sexta-feira, 3 de março de 2017

“É necessário saber explorar e valorizar”

INTRODUÇÃO:

Professora e investigadora do Instituto Politécnico de Bragança, Isabel Ferreira foi considerada pelo conhecido ranking internacional da Thomson Reuters uma das cientistas mais influentes do mundo na área das ciências agrárias em 2015 e em 2016.

Esta entrevista foi feita por esse motivo, mas surge, agora, no âmbito das Comemorações dos 553 anos de Bragança Cidade, em que, durante a Sessão Solene Comemorativa, que aconteceu no Teatro Municipal, a investigadora do Politécnico de Bragança foi agraciada com a entrega da Medalha Municipal de Mérito.

ENTREVISTA:

Diário de Trás-os-Montes (DTM): Estudou Bioquímica na Universidade do Porto e antes dos 30 anos já estava doutorada em Química pela Universidade do Minho. Em 2014, já tinha conquistado o 1.º lugar no ranking da Agricultural Science University. Essa consagração fazia adivinhar o sucesso e o reconhecimento que viria no ano seguinte?

Isabel Ferreira (IF): Sim, todos estes reconhecimentos têm sido graduais e, portanto, conquistados ao longo destes últimos anos.

DTM: O que é que significou para si estar no restrito lote dos seis portugueses que influenciam a ciência a nível mundial?

IF: Significa o reconhecimento de muito trabalho, muita determinação e empenho na investigação que fazemos aqui no Centro de Investigação de Montanha, em particular na minha equipa. Quando nós desenvolvemos os trabalhos de investigação não estamos a pensar nem em rankings, nem em prémios, estamos a pensar que queremos contribuir para a evolução da ciência da melhor forma que sabemos e, obviamente, faltando-nos sempre critérios de excelência na investigação. Este reconhecimento é muito agradável para nós, sem dúvida, é uma motivação e uma recompensa, também, por todo este esforço.

DTM: A sua vida mudou em que aspetos depois da divulgação da lista?

IF: É como eu disse, é sempre bom este reconhecimento, traz-nos maior visibilidade, no entanto, a visibilidade que a minha equipa tinha a nível mundial já era bastante notória, portanto, já era pouco expectável, também, para nós atingir estas posições. Por isso continuamos a fazer a investigação com os recursos que temos, com os recursos materiais e humanos que temos, e tentamos sempre divulgar ao máximo não só a ciência, mas o nome da instituição onde fazemos essa ciência, quer no Centro de Investigação de Montanha, quer no Instituto Politécnico de Bragança e, por isso, para nós também é uma honra divulgar o nome do Instituto e de Bragança no mundo.

DTM: São suficientes os recursos que tem ao seu dispor?

IF: Em termos de recursos materiais e financeiros sim, estamos dotados com equipamento e tecnologia de ponta e que nos permite fazer uma investigação ao nível do que se faz no resto do mundo. Agora, é importante que haja um poço de investimento ao nível dos recursos humanos, porque tal como a minha equipa há muitas equipas neste país que têm jovens doutorados com um talento imenso e não gostaríamos de perder para outras equipas, nomeadamente, estrangeiras. Para isso precisamos de assegurar financiamento para manter estes recursos humanos.

DTM: Uma investigadora da sua estirpe podia fazer investigação em qualquer parte do mundo, porquê Bragança?

IF: Bragança é a minha terra natal, foi aqui que eu vivi exceto o tempo em que estive na Universidade do Porto para a licenciatura e depois o mestrado e o doutoramento que já fiz na Universidade do Minho. Mas, Bragança, por questões familiares, por questões de qualidade de vida, mas, maioritariamente, muitas razões afetivas fizeram-me escolher esta cidade. Estou muito satisfeita por estar aqui, e estando aqui também consigo chegar, como fica notório com este ranking, ao resto do mundo, por isso é indiferente estar em Bragança ou na Califórnia, ou em Cambridge. É relativo.

DTM: Mas se pudesse escolher, escolheria outro local se lhe dessem outras condições, talvez até um melhor salário?

