(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
“Assim estejam os meus inimigos” — Dizia Domingos, o meu avô materno, feliz, ao brindar com a família em volta da mesa farta das festas. Quase de certeza que não tinha inimigos, embora pudesse ter quem lhe invejasse a felicidade.
A vida não lhe fora fácil, embora parecesse melhor, quando eu comecei a ter perceção das coisas; era canalizador numa empresa do Porto, para onde teve muitas vezes de fazer o caminho a pé. Era de Alfena de onde tinha vindo, com o irmão, para São Mamede de Infesta para trabalhar numa padaria, onde dormiram muitas vezes.
Era eu criança e ia ter com ele ao tasco, onde parava antes de regressar a casa do trabalho. “Ó Fernando, serve aí um «simolzinho» ao meu neto.” — pedia, feliz.
Gostava de uma boa piada e o rádio lá de casa estava sempre sintonizado nos “Parodiantes de Lisboa”, parece que ainda hoje consigo ouvir um dos comerciais mais repetidos: “Ò Barnabé! Que é? Toca o tango!”
Calado e observador, tinha, no entanto, sempre um abraço e um sorriso acolhedor de boas-vindas.
A avó Almerinda não era avó de sangue, mas era-o de coração. Substituíra a minha verdadeira avó, que se fora desta vida aos 43 anos e que eu nunca conheci.
No seu trabalho, corria toda a freguesia com uma enorme canastra à cabeça onde transportava o pão que distribuía pelas freguesas. Quando chegava à casa, trazia sempre a sua parte no pão que eu e o filho dela, meu tio por parte do pai, comíamos avidamente, como se alguma vez tivéssemos tido fome.
Os Natais eram em casa deles, na Ilha do Costa, como cheiro a bacalhau cozido e do açúcar dos doces a misturar-se no ar. Uma “enchente de gente” numa casa pequena, com um coração que não se enchia.
Regavam-se os jantares com vinho branco e as sobremesas com espumante, porque “a água, quer-se morninha, mas para lavar os pés.” — dizia o avô por graça.
Aquela casa pequenina, no pátio rodeado de tantas outras, era o nosso destino tantas vezes que era como se fosse uma extensão da nossa, poucas centenas de metros dali. Naquela Ilha tinha vários familiares e amigos e era sempre o ponto de partida para as nossas “aventuras” na Fonte dos Alhos ou nas construções das casas e do campo de futebol do Infesta.
O avô gostava da boa paz e quando não estava em casa, estava no quintal, que cuidava com esmero. Os vasos de flores em cimento, feitos por ele, rodeavam a horta organizada e cavada.
Um dia, magoou-se a trabalhar no quintal e o ferimento acabou por infetar. Era uma época em que não havia INEM e os telefones fixos eram raros e certa noite foram chamar o meu pai para o levar ao hospital. Nunca regressou.
Alguns anos mais tarde, beneficiando dos apoios da câmara municipal, o meu tio e a mulher, que viviam com a mãe, mudaram-se para um apartamento, num bairro construído em parte do que foi a bouça da Fonte dos Alhos e deixaram a casinha na Ilha do Costa.
A avó, sim, porque sempre foi a minha avó, partiu muitos anos mais tarde, quase sem vista e sem saber onde estava.
A Ilha lá está, renovada e reconstruída, mas sem a magia e os personagens que foram parte da minha infância.
Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/


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