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(Henrique Martins)
COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
sábado, 28 de agosto de 2021
Aquecimento global muda vida e hábitos de plantas e animais em Portugal
As alterações climáticas estão a mudar a vida e os hábitos de plantas e animais em Portugal, surgem novas espécies de peixes nas águas nacionais, as aves mudam comportamentos e "há um movimento para norte".
A propósito do último relatório divulgado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla original), divulgado recentemente e que alerta para as mudanças irreversíveis no planeta causadas pela humanidade, a agência Lusa falou com seis especialistas, todos eles garantindo que as alterações climáticas existem e já estão a causar mudanças em Portugal.
"Há um movimento para norte", diz Rui Pimenta Santos, professor da Universidade do Algarve, especialista em ecologia marinha e em plantas marinhas, referindo-se a algas e a peixes.
"O aquecimento do oceano é uma evidência e as espécies reagem a isso. Na costa algarvia há agora peixes que só existiam na Madeira e Açores e as espécies de águas mais frias estão a ir para norte", diz à Lusa, explicando que o mesmo se passa com as laminarias, grandes algas castanhas que apenas existiam no norte do país e que se estão a deslocar ainda mais para norte.
Em contrapartida há, garante, outras espécies de algas, provenientes de águas mais quentes, que têm vindo a entrar em Portugal. É certo, diz, que os limites térmicos das espécies são amplos, mas avisa que nas zonas de fronteira da temperatura "qualquer aquecimento faz a diferença".
Mas não é apenas no mar que os cientistas encontram mudanças. André Carapeto coordenou a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental, apresentada em 2020, e é especialista em plantas em vias de extinção, nas quais se nota "mais claramente os efeitos das alterações climáticas, principalmente naquelas com habitats muito específicos".
É o caso das plantas que vivem acima dos 1.500 metros de altitude. O aumento das temperaturas na Serra da Estrela, com menos neve, afeta 30 espécies de plantas que "não têm para onde ir" e que veem os seus habitats ocupados por outras plantas que começam a "subir" a serra, como as giestas e os sargaços, diz à Lusa.
E à Lusa também Domingos Leitão, diretor-executivo da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), fala de 30 anos de mudanças no comportamento das aves, influenciados pelas alterações climáticas, mas também por outros fatores de origem humana, como a agricultura intensiva, ou a captura acidental de aves marinhas em redes de pesca.
O aquecimento global é um dos fatores, diz, que levou a que algumas aves migradoras se tenham tornado mais sedentárias, como a cegonha-branca, como a poupa, com grande parte da população a passar o inverno em Portugal. "Migravam porque não tinham condições para passar o inverno, mas agora têm", diz, dando também o exemplo do britango, uma espécie de abutre.
Não é necessariamente mau, salienta o responsável, que questiona, no entanto, para onde irão as aves que precisam de zonas mais frias. Joaquim Teodósio, também da SPEA, que defende que devido às alterações climáticas Portugal devia já começar a alterar as atuais áreas protegidas, diz que o aquecimento poderá estar a mudar comportamentos de aves como os pilritos ou as limosas (aves aquáticas), e que é natural que surjam em Portugal espécies típicas do norte de África.
A SPEA diz que espécies que se reproduzem no norte da Europa, onde a primavera está a chegar mais cedo, antecipam o calendário migratório, como o papa-moscas, que abandona o inverno do sul mais cedo. Mas o aquecimento também antecipa a reprodução dos insetos de que se alimenta e quando chega às zonas de nidificação pode já não haver alimento para as crias. "Tal como o papa-moscas, várias outras aves migratórias veem a sua reprodução comprometida por este desfasamento entre os ritmos de resposta de aves, insetos e plantas às alterações climáticas", diz a SPEA.
José Alves, biólogo e investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, da Universidade de Aveiro, especialista em aves migradoras, não tem também dúvidas: "As alterações climáticas estão muito ligadas às aves migradoras e é muito notória a alteração de comportamentos".
O Ártico, com um grande aumento das temperaturas, leva a uma alteração da resposta das aves à primavera, chegando mais cedo aos estuários portugueses. Mas José Alves nota que são as novas gerações as que chegam mais cedo, pelo que a resposta às alterações climáticas acontece no tempo de uma geração. Mas avisa: "Algumas espécies poderão não ter tempo para se adaptar".
E se há aves como a cegonha-branca que já não saem de Portugal, na Islândia há aves que passavam o inverno em Portugal e agora já não migram também e ficam sempre na Islândia. José Alves adverte que podem morrer se o inverno for muito rigoroso neste país.
"O ostraceiro era tradicionalmente migradora e começa a passar o inverno mais a norte, as aves de montanha sobem para zonas mais altas", diz à Lusa o especialista, explicando que se trata de fenómenos complexos onde entra também a disponibilidade de alimentos e o tempo de nidificação.
Hoje "o pico de alimento pode não coincidir com o nascimento das crias", salienta também.
José Alves diz haver um declínio nas aves limícolas (associadas a zonas húmidas). Mas diz também não se poder concluir que o aquecimento global está a colocar espécies de aves em risco de extinção.
André Carapeto é mais perentório quanto a plantas: "As alterações climáticas vão acelerar o processo de desaparecimento de plantas que já estava em curso".
As plantas das dunas são um exemplo de espécies ameaçadas, com a previsível subida do nível médio da água do mar, e "no litoral norte já há espécies ameaçadas de extinção, bem como no Algarve".
Secas frequentes vão favorecer incêndios e ameaçar também as espécies dos bosques, beneficiando espécies invasoras como acácias e mimosas, diz também o especialista, acrescentando que as plantas associadas a zonas húmidas estão também em perigo.
"A flora das turfeiras é das mais ameaçadas, os brejos estão a desaparecer, há um declínio das plantas aquáticas muito acentuado", resume André Carapeto, afiançando que nos próximos 100 anos se assistirá a uma extinção acelerada de plantas, até porque é tal a rapidez das alterações climáticas que muitas espécies possivelmente não se vão conseguir adaptar. E ganham as invasoras, como as azedas, até agora condicionadas a norte pelo frio e geadas, mas que "irão subir cada vez mais".
Se em terra é este o panorama no mar pode ser melhor. Rui Orlando Pimenta Santos diz que em Portugal o aumento da temperatura não está a afetar negativamente as ervas marinhas. Mas há por exemplo uma espécie, do Mediterrâneo, que já vai até à zona do Sado "e possivelmente dentro de alguns anos chegará a Aveiro".
"O importante não é tanto o aumento da temperatura, mas a frequência de evento extremos, as ondas de calor", salienta. E explica ainda que se perderam nas últimas décadas, por ação do Homem, um terço das ervas marinhas, e que nos últimos 10 anos houve uma recuperação, por melhor preservação dos ecossistemas e especialmente pela melhoria da qualidade da água.
Há mudanças nas pradarias marinhas, nos sapais e nos mangais, em declínio. Mas há mudanças que "não são necessariamente más", afiança o especialista. E exemplifica. Se o robalo pode estar a diminuir os lírios estão a aumentar.
Francisco Leitão, do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve trabalha há 15 anos na área das alterações climáticas e da pesca, procurando compreender como é que as alterações climáticas afetam os recursos marinhos, mas também as comunidades piscatórias e a sociedade em geral.
"Hoje há dados inequívocos que indicam que há uma tendência, não só a nível nacional, mas global, onde se nota que determinadas variáveis estão a mudar. Nota-se que a temperatura da água está a mudar, que o ph (que aumenta a acidificação da água) também", diz à Lusa, acrescentando que tal está cientificamente provado.
