Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Os pais do meu pai eram a avó Rosa e, numa lógica muito infantil, o seu marido só podia ser o avô «Roso».A minha avó era de Válega, Ovar. Não tenho memórias muito nítidas dela, se não que era pequena, cabelos brancos e tremia muito. Tão depressa ralhava connosco (irmãos e primos) porque corríamos dentro de casa e podíamos partir alguma coisa, como, logo de seguida, nos defendia dos ralhos dos pais por alguma patifaria que fizéssemos.
Era metódica e cuidadosa, tudo tinha um sítio para estar e não devia sair dele de ânimo leve. Ver, é com os olhos, dizia.
As visitas lá a casa eram o arroz escuro com o frango de cabidela ou a farinha de pau com pescada. O ralhar da avó com o avô porque ele fora despropositado ou adormecera na frente da televisão.
O meu pai contava histórias sobre coisas imaginativas que ela fizera para ultrapassar as dificuldades que todos viveram no período da 2ª guerra. Qual o filho que não tem orgulho nos pais?
Ciosa da imagem que transmitia, exigia respeito, “que esta vida não está para graças”. A demência tolheu-a, era eu ainda muito novo e tudo quanto existia dela se foi lentamente apagando, até se esquecer de acordar.
O avô (que não se chamava «Roso», mas José) era oriundo da Foz-do-Sousa e era o oposto da esposa; adorava contar anedotas e tudo servia de motivo para uma ou mote para uma anedota. Tinha um repertório digno de qualquer «Stand-up», com o seu quinhão de histórias picantes, que revelava com mais parcimónia.
Contava o meu pai que veio a pé da Foz-do-Sousa, com 8 anos, para trabalhar numa padaria. Mas não chegou a dureza da vida para lhe fazer perder a vontade de rir dela e a boa disposição. A minha avó trabalhou muitos anos para o padre da freguesia e por isso chamavam-lhe a Rosinha do Abade. Um dia uma senhora bateu na porta deles perguntar por ela e o meu avô respondeu com voz forte para a aterrorizada visita: “Do abade, não! É minha!”. O episódio sempre foi motivo de gargalhadas entre nós.
Na minha adolescência, ele estava sempre no café, em frente a casa da tia Bela, a ler o jornal. Mexia os lábios quando estava a ler, só aprendeu quando estava na tropa, com um companheiro que o ensinara. Eu era assíduo a ir ter com ele, cumprimentá-lo e tomar um café, que ele fazia questão de pagar. Falava de política comigo e discutia os assuntos que lera no jornal, como se eu fosse já um adulto.
Gostava de fazer patifarias; levava os pacotes de açúcar do café, que abrira com muito cuidado e enchia-os de Sais de Frutos, depois colocava-os na cesta onde estavam os outros para servir aos clientes do estabelecimento. Depois era só dar umas risadas, cada vez que um infeliz lhe calhava adoçar o café com um “pacote armadilhado”.
No verão ia para a praia logo pela manhã e, próximo dos 80 anos ainda dava “uns toques” na bola com os rapazes que lá estivessem.
Dizia alegremente que a morte teria de o apanhar distraído. Um dia atravessou a rua e caiu ao chegar ao outro lado… distraiu-se, atento aos carros.
Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/
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