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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 9 de maio de 2026

Moda e Estilo nos Anos 70 - Liberdade, Cor e Juventude


 Os anos 70 do século passado foram um grito. Um grito que se ouviu nas ruas, nos palcos, nas universidades, nos liceus e nas escolas, nos bairros, e nos salões de baile. Um grito que dizia: - Queremos ser nós. E esse grito, não estava nu. Vestia-se.

A roupa deixou de ser apenas tecido e costura. Tornou-se num manifesto. Tornou-se parte da linguagem. Tornou-se pele política.

Depois das convulsões sociais e culturais dos anos 60, a juventude dos anos 70 recusou herdar um mundo pronto e fechado. Quis reinventá-lo, e começou pelo corpo. Vestir passou a ser um ato de afirmação, quase um ritual diário de liberdade. Já não se tratava de parecer “adequado”, mas de parecer verdadeiro.

As calças à boca-de-sino eram movimento e afirmação. Abertas na base, ondulavam ao caminhar como se dançassem com o vento. Ajustadas na cintura, desenhavam uma silhueta confiante e despreocupada. Homens e mulheres usavam-nas sem distinção, muitas vezes combinadas com camisas de colarinhos largos, t-shirts justas ou blusas coloridas. O tecido acompanhava o corpo como se dissesse… não temos de nos envergonhar por estarmos vivos.

As cores explodiram. Depois de décadas de sobriedade, surgiram laranjas queimados, amarelos solares, verdes intensos, rosas elétricos. Os padrões psicadélicos, herança da arte visionária e da música que saía das guitarras e dos sonhos coletivos, espalharam-se por vestidos, lenços e camisas. Eram espirais, formas geométricas, flores impossíveis. Vestir era entrar num quadro vivo, onde cada pessoa se tornava parte da própria obra.

Nos cabelos também se fez revolução. Para muitos rapazes, eu incluído, deixá-los crescer era um ato de desafio pacífico. Inspirados por bandas como os The Beatles ou os Led Zeppelin, o cabelo comprido simbolizava rutura com convenções conservadoras e aproximação a uma cultura alternativa, mais livre e experimental. Não era só estética, era identidade.

Para as raparigas, a naturalidade tornou-se símbolo de autenticidade. Franjas soltas, cabelos longos ao vento, maquilhagem leve. A beleza afastava-se do excesso rígido das décadas anteriores. Havia um desejo de parecer menos “construída” e mais vivida. Como se o rosto dissesse que não precisava de moldes para existir.

Artistas como David Bowie transformaram o palco numa passerelle futurista, misturando androginia, brilho e teatralidade. A roupa já não tinha género fixo nem regras estáticas, tinha atitude.

Dos Estados Unidos vinha a força do movimento hippie, que tinha aparecido em lugares como São Francisco. Tecidos naturais, túnicas, coletes de camurça, franjas, contas artesanais. Havia uma procura por autenticidade, por ligação à terra, por espiritualidade. Vestir, também era recusar o consumismo cego e valorizar o feito à mão, o imperfeito, o humano.

E depois havia a ganga.

Antes associada ao trabalho duro, aos operários e agricultores, a ganga renasceu como bandeira juvenil. As calças de ganga tornaram-se quase universais. Rasgadas, bordadas, ajustadas ou largas, eram democráticas. Podiam ser usadas numa manifestação, num concerto, numa tarde despreocupada. A ganga simbolizava igualdade, todos podiam vestir liberdade.

Mas talvez o mais poderoso da moda dos anos 70 tenha sido a sensação de que… tudo era possível. A ideia de que cada manhã era uma tela em branco. Que o espelho não servia apenas para verificar a aparência, mas para afirmar: - Eu escolho quem sou.

A moda tornou-se palco de debates sobre género, sobre autoridade, sobre tradição. Misturavam-se peças masculinas e femininas, o formal com o informal, o artesanal com o industrial. Nada era rígido. Tudo podia ser reinventado.

Era a resistência às normas rígidas, às expectativas estreitas, ao silêncio imposto. Os padrões vibrantes, os cabelos ao vento, a boca-de-sino em movimento carregava uma mensagem. A juventude já não queria caber em moldes antigos e gastos.

Os anos 70 ensinaram que o vestir podia ser um ato de desenvoltura e até de alguma coragem. Que o estilo podia ser um manifesto. Que a cor podia ser política. E que a juventude, quando se reconhece a si própria, transforma até o mais simples pedaço de tecido numa declaração de liberdade.

Foi uma década de nova moda. Foi uma década de identidade. Uma década em que a roupa deixou de ser aparência, e passou a ser a nossa alma exposta ao mundo.

HM
9 de Maio de 2026

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