IF: Não, nesta fase da minha vida não. Não sei como é que será o futuro, eu estou no sítio que escolhi, tenho feito um trabalho, eu e a minha equipa, no qual nos orgulhamos, estamos satisfeitos em viver aqui, temos alcançado os objetivos que nos propomos e as metas que nos propomos, por isso não sinto muito essa diferença de estar aqui ou estar em qualquer outra cidade. E depois, também é preciso não esquecer que sendo investigadores somos funcionários públicos e por isso não há essa questão como há noutras áreas como no mundo do futebol em que se pode negociar salários, não. Nós temos uma carreira e temos que respeitar essas regras porque escolhemos e eu, particularmente, também escolhi estar na função pública.

DTM: Citando uma fonte, “Isabel Ferreira é vista como a cientista que está a desbravar uma das áreas mais dinâmicas da investigação agroalimentar”. Poderia explicar em que consiste o seu trabalho?

IF: Eu gosto de falar sempre no plural, é o nosso trabalho porque é uma equipa, que eu lidero e que, realmente, vem no seguimento de uma investigação que iniciou há vários anos, em que começámos por estudar, caracterizar em detalhe muitas espécies de plantas e cogumelos da nossa região. Dessa inventariação química que nós fizemos, apercebemo-nos que existem espécies que tem um alto valor e um alto potencial, no sentido em que são fontes de moléculas muito interessantes para a indústria alimentar, para a indústria cosmética, enfim. E, portanto, aquilo que temos feito nos últimos anos é obter substâncias a partir de plantas e cogumelos, e utilizá-los como ingredientes naturais na formulação de alimentos a que nós chamamos de alimentos funcionais, que são alimentos que trazem benefícios para a saúde do consumidor. E, portanto, temos desenvolvido metodologias e estudamos todos os processos que passam desde a extração até à purificação de determinadas substâncias para, depois, incorporá-las em alimentos.

Nesses ingredientes, ou com esses ingredientes, nós podemos visar questões relacionadas com conservantes, nomeadamente conservantes naturais, nomeadamente, que substituam aditivos químicos, que são usados atualmente, mas, também, por exemplo, corantes alimentares ou substâncias bioquímicas em geral.

DTM: Ou seja, a sua investigação vem no sentido de descobrir novas moléculas nos cogumelos e nas plantas da região de Bragança para criar corantes e conservantes naturais. Mas como é que o seu trabalho poderá influenciar a vida de cada um de nós?

IF: Bom, o trabalho que nós fazemos, para já, tem como objetivo constituir um avanço em relação ao estado da ciência atual. Existem muitos desafios científicos no desenvolvimento destas novas substâncias. É preciso estudar, por exemplo, a estabilidade destas substâncias, como é que elas se comportam depois de incorporadas nas matrizes alimentares, ou seja, claro que nós estamos interessados no efeito final, mas, para nós, é muito mais gratificante ultrapassar todos estes desafios científicos que se nos colocam quando trabalhamos na área dos produtos naturais. A ideia é realmente substituir aditivos químicos que hoje em dia são utilizados nos produtos alimentares massivamente. E que têm com eles associados alguns efeitos de toxicidade, que diminuem a confiança do consumidor em relação a esse tipo de aditivos. E, para além disso, existe também uma controvérsia entre a legislação europeia e a legislação americana, há aditivos alimentares que estão proibidos na Europa e que são permitidos nos Estados Unidos e vice-versa. E portanto, nós apercebendo-nos, realmente, de todas estas questões que não estão clarificadas para o consumidor, decidimos, não somos os únicos, como muitos outros grupos no mundo, dedicar-nos à descoberta de substâncias naturais que tenham menos toxicidade do que os aditivos químicos que são, hoje em dia, utilizados na indústria alimentar como conservantes ou corantes. E, ao mesmo tempo, valorizar as matrizes da nossa região porque, realmente, somos muito ricos em termos de biodiversidade. E podemos tirar partido, também, das imensas espécies que nós temos na região e utilizá-las como fonte dessas substâncias.

DTM: Falou em discrepâncias em termos da legislação europeia e legislação americana. Na sua opinião, não deveria existir uma legislação comum, a nível mundial?

