No nosso país, vários animais têm um papel importante no controlo de diversas espécies que podem afectar negativamente a actividade humana. Apresentamos-lhe alguns exemplos neste artigo.
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| SHUTTERSTOCK - A poupa-euroasiática é um dos predadores naturais da processionária-dos pinheiros. |
Tal como noutras regiões do mundo, em Portugal residem espécies que podem prestar uma ajuda inestimável ao homem no controlo natural de outras espécies, nativas ou introduzidas, que afectam negativamente a sua saúde ou as suas actividades diárias. Escolhemos destacar um conjunto de cinco, mas muitas mais poderiam ser mencionadas.
1. Bútio-vespeiro (Pernis apivorus)
Como o nome científico já indicia – ou não significasse apivorus “comedor de abelhas” –, esta ave especializou-se no consumo de abelhas e vespas, entre outros insectos. Passível de ser confundida com a bem mais comum águia-de-asa-redonda (Buteo buteo), principalmente ao longe, esta pequena rapina é um visitante estival do nosso país, sendo consideravelmente mais comum na metade norte. No entanto, é no Algarve que pode ser mais facilmente observada, aquando da passagem migratória outonal, na Península de Sagres.
Também conhecido como falcão-abelheiro, o bútio-vespeiro destaca-se por ser um dos poucos predadores capazes de atacar com sucesso ninhos de uma espécie que colonizou recentemente o nosso país e que não para de se expandir: a chamada vespa-asiática, Vespa velutina. Outra espécie que poderá ter um efeito não irrelevante neste controlo é uma bem menos querida dos apicultores: o colorido abelharuco-comum (Merops apiasters), também especializado na captura de himenópteros.
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| Galabin Vasilev Asenov / SHUTTERSTOCK - Um macho de búteo-vespeiro. Esta espécie é capaz de destruir ninhos de vespas para se alimentar das suas larvas, incluindo da invasiva Vespa velutina. |
2. Poupa-euroasiática (Upupa epops)
De aspecto inconfundível, esta espécie de cor laranja, padrões pretos e brancos bem visíveis durante o voo, grande crista (que lhe dá o nome comum) e longo bico curvo, é maioritariamente insectívora, embora também se possa alimentar de pequenos vertebrados e até de algumas sementes, pontualmente.
Uma das suas presas comuns é uma espécie que não só pode afectar negativamente explorações florestais de pinheiro, mas que também causa, devido aos seus pêlos urticários, reacções desagradáveis nos humanos: a processionária-dos-pinheiros (Thaumetopoea pityocampa). A poupa mostra particular apetência pelas pupas desta espécie, enquanto outras espécies, como o chapim-real (Parus major) ou o cuco-rabilongo (Clamator glandarius) se alimentam também com frequência das lagartas.
3. Lontra-europeia (Lutra lutra)
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| Alexandre Arocas / Shutterstock - A lontra-europeia é um dos principais predadores do invasivo lagostim-vermelho-da-Louisiana. |
A conhecida lontra-europeia é uma espécie de mustelídeo de porte médio que habita a maior parte dos nossos cursos de água doce (e que, na foz do rio Mira, inclusive se aventura em águas costeiras). Tradicionalmente, alimenta-se principalmente de peixes, crustáceos e outras pequenas presas que consegue capturar na água, devido às suas várias adaptações ao meio aquático, que incluem membranas interdigitais, garras fortes e uma pelagem impermeável.
No entanto, a introdução do invasivo lagostim-vermelho-da-Louisiana (Procambarus clarkii)veio acrescentar uma presa importantíssima à sua alimentação, uma vez que, ao mesmo tempo que estes animais se espalharam pelos cursos de água nacionais, colocando em causa crustáceos nativos e as posturas de anfíbios, a lontra descobriu neles um filão praticamente inesgotável de alimento, sendo hoje uma pedra basilar da sua alimentação. Além desta, outras espécies também ajudam a travar a multiplicação dos lagostins: é o caso da cegonha-branca (Ciconia ciconia), mas também de outros mamíferos como a raposa-vermelha (Vulpes vulpes).
4. Crisopas (Complexo Chrysoperla carnea)
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| CC - Uma larva de uma das espécies do complexo Chrysoperla carnea. Fonte: Eric Steinert |
Estes insectos, pertencentes à ordem Neuroptera, são caracterizados, na sua fase adulta, pelas suas delicadas asas translúcidas, com a nervação bem visível na cor verde que os caracteriza. Embora tradicionalmente fossem encarados como uma única espécie, hoje sabe-se que por trás do aspecto virtualmente idêntico, se esconde um conjunto de espécies crípticas, apenas distinguíveis por análise genética ou através da escuta das “canções” vibracionais com que comunicam entre si.
Porém, é a fase larvar destes insectos a que nos interessa no âmbito deste artigo: durante este período, as crisopas são vorazes predadores, alimentando-se de afídeos, cochonilhas, ácaros e outros pequenos invertebrados que podem afectar de maneira muito negativa as culturas, com particular impacto numa indústria tão economica e culturalmente relevante no nosso país como a vinícola. É, assim, um aliado indispensável no controlo natural de pragas no sector.
5. Falcão-peregrino (Falco peregrinus)
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| Martin Bergsma / SHUTTERSTOCK - O falcão-peregrino é um dos animais que colonizou as cidades, incluindo em Portugal, em parte devido à abundância de uma das suas presas de eleição: os pombos. |
De todas as espécies que se adaptaram aos novos habitats urbanos criados pelos humanos, uma das que o fez com maior sucesso, pelo menos entre os vertebrados de algum porte, terá sido o pombo-das-rochas ou pombo-comum (Columba livia), que encontrou nos edifícios citadinos um equivalente muito satisfatório às falésias onde originalmente vivia e se reproduzia.
Ao misturar-se com pombos domésticos (da mesma espécie, mas submetidos a processos de domesticação pelo ser humano), adquiriu uma série de cores e carácteres que não existiam na natureza e, devido à grande disponibilidade de alimento, multiplicou-se de forma extraordinária. No entanto, estes grandes números levaram a que, mais do que uma curiosidade, se tornassem por vezes um problema nas cidades, com as grandes quantidades de dejectos que produzem a, por exemplo, danificar edifícios e monumentos históricos (em Portugal, os edifícios feitos com pedra de Ançã e outras rochas calcárias apresentam-se particularmente vulneráveis).
No entanto, o sucesso dos pombos nas cidades atraiu também alguns dos seus predadores: é o caso, por exemplo, do também nidificante em escarpas falcão-peregrino, que hoje nidifica em várias cidades no mundo, sendo Lisboa uma delas. Este falcão, de tamanho médio, é especializado na captura de aves, sendo os columbídeos como o pombo-das-rochas uma presa particularmente apetecível. Para os caçar, o peregrino usa aquela que é a característica que lhe garantiu um lugar entre os recordistas do mundo animal: elevando-se no ar, deixa-se cair a mais de 300 quilómetros por hora sobre a presa em voo, matando-a não com as suas garras ou bico, mas com o impacto do seu corpo a embater na mesma.





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