Foi na Rádio Brigantia, aos 19 anos, que o brigantino Daniel Catalão começou um percurso que o levaria aos quatro cantos do mundo. Hoje, correspondente da RTP no Brasil, foi destacado para a Venezuela, poucos dias depois dos violentos sismos que devastaram parte do país. Encontrou cidades reduzidas a escombros, histórias de dor difíceis de esquecer e uma população que, entre a perda e a esperança, continua a lutar.
“Parecia um cenário de guerra”
O primeiro impacto continua vivo na memória de Daniel Catalão. “O que encontrei foi um cenário de autêntica guerra. As primeiras imagens que me vieram à cabeça foram as da Síria e de Gaza”, começou por dizer o jornalista.
Hotéis, prédios, lojas e ruas desapareceram em segundos. “O que há é apenas destruição. A cor é monocromática, muito pó no ar, tudo destruído”, contou ainda.
Pelas ruas, multiplicam-se colchões improvisados, tendas e famílias que deixaram de ter casa.
À espera dos corpos de quem nunca regressa
Entre dezenas de histórias, há uma que dificilmente esquecerá, a de um português que perdeu a filha e duas netas. “O genro saiu para comprar uma pizza. Quando saiu, deu-se o sismo e o prédio caiu. Salvou-se, mas perdeu a mulher e as filhas e este homem a filha e as netas”, referiu, dizendo que, desde então, o homem “permanece sentado junto aos escombros”, a “implorar” às equipas de socorro que lhe entreguem os corpos “para poder fazer o enterro”.
O homem que desafiou todas as probabilidades
Apesar da tragédia, as histórias mais impensáveis, tidas quase como impossíveis de acontecer, também surgem. Daniel Catalão acompanhou, desde o primeiro momento, o resgate de um vigilante de 43 anos. Permaneceu oito dias soterrado num parque de estacionamento. “Esteve dias completamente sozinho, sem saber se alguém o iria encontrar”, destacou.
E foi a equipa portuguesa de resgate que estabeleceu o primeiro contacto. Seguiu-se uma operação internacional envolvendo especialistas de seis países. “Contra todas as estatísticas conseguiram tirá-lo vivo”, disse ainda, referindo também que, depois, o entrevistou no hospital, num momento “inacreditável”, porque… “olhando para ele ninguém diria que esteve oito dias soterrado”.
“Obrigado por mostrares ao mundo o que estamos a viver”
Apesar da devastação, Daniel Catalão encontrou um povo profundamente agradecido. Destacando que “a população venezuelana é extremamente simpática”, sublinhou que, perante a tragédia, fizeram questão de agradecer. “Dizem-nos: ‘Obrigado por terem vindo. Obrigado por mostrarem ao mundo aquilo que estamos a passar”, contou.
Ser jornalista num país em emergência
Antes mesmo de começar todo este trabalho surgiram os primeiros obstáculos. Entrar na Venezuela revelou-se uma missão difícil.
Para entrar naquele país, para trabalhar e exercer esta profissão, “é preciso pedir um visto de jornalista”, o que normalmente demora um mês ou dois, ou pode até mesmo “nunca chegar”. Numa situação de emergência não há essa possibilidade e, por isso, “foi preciso forçar a entrada”. “Deixaram-me passar. Sempre declarei a verdade. Houve vários jornalistas que tentaram entrar como turistas, para poder agilizar o processo, mas eu sempre disse a verdade ‘sou jornalista, venho para contar aquilo que aconteceu’. E a verdade é que me deixaram passar”, destacou o único jornalista da RTP e da Antena 1 ali presente.
Depois veio a logística. Horas de viagem, mudanças de planos, voos perdidos, longas deslocações por estrada e dificuldades de comunicação. Entre filas “gigantescas”, encontrar o aeroporto fechado e refazer toda a viagem, chegar ao local e confrontar-se com a falta de comunicações foi outro dos problemas. “Não era possível fazer diretos. Ainda conseguimos fazer alguma coisa por WhatsApp, mas a rede era muito fraca. Foi extremamente complicado porque os vídeos ou os áudios demoravam uma eternidade. Nós estamos habituados a no WhatsApp pegar, colocar um vídeo, carregar no botão e o vídeo foi. Aqui era esperar minutos, minutos, minutos, minutos, ver a rodinha a passar muito devagarinho e nós a desesperar. Porque queremos que o material chegue à redação para ele ser emitido e seguir para outro sítio à procura de outras histórias. E esse foi um grande problema”, contou o jornalista.
Aquilo que as imagens nunca conseguem mostrar
Daniel Catalão acredita que há algo impossível de transmitir através da televisão. Não são apenas os edifícios destruídos. É o choque. Para o descrever recorda a história de um motorista que o levou até determinado local, que conhecia perfeitamente. “Quando lá chegou, desatou a chorar e disse-me que já tinha visto muitos vídeos, mas chegar ali e ver com os próprios olhos é completamente diferente”, rematou, assumindo que, apesar de na televisão as imagens impressionarem, estar ali “é sentir”.






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