(colaborador do Memórias...e outras coisas...)
- Bom ano!
Abro a janela…mais frio… um dia igual a tantos outros, sem nada de novo…nem o sorriso da rapariga que se vestia de lavado… e penteava, à porta, o longo cabelo. Sentia-se no ar o cheiro a perfume TABÚ de contrabando, comprado nas aldeias raianas. Os rapazes já não vestem a samarra, nem falam em cabeças de gado, nem em alqueires de trigo que se adivinham fartos para o ano novo. Já não há beijos de novidade à beira da fonte… nem as mulheres passam grávidas escondendo o ventre de futuro e esperança, no longo xaile.
A minha vizinha continua agarrada ao cajado, mancando e gemendo: - Valha-me Deus, valha me Deus!... há mais de uma semana que a galinha poedeira deixou de pôr… não sei o que se passa!
Um homem velho esqueceu-se de recolher a lenha. Nem o diabo faz arder esta lenha molhada…nem o diabo! Treme de frio… de longas ausências… só a mulher que já morreu espreita ao canto da memória… mas o lume continua apagado!
Sofro as ausências dos que estão doentes… foram para o Lar… e os rebanhos escasseiam… as casas caem…os xailes não aquecem… três crianças jogam à bola na cerca da escola!
…de certo não há ano novo… um dia igual a tantos outros… tão frio… embora solarengo, com o pressentimento que os homens de Lisboa continuam a mandar em tudo e não conhecem um arado…uma relha…uma samarra…um xaile velho… uma pita que deixou de pôr… nem a lenha molhada que não arde…e continuarão a dizer do alto da sua proa de estufa e ignorância que todos temos que ser solidários…Mas só para alguns continua a haver o ar condicionado, os carros de luxo… as subvenções… as festanças… os almoços… os fados e guitarradas… as visitas de representação ao fim do mundo…e continuam as irrevogáveis mordomias.
…não se agonie vizinha a pita logo… logo põe… então homem de Deus, como se esqueceu de recolher a lenha!
… um homem sem uma mulher não é ninguém! Quando a minha era viva havia sempre lenha…caldo… e uma camisa lavada…caem-me no peito as lágrimas mais honradas da longa noite transmontana!
… a esperança do Ano Novo que está para vir!
Bom dia!
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.


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