Se a culpa é das alterações climáticas não é aqui importante, a "grande questão" é saber as consequências.
A equipa na qual se insere Francisco Leitão tem vindo a estudar (projeto "Clima-Pesca") o ciclo de vida dos peixes, tem feito projeções e estudado as consequências e as adaptações. Estuda, resume, a exposição, a sensibilidade e adaptação das espécies às alterações.
E o que comprovou é que as principais espécies de peixe que existem na costa portuguesa de interesse comercial, como a sardinha, o carapau, o peixe-espada, o choco ou o polvo, a dourada ou o robalo, são pouco vulneráveis às alterações climáticas.
Ou seja, diz, os dados indicam que até 2050 deverá haver um equilíbrio nessas espécies. Mas também alerta que tudo pode mudar num próximo estudo.
Francisco Leitão, biólogo marinho e pesqueiro, explica que as espécies em questão são de regime temperado, de grande distribuição geográfica, e bem adaptadas. A sardinha, por exemplo. Há larvas de sardinha e sardinhas no Algarve, mas também no norte, com água a menos quatro ou cinco graus.
Alerta o especialista: "O que o nosso estudo demonstrou foi que até 2040/2050, e assumindo as condições do ano passado, a natureza está a dar uma oportunidade de até lá fazermos as coisas bem".
Por isso, salienta, é preciso gerir melhor os recursos, respeitar os tamanhos mínimos, a sazonalidade. Francisco Leitão admite que os pescadores não estão sensibilizados para a questão, diz que se vai tentar dar formação, tentar fazer um livro de bolso, séries documentais.
E sim, diz, há espécies de peixes que se deslocam para norte (tropicalização) devido ao aumento das temperaturas, um fator que até podia ser positivo porque há um crescimento mais rápido, não fosse porque assim os peixes passam menos tempo numa região e são menos dispersos pelas correntes (quando ainda não nadam).
E também se fala da meridionalização, as espécies do norte que se deslocam para zonas mais centrais, embora o estudo tenha indicado que uma alteração nesse sentido será ténue.
Em resumo, afirma, a região onde Portugal se insere não deverá sofrer grandes mudanças. Mudanças, avisa, deviam era ser na forma como o planeta lida com o aquecimento global. Ou não lida.
Mas não nega que haja agora mais lírios nas águas do Algarve, que também aparece o pargo senegalês. Especialmente no Algarve "podemos começar a ver espécies a que não estávamos habituados".
Não é necessariamente mau: "Temos que pensar em como tirar benefícios destas espécies que aparecem".
Rui Pimentas Santos também já o defendera: comam-se os lírios.
“Quadros Vivos de Caravaggio”: a proposta cultural para sábado à noite
No sábado à noite, a peça encenada por Ricardo Barceló, sobe ao palco do Centro Cultural para recriar obras do pintor Caravaggio. Ao som de Bach, está prometida uma noite fascinante, refere Jan Gomes, intérprete:
“É um espetáculo performance onde as pessoas têm uma oportunidade única para assistirem ao vivo a um grande espetáculo. É feito por cinco intérpretes, vinte e uma representações de quadros do grande pintor Caravaggio. Recorrendo a uma técnica ancestral, e que na época medieval teve o seu apogeu (tableau vivant), em que através de quadros estáticos eram representados momentos importantes. Depois, todo o espetáculo em si, é, no fundo, quase uma dança, porque estes cinco intérpretes montam e desmontam os vinte e um quadros à vista das pessoas. Há uma dimensão musical que acompanha todo o espetáculo, pela música incrível, fantástica, única do Johann Sebastian Bach.”
O espetáculo tem a duração de cerca de uma hora:
“No final, há três dessas obras que são repetidas para que as pessoas possam tirar fotografias. Como não é possível tirar fotografias aos quadros durante o espetáculo, no final nós reproduzimos três dos quadros que foram representados. Para que aí as pessoas possam tirar fotografia e, no fundo, possam levar para casa uma memória deste momento único, até porque é um espetáculo único em Portugal. Este espetáculo começou a ser feito em Itália e depois veio para Portugal.”
A interpretação tem início às 21h30.
Uma Carpintaria no Cabeço
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)
No passado dia 12 de agosto, no Cabeço da Senhora da Assunção foi apresentado o último livro do meu tio padre Joaquim Leite, “Na Carpintaria de José”. Baseando-se na recuperação de uma peça de teatro, feita e representada, há várias dezenas, no Seminário de S. José, em Bragança, agora revista e aumentada, o padre Leite acrescentou-lhe mais quatro unidades (capítulos) falando de quatro Josés bíblicos (José do Egito, José de Nazaré, José de Arimateia e José Caifás), da Sagrada Família (a bíblica e a de Barcelona) e fechando com melodias alusivas ao tema, uma delas da sua autoria.
Com a casa cheia (tanto quanto as regras ditadas pela DGS para o tempo de pandemia), a Câmara Municipal de Vila Flor, marcou presença demonstrando o seu apoio a mais esta iniciativa cultural. Desde há vários anos que o Município da Flor de Lis apoia, de forme criteriosa e inteligente a cultura e, especialmente, a literatura. Porque, ao contrário de outros, o Executivo Municipal sabe bem que uma das funções, um dos desígnios, uma das obrigações do poder local passa pela valorização do território, que, por sua vez, depende em absoluto da apreciação da gente que os habita e, nesta, é indispensável o reconhecimento enaltecido das tradições, pedra fundamental da cultura popular. Muito errados estão os que julgam cumprir tal função com a instalação de algumas peças de arte em rotundas e parques. Obviamente que a estatuária é importante de quem quer que se tenha notabilizado na região ou seja de lá originário ou com fortes ligações. É um dever enaltecer, adequadamente, as figuras gradas, os artistas consagrados, os vultos que se distinguiram de entre os demais e que ganharam relevo regional e/ou nacional. Igualmente se deve abrir as portas às novas formas artísticas sem se ficar, tacanhamente agarrado ao passado, numa palavra, promover e considerar as elites artísticas. Mas é um erro tremendo desconsiderar, não valorizar nem apoiar a literatura que recupera, realça e engrandece a tradição popular, dando-lhe, pela escrita, uma duração superior à dos mármores e metais, segundo Jorge Luís Borges. Aqui chegando, seria insensato não valorizar, devidamente, a tradição genuinamente religiosa, traduzida nos autos e que, nesta obra, o padre Leite, igualmente celebra e enaltece.
Joaquim da Assunção Leite, fiel ao seu ideário de décadas a que habituou os que lhe ouvem as homilias, traz-nos na peça teatral, de um ato e vinte e uma cenas, um Jesus adolescente, que, na carpintaria do Seu pai dialoga com amigos, vizinhos, clientes e até com uma cabra. O ambiente, os diálogos e as circunstâncias, viajam dois milénios e consubstanciam a realidade do Médio Oriente nazareno, numa das nossas aldeias do princípio do século passado, tão bem conhecida, por que vivida, pelo autor. A carpintaria milenar podia muito bem ser a de um outro qualquer José, da sua criação, o Bernardo ou o Cândido e o argumento é igualmente atualizado para os nossos tempos. A humanização é clara e marcante em todas as personagens desde a cabra Malhadinha, com “sentimentos” e “opiniões” até ao adolescente Jesus cujos traços de divindade apenas se Lhe adivinham na bondade e generosidade.
Colaborador regular de jornais e revistas do nordeste, (Voz do Nordeste, Mensageiro de Bragança, MAS, Nordeste e CEPIHS) publicou Cravo na Boca (Teatro), Pedra Flor (Poesia) e A Morte de Germano Trancoso (Romance) tendo sido coautor nas seguintes antologias; Terra de Duas Línguas I e II; 40 Poetas Transmontanos de Hoje; Liderança, Desenvolvimento Empresarial; Gestão de Talentos (a editar brevemente).
