domingo, 26 de março de 2017

Artesã Palmira Falcão confeccionou a capa de honras para mulheres

Uma artesã de Miranda do Douro confeccionou a primeira Capa de Honra Mirandesa para mulheres, uma peça do vestuário tradicional transmontano exclusivamente pensada para a igualdade de género e que até aqui estava apenas restrita aos homens mais abastados.
Foto: Daniel Fernandez
A confecção desta nova peça do vestuário tradicional surgiu da ideia da artesã Palmira Falcão, que se tem dedicado à elaboração dos trajes tradicionais confeccionados em pardo, burel e linho, assentes na cultura tradicional do Planalto Mirandês, território que abrange os concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro e Vimioso, no distrito Bragança.
"A ideia surgiu porque terá de haver igualdade de géneros. A capa de mulher é um pouco diferente, já que tem maior abertura na zona dos braços. Esta é uma das diferenças mais visíveis", disse à Lusa artesã, Palmira Falcão.

Se até agora a secular Capa de Honras Mirandesa estava estritamente ligada ao universo masculino, as mulheres poderão agora igualmente usar esta capa que apresenta "algumas diferenças" em relação à peça de vestuário mais antiga e restrita aos homens.

De acordo com a artesã, em apenas uma semana as encomendas começam a aparecer um pouco de todo o lado, o que a leva a acreditar que a " novidade" será um sucesso no "mundo feminino".

"Estou admirada com o engenho da artesã que confeccionou esta capa para mulheres, que vai permitir as mulheres usar uma peça de vestuário rica do ponto de vista tradicional e cultural. As mulheres também têm a sua honra e o direito de utilizar tão nova vestimenta", explicou Teresa Subtil, uma apreciadora da nova capa.

Já Fernanda Chumbo, outra das apreciadoras do traje tradicional mirandês, disse que a capa está bem confeccionada e vai ter aceitação por parte das mulheres já que a tradição também pode assentar na modernidade.

Para António Maria Mourinho, estudioso da cultura tradicional Mirandesa, esta capa de honras feminina é agora "uma coisa de mulheres", tudo porque até aqui era "coisa de homens".

"A capa de honras perde-se nas memórias do antigo Reino de Leão. Há uma capa de honras para mulheres, o que não vem alterar a história do traje tradicional ", frisou.
O especialista acrescentou que "será ainda um pouco difícil que esta capa venha a ter a solenidade da capa de honras masculina, já que se trata de uma peça de vestuário inteiramente ligada ao quotidiano dos agricultores, pastores e homens de negócios mais abastados”.

"Mas como vivemos em democracia, temos de aceitar a igualdade de género", enfatizou.

A capa é feita de pura lã de ovelha (burel) e requer um trabalho minucioso por parte de quem a confecciona, devido à sua complexidade.
Atualmente a Capa de Honras Mirandesa é apenas utilizada em cerimónias protocolares ou atos de importância relevante.

"No entanto, é usual oferecer uma capa de honras às pessoas distintas que visitam o município de Miranda do Douro", explicou, Artur Nunes, presidente da câmara de Miranda do Douro.

A origem da Capa de Honras Mirandesa remonta aos séculos IX ou X, portanto medieval, tendo origem na 'capa de chiba', que, traduzido do espanhol para português, quer dizer 'capa de cabra.

Segundo o estudioso António Maria Mourinho, apesar de se pensar que esta peça 'sui generis' ser de origem "medieval", só há dois documentos conhecidos [até agora] que referem este tipo de capa e são datados de 1819 e um outro de 1828.

Agência Lusa

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