Por: Fernando Calado
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Assim falava o Critopina, o mendigo mais andrajoso e místico que vagueou pelo Nordeste nos anos 60… e assustava;
Se eu tivesse vivido entre os gregos, filósofos, homens livres e escravos, adoraria Zeus, o Pai dos Relâmpagos, ergueria mãos vazias para acalmar sua fúria. Seria devoto de Atena, magnífica deusa da sabedoria e da guerra justa e de Apolo, deus maior da poesia, da música, da luz e do sol criador… Minha crença absoluta, seria certa e firme, na esperança de alcançar o Olimpo.
Se eu fosse árabe, Alá seria o Único. De joelhos, virado para Meca, ofereceria jejum redentor, preces e humildade diante da grandiosidade do divino.
Se fosse judeu, o Deus único de Moisés seria meu redentor, a luz da salvação gravada na pedra e na eternidade, nos Dez Mandamentos que guiam o mundo.
Se estivesse na Índia, não teria deuses a quem implorar, mas caminharia, piedosamente, com Buda, pelo silêncio da meditação, na esperança do Nirvana e da sabedoria absoluta.
Agora, agarro-me à Cruz, silencioso e seguro,
guiado pela mão serena de Jesus de Nazaré. Filho de Deus na comunhão com o Espírito Santo.
… Talvez, se estivesse em Lisboa, no século XVI, tivesse embarcado piedosamente na matança dos judeus, seguindo a promessa redentora do dominicano, que de crucifixo em riste concedia cem dias de indulgência e o perdão dos pecados a quem matasse heréticos.
… Assim falava o Cristopina… e assustava!
Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança.
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.


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