Foi Administrador Delegado da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana, vereador na Câmara e Presidente da Assembleia Municipal de Torre de Moncorvo.
Foi vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
É Diretor-Adjunto na Fundação Calouste Gulbenkian, Gestor de Ciência e Consultor do Conselho de Administração na Fundação Champalimaud.
É membro da Direção do PEN Clube Português.
sexta-feira, 27 de agosto de 2021
Macedo de Cavaleiros | Trilhos, geossítios e caretos
Os caretos de Podence colocaram Macedo de Cavaleiros no mapa turístico internacional, com a classificação desta folia única, colorida e contagiante, pela UNESCO (leia Património Mundial da UNESCO em Portugal). Mas nem só de Entrudo Chocalheiro se faz este destino no coração do nordeste transmontano.
Na tranquilidade do reino mágico de Trás-os-Montes existem outros tesouros quase desconhecidos. Um deles é o Geopark Terras de Cavaleiros, com rochas que fazem parte da biografia do planeta. A somar a estas rochas velhinhas, há ar puro. E paisagens encantadoras. E águas que são fonte de vida, de biodiversidade e lazer. Há mergulhões com rituais de acasalamento assombrosos.
Em Macedo de Cavaleiros há ainda iguarias gulosas e bom vinho. Há entardeceres bucólicos e silenciosos. Há aldeias que zelam pelas memórias de outrora e gente que nos acolhe de braços abertos.
Depois de ler este artigo, acredito que vai querer passar um fim-de-semana prolongado ou uma semana tranquila nesta terra que recebeu o nome de dois cavaleiros valentes, que aqui habitaram na época dos mouros e que usavam fortes maças (mocas) como arma.
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| Três montes, três tipos de rocha: um do manto e dois da crosta terrestre. Deviam estar no interior da terra, mas estão à vista de todos! |
Nove passos, nove concelhos
As Terras de Trás-os-Montes ficam no extremo nordeste de Portugal, um território de incalculável valor ecológico, formado por nove concelhos com diferentes riquezas: Alfândega da Fé, Bragança, Macedo de Cavaleiros, Miranda do Douro, Mirandela, Mogadouro, Vila Flor, Vimioso e Vinhais.
A região tem tradições únicas como as Festas de Inverno e as máscaras, três parques naturais – Montesinho, Douro Internacional e Vale do Tua -, a maior reserva transfronteiriça da Biosfera e um geoparque da rede UNESCO. Vai daí os concelhos juntaram-se no projecto Nove Passos, para divulgar a sua Natureza através de nove trilhos ou percursos pedestres. Em cada concelho é proposto um percurso com direito a carimbo no Passaporte Natural.
Foi criada também uma app, disponível na app store e Google Play, que funciona offline (importante, porque a rede de telemóvel não é constante), com a descrição detalhada dos percursos e respectivo tema, localização e ficha técnica, áreas protegidas em que se insere, monumentos naturais, etc.
Foi com entusiasmo que 18 membros da ABVP – Associação de Bloggers de Viagem Portugueses aceitaram o desafio para explorarem estes trilhos, como muitos de vocês tiveram oportunidade de perceber, nos stories do Instagram.
Trilhos em Macedo de Cavaleiros
No concelho de Macedo de Cavaleiros, território classificado pela UNESCO como Geopark Terras de Cavaleiros devido à sua importância geológica, existem 24 percursos pedestres de pequena rota marcados, de diferentes níveis de dificuldade. É uma delícia caminhar pela região, que integra duas importantes áreas protegidas: o sítio de importância comunitária Morais (rede Natura 2000) e a paisagem protegida da Albufeira do Azibo.
O percurso de Macedo de Cavaleiros que faz parte do projecto Nove Passos, Nove Concelhos é o PR4 Trilho Quercus, dedicado às aves aquáticas. Com cerca de 8 quilómetros, este percurso linear tem partida (ou chegada) junto à praia fluvial da Fraga Pegada, e percorre uma parte das margens da albufeira.
Criada nos anos 1970 para abastecimento de água da população e aproveitamento agrícola, a barragem foi sendo colonizada por muitas aves, que aqui procuram refúgio e nidificam. O mergulhão-de-crista – de vistosas plumagens e danças nupciais ainda mais inusitadas – é o símbolo do trilho e da paisagem protegida. Mas pode observar muitas outras aves, nos dois observatórios criados para esse fim: garças, mergulhões pequenos, patos-reais, guarda-rios, corvos marinhos… Sem esquecer o milhafre-real, em perigo de extinção, e tantos outros mamíferos e anfíbios.
Não nos esquecemos que estamos em território do Geopark, com a visita ao geossítio metavulcanitos da Fraga da Pegada, isto é, rochas de origem vulcânica onde foram escadas gravuras rupestres, e o curioso xisto borra-de-vinho a surgir, aqui e ali.
O trilho tem sombra na maior parte do caminho, pois a albufeira é rodeada de farta vegetação, em particular de frondosos sobreiros. No entanto, existem duas subidas mais íngremes sem sombra (leve chapéu).
Junto à aldeia de Santa Combinha, espreite a belíssima paisagem do miradouro, passeie entre as casas de xisto e visite o espaço de trabalho do artesão conhecido como “Zé das Casinhas”. Se tiver tempo, regresse para conhecer o PR2 Trilho Ricardo Magalhães, circular, onde foram identificadas 43 espécies de borboletas e muitas libélulas.
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| Os sobreiros que deram nome ao percurso pedestre. |
O que visitar em Macedo de Cavaleiros
A Natureza é um grande atractivo de Macedo de Cavaleiros, mas não é o único motivo para visitar a região. Para mim, há três outros grandes motivos para rumar até lá: o impressionante Geopark Terras de Cavaleiros, a albufeira do Azibo com as suas praias galardoadas e a aldeia de Podence.
Monumentos geológicos
Comecemos pelo Geopark Terras de Cavaleiros, que integra a rede mundial de geoparques da UNESCO desde 2015. Com uma geologia que nos transporta até há 540 milhões de anos, é considerado um dos cinco umbigos do mundo, locais que explicam a dinâmica dos oceanos e continentes ancestrais.
Por exemplo, no Monte de Morais, as rochas contam-nos a história do choque de dois continentes anteriores à Pangea e do desaparecimento do oceano Rheic, “pai” do nosso oceano Atlântico. Mas há um total de 42 geossítios identificados e algumas dessas formações geológicas têm relevância internacional.
Eu conheci o G31 – Gnaisses de Lagoa (41⁰ 25’ 30.0’’ N; 6⁰ 45’ 45.7’’ W), o G32 – Descontinuidades de Conrad e Moho (41⁰ 25’ 06.1’’ N; 6⁰ 45’ 50.5’’ W) e o G36 – Poço dos Paus (41⁰ 28’ 42.03’’ N; 6⁰ 51’ 00.19’’ W).
Vamos a uma pequena explicação sobre eles. Os gnaisses (não é curiosa esta palavra?) ficam na margem direita do rio Sabor, muito próximo da aldeia da Lagoa, e são rochas com mais de 500 milhões de anos, que testemunham a existência de um pequeno continente muito anterior aos que existem hoje.
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| Os gnaisses apresentam cristais de forma alongada, causados pela pressão e movimento a que a rocha foi sujeita ao longo dos milénios. |
Muito perto ficam as maravilhosas descontinuidades sísmicas de Conrad e a de Moho: superfícies que separam diferentes tipos de materiais no interior do planeta Terra à vista de todos! Uma descontinuidade separa o manto da crosta inferior e a outra separa a crosta inferior da superior.
