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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Tragédia


Menina ainda, julgava-me princesa de grandes castelos. De imaginação fértil, vivia em mundos fantásticos, de beleza infinita.
Nem mesmo os dias gelados dos invernos transmontanos tinham a capacidade de me desmotivar. Tudo se guiava pela minha grande alegria, pela felicidade da minha vida simples, cheia de amor e carinho. Na minha inocência de cinco anos, todas as crianças do mundo eram como eu: felizes.
Mas, naquela manhã, o meu mundo desmoronar-se-ia como um castelo erguido na areia. 
Como estivesse muito frio, em consequência da grande nevada caída no dia anterior e da posterior geada daquela noite, encontrava-me em casa ao calor da lareira com a minha mãe. Entretinha-me a brincar com uma pequena boneca de trapos, prenda do Menino Jesus. A mãe atarefava-se na organização da empreitada de chouriços que se levaria a cabo nessa tarde noite. A minha avó demorava-se em Penhas Juntas em casa dos Almendras onde fazia os cestos e cestas necessários para a lida doméstica e do campo. Contávamos com ela esse dia e é certo que estávamos cheias de saudades. 
Era um dia sereno, aquele. De repente, um grito angustiado corta o ar. Um corre-corre de pessoas alvoraçadas na rua. Um choro histérico. Uma sensação ancestral de fim do mundo... não sei... o meu coraçãozinho apertado dizia-me que nunca mais seria a mesma.
A minha mãe pegou em mim e saímos as duas para a rua, assustadas e aflitas. Não estávamos preparadas para o que vimos.
Lucinda, de joelhos enterrados na neve e no gelo, gritava palavras sem nexo, loucas palavras ditadas pela dor mais profunda que uma mãe pode sentir. 
No chão frio, um pequeno cadáver ensanguentado, informe, irreconhecível... 
Levei algum tempo a assimilar e compreender o que se passava. Não era natural, não no meu mundo fantástico e único. 
Depois de alguns instantes, consegui ver a pequena mão e os cabelos encaracolados e loiros do Rodrigo. Não se mexia. Estava alvar. Exangue. O pai, encostado à parede da casa, segurava, ainda, a espingarda na mão trémula. Quase tão branco como o filho, tinha no olhar um vazio tão profundo, que parecia não ter alma. 
Tinham ido à caça os dois. Era o batismo de fogo do menino de nove anos. Nada o poderia ter feito mais feliz do que ir à caça com o pai. Nada. A jornada tinha corrido bem até chegarem ao Souto. Havia uma praga de javalis que comiam tudo o que encontrassem e, como era inverno, estavam esfomeados. O pai havia-lhe dito que, quando lhe desse sinal, teria de se esconder e ficar muito quieto até ouvir os tiros. 
O primeiro soou atroador e certeiro. O animal, atingido pelo projétil, precipitou-se em fuga desenfreada, na direção do esconderijo do rapaz. O pai apercebeu-se, tarde de mais, do perigo. Atirou novamente com a intenção de parar o bicho, macho possante e enorme. No mesmo instante, o menino ergue-se para fugir, ao mesmo tempo em que o javali muda de trajetória, assustado...
Eram uns bons dez quilómetros de caminho. O homem correu para o filho, ainda vivo. Ergueu-o nos braços fortes e saiu dali como se o desespero lhe desse asas. Viu quando o filho fechou os olhos e exalou o último suspiro. Parou, deitou-o no chão gelado, olhou para trás e apercebeu-se de um caminho de sangue na brancura nevada. Esteve assim, ajoelhado ao pé do rapaz, longos minutos. O silêncio era tão pesado que nem os seus soluços arrancados do mais profundo das suas entranhas o conseguiam quebrar. Morrera, também. Nunca mais seria homem. Nunca mais abandonaria o seu olhar vazio, perdido.
Ao longe ouviu o chiar de um carro de bois. Não se apercebeu da sua chegada. A mão rude colocada no seu ombro, despertou-o do seu abandono. Olhou, primeiro sem ver. Depois, lentamente, reconheceu o Zé Tarela que pegou no pequeno corpo sem vida e o colocou no carro, em cima de uma saca que ele tivera o cuidado de ajeitar para o receber com alguma dignidade. O carro ia carregado nabos. No chão, uma poça de sangue. 
Elias parecia um autómato. Seguiu atrás do carro com a arma na mão e o saco da merenda ao ombro.
Faltava metade do caminho para chegarem à aldeia. Nenhum dos homens falou. O chiar do carro na imensidão dos montes, refletia a enorme tristeza.

Mara Cepeda
in:nordestecomcarinho.blogspot.pt

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