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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 8 de março de 2026

O avô Domingos e a avó Almerinda

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 “Assim estejam os meus inimigos” — Dizia Domingos, o meu avô materno, feliz, ao brindar com a família em volta da mesa farta das festas. Quase de certeza que não tinha inimigos, embora pudesse ter quem lhe invejasse a felicidade.

A vida não lhe fora fácil, embora parecesse melhor, quando eu comecei a ter perceção das coisas; era canalizador numa empresa do Porto, para onde teve muitas vezes de fazer o caminho a pé. Era de Alfena de onde tinha vindo, com o irmão, para São Mamede de Infesta para trabalhar numa padaria, onde dormiram muitas vezes.

Era eu criança e ia ter com ele ao tasco, onde parava antes de regressar a casa do trabalho. “Ó Fernando, serve aí um «simolzinho» ao meu neto.” — pedia, feliz.

Gostava de uma boa piada e o rádio lá de casa estava sempre sintonizado nos “Parodiantes de Lisboa”, parece que ainda hoje consigo ouvir um dos comerciais mais repetidos: “Ò Barnabé! Que é? Toca o tango!”

Calado e observador, tinha, no entanto, sempre um abraço e um sorriso acolhedor de boas-vindas.

A avó Almerinda não era avó de sangue, mas era-o de coração. Substituíra a minha verdadeira avó, que se fora desta vida aos 43 anos e que eu nunca conheci.

No seu trabalho, corria toda a freguesia com uma enorme canastra à cabeça onde transportava o pão que distribuía pelas freguesas. Quando chegava à casa, trazia sempre a sua parte no pão que eu e o filho dela, meu tio por parte do pai, comíamos avidamente, como se alguma vez tivéssemos tido fome.

Os Natais eram em casa deles, na Ilha do Costa, como cheiro a bacalhau cozido e do açúcar dos doces a misturar-se no ar. Uma “enchente de gente” numa casa pequena, com um coração que não se enchia.

Regavam-se os jantares com vinho branco e as sobremesas com espumante, porque “a água, quer-se morninha, mas para lavar os pés.” — dizia o avô por graça.

Aquela casa pequenina, no pátio rodeado de tantas outras, era o nosso destino tantas vezes que era como se fosse uma extensão da nossa, poucas centenas de metros dali. Naquela Ilha tinha vários familiares e amigos e era sempre o ponto de partida para as nossas “aventuras” na Fonte dos Alhos ou nas construções das casas e do campo de futebol do Infesta.

O avô gostava da boa paz e quando não estava em casa, estava no quintal, que cuidava com esmero. Os vasos de flores em cimento, feitos por ele, rodeavam a horta organizada e cavada.

Um dia, magoou-se a trabalhar no quintal e o ferimento acabou por infetar. Era uma época em que não havia INEM e os telefones fixos eram raros e certa noite foram chamar o meu pai para o levar ao hospital. Nunca regressou.

Alguns anos mais tarde, beneficiando dos apoios da câmara municipal, o meu tio e a mulher, que viviam com a mãe, mudaram-se para um apartamento, num bairro construído em parte do que foi a bouça da Fonte dos Alhos e deixaram a casinha na Ilha do Costa.

A avó, sim, porque sempre foi a minha avó, partiu muitos anos mais tarde, quase sem vista e sem saber onde estava.

A Ilha lá está, renovada e reconstruída, mas sem a magia e os personagens que foram parte da minha infância.


Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/ 

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