O geossítio Poço dos Paus fica na aldeia de Chacim e tem rochas que se formaram no antigo oceano Rheic, antes dos continentes chocarem e este desaparecer. Rochas do mesmo tipo que existem nas profundezas do Atlântico.
Estes monumentos geológicos têm placas informativas. Mas dificilmente teria percebido a raridade destas pedras sem a explicação do geólogo Pedro Peixoto, que se mudou para Macedo de Cavaleiros por causa do Geopark e (percebe-se) é completamente apaixonado por este território especial.
Dica: na aldeia da Lagoa, procure a Tia Maria Luísa que, provavelmente, estará de volta do forno a cozer pão. Sente-se a conversar e deixe-se contagiar pela alegria que emana, aos 82 anos de idade. Embaixadora do geoparque, a tia Maria Luísa é uma lição de vida ambulante. Um cancro na flor da idade roubou-lhe o sonho de ser mãe, mas adoptou não poucas crianças, cuidou delas como suas. Hoje, é acarinhada por toda a comunidade e afirma, peremptória: “eu nasci para ser feliz”.
Albufeira do Azibo
Três linhas de água transformaram esta paisagem, hoje protegida, resultando no imenso lago do Azibo. Graças à sua beleza e qualidade ambiental das suas praias fluviais, o Azibo tornou-se um dos maiores atractivos do nordeste transmontano no Verão.
Praticamente lado a lado, a praia da Fraga da Pegada e a praia da Ribeira estão entre as melhores praias fluviais do país, galardoadas com bandeira Azul, ano após ano, graças à água cristalina e boas infraestruturas de apoio. A praia da Ribeira foi mesmo a vencedora das 7 Maravilhas Praias de Portugal. Para além de um extenso relvado, encontra ali parque infantil, campos de jogos, restaurante-café, casas de banho e duches. Também é possível praticar desportos aquáticos não motorizados como canoagem, vela e stand up paddle.
Para além de relaxar numa das praias, a albufeira oferece outras actividades apetecíveis. Por exemplo, experimentei um passeio de trotinete eléctrica com a Azibo Nature e um charmoso passeio, num barco solar e ecológico, com a Sun Azibo Cruzeiros, onde consegui vislumbrar mergulhões-de-crista com binóculos e fui mimada com um espumante e produtos regionais.
Aldeia de Podence e os seus caretos
Macedo de Cavaleiros rima com Entrudo Chocalheiro. É mesmo obrigatório uma visita à aldeia de fortes tradições que gerou os tradicionais Caretos de Podence, Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO desde 2019.
Visitar Podence durante o Entrudo Chocalheiro, quando o diabo anda à solta pelas ruas, deve ser uma experiência fantástica. Os rapazes mascarados saem em corrida desenfreada nos seus fatos coloridos, perseguindo as raparigas para as “chocalhar”: agitam os chocalhos pendurados que vão embater, por vezes dolorosamente, nas suas vítimas. A tradição serve como despedida do Inverno e para marcar o início da Quaresma, com excessos que têm raízes nas antigas saturnais romanas, em homenagem ao deus das sementeiras.
Recorde outro carnaval tradicional, bem genuíno, no norte de Portugal – Carnaval de Lazarim: caretos e senhorinhas.
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| Um careto gigante recebe os visitantes à entrada da aldeia de Podence. |
Qualquer altura do ano é boa para visitar a Casa do Careto, onde se explica as personagens misteriosas e todo o trabalho realizado para que não se perdesse estas tradições seculares. E para passear na aldeia, cada vez mais colorida, graças à imaginação de artistas que pintam nas paredes várias versões dos diabretes.
Em Podence vivi uma das experiências mais interessantes desta viagem a Macedo de Cavaleiros. Os artesãos Filipe e Sofia mostraram como se fazem os fatos de lã e as máscaras de metal, na sua oficina à entrada da aldeia. O Filipe aprendeu a fazer máscaras em pele com o avô e, o que começou por ser um hobby, passou a ser a sua actividade profissional em 2014.
Depois juntou-se-lhe a Sofia, no trabalho artesanal e na empresa de animação turística. Eu participei no workshop de pintura de máscaras desta dupla de artesãos e a minha obra prima está, orgulhosamente, em lugar de destaque da minha sala.
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| A Sofia tem a máscara que pintei. Não está gira? |
Mais para fazer em Macedo de Cavaleiros
Já enumerei argumentos mais que suficientes para visitar Macedo de Cavaleiros. Ainda assim, refira-se que a cidade possui vários espaços museológicos, de que são exemplo o Museu Martim Gonçalves de Macedo, em homenagem ao soldado que salvou o futuro rei D. João I, o Museu Municipal de Arqueologia ou o Museu do Mel e da Apicultura, o primeiro do género criado em Portugal (a lista completa de museus aqui).
Longe do centro histórico, destaco dois locais que poderá querer incluir no roteiro. A pitoresca aldeia de Vale Pradinhos, onde se produz o famoso vinho Valle Pradinhos desde 1913. Na aldeia de Chacim, sugiro uma visita ao pacífico Convento de Balsamão, que pode conjugar com o G36 – Poço dos Paus.
A casa dos padres marianos da Imaculada Conceição é um lugar de recolhimento, silêncio e paz. É possível ficar alojado neste complexo, partilhando alguns dos espaços com a comunidade religiosa, que está sempre disponível para conversar. Os quartos não têm televisão, as refeições são feitas em conjunto, com produtos da horta.
O convento pretende, num futuro próximo, desenvolver o projecto turístico com o aproveitamento das águas termais, na origem da lenda da Senhora com um bálsamo na mão que curou as feridas dos soldados cristãos e ajudou a vencer os mouros provocando uma chacina, na origem do nome da aldeia. Tratar dos animais, colher fruta, ajudar na reflorestação ou cultivar cereais que serão usados na produção de uma cerveja artesanal serão outras experiências disponíveis.
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| Dormir no recolhimento de uma comunidade religiosa deve ser uma experiência e tanto. |
Dicas úteis
Quando visitar Macedo de Cavaleiros
Diz o povo que em Trás-os-Montes se vive nove meses de Inverno e três de inferno. Na transição entre a Terra Quente (vales dos rios Tua e Douro, a sul) e a Terra Fria a norte, Macedo de Cavaleiros possui as estações um pouco mais marcadas. Na Primavera, os montes ficam perfumados e coloridos com muitas flores, as ribeiras e cascatas estão cheias. O início da Primavera é também a melhor época para observação de mergulhões-de-crista em período nupcial.
No Verão, é possível aproveitar as praias fluviais do Azibo e, apesar de quente, a estação não é tão tórrida, se comparada com outros concelhos transmontanos. No Outono, a região assume tons doirados muito bonitos, com temperaturas perfeitas para boas caminhadas. No Inverno chegam os dias frios, alguma chuva, geadas e neve (de vez em quando). Nas duas estações mais frias, existe maior diversidade de aves aquáticas no Azibo.
A data de algumas festas e eventos diferenciadores podem também influenciar a altura da visita, nomeadamente o Entrudo Chocalheiro de Podence, as feiras da caça (Janeiro), a Feira do Folar antes da Páscoa, a Feira de São Pedro (Junho), a Ceifa e Segada de Morais (Julho), o Festival Internacional de Música Tradicional (Agosto) ou a secular Feira das Cebolas em Chacim (Setembro).
