(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
João tinha os olhos fitos no horizonte. A imensidão azul do mar estendia-se a perder de vista, até ao local onde o sol começava agora a querer esconder-se.
Aos pés dele, um pequeno murete separava-o da falésia e de uma queda fatal até às rochas batidas pelas águas muitos metros abaixo.
Uma aragem fria de fim de estação fazia-se sentir, lembrando que os dias de calor tinham terminado. A pele morena dos braços descobertos arrepiou-se.
O corpo seco e musculoso era rotina, repetição, castigo. Corridas ao amanhecer, ginásio depois do emprego, quilómetros de mar, sempre sozinho, sempre mais um pouco. Ninguém acreditava que já passara os quarenta anos.
— Tinha de a trazer aqui. — Disse bruscamente, para ninguém em especial.
— Achas que vai resolver? — Perguntou uma voz sussurrante.
O marulhar contínuo das ondas chegava ao alto da falésia inundando o ar.
— Foi aqui que tudo começou… — continuou ele —… tinha de tentar fazê-la mudar de ideias, no sítio que ela mais gostava.
— Não disseste que já tentaste de tudo? — Insistiu a voz. — Porquê sofrer mais? Vale a pena insistir mais uma vez?
Uma gaivota cruzou a sua linha de visão e manifestou-se ruidosamente.
— Sim! —Acenou a cabeça esboçando um sorriso. — Tudo pode voltar a ser como antes.
— Dizias que estavas farto dela. — Acusou a voz. — Que querias deixá-la e ser novamente livre. Ir para o surf quando quisesses, para os jantares dos amigos… para a cama com quem quiseres…
— É verdade. — O rosto dele alterou-se, as sobrancelhas caídas e a boca contorceu-se. — Por vezes fico farto dela, mas… é a mulher da minha vida.
— Não era melhor cada um seguir o seu caminho? — Havia um tom de escarninho na voz. — Vais humilhar-te… outra vez? Deixa-a ir!
— Não! — Ele olhou para o lado, onde não havia ninguém, com as narinas dilatadas e os olhos arregalados. — Não há-de ir a lado nenhum!
— Estás a falar sozinho? — Uma voz feminina e divertida interrompeu, enquanto um rosto arredondado, de cabelos castanhos curtos, entrava no seu campo de visão. Um ósculo rápido estalou-lhe no rosto.
Ele estremeceu e olhou-a como se acabasse de acordar.
— Então? Que aconteceu? — Insistiu a mulher. — Estavas a dormir em pé? — O sorriso espelhava-se na sua voz.
— Não, claro que não. — Ele cortou o assunto com um gesto brusco da mão. — Estava a pensar.
— Alô, alô! — O seu riso musical envolvia-se naquela voz que ele tão bem conhecia. — Sou eu, Sílvia, lembras-te?
— Pára com isso! — Ela não conseguira arrancar-lhe o sorriso e ele tornou a voltar-lhe as costas, enfrentando o vazio.
— Pronto, está bem, senhor muito sério. — Sílvia fez beicinho, fingindo-se ofendida. — Diz-me lá do que queres falar. Porque me fizeste vir até este sítio de que eu tanto gosto?
— Explica-lhe. — Comandou a voz. — Arrisca, agora é tarde para voltar atrás.
João olhou-a nos olhos. Ficou paralisado por segundos, antes de desviar o olhar e a sua respiração começar a acelerar.
— Que se passa meu querido? — Ela, agora repentinamente séria, procurou recolocar-se na sua linha de visão.
— Pensei muito no que temos falado. — Ele desviou o olhar novamente, cerrando os punhos.
— Quando? De quê? — Sílvia parecia confusa.
— No outro dia! A oitava vez que estivemos a falar no pátio, à noite. — O olhar de João estava agora fixo na moto que a trouxera até ali, estacionada ao lado da dele. — Quando disseste que me ias deixar! — Tinha os dentes cerrados.
— Oitava vez? Deixar-te? — Os olhos que pareciam sorrir sempre, deixaram de o fazer. — Que queres dizer? Não vou embora para o outro lado do mundo. Vou apenas casar com o Pedro, vou ficar pela cidade à mesma, não vamos mudar-nos. Não sei mesmo do que estás a falar…
— Vês? — A voz sussurante retornava. — Eu disse-te que era inútil e que ela iria fazer-se desentendida, estás a perder o teu tempo. Obriga-a a ouvir!
João enfrentou-a, os olhos faiscantes e os dentes rangendo: — Sim, deixar-me. Que te parece que vais fazer, ao trocar-me por ele? — Enclavinhou as mãos uma na outra.
Sílvia puxou a cabeça atrás, com os olhos muito abertos e a boca entreaberta, numa resposta que não saía.
— Foi por isso que te pedi que viesses aqui. — Confessou ele, abrindo os braços de simplicidade. — Ao lugar onde nos conhecemos e de que tanto gostamos. Onde tudo começou há vinte e cinco meses.
— Oh, meu querido. — Ela olhava alternadamente para ele e para o chão. Lágrimas irromperam dos seus olhos. — Mas nunca houve nada entre nós! Nessa noite apaixonei-me, sim, pelo teu irmão Pedro! Tu sabes isso! Desculpa se alguma vez eu… te dei a entender algo que…
— Típico, típico… manda-a embora. — Censurou a voz sussurrante.
— Cala-te! — Gritou-lhe João bruscamente.
Sílvia deu dois passos atrás, engolindo em seco, silenciada a meio de uma frase.
João atirou um gesto com a mão por cima da cabeça e aproximou-se ainda mais do murete que o separava do abismo.
— Estás a assustar-me. — Confessou ela quase sem voz. — Sabes que sempre gostei muito de ti, sempre fomos muito amigos e por vezes confidentes. — Deu um passo hesitante na direção dele. — Mas nunca mais do que isso. O Pedro sempre foi o meu amor, tu sabes isso tudo, ouviste as minhas inseguranças. Abri-te a minha alma tantas vezes…
— Esquece-a! Manda-a embora! — A voz sussurante martelava sem dó. — Ela serviu-se de ti. Limpou em ti as lágrimas, os medos e as dúvidas… agora deita-te fora.
Perante o silêncio dele, Sílvia aproximou-se mais uns passos e pousou-lhe suavemente a mão nas costas: — João…
Ele voltou-se subitamente para ela, o rosto empedernido e o olhar gélido. Agarrou-lhe a mão.
— Ela não presta! — A voz sussurante continuava. — Deixa-a ir.
— Está bem. — As palavras de João contrariavam o punho de ferro que apertava o pulso da mulher que se contorcia.
— João, pára! Estás a magoar-me. Por favor. — Implorou ela. — Estás a assustar-me.
— Deixa-a ir! — Ordenou a voz. — Ela não precisa de ti e tu também não precisas dela.
Ele olhou o chão de terra amarela, sem lhe soltar o braço e depois olhou o céu, antes de repetir: — Está bem. — Acenou vigorosamente a cabeça de forma positiva. Olhou-a nos olhos e rangeu audivelmente os dentes. — Vou deixar-te ir. Não estás presa a mim, nem eu a ti.
Num gesto brusco, puxou-a para si e empurrou-a para o vazio.
Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/

É raro encontrar um texto tão bem construído e, ao mesmo tempo, tão humano. Mesmo vindo de Ti Surpreendeu-me! Grande abraço.
ResponderEliminar