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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 8 de março de 2026

SAUDADE…


 A saudade da juventude não é apenas a nostalgia de um tempo que já passou, é também o eco de uma versão de nós mesmos que já não vive o presente, mas que continua a viver na memória com uma nitidez que quase magoa. Não se trata apenas da energia inesgotável ou da despreocupação aparente. É algo mais profundo, mais silencioso, é a recordação de quando o mundo ainda parecia enorme, por cumprir e ao nosso alcance.

Na juventude, os dias tinham uma elasticidade infinita. O tempo não passava, expandia-se. Um verão parecia durar uma eternidade. Uma amizade era promessa de permanência. Um amor era absoluto, mesmo quando era breve. Havia uma confiança implícita de que tudo estava ainda por acontecer, de que o melhor estava à frente, à espera de ser descoberto. E essa expectativa dava à vida uma vibração especial, uma espécie de luz interior que iluminava até as incertezas.

Com o passar dos anos, não é apenas o corpo que muda. Muda a forma como olhamos o horizonte... o mundo. Já não vemos apenas possibilidades, vemos também limites. Já não ignoramos as fragilidades, convivemos com elas. A experiência traz sabedoria, é verdade, mas traz também consciência do tempo que passou e do que não volta.

A saudade da juventude é, muitas vezes, saudade da facilidade, da leveza nas decisões, nos erros, nas quedas. Errava-se com menos medo, porque havia sempre a sensação de que amanhã era outro dia. Hoje, as escolhas carregam um peso maior, uma responsabilidade acumulada. Na juventude, o futuro era uma folha em branco, na maturidade, é um livro já com muitas páginas escritas.

Mas há algo particularmente tocante nessa saudade. É a memória da intensidade. A intensidade com que se sentia. A alegria era eufórica. A tristeza era abissal. O entusiasmo era contagiante. Tudo era vivido com uma urgência quase sagrada, como se cada momento fosse decisivo. Hoje, talvez sintamos com mais equilíbrio, mas raramente com a mesma chama.

Há também a saudade das pessoas que éramos. Dos sonhos que nos moviam. Das convicções absolutas. Das amizades que pareciam indestrutíveis. Algumas mantiveram-se, outras ficaram pelo caminho. E todas as ausências são um pequeno marco do tempo. A juventude não se perde de um dia para o outro, vai-se afastando devagar, quase sem nos apercebermos, até que um dia nos surpreendemos a olhar para trás com ternura e alguma tristeza.

E, no entanto, a saudade da juventude não é apenas dor. É também gratidão. Significa que vivemos. Que houve dias luminosos o suficiente para deixarem marca. Que houve risos espontâneos, paixões arrebatadas, tardes demoradas, conversas intermináveis. A saudade é a prova de que houve intensidade, noites sem fim.

Talvez o que mais custe aceitar não seja o envelhecimento em si, mas a consciência de que estamos a percorrer a última parte do caminho. Na juventude, a morte é um conceito distante, na maturidade, é uma realidade que se “insinua” todos os dias. O tempo deixa de ser um recurso infinito e passa a ser um bem precioso. E é nessa mudança de perspetiva que a saudade se torna mais aguda e, por vezes, dolorosa.

Contudo, há uma beleza escondida nessa melancolia. A juventude pode ter ficado para trás, mas deixou raízes. Está presente nas histórias que contamos, nas fotografias que guardamos e partilhamos, nas músicas que ainda nos emocionam. Está na forma como sorrimos ao recordar um momento aparentemente banal que, afinal, era extraordinário.

E talvez a verdadeira sabedoria esteja em compreender que a juventude não é apenas uma fase biológica, é também um estado de espírito. Embora o corpo envelheça, é possível preservar a curiosidade, o desejo de aprender, a capacidade de nos maravilharmos. Não com a mesma ingenuidade, mas com uma consciência mais serena.

A saudade da juventude é, no fundo, um diálogo entre o que fomos e o que somos. Não é um convite a viver preso ao passado, mas a honrar o caminho percorrido. A reconhecer que as rugas trazem histórias, as perdas trazem também crescimento, os anos acrescentaram conhecimento e sabedoria.

Porque, se é verdade que a juventude tinha o brilho da aurora, a maturidade tem a densidade do entardecer. E há pores-do-sol que são tão belos como o nascer do dia, apenas exigem um olhar mais atento.

Sentir saudade da juventude é humano. Mas talvez o maior gesto de reconciliação com o tempo seja aceitar que cada idade tem a sua forma de beleza…

HM
Março de 2026

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