Onde ficar em Macedo de Cavaleiros
Em Macedo de Cavaleiros existem poucos hotéis, mas muito alojamento local. No centro da cidade, o moderno Hotel Muchacho ou, no antípodas, o histórico Solar Morgado Oliveira do século XVII poderão ser boas opções. Junto à albufeira, a Casa Vale de Azibo é uma das mais bem pontuadas no Booking.
Eu fiquei na Casa da Fraga, na pequena aldeia de Ferreira, um alojamento local com piscina muito charmoso. A Ângela é a anfitriã perfeita, serve scones e bolinhos de amêndoa mornos ao pequeno-almoço, granola caseira e sumo de laranja, enquanto nos faz sentir parte da família. Peça-lhe a sobremesa de milhos e coullie de frutos vermelhos (ela vai adorar contar a história da sobremesa).
Onde comer
Nas Terras de Trás os Montes há 23 produtos classificados com Denominação de Origem Protegida (DOP) e Indicação Geográfica Protegida (IGP). Portanto, pode esperar carnes, vinhos, frutos secos, fumeiro, queijos, mel e azeite de qualidade e sabor inconfundível.
Experimentei três bons restaurantes na região, que posso recomendar sem reservas. A Casa do Lago, para um jantar longo e cheio de petiscos, enquanto aprecia um lindo pôr do sol no Azibo. Adorei os rebuçados de queijo brie e mel, assim como a salada de polvo e os peixinhos da horta. Ah, sem esquecer do memorável gelado de canela e pudim de castanha.
O Solar de Chacim, na aldeia homónima, para um longo almoço na varanda com vista para a piscina, num ambiente mais requintado (também possui alojamento). Comida genuína, com um toque de sofisticação. Ou um piquenique no parque de merendas do Azibo, organizado pelo hotel Alendouro, com todos os produtos regionais que pode imaginar: bôla, requeijão com doce, enchidos, mão de porco, saladas frias. Tudo apresentado num cesto lindo e regado com um belo Valle Pradinhos.
Esta viagem foi realizada a convite da CIM Terras de Trás-os-Montes, a quem agradecemos.
PUBLICAÇÃO ORIGINAL
UM HOMEM DE PESO
Quem não cumprisse a Lei, sofria pesada multa.
Meu pai, devido à doença, que vitimou minha mãe, contratou criadita, para realizar o meneio da casa - casarão de alforge com dez quartos! - Reservou, porém, à esposa, a alegre tarefa de confecionar as refeições.
Apesar de avisada, esta, habituada a lidar em moradias da província, sacudia descuidadamente, tudo ou quase tudo, à janela, sem se preocupar com quem passasse no passeio.
Certa ocasião, ao sacudir o pano de pó, não reparou, que bem defronte ao prédio, estava, parado um polícia dos antigos, daqueles que não perdoava a multazinha...
O guarda logo interrogou a vizinhança, com o fim de se inteirar da atrevida. Disseram-lhe que a casa era do Senhor Máriozinho...
- Máriozinho quê?! "- Interrogou o janízaro.
- Não sabemos - responderam as mulheres.
Mas, a mais expedita informou: que o Senhor Manuel, dono da mercearia devia saber.
Todo lampeiro, o polícia entrou na loja, de nariz empinado.
O senhor Manuel ouviu-o atentamente e informou-o:
- É o senhor Mário Pinho. Homem de peso; e muito considerado...
- " É homem de peso ?! - Interrogou o agente de autoridade, estampando no rosto, expressão de receio.
- Sim: e até escreve nos jornais!...
- "Ah! muito obrigado...Muito obrigado. Se é homem de peso e escreve, é melhor esquecer a multazinha...
Mais tarde, meu pai, ao conhecer o diálogo travado com o merceeiro, comentava, sentado à mesa oval, de mogno polido, onde tomávamos as refeições:
- " Realmente sou homem de peso... Peso oitenta e dois quilos..."
Assim se livrou da multa.
Somos todos iguais - dizem os entendidos, - mas há uns, mais iguais, do que outros...
A lei é para todos. A justiça é cega... Mas, já dizia o nosso clássico Padre Manuel Bernardes:
" As leis são como as teias de aranha. Se cai nela uma pedra, rompe-a, e fica ilesa; se cai nela a mosca, fica presa, e paga o seu descuido ou atrevimento. Assim os grandes zombam das leis, e o castigo de se quebrarem, fica só para os pequenos."
VERÃO EM CARRAZEDA - MOSTRA DE PRODUTOS LOCAIS
13 Expositores de Produtores Locais e um pertencente ao Município preenchem a praça para mostrar o que o nosso concelho tem para oferecer e o que melhor se produz.
Venha-nos visitar!
Praça do Município hoje e amanhã das 10h00 às 23h00 e domingo das 14h00 às 17h00.
AECT Duero-Douro instala 12 plataformas de bicicletas eléctricas para conhecer região de fronteira
Este projecto, o Raia Norte Bikes, é do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Duero-Douro e integra a Rota Raia Norte, uma rede de 33 áreas de serviço para autocaravanas de um lado e do outro da fronteira.
O director geral do agrupamento, José Luís Pascual, sublinha que a ideia é que os locais e os visitantes percorram o território transfronteiriço, desfrutando da paisagem de forma sustentável. “Há 48 bicicletas. Cada uma das estações tem quatro. São 12 estações, no total. Esta é a primeira fase do projecto que pomos em marcha”.
O projecto foi apresentado ontem, em Mogadouro. O coordenador territorial do agrupamento e vice-presidente deste município, Evaristo Neves, destaca que estes projectos que envolvem comunidades transfronteiriças são de extrema importância para a união dos dois povos, tornando estas regiões muito mais dinâmicas e atractivas. “O município de Mogadouro é associado do AECT Duero-Douro desde o começo e, por isso, não podia ser de outra forma que não acarinhar este projecto inovador e sustentável. É a melhor forma de se conhecer o território: pegar numa bicicleta e percorre-lo”.
Presente na apresentação esteve a secretária de Estado da Valorização do Interior. Isabel Ferreira considera que este tipo de projectos é determinante para a captação de turistas. “O projecto tem esta componente muito ligada ao turismo mas também tem a preocupação da sustentabilidade ambiental. É com projectos como este que captamos visitantes e que o território se dá a conhecer, para que possamos, depois, converter os visitantes ou amigos destes em residentes”.
As pessoas que pretendam utilizar as bicicletas devem descarregar uma aplicação móvel, a Raia Norte Bikes, disponível em quatro idiomas: português, espanhol, francês e inglês. A aplicação permite desbloquear a bicicleta, através da leitura de um código. O custo mínimo de utilização é de dois euros, o que permite circular até duas horas.
Teófilo Braga: "As Asas Brancas"
Sempre o mesmo olhar doloroso! uma constante expressão de magoa, esse abandono, que é o tédio da vida! Porque é que na flor dos anos, quando a existência se purpúrea com todas as graças que se entrevêem apenas em sonho e se veste das alegrias que a rodeiam, como uma criança enfeitando-se destruída com as florinhas espontâneas, tu, bela, sentida, deixas refletir pela transparência da tua face pura um clarão pálido e incerto como de agonias e desespero, como a fosforescência de um grande mar que estua? Diante de ti sente-se uma opressão estranha, a mudez sagrada de uma grande floresta, o terror gélido, de quem entra na caverna de uma sibila. Porque é que os teus vinte anos, as formas arrebatadoras do teu flexuoso corpo de sílfide, que verga pela dor, mais languido e gentil do que a palmeira solitária embalada nas bafagens mornas vindas da amplidão remota do deserto, como é que toda esta adolescência, que te cinge como auréola de encanto e atrativos, me faz ter medo de ti, me prende a voz temerosa e balbuciante, que ousa ás vezes perguntar-te:
De onde vieste? Em que cismas? Que véu te acena e está chamando de longe? Porque te escondes dos olhos que choram de ver-te assim desolada, na consternação de uma angustia intraduzível por palavras humanas? Porque não falas, e nos contas o que sofres? Porque te deixas ficar horas esquecidas com a mão firmada ao rosto, suspensa numa contemplação divina, irradiante, de um modo, que ninguém ousa dizer se és da terra, se és a encarnação de alguma essência arcangélica que anda errante no mundo a santificar o amor no sofrimento?
