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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Onde Tudo Começou

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

Embora ninguém possa voltar
 atrás e fazer um novo começo,
 qualquer um pode começar agora
 e fazer um novo fim.

Atribuída a James R. Sherman, Rejection
(tradução livre)


João tinha os olhos fitos no horizonte. A imensidão azul do mar estendia-se a perder de vista, até ao local onde o sol começava agora a querer esconder-se.

Aos pés dele, um pequeno murete separava-o da falésia e de uma queda fatal até às rochas batidas pelas águas muitos metros abaixo.

Uma aragem fria de fim de estação fazia-se sentir, lembrando que os dias de calor tinham terminado. A pele morena dos braços descobertos arrepiou-se.

O corpo seco e musculoso era rotina, repetição, castigo. Corridas ao amanhecer, ginásio depois do emprego, quilómetros de mar, sempre sozinho, sempre mais um pouco. Ninguém acreditava que já passara os quarenta anos.

— Tinha de a trazer aqui. — Disse bruscamente, para ninguém em especial.

— Achas que vai resolver? — Perguntou uma voz sussurrante.

O marulhar contínuo das ondas chegava ao alto da falésia inundando o ar.

— Foi aqui que tudo começou… — continuou ele —… tinha de tentar fazê-la mudar de ideias, no sítio que ela mais gostava.

— Não disseste que já tentaste de tudo? — Insistiu a voz. — Porquê sofrer mais? Vale a pena insistir mais uma vez?

Uma gaivota cruzou a sua linha de visão e manifestou-se ruidosamente.

— Sim! —Acenou a cabeça esboçando um sorriso. — Tudo pode voltar a ser como antes.

— Dizias que estavas farto dela. — Acusou a voz. — Que querias deixá-la e ser novamente livre. Ir para o surf quando quisesses, para os jantares dos amigos… para a cama com quem quiseres…

— É verdade. — O rosto dele alterou-se, as sobrancelhas caídas e a boca contorceu-se. — Por vezes fico farto dela, mas… é a mulher da minha vida.

— Não era melhor cada um seguir o seu caminho? — Havia um tom de escarninho na voz. — Vais humilhar-te… outra vez? Deixa-a ir!

— Não! — Ele olhou para o lado, onde não havia ninguém, com as narinas dilatadas e os olhos arregalados. — Não há-de ir a lado nenhum!

— Estás a falar sozinho? — Uma voz feminina e divertida interrompeu, enquanto um rosto arredondado, de cabelos castanhos curtos, entrava no seu campo de visão. Um ósculo rápido estalou-lhe no rosto.

Ele estremeceu e olhou-a como se acabasse de acordar.

— Então? Que aconteceu? — Insistiu a mulher. — Estavas a dormir em pé? — O sorriso espelhava-se na sua voz.

— Não, claro que não. — Ele cortou o assunto com um gesto brusco da mão. — Estava a pensar.

— Alô, alô! — O seu riso musical envolvia-se naquela voz que ele tão bem conhecia. — Sou eu, Sílvia, lembras-te?

— Pára com isso! — Ela não conseguira arrancar-lhe o sorriso e ele tornou a voltar-lhe as costas, enfrentando o vazio.

— Pronto, está bem, senhor muito sério. — Sílvia fez beicinho, fingindo-se ofendida. — Diz-me lá do que queres falar. Porque me fizeste vir até este sítio de que eu tanto gosto?

— Explica-lhe. — Comandou a voz. — Arrisca, agora é tarde para voltar atrás.

João olhou-a nos olhos. Ficou paralisado por segundos, antes de desviar o olhar e a sua respiração começar a acelerar.

— Que se passa meu querido? — Ela, agora repentinamente séria, procurou recolocar-se na sua linha de visão.

— Pensei muito no que temos falado. — Ele desviou o olhar novamente, cerrando os punhos.

— Quando? De quê? — Sílvia parecia confusa.

— No outro dia! A oitava vez que estivemos a falar no pátio, à noite. — O olhar de João estava agora fixo na moto que a trouxera até ali, estacionada ao lado da dele. — Quando disseste que me ias deixar! — Tinha os dentes cerrados.

— Oitava vez? Deixar-te?  — Os olhos que pareciam sorrir sempre, deixaram de o fazer. — Que queres dizer? Não vou embora para o outro lado do mundo. Vou apenas casar com o Pedro, vou ficar pela cidade à mesma, não vamos mudar-nos. Não sei mesmo do que estás a falar…

— Vês? — A voz sussurante retornava. — Eu disse-te que era inútil e que ela iria fazer-se desentendida, estás a perder o teu tempo. Obriga-a a ouvir!

João enfrentou-a, os olhos faiscantes e os dentes rangendo: — Sim, deixar-me. Que te parece que vais fazer, ao trocar-me por ele? — Enclavinhou as mãos uma na outra.

Sílvia puxou a cabeça atrás, com os olhos muito abertos e a boca entreaberta, numa resposta que não saía.

— Foi por isso que te pedi que viesses aqui. — Confessou ele, abrindo os braços de simplicidade. — Ao lugar onde nos conhecemos e de que tanto gostamos. Onde tudo começou há vinte e cinco meses.

— Oh, meu querido. — Ela olhava alternadamente para ele e para o chão. Lágrimas irromperam dos seus olhos. — Mas nunca houve nada entre nós! Nessa noite apaixonei-me, sim, pelo teu irmão Pedro! Tu sabes isso! Desculpa se alguma vez eu… te dei a entender algo que…

— Típico, típico… manda-a embora. — Censurou a voz sussurrante.

— Cala-te! — Gritou-lhe João bruscamente.

Sílvia deu dois passos atrás, engolindo em seco, silenciada a meio de uma frase.

João atirou um gesto com a mão por cima da cabeça e aproximou-se ainda mais do murete que o separava do abismo.

— Estás a assustar-me. — Confessou ela quase sem voz. — Sabes que sempre gostei muito de ti, sempre fomos muito amigos e por vezes confidentes. — Deu um passo hesitante na direção dele. — Mas nunca mais do que isso. O Pedro sempre foi o meu amor, tu sabes isso tudo, ouviste as minhas inseguranças. Abri-te a minha alma tantas vezes…

— Esquece-a! Manda-a embora! — A voz sussurante martelava sem dó. — Ela serviu-se de ti. Limpou em ti as lágrimas, os medos e as dúvidas… agora deita-te fora.

Perante o silêncio dele, Sílvia aproximou-se mais uns passos e pousou-lhe suavemente a mão nas costas: — João…

Ele voltou-se subitamente para ela, o rosto empedernido e o olhar gélido. Agarrou-lhe a mão.

— Ela não presta! — A voz sussurante continuava. — Deixa-a ir.

— Está bem. — As palavras de João contrariavam o punho de ferro que apertava o pulso da mulher que se contorcia.

— João, pára! Estás a magoar-me. Por favor. — Implorou ela. — Estás a assustar-me.

— Deixa-a ir! — Ordenou a voz. — Ela não precisa de ti e tu também não precisas dela.

Ele olhou o chão de terra amarela, sem lhe soltar o braço e depois olhou o céu, antes de repetir: — Está bem. — Acenou vigorosamente a cabeça de forma positiva. Olhou-a nos olhos e rangeu audivelmente os dentes. — Vou deixar-te ir. Não estás presa a mim, nem eu a ti.

Num gesto brusco, puxou-a para si e empurrou-a para o vazio.


Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/ 

1 comentário:

  1. É raro encontrar um texto tão bem construído e, ao mesmo tempo, tão humano. Mesmo vindo de Ti Surpreendeu-me! Grande abraço.

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