Durante 28 anos, o município de Bragança foi governado por um partido, o PSD. Foram quase três décadas de liderança contínua, durante as quais esse partido conduziu os destinos do concelho conforme a sua visão, as suas capacidades e as circunstâncias de cada momento. Como acontece em muitos contextos onde o poder se prolonga por largos anos, foi-se criando uma cultura de influência e de presença dominante nas várias estruturas locais.
Ao longo desse período, muitas instituições, públicas, associativas e do setor social, foram sendo dirigidas por pessoas próximas daquele espaço político. Naturalmente, entre essas pessoas encontramos cidadãos sérios, competentes e dedicados ao bem comum. Seria injusto ignorar o contributo de tantos que, independentemente da sua filiação partidária, trabalharam com empenho pelas instituições e pela comunidade.
No entanto, também é verdade que a permanência prolongada no poder pode gerar hábitos difíceis de alterar, redes de confiança demasiado fechadas, lógicas de continuidade quase automática e, por vezes, uma sensação implícita de que o poder adquirido é permanente. A democracia, porém, vive precisamente da possibilidade de mudança.
Nas últimas eleições autárquicas, os cidadãos de Bragança decidiram exercer esse direito. Através do voto livre e democrático, confiaram a governação do concelho à Dra. Isabel Ferreira, candidata apoiada por outro partido, o PS, para um mandato de quatro anos. Essa escolha representou uma alternância política, mas também uma oportunidade para novas abordagens, novas prioridades e uma forma diferente de olhar para o futuro do município.
A alternância democrática é saudável e necessária. Contudo, nem sempre é facilmente aceite por quem esteve anos a fio em funções. Em alguns setores, sente-se ainda uma dificuldade em reconhecer plenamente o resultado eleitoral. Por vezes, o debate político tende a desviar-se do confronto de ideias e de projetos para um terreno menos construtivo, marcado por suspeições, insinuações ou disputas que pouco acrescentam ao desenvolvimento do concelho.
Numa democracia madura, a oposição tem um papel essencial. Questionar, fiscalizar e apresentar alternativas. Mas esse papel ganha força quando é exercido com elevação, respeito institucional e sentido de responsabilidade perante a comunidade.
Durante a campanha eleitoral, a atual Presidente da Câmara afirmou que pretendia ser presidente de todos os Bragançanos, independentemente das suas preferências políticas. Essa afirmação traduziu uma visão de governação assente na inclusão, no diálogo e no reconhecimento de que o município pertence a todos os cidadãos.
A prática política tem demonstrado a intenção de cumprir esse compromisso. Governar para todos implica ouvir diferentes sensibilidades, respeitar instituições e procurar construir pontes em vez de aprofundar divisões. Naturalmente, essa postura pode não corresponder às expectativas de quem encara a política sobretudo através de lógicas partidárias mais rígidas. Ainda assim, é precisamente esse espírito de abertura que fortalece a democracia local.
Num momento de mudança política, é importante que a comunidade saiba distinguir entre crítica legítima e mera tentativa de desgaste. O debate democrático deve existir, e é saudável que exista, mas deve centrar-se em ideias, propostas e projetos concretos para o futuro de Bragança.
Para quê alimentar polémicas ou conflitos estéreis? O essencial é permitir que quem foi democraticamente eleito possa desenvolver o seu trabalho e apresentar resultados. Só o tempo, a obra realizada e o impacto das decisões tomadas permitirão fazer uma avaliação justa e ponderada.
O caminho mais sensato, na minha opinião, é simples. Deixar governar, acompanhar com espírito crítico e, no momento próprio, avaliar em consciência. Os ressabiados não deram um minuto de “descanso” à novel Presidente e começaram mesmo antes da tomada de posse. Outros dão a sensação de quererem ser Presidente da Câmara à força. Para o serem, com legitimidade democrática, têm que se submeter a sufrágio.
Daqui a quatro anos, caberá novamente aos cidadãos decidir, através do voto, se o caminho seguido correspondeu às expectativas e às necessidades do concelho.
É essa a essência da democracia. O voto pode não garantir sempre a escolha perfeita, e por vezes nem a melhor, mas assegura algo fundamental, que o poder pertence ao povo e que nenhum poder é definitivo. A alternância democrática não é um problema, é uma garantia de liberdade, renovação e responsabilidade perante os cidadãos.

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