II
Ás vezes o teu semblante, onde se pode ler um enigma que se não destrinça, tem a lividez de cera, e a claridade que parece conter em si o jaspe. Então julgo ver-te uma santa, sob o aspecto de penitente que acha em cada sucesso da vida uma tentação oculta nas aparências mais risonhas, no folguedo mais descuidado e inocente, do mesmo modo que o áspide se esconde no alegrete das mais perfumadas flores ou o sono letal na sombra da mancinela verdejante e copada, aberta ao sol, como uma escrava sustentando a umbela com que abriga do rigor das calmas a voluptuosa odalisca.
Os vinte anos são a alegria, a inocência, a expansão; ainda não viveste bastante para provar o travo amargo da vida, não sabes conhecer a tormenta que há de vir pela nuvem que negreja, nem a bonança pelo santelmo, nem os parcéis pelo refluxo da vaga marulhosa, nem o porto pelo perfume embalsamado da terra. Tu passas na vida como um meteoro fulgurante que não procura aonde irá cair, como uma criatura sonâmbula que não vacila, não hesita diante do abismo que transpõe, nem deixa possuir-se da atração irresistível porque a desconhece. A vida é assim para ti; passas despreocupada do mundo, levada na ondulação saudosa dessas vozes interiores que te segredam mistérios indefiníveis que fazem sentir o desejo de voar para o alto, até perder-se no azul.
Os teus cabelos, quando os deixas cair destrançados sobre os ombros de marfim, agitados pela brisa vespertina que vem confidenciar contigo á janela, que olha para o ocidente, esses cabelos louros, extensos, são como as cordas de uma harpa, em que as imagens incoercíveis de teus pensamentos vêm falar do céu, do amor, no frêmito ligeiro, quase imperceptível das vibrações que só tu compreendes.
Consternada e muda como uma estatua, a Niobe grega, o teu silencio incute uma sublimidade profética; parece guardar a impressão do selo mais tremendo do Apocalipse,—a missão da mulher forte.
III
Quem sabe se é o amor que a transporta assim para as solidões, como a pomba que vai esconder-se na rocha alcantilada? O amor que esmalta a vida de harmonias e encantos, que acorda as virações para levarem longe o pólen fecundante, que abre o cálice das flores para as abelhas tocarem os nectários deliciosos, que une o gemido do regato trepido com o ruído, brando que adormece, do canavial que orna as margens sinuosas? O amor é um amplexo, a identificação; como poderia divorciá-la com a vida, mudar a sua alegria em uma tristeza que é como o pressentimento do sepulcro? Aquele segredo incomunicável oprime, aterra como a esfinge propondo o enigma.
Ela cada vez andava mais desfalecida, pendia de cansaço, ofegava; mas procurava iludir os desvelos da família com um vigor que não tinha, como sucede ao naufrago quase a aferrar a terra, de que a ressaca da onda o afasta, e que hesita se deve lutar mais tempo, se deixar-se engolir nas voragens do oceano. Gravitaria ela em volta de um mundo em que procurasse absorver-se, e a vida da terra, de cá, fosse como o refluxo que a impelia para longe? Pobre flor, que se debruça nas bordas da sepultura, será uma ilusão quanto a sua alma ingênua sente? Serão uma mentira todas as harmonias que se modulam lá dentro? O tapiz verde da relva fresca, lúbrica, que a chama para vir doidejar ali num volteio feérico, febril, esconder-lhe-á o lodo de um charco estagnado que a há-de engolir para sempre?
Tenho medo de vê-la assim, com os olhos fitos no horizonte, nessa morbidez do estases; a vertigem pode sacudi-la, e precipitar-se, como a borboleta prateada e indiscreta. A sua alma eleva-se para o céu; porque voa tão cedo para cima a nevoa da madrugada, de uma alvura nitente? A andorinha quando parte, voa na aza da rajada hibernal que a arrebata.
Mas o mundo acariciou-a sempre; porque se esconde pois e foge dele? Será a reminiscência viva do foco de luz de onde saiu, que lhe inspira tamanha ansiedade, e lhe abre na alma uma saudade vivíssima, que mata? Ás vezes está tranquila, imóvel, como quem escuta a toada de um concerto mavioso que embala e com que se adormece. Oh, quem ousará despertá-la? Seria perturbar a cristalização de uma gota de orvalho que se transforma em perola. Outras vezes tem o olhar pávido, firme, de quem contempla e pasma ante uma visão imensa e augusta. Que aparição risonha virá falar-lhe? Eros, na solidão remota da noite? Será o desejo de vê-lo, o desalento do impossível, que a fazem reconcentrar assim nessa dor? Uma lagrima era a gota do óleo aromático da alâmpada escondida; em vez de fazê-lo desaparecer, envolto na nuvem branca e etérea, a lagrima trazê-lo-ia como um grande astro que atrai após si miríades de planetas.
IV
A tarde declinava amena, festiva, com o ultimo lampejo de graça que deixa pressentir já a melancolia do outono. Emma ergueu-se da mesa; o rosto estava deslumbrante de transfiguração, possuída do sentimento do infinito, que lhe dava uma expressão sobre-humana, excelsa, que se não podia fitar, semelhante á Seráfita enlevada nas iluminações swedenborgianas, ao transpor os precipícios icários, inacessíveis dos fiordes da Noruega.
Naquela tarde parecia opressa por uma angustia mais intima. Segui-a, queria admirá-la na altura a que se remontava, queria que me fizesse herdeiro do seu manto profético, no instante em que se librasse no carro de fogo, como Elias. E ela era bem a profetisa do deserto. Aproximei-me. Estava serena e plácida, como quem mergulhara no oceano da contemplação. De mais perto vi que dormia, com um sono hipnótico. Ficara-lhe um sorriso estampado nos lábios; parecia o invólucro de uma crisálida misteriosa; a borboleta voara para a luz, abandonara-o na terra.
Conservava então um livro sobre o regaço; a mão inerte repousava sobre a pagina. Um leve sinal notava uma frase profunda em que a alma se lhe absorvera: «Um anjo está presente a um outro, quando ele o deseja.»
Procurei ver de quem era o livro. Era escrito por Swedenborg, o patriarca dos teósofos do norte, o que levou mais longe as relações com o mundo invisível. O livro intitulava-se: A sabedoria angélica da onipotência, onisciência, onipresença dos que gozam a eternidade, a imensidade de Deus.
Emma acordou de súbito. Senti um estremecimento de terror, começava a compreender a sua solidão. Eu mesmo tinha estudado a segunda vista, coligido alguns fenômenos de sugestão que se passavam no meu espírito, conseguira por uma excitação nervosa perene a hipnotização voluntária.
