| Representação da primeira Fête de la Raison ("Festival da Razão") na Catedral de Notre-Dame de Paris em 10 de novembro de 1793. Pintura de Charles Müller, 1878). |
Desde a antiguidade clássica, segundo ideias preconizadas pelos ilustres pensadores gregos, nomeadamente Sócrates, Platão e principalmente Aristóteles, que o termo política define em primeiro lugar a forma de governar a polis, assente num conjunto de decisões e/ou atividades pelos quais os cidadãos criam e gerem prerrogativas de poder, visando inequivocamente o interesse coletivo e a gestão do Estado. A política seria, grosso modo, a arte de governar e gerir o espaço público, organizando a vida em sociedade e prosseguindo o bem comum de todos os habitantes. Claro que esse poder de organizar o espaço comum, defendendo formas diversas de harmonizar os interesses quer do Estado quer dos cidadãos, foi sendo exercido por indivíduos que baseavam a sua força na capacidade intrínseca de, através da retórica, conseguirem convencer os seus concidadãos da bondade das suas ideias. Temos, pois, como teoria comumente aceite, que os debates públicos eram as vias que influenciavam as diferentes estratégias apresentadas para a governação das cidades. E não tenhamos dúvidas de que os protagonistas retoricamente mais hábeis, conseguiam os apoios suficientes para assumirem o poder dos respetivos territórios. A palavra articulada e discutida na praça pública era o princípio e o fim de toda a atividade política. E eis que assim nasciam os políticos.
Com o decorrer dos séculos e talvez até finais do século XX, os atores políticos persistiam na senda da difusão das suas doutrinas, através da apresentação de ideias bem definidas e sistematicamente bem defendidas através de exposições públicas e debates, onde a ideologia e a mítica quimera do bem comum se sobrepunham a quaisquer outros interesses. Ou seja, o apoio político provinha da capacidade de um líder conseguir a apropriação das suas teses pelos eleitores, mais do que pela importância de qualquer cenografia programada para o efeito. É claro que houve, entretanto, diversos exemplos em que o culto da imagem prevaleceu sobre qualquer ideia ou motivação ideológica. Mas esses casos, pontuais embora determinantes, deram origem a regimes que estavam nos antípodas da ideia original de política. Não nos podemos esquecer da existência funesta de uma série de ditadores que traçaram o destino do mundo inteiro, para nos situarmos apenas no século anterior. Hitler, Mussolini, Staline, Mao, indicando apenas os que pela sua ação direta alteraram a ordem mundial, estão dentro dessa ideia do culto da imagem como forma de lograr a sua eterna permanência no poder.
Os atores políticos atuais apresentam-se de forma diferente. Na sua grande maioria destituídos de qualquer argumentação retórica consistente e longe de subscreverem teses ideológicas assentes no alcance do bem comum, os novos protagonistas da governação desenvolvem a sua ação na força da imagem. Assumindo a desnecessidade da apresentação e defesa de ideias sustentadas e alternativas, baseiam toda a sua estratégia na transmissão da sua imagem, desdobrando-se em mil atividades, cada qual a mais inócua, procurando captar eleitores através da imparável demonstração de um jogo de sombras, que na maior parte das vezes leva à sua inequívoca rejeição.
Na realidade, a existência per si de plataformas digitais, nomeadamente canais televisivos e redes sociais, até se podiam revelar uma mais valia para a difusão de ideias políticas, se encaradas com toda a honestidade intelectual. Serviriam de forma eficiente para transmitir informação pertinente, para incorporar outras ideias ou recomendações, para auscultar o país real. Mas, pelo contrário, as redes sociais têm servido principalmente para dar nota de um mundo que não corresponde à realidade. Tudo serve para influenciar os eleitores e almejar a continuidade dos cargos conquistados, desde cenas da vida familiar (férias, por exemplo) até imagens infinitas de uma realidade paralela. A propaganda segue inexorável, focando assuntos tão menores como a reparação de uma simples fuga de água, até à aprovação de uma lei, passando pela receção de dignatários estrangeiros até ao alcance de uma qualquer meta que já devia ter sido alcançado há várias décadas, em que os responsáveis políticos surgem em plano destacado e com outfit adequado para o efeito (Capacetes, anoraques de trabalho do respetivo organismo, fatos de proteção, etc.) E neste aspeto a democracia mostra-se exuberante: o mesmo modus operandi estende-se desde as freguesias, passando pelos municípios, regiões e governos.
Esta ideia peregrina da política-espetáculo, tão do agrado de um atual protagonista mundial, executada através de uma entropia vertiginosa, pode ter resultados perversos. Os atores políticos da atualidade tendem a pensar que quantas mais publicações fizerem nas redes sociais, maiores serão as chances da apropriação das suas estratégias por parte do seu eleitorado. Todavia, quando se constata que o que é difundido não corresponde à realidade, denunciando um eufemismo balofo quanto à sua capacidade governativa, o efeito pode ser nefasto. Assim sendo, conclui-se pragmaticamente, que uma excessiva exposição mediática pode tornar-se contraproducente, quando os resultados ficam muito aquém do anunciado. E, neste caso, o fascínio e o apoio começam a resvalar rapidamente para a saturação. Vejamos o caso muito concreto do Presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump. Os destinatários da informação propalada, seja através de canais televisivos ou redes sociais, tendem a passar à frente ou mudar de canal, demonstrado uma rejeição perante uma evidente incredibilidade. Verificamos, à saciedade, que o discurso não tem correspondência com a realidade. E esta ilusão permanente, camuflada pelas extraordinárias imagens difundidas, segundo a graça divina de um deus das grandes causas, transforma-se gradualmente no descrédito absoluto de qualquer aspirante a político.
Concluindo: a política, na sua essência, visa construir um mundo paritário, onde os cidadãos são o epicentro ideológico de toda a construção programática. O aparelho digital tenta construir o mundo à medida das utopias mais adequadas.
2026.05.09
Não podia estar mais de acordo... com quase todos os pontos e vírgulas. Só não concordo que os factos que apontas desanimem os aspirantes a políticos. Até fazem fila. Desanimam é os cidadãos que, ingenuamente, ainda acreditam numa sociedade mais justa, coesa e com oportunidades iguais, para todos.
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