quiserem? — Simplificou o Zangão, sussurrando. — Por mim, até podiam vestir a albarda do cavalo. — E continuou como quem fala com crianças. — Aparecemos, tu e o meu irmão apontam-lhes as pistolas, eu dou uma barduada ou duas, se for necessário, pegamos o que queremos e chispamos daqui para fora. Agora vamos!
— Xico. — Também Tone estava preocupado. — Aquilo parece mesmo bruxaria…
Enquanto estão neste debate, um dos estranhos pega num pequeno retângulo e começa, como que olhando através dele, em semicírculo. Quando fica alinhado com a posição em que se encontravam os nossos assaltantes, para e chama o companheiro com um gesto. Os dois olham pelo retângulo e depois sem ele. Os três perceberam que tinham, de alguma maneira, sido detetados.
— Tem de ser agora, já! — Ordenou Xico erguendo-se e caminhando temerariamente na direção dos estranhos, de varapau em punho.
— Maldição! — Exclamou o Canhoto, erguendo-se também, mas engatilhando a pistola.
— Lá vamos nós arranjar problemas por causa deste torgueiro! — Gemeu Zé, seguindo os companheiros.
— Santa manhã, amigos! — Exclamou o Zangão para os quatro surpreendidos estranhos. — Tendes aí uma casa muito bonita.
— E também umas coisas interessantes. — Complementou Tone. — Vamos aliviar-vos do peso delas.
Os símbolos flutuantes desapareceram e os estrangeiros cinzentos começaram a gesticular e a emitir os assobios e estalidos entre eles, apontando os recém-chegados.
Percebendo a ameaça, o que estivera a escrever no ar, fez um pequeno gesto com a "caneta" e as pistolas dos dois assaltantes saltaram-lhes das mãos e colaram-se ao chão milagrosamente. O mesmo caminho seguiu o punhal do Canhoto que, no trajeto, cortou-lhe o pedaço de couro que fazia de cinto, deixando-o literalmente com as calças na mão. Não aconteceu o mesmo ao Patranhas, porque o cinto era mais resistente e ele conseguiu livrar-se da faca que era irresistivelmente atraída para o solo. O Zangão viu-se de repente o único com uma arma e carregou sobre eles soltando um chorrilho de palavrões.
Outro dos cinzentos conseguiu atirar, do que parecia uma mão vazia, uma rede de fios finíssimos, que crescia à medida que voava na direção do atacante. A teia caiu sobre o assaltante e colou-se fortemente aos braços e às pernas fazendo-o cair.
Com o elemento mais forte imobilizado, o Patranhas e o Canhoto perceberam que precisavam de uma nova estratégia. Após uma fração de segundo de hesitação, fugiram para o mato.
O cinzento que atirara a teia, obviamente o chefe, fez um gesto aos restantes, que saíram a correr atrás dos fugitivos.
— Solta-me desta merda, espantalho! — Gritava o Zangão debatendo-se.
O chefe ignorava-o. Olhava para o pequeno retângulo com que os localizara e emitia os ruídos da sua fala, dando instruções aos companheiros.
— Quando me soltar desta bosta, vai levar tantas… — Insistia o Zangão.
O cinzento dignou-se a deitar-lhe um olhar do seu rosto inexpressivo, onde quase não existia nariz, entre os enormes olhos negros e a boca era pouco mais do que uma fissura sem lábios. Apontou-lhe a palma da mão e saiu outra das teias de aranha, mais pequena e que se colou na cara do furioso Xico. Com a mão esquelética de quatro dedos, compôs a cola sobre a boca do prisioneiro, de forma a reduzir os seus gritos a irados grunhidos. Após isso, ergueu elegantemente a mão atravessada sobre a boca, numa caricatura do sinal de silêncio. Depois regressou ao acompanhamento da caçada.
Não tardou que os três cinzentos regressassem com os dois aterrorizados amigos, o Canhoto ainda a segurar as calças. Mas é nesse momento que se dá a reviravolta; o furioso Zangão está a conseguir soltar-se das teias que o prendiam. Os incrédulos cinzentos olham para o homem a cortar os fios com uma faca.
— Vocês estão tão, mas tão f**! — Exclamou Xico empunhando a arma. — Isto é uma lâmina de osso, não de metal!
Mas mesmo assim, colocou a arma no cinto e pegou no varapau.
— Agora vou mostrar-vos com quantos paus se faz uma canoa! — Gritou Zangão começando a perseguir os apavorados cinzentos, que emitiam assobios aflitos.
Depois de uma curta, mas intensa perseguição, onde eles conseguiram furtar-se por pouco aos golpes de varapau, os quatro estranhos conseguiram reunir-se junto da estrutura e uma luz azul envolveu-os.
As pauladas de Xico estouravam ruidosamente sobre a luz azul, mas não conseguiam atingir os cinzentos, que mesmo assim se encolhiam de medo.
Tone e Quim, finalmente se recuperavam do medo e, vendo as criaturas encurraladas, atiravam-lhes com o que podiam, embora tudo fosse repulso pelo halo azul. O chefe das criaturas parecia escrever febrilmente no retângulo que já antes usara.
Por fim, abriu-se uma porta atrás dos cinzentos, de onde provinha uma fortíssima luz branca e ele correram de imediato para ela. Assim que a porta se fechou, o azul que os envolvia desapareceu e o Zangão conseguiu aproximar-se estrutura. Estranhou não ser metal nem madeira, nem nada que reconhecesse, mas era sólido o suficiente para o seu bordão e ele usou-o por várias vezes.
— Saiam daí, seus vassouros, venham cá para fora! — Gritava Xico. — Covardes!
Repentinamente, toda a estrutura ficou envolvida pela luz azul e os três amigos foram projetados para trás com violência. De seguida levantou voo silenciosamente e desapareceu em segundos no céu azul.
— Eu não disse que era bruxaria? — Gemeu o Canhoto sentado no chão. — Escapamos de boa.
— Escapamos? — O Zangão olhou para o irmão. — Eles é que nem sabem do que se safaram! Estiveram assim de levar um chuveiro de barduadas, que tão cedo não esqueciam!
— Este raivoso do catano! — Exclamou o Patranhas. — Está sempre a meter-nos em alhadas!
— Raivoso? — O Zangão ergueu-se com o varapau em riste. — Seu aldrúbias canastrão! Olha que eu…
— Lá estão eles outra vez! — O canhoto levantou-se e virou costas aos dois amigos que discutiam acaloradamente.
 
 
Nota do autor: Este acontecimento deu-se algures no século XIX, mas acredito que, por causa dele, são pouco vulgares em Portugal fenómenos envolvendo extraterrestres ou OVNIs).

Manuel Amaro Mendonça
nasceu em Janeiro de 1965, na cidade de São Mamede de Infesta, concelho de Matosinhos, a "Terra de Horizonte e Mar".
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (Agosto 2015), "Lágrimas no Rio" (Abril 2016) e "Daqueles Além Marão" (Abril 2017), todos editados pela CreateSpace e distribuídos pela Amazon.
Ganhou um 1º e um 3º prémio em dois concursos de escrita e os seus textos já foram seleccionados para mais de uma dezena de antologias de contos, de diversas editoras.
Outros trabalhos estão em projeto e saírão em breve, mantenha-se atento às novidades AQUI.