Sendo filho de arqueólogos, David Stuart, Explorador da National Geographic, passou a sua infância a deambular entre ruínas maias – e ajudou a dar forma àquilo que sabemos actualmente sobre esta civilização.
A minha memória mais antiga é de uma pirâmide maia distante. Uma coisa enorme feita de pedra no meio da selva da Guatemala, com escadas que conduziam a uma porta – atiçando impossivelmente o meu ser de três anos a olhar para cima, determinado a chegar ao topo. Mas a minha mãe não deixava.
Ela e o meu pai eram ambos arqueólogos. Trabalhavam para a National Geographic no final dos anos 1960 e na década de 1970 e levaram-me a mim e aos meus irmãos nas suas expedições às ruínas maias, onde encontrámos sítios e pessoas que nenhum miúdo americano poderia ter imaginado naquela altura.
A birra que fiz por não ter podido subir os degraus de pedra de Tikal –actualmente conhecido como um dos mais importantes centros do início da civilização maia – também é uma memória antiga. Será que eu me importava com a finalidade daquela pirâmide antiga ou quem a construíra? Claro que não. Mas estas memórias foram dos meus primeiros encontros com o mundo dos antigos maias, o mundo que moldou a minha infância. Fiquei gradualmente encantado pelos mundos dos maias e estas perguntas tornaram-se fundamentais para a minha investigação.
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O local de trabalho dos meus pais foi uma influência constante durante a minha juventude.
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Naqueles primeiros tempos, ninguém sabia muito sobre a história maia. Até o nome do rei que encomendara a pirâmide de Tikal e em cujo rico túmulo se encontrava sepultado, no seu interior, era um mistério para os arqueólogos. A razão para a nossa ignorância era simples: os hieroglíficos maias não podiam ser lidos, deixando séculos de história do “Período Clássico” (aproximadamente entre 200 e 900 d.C.) invisíveis e inacessíveis, trancados em centenas de inscrições de pedra em Tikal e muitos outros sítios. Isto é aquilo a que eu chamo a “Grande Ruptura” do conhecimento histórico. Há muito que a verdadeira história da civilização maia se perdera, devido ao colapso da sociedade, e, mais tarde, à destruição cultural que acompanhou a invasão espanhola.
Actualmente, graças a novos avanços na leitura de textos antigos, podemos revisitar essa história e colmatar a lacuna. Afinal, a grande pirâmide de Tikal foi mandada construir por um poderoso dirigente chamado Jasaw Chank’awil, para comemorar uma grande vitória militar contra o reino inimigo de Kanul, em 695 d.C.
Aprendendo a decifrar os glifos
A nossa viagem de carro de duas semanas desde a Carolina do Norte até ao Iucatão, no México, terminou numa noite escura de 1974, num local isolado chamado Coba, onde o meu pai iria comemorar o seu novo projecto de investigação, cartografando aquilo que eles diziam, entusiasmados, ser uma grande cidade antiga.
Chegámos à aldeia maia completamente envoltos pela escuridão, sem uma luz eléctrica à vista, excepto uma lanterna lá ao fundo. Enquanto avançávamos pela estrada de terra batida, lembro-me vividamente de olhar pela janela da nossa carrinha e ver a silhueta de uma pirâmide gigantesca contra um céu nocturno cinzento e repleto de estrelas. Eu tinha nove anos na altura e estava nervoso com aquilo que me esperava, mas ansioso por ver as pirâmides de dia e subir até ao seu topo.
O local de trabalho dos meus pais foi uma influência constante durante a minha juventude. O meu pai, George Stuart, era escritor e editor da revista National Geographic e, mais tarde, responsável pelo departamento que concedia as bolsas da NGS – a Comissão de Investigação e Exploração. A minha mãe, Gene Stuart, era artista e também trabalhava como escritora para a revista. Eu estava apaixonado pela aventura da arqueologia e pelas descobertas que estavam constantemente a acontecer. Que mais poderia eu querer do que tornar-me um arqueólogo especialista nos maias?
Mas em meados da década de 1970, ainda faltava um elemento essencial no conhecimento dos antigos maias – a capacidade de ler os textos antigos e de dar sentido aos misteriosos hieróglifos. Quando eu era miúdo e andava no meio das ruínas de Coba, lembro-me de ver as estranhas formas de escrita nos monumentos de pedra que ainda se mantinham em pé na floresta. “O que dizem estes?”, perguntava ao meu pai, apontando para os glifos. “Ainda não conseguimos lê-los”, dizia-me ele.
A partir de então, fiquei viciado. Os glifos eram muito interessantes de observar, com as suas imagens de animais, cabeças e formas estranhas. Li (ou tentei ler) aquilo que estudiosos ilustres tinham a dizer sobre eles. A maioria dos arqueólogos maias eram amigos do meu pai, por isso, quando havia festas ou encontros fortuitos, eu fazia frequentemente as mesmas perguntas. Com o passar do tempo, as interacções e as conversas foram-se aprofundando e, quando cheguei à adolescência, já dava os meus pequenos contributos para a resolução do enigma. Há cinquenta anos, os estudos maias eram um campo incrivelmente aberto, parte académico, parte experimental, ansioso por ouvir novas vozes e ideias. Cheguei numa excelente altura.
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A história maia estava diante dos meus olhos e eu era a primeira pessoa a ler aqueles nomes ao fim de, provavelmente, dezenas de séculos.
