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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 11 de julho de 2017

O Manso e o Guerreiro III – O Dói-Dói e a Pomada

Por: José Mário Leite
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)

Mais uma vez, quando a tarde alaranjando se despede e desvanece, Júlio Manso e Tomé Guerreiro partilham um copo de tinto, um naco de queijo terrincho, uma lasca de presunto e um carolo de centeio ainda quente.

— As notícias são boas, ti Júlio?

— Podiam ser melhores. Veja só este título onde um deputado centrista reclama, como sendo grande desperdício, os beijinhos no dói-dói. 

— Desperdício? Só de uma enorme ignorância poderia sair tal dislate! Não terá, seguramente, propriedades terapêuticas cientificamente provadas e aprovadas, mas quando nada mais se pode fazer, não há nada como os beijinhos no dói-doi. A dor não é só física e a capacidade de a suportar aumenta na exata proporção do carinho com que os ósculos são depositados. 

— O meu amigo hoje está muito poético!

— Sabe o que realmente me dói? É a insensibilidade de alguns políticos a quem, de forma insistente e irresponsável, tudo lhes serve para arremessarem aos opositores!

— Ó ti’Tomé, vossemecê não poupa nas palavras.

— Não me resigno perante tanta demagogia. É claro, certo e sabido que os abraços e os afetos não vão resolver os gravíssimos problemas, nem apagam a tragédia que atingiram as gentes de Pedrógão e arredores. Contudo, para o que já não tem remédio e para o que, tendo, não tem solução imediata, mais nada há a fazer, de imediato, que mostrar e exercer a solidariedade que o Presidente da República veio trazer.

— Olhe que eu não diria melhor! E o que me diz desta notícia aqui logo a seguir sobre a candidatura portuguesa para sede da Agência Europeia do Medicamento? Então não é que, mais uma vez querem puxar mais esta para a capital? Mas os do Porto já vieram dizer que não pode ser assim!

— Pois vieram. Mas mais valia ficarem calados.

— Essa agora! Ainda há bem pouco se abespinhava todo com o centralismo lisboeta e agora acha bem que continuem com essa mania que é já um vício?

— Abespinhava e abespinho. Nada é mais necessário neste país, com o interior tão desertificado, do que a descentralização. 

— Pois, e então?

— Então, é que a altura não é esta. 

— Não? E porque não?

— Atente bem nisto. A vinda da agência para Portugal não é, nem de longe nem de perto, um dado adquirido. A probabilidade de sermos contemplados com tal infraestrutura é reduzida. Só por isso deveríamos juntar-nos todos à volta da melhor proposta que fosse possível apresentar. A divisão só nos vai prejudicar. Imagine agora que a gente do Porto leva a sua avante e que a candidatura portuguesa segue baseada numa localização da Invicta. A ida da agência para outro país será um trunfo enorme, que bem dispensávamos, para os defensores do centralismo. Poderão, a partir de agora, alegar, que a “cegueira” descentralizadora conduziu à derrota e, mesmo que o não possam provar, nada os impede de especular que uma proposta melhor teria outra chance de ter sido vitoriosa. Por outro lado vão martelar-nos, daqui em diante, que a insistência regionalista prejudica o país.

— Não deixa de ter alguma razão. Mas diga-me lá, já que parece estar tão bem informado. A proposta de Lisboa é melhor?

— Não tenha dúvida que é. E, ironicamente, por causa do centralismo governamental que tem instalado tudo quanto é sede de poder económico e técnico à beira do Tejo. É lá que está o Infarmed e as principais empresas farmacêuticas nacionais e as delegações internacionais. Também é ali que existe  um forte cluster científico e tecnológico público e privado. Para além de possuirem a necessária e exigível oferta de ensino internacional, a todos os níveis, para os milhares de funcionários que acompanharão a deslocalização da Agência.

– Estamos mais uma vez penalizados. E desta vez, duplamente. 

– Tem toda a razão. Mas olhe que a necessária regionalização é muito mais do que isto. Mudar o que quer que seja, de Lisboa para o Porto, não encaixa, propriamente, no conceito que tenho de descentralização!

José Mário Leite
, Nasceu na Junqueira da Vilariça, Torre de Moncorvo, estudou em Bragança e no Porto e casou em Brunhoso, Mogadouro.
Colaborador regular de jornais e revistas do nordeste, (Voz do Nordeste, Mensageiro de Bragança, MAS, Nordeste e CEPIHS) publicou Cravo na Boca (Teatro), Pedra Flor (Poesia) e A Morte de Germano Trancoso (Romance) tendo sido coautor nas seguintes antologias; Terra de Duas Línguas I e II; 40 Poetas Transmontanos de Hoje; Liderança, Desenvolvimento Empresarial; Gestão de Talentos (a editar brevemente).
Foi Administrador Delegado da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana, vereador na Câmara e Presidente da Assembleia Municipal de Torre de Moncorvo.
Foi vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
É Diretor-Adjunto na Fundação Calouste Gulbenkian, Gestor de Ciência e Consultor do Conselho de Administração na Fundação Champalimaud.
É membro da Direção do PEN Clube Português.

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