Também no livro De varietate rerum descreve Jerônimo Cardan a faculdade que tinha de experimentar o êxtases espontâneo, e de tornar objetivas as imagens criadas na sua mente: «Quando eu quero, vejo o que me apraz, e isto não só com o espírito, mas com os olhos, com essas imagens que eu via na minha infância. Mas agora creio que elas são o resultado de minhas ocupações. É certo que nem sempre possuo esta faculdade, contudo não a tenho senão quando quero. As imagens que eu vejo estão sempre em movimento; é assim que vejo as florestas, os animais, os diversos países e tudo quanto eu quero ver. Creio que a causa de todos estes efeitos está na atividade da minha imaginação e numa vista penetrantíssima. Desde a minha infância tinha de comum com Tibério César o poder ver na obscuridade mais profunda, como em pleno dia. Porém não conservei muito tempo esta faculdade. Apesar disso vejo ainda alguma coisa, posto que não posso distinguir bem o que vejo; e atribuo este efeito ao calor do cérebro, á subtileza dos espíritos vitais, á substancia do olho, e á energia da imaginação.» (Lib. IV c. 43.)
É esta uma qualidade vulgaríssima nos povos do norte, principalmente os insulares, conhecida sob a denominação de Second sight. Aí a imaginação tendo pouca variedade de paisagem que a fecunde, volta sobre si o que ha edificado e exagera-lhe as proporções. Por isso as teogonias do norte são terríveis. As avalanches suspensas a precipitarem-se, os nevoeiros difundidos por toda a parte como um sudário imenso e frio, a aurora dos pólos a desdobrar-se esplendida, tudo faz sonhar de um mundo fantástico, escutar essas toadas vagas, indefiníveis dos espíritos que se anunciam pelo ressoar de uma harpa longínqua. O dom da visão é comum; é assim na ilha de Ferroe. Que virgens se não ostentam numa aparição repentina, e que o vidente procura, sem nunca mais poder encontrá-las! Balzac, o observador sem igual do coração, sentiu toda a poesia do norte no poema de Seraphita; é um mistério, o enlace da filosofia e da poesia, um êxtases indecifrável de Swedenborg, contemplado nas fiordes da Noruega. O delírio de Seraphita é o problema incessante da percepção imediata; o seu amor é mais puro que o ideal de Diotima, é ele que lhe dá a segunda vista.
Taishatrim e Phissichin são os nomes que em língua gaélica se dão aos que tem esta faculdade. Os fatos observados são inúmeros, o seu estudo é dos nossos dias. Kant combateu a doutrina visionaria de Swedenborg, mas não atendeu que este fenômeno físico era todo sentimental; viu no patriarca dos videntes do norte um impostor. A vida exemplaríssima de Swedenborg é um desmentido completo e irretorquível aos argumentos desta ordem.
Como explicar a inspiração continua, a segunda vista? A alma paira entre dois mundos—o físico com que se relaciona pelos sentimentos, o psíquico com que se relaciona pelos pressentimentos; se é atraída para o mundo dos corpos, predominam nela os instintos, e as sensações, todas relativas, só lhe advém pela presença dos objetos; se a alma por um desejo veemente se eleva do estado de anima ao de spiritus, os sentimentos desprendem-se do nexo das relações terrestres, e conhecem tudo independente das sensações pela representação subjetiva. É o que acontece aos poetas, cantando a beleza de formas não sonhadas, a reminiscência de harmonias não ouvidas.
VI
Emma estava naquela tarde tão afável! tinha por certo a consciência de ir em breve completar-se na essência de algum anjo. As suas falas eram como suspiros. Lançou-me um olhar interrogativo, de quem temia fazer-me uma pergunta indiscreta. Eu desconhecia-lhe aquela afabilidade de serafim, costumado a vê-la sempre aérea, desdenhosa do mundo, radiante como na transfiguração do Thabor. Apertei as mãos dela entre as minhas, queria tirar um som deste instrumento celeste, cujo segredo de harmonia era só percebido pelos anjos. Se pudesse desferi-lo, havia de perguntar-lhe o motivo de tanta tristeza, a intensidade dessa dor tão intima, tão espiritual, que se não pode exprimir na materialidade fônica da palavra. Ela adivinhou o meu desejo:
—Tens uma vontade enérgica?—perguntou-me quase a medo e de um modo sibilino. Seria uma frase abrupta para qualquer, e ininteligível até; eu porém que devo á atividade só desta faculdade tudo quanto sou, as grandes dores, os impulsos irresistíveis, as glorias sonhadas, a realização dos mais exíguos apetites, que a encontro na intensidade absoluta do Fiat, que é Deus, que a vejo nos grandes fatos do espírito, a Religião, o Direito e a Arte: na religião manifestando-se emotivamente na fé; no direito, no acordo dos contratos individuais; na arte, no ponto onde os gostos diversíssimos se harmonizam, isto é o belo; eu, repito, compreendi aquela interrogação na sua plenitude. E começava a conhecer mais o poder da vontade porque acabava de observar o resultado do ato em que a exercera.
Emma fitou-me com um olhar profundo; o semblante era majestoso e santo, como o frontispício de uma catedral da Idade Média; as flechas, as linhas arquitetónicas a infinitivarem-se para o alto, eram os seus cabelos; o olhar, o olhar que me oprimia nesse instante, era misterioso como uma ogiva sombria. Tive o medo do neófito, quando ouve mugir a caverna, e escoar-se a brisa gélida e olorante pela fenda do penhasco, e quase que se esvai em terra sem sentidos, ao ver atônito as convulsões do hierofante. Emma perguntou-me se eu cria nas relações com o mundo invisível. Hesitei um instante, depois volvi:
—Creio, mas não as sei demonstrar por uma fórmula, que, embora refutável, tenha valor filosófico.—Ela ouviu-me com o pesar e serenidade de uma jovem esposa na sua viuvez, que ouve o filhinho a perguntar-lhe pelo pai. Depois murmurou, encostando a face sobre o meu peito:
—És tão novo ainda, e porque matas em ti já o sentimento pela reflexão? A reflexão é fria, é terrena, não compreende sem decompor para recompor. Como se há de ela elevar ao simples, ao absoluto, que tem por atributo supremo a indivisibilidade? A luz, que é incoercível, não se espelha na face quieta do lago? O sentimento é assim; só ele te pode levar além das relações e das contingências. A substancia é única; esta essência dela é que prende pela unidade a multiplicidade dos atributos. Todas as vezes que te absorveres na unidade que te alia como atributo ou modo á substancia, entraste na essência de todas as cousas, porque o simples que atua nesse momento em ti, é o mesmo em que tudo existe. Vibra em ti a harmonia universal.
E continuou com palavras quase imperceptíveis. Estava em êxtases, no êxtases da abstração, como o sentia Newton quando determinava a essência de uma ordem de fatos complexos, na lei que havia ficar eterna, e a que havia imprimir o seu nome. Tive vontade de lançar-me por terra, diante daquele espírito incompreensível; precipitava-me se ela me dissesse como satanás, quando arrebatou Jesus ao pináculo do templo: — Haec omnia tibi dabo, si cadens adoraveris me.
