Semana da Páscoa, filas intermináveis de automóveis serpenteiam pela novíssima rede de auto-estradas, especialmente acima do Tejo, nos sentidos do quadrante norte. Às vezes provocam o verdadeiro desespero entre os que ainda procuram a santa terrinha, para chegar às vias-sacras e às procissões do enterro do senhor, na tarde de sexta-feira.
Vêm sentir o roxo da paixão, a colorir uma dor quase doce, porque à mistura com a alegria de celebração da Primavera, que a Páscoa também é, mas principalmente querem chegar ao folar, ao vinho e ao sino que, esperam ainda ter força para revirar, na madrugada de aleluia, até que o sol, a pino, mande os mais audazes para a cama, retemperadora da ressaca.
No sentido contrário, a descer para a capital, um pobre de cristo logra, há décadas, viagem tranquila, que lhe permite reflexão serena sobre o destino destas terras, irreversível a olho nu, uma dor de alma sem remédio. E o que não tem remédio, remediado está, somos tentados a dizer, embora tristes, quase a chegar à ira, que já nem será pecado.
Quem desce ainda leva, apesar de tudo, no porta-bagagens, os ovos que pródigas pitas vão deixando nos “nieiros”, de um amarelo vivo, sem par nos que produz a indústria, de um quase laranja acastanhado, pois se nos aviários as galinhas não conhecem o sol, como há-de ele aparecer redivivo nas gemas?...
Mas nem só de ovos se faz a Páscoa, a festa, a ressurreição anual. Azeite, carne da boa, ensacada a preceito, curada como ainda pode ser e tratada com o carinho que a certeza de a saborear garante, ainda continuam a ser promessas de alegria em lágrimas, para quem teve que encontrar a sul, ou nos longes de toda a Terra, a dignidade de uma vida, arredada da condenação à pobreza e ao abandono.
Por lá ainda resistem transmontanos que nunca esqueceram as referências, por mais que a vida os tenha levado além da terra e do mar. É quase comovente apreciar um casal, os dois a caminho da nona década de vida, passar a tarde de sexta-feira da paixão a amassar como se manda, deixar levedar, distribuir generosamente carnes e pôr no forno, à vez, três folarões que, pela meia-noite, sábado de aleluia a romper, fazem as delícias de filhos, netos e bisnetos, em ruidosa madrugada, à volta de histórias de outras Páscoas que foram festas noutras vidas.
Os que subiram vinham, talvez, na mira de encontrar razões para ficar, ainda que ao arrepio do bom senso. Mas, não podendo com tão épico desígnio, ter-se-ão ficado por dois ou três dias de festa, breve, mas de arromba, para que as saudades obriguem a outras viagens, até que se recolham, finalmente, no afago de soutos, vinhedos, carvalhais e olivais, para não mais sentir necessidade de voltar aos lugares de exílio.
Breves são as nossas Páscoas e isso nos dói. Mas ainda não lhe perdemos o rasto. Nos amanhãs do tempo talvez já não vejamos as filas compactas de automóveis a caminho dos lameiros de flores amarelas e brancas ou do espectáculo das árvores a vestir-se para a festa da luz. Então, definitivamente será chegada a hora.
Pode ser que ainda resistam tresloucados seres que, por entre multidões de autómatos, macilentos e cabisbaixos, saltem aos pinotes, gritem desabridos e conclamem a malta para fazer repicar e revirar os sinos da consciência e da autenticidade.
Por Teófilo Vaz
in:jornalnordeste.com
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