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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Outonecer

Por: Ernesto Rodrigues
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 Narrativa de uma memória ainda fresca – quando, entrado nos 75 anos, ou terceira estação, se teme perdê-la –, Outonecer é uma conversa distendida, terna na evocação, com picos de ironia, opinando sem peias sobre a actualidade política nacional e internacional e, como esperado, domínios atinentes à Medicina Geral e Familiar, à psiquiatria em vários confrontos (caso da Inteligência Artificial) e à sexologia – género, identidade, exemplário romano. Não é um abstract ou abrégé do sujeito, pois vida há ainda para viver, salvo se quiséssemos resumir Júlio Machado Vaz ao «subdepressivo que sempre fui» (p. 33); os eventos lembrados conjuram-se em confissão, corajosa para quantos não acompanham o radialista há 35 anos. Mau grado um cardápio de doenças, que o humor mina tantas vezes, o propósito resume-se ao essencial: atender ao Outro (maiúscula inicial), amar e ser amado, morrer dignamente após os filhos, na síntese do poema final.

Esta escrita terapêutica abre com proposição explicativa do título, segundo verso de Sophia (a qual retornará, com Eugénio de Andrade, etc.), e já sugere o modo de composição, ao aproveitar o título do poema, “Barcelona”, para desta se reivindicar cidadão. Liverpool, Provença, Madrid, entre outro lugares citados, aderem a vivências com filhos e netos. Encerra, percorrida meia Europa, o diário provençal de um historiador de pintura, não esteta, enquanto a aprendizagem dos netos se apura em van Gogh, e Júlio se desvia para conversa sobre Picasso e a canção francesa. Esta linha digressiva far-se-á linhagem quando no Porto e, sobretudo, sob a árvore do retiro de Cantelães arquitectado pelo filho mais velho, fecundando a árvore genealógica dos Machado Vaz. Aí termina 2024, pacificado.

De entrada, pois, já entre parêntesis que chegarão a atingir duas e três páginas, a viagem física conjuga-se com a associação livre, mecanismo que ora se instala em passados, ora futura, cujo défice ou perda («esse medo de me perder na floresta das associações livres», p. 19) tomou os ascendentes entretanto alzheimerados. Inseguro, melancólico, sombrio, multifacetado, eis pinceladas de um retrato que, todavia, olha friamente o fim, incapaz de «sobreviver a mim mesmo» (p. 20), e, por isso, recorrendo a Estes Difíceis Amores (também Muros virá noutro contexto), tem posição clara sobre a eutanásia. Esta atmosfera persiste, qual bruma existencial, nos quatro primeiros capítulos, glaucomático, meio surdo (em teste com fim feliz), entre outras maleitas. Mas, nos interstícios, vai-se renascendo, no voto de deixar uma pegada em membros da tribo, primeiros dedicatários e co-protagonistas – só tarde se percebendo quem é Nossa Senhora de Cantelães…   

Visa esse desiderato a viagem, com o filho mais novo, ao berço dos Beatles. Aculturada nos anos 60, a par de bailes de garagem e piedosas mentiras sobre iniciação sexual brandidas no Majestic, esta geração trazia os Beatles no bolso, e discretamente euforiza, ainda, em recente concerto madrileno de Paul McCartney, Macca (também nome de cão, já morto). Lá virá uma plêiade de vozes francesas, inclusive, no original. Introduzem-se, também, diálogos pai-filhos, como será com avô-netos, na curiosa inversão por estes assumida do diminutivo «Julinho». Há um perfume de ficção nestas conversas andantes, elogio do debate, do discordo aceite, enfim, abraço. Sobrevém, entretanto, o medo, vista a cegueira materna, e, políticas do dia à parte, vale a geração de canídeos, até ocuparem a capa.

Tímido frente ao Pai e na escola (mas, aqui, capaz de violência extrema), no quinto dos XI capítulos, há o primeiro de três grandes embates dentro de si. O desdobramento é eficaz quanto a acertos de uma personalidade, na coragem de construir-se (como, em vários momentos, se reflecte sobre o discurso), na rotina de «quatro dias de consultório, um de gravações, fim-se-semana» (p. 65), convocando figuras próximas ou reconhecíveis; a ementa acrescenta pré-diabetes, prostatite, contractura muscular, ciatalgia, enquanto se esclarece a primeira linha do narrador, «Talvez escrevendo…», pois «talvez a escrita me ajude a perceber melhor como estou a envelhecer» (p. 63). Se viver mais, arriscando, como nas costumadas «veredas da associação livre» (p. 76) na rádio, terá os seus «momentos felizes» («Escrevi e disse muitas vezes que não acredito na felicidade» , p. 111), não irá desaguar «em estóico de vão de escada» (p. 68).

Digressões das personagens e do texto, são as do protagonista também íntimas, opinativas (até inesperado comentador de ténis), em sobressalto, que os cortes parentéticos ou interseccionados mais denunciam: a imagem do cubo mal desenhado em teste (p. 30) dá-nos um cubismo picassiano, com a representação do todo num mesmo plano. A família é organismo vivaz; o Outro – amigos, tantos ditos no nome próprio, ex-alunos que medicinam, cozinheiros, vizinhos ou mestres-de-obras –, alimento indispensável.

A voz é, assim, familiar, audível, longe do «estilo cambaleante» (p. 38) que atribui à sua radiofonia, risonhamente autocrítica (como dizer-se torcionário), salteada por vocábulos de uso comum, polilingue, segura nas tonalidades evocativas, seja, de um leitor de poesia, que a musicada já é, favorecendo um ritmo para olhos agradados. Não raro surpreende-nos algum queirosianismo: a negativa 9, de favor, para não gripar a média; as ciganas leitoras de sinas que, na Provença, o cercaram e aos filhos «de saias e elogios» (p. 114); «o desmaio das luzes» no cinema – arte aqui e ali emergindo – e, no anfiteatro universitário dividido pelas meninas, invejando «o primeiro a navegar aquele mar de saias» (p. 134-135)… 

Comecei por falar em leitura relaxada, que o Verão propicia – e, rodeado também de Primaveras, é evidente que o Outono de Júlio Machado Vaz ainda reverdece: mais do que apeadeiro, é ele «uma gavinha para o crescimento da tribo». Entre autobiografemas, constrói-se, afinal, um belíssimo romance familiar.

À saúde!

Ernesto Rodrigues (Torre de Dona Chama, 1956) é escritor e professor universitário.

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