VII
Quando Emma saiu da sua mudez sublime, recostou-se sobre o meu ombro com uma graça infantil:
—Ainda não sabes porque ando triste? Olha, uma tarde, pus-me a escutar o murmúrio de um regato; parecia-me ser uma musica interior. Tive vontade de saber o que dizia, de confidenciar com ele, de comunicar minha alma, que aspirava numa sede de amor. Ao trepidar mavioso da veia cristalina, cismava, devaneava, enleada, embevecida. Adormeci. Pareceu-me então aquele cicio, como de azas de um querubim que baixasse a meu lado; via a claridade de alvura de suas roupagens longas, estava silencioso ao pé de mim. Mostrava a expressão da serenidade augusta, uma aparência que consolava. Acordei, e o mundo afigurou-se-me um desterro, a vida um cárcere, tinha uma impaciência de voar, de fugir, o desejo irrepresível de tornar a ver o semblante risonho daquele que me veio mostrar o mundo intransitável para a vida, como sarçal espinhoso. De outra vez apareceu-me, brilhante como Iahveh na sarça ardente. Era sempre silencioso. O amor emudecia-me diante dele, quis segui-lo na visão que se esvaecia lentamente, mas o corpo estava preso aos limos terrenos, como o cordeiro que se prende nas urzes do matagal. A ânsia do extremo esforço despertou-me. Foi assim que nasceu essa melancolia profunda, concebida diante do impossível. Mais tarde conheci o mistério da vontade; isolei-a em mim, para revocar o ente dos meus sonhos á realidade de um instante. Quase que me abrasava na intensidade do querer. Ele apareceu-me mais triste. Perguntei-lhe se amava? Sorriu-se. Que era preciso para completarmos uma mesma essência? o sorriso converteu-se em uma alegria doida, e disse-me vagamente—voa da terra. Nunca mais tornou a visitar-me no desolamento em que vivo. A vida assim é o vegetar do lichen na umidade das lagrimas derramadas de hora em hora. Porque não hei de voar da terra?
VIII
Ouviu-se trindades nesse instante; cerrava-se a noite, frigida; o luar vinha saudoso. Emma pediu-me para deixá-lo só. Por alta noite via-se a luz derramar-se pela vidraça do seu quarto, luz viva, silenciosa, como da alâmpada do filósofo hermético surpreendendo a natureza em algum dos seus segredos mais recônditos.
Emma lia no livro predileto, que eu deparara aberto sobre o regaço. Pouco depois começou a alvorada. Quando o silencio era mais solene e a natureza inteira parecia reconcentrar-se em santos mistérios, sentiu-se em casa um estrondo surdo, como o baque de um corpo morto, depois o bracejar, de quem se debatia nas vascas do paroxismo. Ergueram-se á pressa, foram após o eco. Era no quarto de Emma. Seria algum pesadelo longo? A porta cedeu á prontidão do socorro. Foram encontrá-la em terra, morta, a pouca distancia do fogão, que saturava o ar ambiente de exalações carbônicas. O corpo já estava frio; o rosto tinha a palidez do mármore. A pouca distancia dela estava aberto o livro fatal das exaltações místicas de Swedenborg.
Lia-se esta frase profunda:
«A inocência dos céus produz uma tal impressão na alma, que os que são afetados dela guardam um transporte que lhes dura toda a vida, como eu mesmo experimentei. Basta talvez ter uma mínima percepção para ser para sempre mudado, para querer ir aos céus e entrar assim na esfera da Esperança.»
Seguiam-se outras palavras. Tive medo de ler mais, porque começava também a sentir a sedução da melancolia e reconcentração subjetiva, que leva ao suicídio.
Teófilo Braga: "Contos Fantásticos" (1865)
Bragança e o Tempo do Senhor Bairro - A Cidade na História e Histórias de Bairro
Bragança e o Tempo do Senhor Bairro. A Cidade na História e Histórias de Bairro está divido em duas partes e quatro capítulos. A primeira parte refere-se a momentos históricos marcantes de Bragança e a segunda remete para ambientes quotidianos dos bairros típicos da cidade, apresentando o extinto Bairro São de Deus como protagonista.
A Cidade na História recupera as origens da urbe no contexto da fundação de Portugal, caracteriza a Casa de Bragança e biografa os respetivos duques, discorre sobre o envolvimento da região durante a Restauração de Portugal, enaltece a luta das populações contra os franceses em 1808, revive a dádiva de sangue feita com heroísmo na Flandres, aquando da participação de Portugal na Grande Guerra 1914-1918. O século XX brigantino foca a nostalgia da linha do Tua e o papel desempenhado pelo conselheiro Abílio Beça, exalta o Abade de Baçal, príncipe da cultura nordestina, lastima a extinção da tropa no distrito, acompanha a transição de Bragança para a modernidade, olha a determinação do Bispo D. António José Rafael e a construção da nova catedral e apresenta o esplendor das rotundas temáticas.
Através do Tempo do Senhor Bairro, relembra vivências e tradições dos anos 1960-1980, concretamente a escola primária, a vindima, a matança do porco, a quadra do Natal e da Páscoa, o Entrudo, festas e romarias, os jogos do Fito, Paus, Ferro, Relha, e de cartas como a Sueca, o Chincalhão e a Batota. Individualiza ainda divertimentos e ocupação de tempos livres dos mais novos, desde o ir para o rio, caçar pássaros, jogar matraquilhos e futebolada de rua, aos jogos do Prego, Pião, Bilharda, Esconde Esconde ou Macaca. O livro termina com a parte «pitoresca» do conteúdo literário, acontecimentos da vida real onde, entre outros ambientes e gentes, damos a conhecer a história de vida completa de uma das figuras mais emblemáticas de Bragança – O Carlinhos da Sé. São histórias que representam a humanidade e a singularidade de bairristas à boa moda da Bragança de outros tempos.
Autor
ABÍLIO LOUSADA
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quinta-feira, 26 de agosto de 2021
Concluídas as obras de requalificação na Central de Camionagem de Mirandela
Para quem ali trabalha, as melhorias são muito importantes, principalmente ao nível da climatização.
“Esperávamos isto há alguns anos e esperemos que se mantenha. independentemente do espaço, que é o mesmo, nós chegámos a trabalho o ano passado, no verão, com temperaturas próximas dos 40 graus”, disse um trabalhador.
Os passageiros também ficaram agradados. No entanto, há mais situações que precisam de ser intervencionadas.
“Por exemplo, o parque de estacionamento. Os autocarros a entrar têm muitos problemas, porque batem no chão. Acho que a cobertura para quem entra e quem sai dos autocarros devia estar mais tapada, até por causa da chuva”, referiu outro trabalhador.
A agora remodelada estação de camionagem proporciona melhores condições para os habitantes locais, bem como quem faz de Mirandela um ponto de passagem.
Filme com máscaras e caretos de Pinela vence dois prémios no Festival de Cinema em Los Angeles
Da autoria de António Paula, o filme recebeu o ouro na categoria “melhor estudante realizador” e a prata na “melhor curta-metragem de terror”.
“Foram prémios muito bons, num festival internacional com filmes de todo o mundo, com orçamentos 50 vezes maior do que o que eu tive para fazer a curta-metragem. Mas foi muito bom. É sempre bom que os nossos filmes portugueses são reconhecidos lá fora”, destacou.
O filme é baseado numa história verídica de um padre de Mogadouro que esteve em África. Já as máscaras de Pinela são uma metáfora.
“O jornalista que vai fazer uma reportagem sobre um padre que esteve em África e a história desse padre é verdadeira, o jornalista é ficcionado. O que acontece é que o jornalista é uma pessoa descrente, ou seja, só acredita no que os olhos veem. O facto e as máscaras são uma metáfora para isso, um alerta ‘atenção existe alguma coisa que tu não consegues ver, algo para além do que tu não acreditas’”, explicou o realizador.
O objectivo de António Paula, que tem ainda uma costela transmontana, é levar a cultura a várias partes do mundo e não deixar que ela morra.
“A Entrevista” de António Paula, vencedora de dois prémios no festival de Cinema de Los Angeles. O filme foi gravado em 2020, no Porto e em Braga. O realizador deixou ainda a promessa de o dar a conhecer às gentes de Pinela, no concelho de Bragança.

























