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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 5 de abril de 2026

(Re)pensar as Páscoas...


 A Páscoa, no seu significado mais profundo, é uma das celebrações centrais do cristianismo. Representa a morte e a ressurreição de Cristo, um momento que, para os crentes, simboliza redenção, renovação e esperança. É a ideia de que o sofrimento não é o fim, de que há sempre a possibilidade de recomeço, de transformação interior. Em teoria, é um convite à introspecção, olhar para dentro, reconhecer falhas, perdoar e recomeçar com mais consciência.

Mas quando saímos do plano simbólico e entramos no que efetivamente acontece nas comunidades, a realidade torna-se mais ambígua, por vezes até contraditória.

Em muitas localidades, especialmente nas mais pequenas, a Páscoa transforma-se num ritual social mais do que religioso. Há a visita pascal, sem padre, o compasso, o beijar da cruz, os almoços em família, as mesas fartas. Faz-se dançar o sino em rodopio e grita-se aleluia aleluia... Há também o vinho, as conversas longas, os reencontros. E, inevitavelmente, há o envelope. Um gesto que, para uns, é tradição, para outros, obrigação disfarçada de devoção.

Aqui surge a dúvida e podemos passar a questionar. Até que ponto o que se vive corresponde ao que se celebra?

Para muitos, a dimensão espiritual dilui-se no hábito. A morte e ressurreição de Cristo tornam-se um pano de fundo distante, quase decorativo, enquanto o foco real está no convívio, na comida, no cumprir de expectativas sociais. Não é necessariamente algo negativo, o ser humano precisa de rituais, de pertença, de momentos de encontro. Mas levanta uma questão honesta. Estamos a celebrar fé ou apenas tradição?

E depois há o desconforto com certas dinâmicas institucionais. A relação entre religião e estruturas de poder, historicamente próxima, continua a levantar dúvidas. Portugal é um Estado laico. Quando a fé se cruza com interesses políticos, com influência social ou económica, perde-se parte da sua pureza original. O que deveria ser um espaço de reflexão e espiritualidade pode transformar-se num sistema de manutenção de autoridade, costume e pior ainda, de VÍCIOS!

Por contraste, as chamadas festas pagãs, ligadas aos ciclos da natureza, às estações, à fertilidade e à vida, parecem-me, mais transparentes. Não escondem a sua função que é celebrar a vida tal como ela é, sem a necessidade de uma narrativa de salvação ou culpa. São diretas, quase cruas, mas honestas na sua essência.

Talvez a questão não seja escolher entre o sagrado e o profano, entre o religioso e o pagão. Talvez a questão seja autenticidade.

Importa a morte e ressurreição de Cristo? Para quem acredita, sim, profundamente. Mas essa importância só existe se for vivida de forma consciente, não automática. Caso contrário, torna-se apenas mais um símbolo vazio, repetido ano após ano se uma qualquer pandemia não a interromper.

Importa juntar pessoas, partilhar comida, rir, beber um copo? Também. Isso é parte fundamental da experiência humana. Mas quando isso substitui completamente o significado original, sem sequer haver consciência dessa substituição, perde-se tudo.

A Páscoa pode ser muitas coisas ao mesmo tempo. Fé, tradição, encontro, contradição. O problema não está na diversidade de significados, mas na falta de reflexão sobre eles.

Talvez o verdadeiro espírito da Páscoa, independentemente de crenças, esteja precisamente aí. Talvez esteja na capacidade de parar, questionar, e decidir, de forma honesta, o que é que tudo isto significa para cada um de nós.

O resto… é negócio disfarçado de misericórdia e amor pelo próximo.

HM
Dia 5 de Abril de 2026, dia de Páscoa.

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