IF: Sim, caminha-se um pouco nesse sentido, mas tem a ver precisamente com as leis que se seguem em cada situação. E, também, com a própria evolução da ciência porque a ciência tem um contributo muito importante. Nós hoje, por exemplo, podemos considerar uma substância relativamente segura, mas mais tarde podem aparecer testes que comprovem alguma diminuição dessa segurança. Portanto, também é um papel da ciência contribuir para o avanço dessas listas, digamos assim, onde estão os aditivos que são permitidos e os que são proibidos.

DTM: Como é que analisa a investigação em Portugal? Recomenda-se?

IF: É de elevada qualidade como é sabido, em termos nacionais e internacionais. Os investigadores portugueses que vão para fora têm sempre as melhores referências. A investigação que nós fazemos também tem que se tornar cada vez mais competitiva. Obviamente, que existem países que aparecem sempre destacados nos rankings de ciência. De qualquer forma o investimento que tem sido feito nos últimos anos na ciência começa, agora, a permitir-nos visualizar os primeiros resultados, realmente, do impacto da ciência que os portugueses fazem em todo o mundo.

DTM: Então qual será a razão tantos cientistas portugueses emigrarem para o estrangeiro? Acha que não oferecem as condições necessárias aqui em Portugal para singrarem?

IF: Sim, às vezes acontece essa situação, embora podem ser múltiplas razões, pode ser uma questão de embraçar desafios profissionais diferentes ou integrar outros laboratórios mais especializados num determinado assunto, mas, certamente, também terá a ver com a falta de consolidação que existe em Portugal em termos das carreiras de investigação científica.

DTM: Enquanto cientista, considera que o interior do país esteja a viver um momento de estagnação quanto ao seu desenvolvimento, ou pelo contrário, considera que o Interior norte esteja a passar um período de crescimento?

IF: Espero que sim, do ponto de vista científico, somos detentores do conhecimento. Agora, é necessário saber explorar e valorizar. E, portanto, acho que o interior, obviamente, tem de contar com variadíssimos apoios, mas tem condições para tirar partido desse conhecimento que detém em múltiplas áreas do saber.

DTM: E como é que poderia tirar partido, ou que políticas poderiam ser implementadas para contribuir para a fixação da população?

IF: Basicamente, precisamos de financiamento. Porque, realmente, temos o conhecimento, temos, também, infraestruturas em termos de recurso s materiais, precisamos é de fixar cientistas consolidados na nossa região e, para isso, é preciso um investimento em termos de recursos humanos, como disse anteriormente, isso era o mais importante. Se conseguirmos fixar esses jovens talentos, em termos de ciência, obviamente vamos, também, com a própria ciência que eles vão dinamizar, criar novos postos de trabalho que é sempre importante no combate ao despovoamento que às vezes a nossa região sofre.

DTM: Quais os objetivos que gostaria de alcançar enquanto cientista, enquanto investigadora e enquanto docente do IPB?

IF: Os objetivos passam por continuarmos a fazer uma investigação que seja reconhecida pelos nossos pares, com o tem sido até agora, e que seja pautada por níveis de excelência em termos de qualidade científica. É importante, também, continuarmos a liderar, a termos liderança, que é o que acontece com a minha equipa nesta área, a ter uma liderança mundial destacada, e que todas as pessoas da minha equipa sobretudo os jovens doutorados tenham muito sucesso profissional e que encontrem espaço e oportunidade para desenvolver toda a ciência que vão aprendendo, também, enquanto estão na sua formação.

NOTA:

Por motivos que nos foram alheios, o Diário de Trás-os-Montes pede desculpa à principal visada, a investigadora Isabel Ferreira, por só agora publicarmos a sua entrevista, já que foi realizada há vários meses.

A entrevista, inicialmente, foi pensada para vídeo, mas devido à exiguidade do espaço onde foi concretizada, acabou por não funcionar muito bem. Por isso, a direção decidiu passá-la para papel e aproveitar este momento da entrega da Medalha Municipal de Mérito para proceder à sua publicação.

Bruno Mateus Filena
in:diariodetrasosmontes.com

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