Número total de visualizações do Blogue

Pesquisar neste blogue

Aderir a este Blogue

Sobre o Blogue

SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 10 de março de 2026

A avó Rosa e o avô Roso

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 Os pais do meu pai eram a avó Rosa e, numa lógica muito infantil, o seu marido só podia ser o avô «Roso».

A minha avó era de Válega, Ovar. Não tenho memórias muito nítidas dela, se não que era pequena, cabelos brancos e tremia muito. Tão depressa ralhava connosco (irmãos e primos) porque corríamos dentro de casa e podíamos partir alguma coisa, como, logo de seguida, nos defendia dos ralhos dos pais por alguma patifaria que fizéssemos.

Era metódica e cuidadosa, tudo tinha um sítio para estar e não devia sair dele de ânimo leve. Ver, é com os olhos, dizia.

As visitas lá a casa eram o arroz escuro com o frango de cabidela ou a farinha de pau com pescada. O ralhar da avó com o avô porque ele fora despropositado ou adormecera na frente da televisão.

O meu pai contava histórias sobre coisas imaginativas que ela fizera para ultrapassar as dificuldades que todos viveram no período da 2ª guerra. Qual o filho que não tem orgulho nos pais?

Ciosa da imagem que transmitia, exigia respeito, “que esta vida não está para graças”. A demência tolheu-a, era eu ainda muito novo e tudo quanto existia dela se foi lentamente apagando, até se esquecer de acordar.

O avô (que não se chamava «Roso», mas José) era oriundo da Foz-do-Sousa e era o oposto da esposa; adorava contar anedotas e tudo servia de motivo para uma ou mote para uma anedota. Tinha um repertório digno de qualquer «Stand-up», com o seu quinhão de histórias picantes, que revelava com mais parcimónia.

Contava o meu pai que veio a pé da Foz-do-Sousa, com 8 anos, para trabalhar numa padaria. Mas não chegou a dureza da vida para lhe fazer perder a vontade de rir dela e a boa disposição. A minha avó trabalhou muitos anos para o padre da freguesia e por isso chamavam-lhe a Rosinha do Abade. Um dia uma senhora bateu na porta deles perguntar por ela e o meu avô respondeu com voz forte para a aterrorizada visita: “Do abade, não! É minha!”. O episódio sempre foi motivo de gargalhadas entre nós.

Na minha adolescência, ele estava sempre no café, em frente a casa da tia Bela, a ler o jornal. Mexia os lábios quando estava a ler, só aprendeu quando estava na tropa, com um companheiro que o ensinara. Eu era assíduo a ir ter com ele, cumprimentá-lo e tomar um café, que ele fazia questão de pagar. Falava de política comigo e discutia os assuntos que lera no jornal, como se eu fosse já um adulto.

Gostava de fazer patifarias; levava os pacotes de açúcar do café, que abrira com muito cuidado e enchia-os de Sais de Frutos, depois colocava-os na cesta onde estavam os outros para servir aos clientes do estabelecimento. Depois era só dar umas risadas, cada vez que um infeliz lhe calhava adoçar o café com um “pacote armadilhado”.

No verão ia para a praia logo pela manhã e, próximo dos 80 anos ainda dava “uns toques” na bola com os rapazes que lá estivessem.

Dizia alegremente que a morte teria de o apanhar distraído. Um dia atravessou a rua e caiu ao chegar ao outro lado… distraiu-se, atento aos carros.


Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/ 

Sem comentários:

Enviar um comentário