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No Outono de 1980, o meu pai tomou conhecimento de uma gruta recém-descoberta na Guatemala, cheia de desenhos antigos e hieróglifos requintadamente pintados. Wilbur Garret, editor da revista National Geographic, e o meu pai organizaram imediatamente uma viagem para ver a caverna em primeira mão: uma expedição que acabou por se tornar o tema de capa da edição de Agosto de 1981. Ele levou-me com eles para estudar os glifos – para meu enriquecimento pessoal e porque eu demonstrara aptidão para tal. (No entanto, como eu frequentava o nono ano, precisei de pedir autorização à Escola Secundária de Bethesda Chevy-Chase e de fazer os trabalhos de casa.)
Descobrimos que a gruta se chamava Naj Tunich. Após uma longa caminhada pelo meio da selva, junto à fronteira com o Belize, chegámos ao local e fomos saudados por uma câmara semelhante a uma catedral na encosta de uma colina. Para chegarmos às pinturas, tivemos de avançar centenas de metros até às profundezas da gruta, percorrendo túneis grandes e passagens pequenas. Havia peças de cerâmica dos antigos maias por todo o lado, testemunhando a longa utilização desta gruta como espaço sagrado. No seu interior, encontrámos textos magnificamente inscritos nas paredes lisas, pintados por mestres calígrafos. Havia referências a datas, nomes e locais por todo o lado. Foi ali que fiz a minha primeira decifração, apercebendo-me de que um escriba do século VIII utilizara sinais fonéticos para escrever o nome de um mês do calendário maia. Mais tarde, eu e outros apercebemo-nos de que as pinturas de Naj Tunich tinham sido feitas por peregrinos da realeza que visitavam um local sagrado, uma entrada para o submundo.
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No interior da Naj Tunich, encontrámos textos magnificamente inscritos nas paredes lisas, pintados por mestres calígrafos. Havia referências a datas, nomes e locais por todo o lado.
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Colmatando as lacunas
Uma expedição na qual participei em 1985, aos 19 anos, foi particularmente memorável – cheia de descobertas e até com um momento ao estilo de Indiana Jones, misturando arqueologia, história antiga e aventura. Foi uma viagem ao longo do rio Usumacinta, na fronteira entre o México e a Guatemala, um local que ainda era muito selvagem naquele tempo e se encontrava sob a ameaça da construção de represas hidroeléctricas e da guerra civil da Guatemala, conforme documentado pela National Geographic na edição de Outubro de 1985. A equipa da expedição avançou durante dias por entre terreno florestado e desfiladeiros rochosos, passando alguns dias nas magníficas ruínas de Yaxchilan, no México, com as suas lindíssimas esculturas e templos a observarem o rio lá de cima.
Escavações recentes tinham revelado uma nova inscrição em pedra (uma de muitas) que eu estava ansioso por ver. Ninguém conseguira lê-la após a sua descoberta, mas eu olhei para ela com espanto, pois era uma lista escrita dos primeiros reis da dinastia antiga da cidade – quatro nomes de dirigentes que, provavelmente, viveram nos séculos IV e V d.C. Um dos nomes era Yopat Bahlam e o outro era Yaxun Bahlam. A história maia estava diante dos meus olhos e eu era a primeira pessoa a ler aqueles nomes ao fim de, provavelmente, dezenas de séculos.
Dois dias mais tarde, a nossa expedição acampou num banco de areia sossegado junto ao rio, em território da Guatemala, ainda longe de quaisquer povoações. Não tardámos a ser saudados por um bando de rebeldes guatemaltecos com os rostos cobertos com lenços, empunhando espingardas automáticas. Parecíamos um grupo suspeito, sem dúvida, mas conseguimos convencê-los de que estávamos concentrados apenas nas ruínas ancestrais. Eles falaram com entusiasmo sobre sítios que conheciam na floresta e ainda ninguém tinha explorado. No entanto, não nos atrevemos a segui-los e correr o risco de nos tornarmos alvos num conflito militar activo.
Ao longo da década de 1980, uma nova vaga de estudiosos estava a avançar rapidamente na decifração da escrita maia e, no final da década de 1990, os hieróglifos já eram quase completamente legíveis, graças ao trabalho de cerca de uma dezena de académicos persistentes, incluindo eu. Olhando para trás, algo espantoso tinha acontecido – a história mais antiga dos antigos maias emergira da completa obscuridade. Muitas dinastias e reinos, cada um com a sua própria história para contar. Era uma história completamente nova, preenchendo uma lacuna que nem sequer sabíamos existir. A maior parte daquilo que sabíamos sobre a Mesoamérica vinha da chegada dos espanhóis às suas costas, no início do século XVI. Ou das crónicas indígenas que os maias e outros tinham deixado aqui além. Nenhuma dessas histórias recuava mais do que poucos séculos, até à época do dito “Colapso Maia”, uma crise ainda misteriosa, durante a qual a maioria das cortes e cidades foram abandonadas, antes de 900 d.C.
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No final da década de 1990, os hieróglifos já eram quase completamente legíveis, graças ao trabalho de cerca de uma dezena de académicos persistentes
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A nova história que conseguimos agora ler apresenta um mundo de reis, rainhas e cortes reais, histórias perdidas que aconteceram antes do colapso e da ruptura histórica que descrevi. Actualmente, como os antigos maias escreveram tanto sobre si próprios, podemos finalmente colmatar a lacuna e recuperar algo que a história humana quase perdeu.
As minhas primeiras memórias de Tikal e Coba, com as suas enormes pirâmides, são de uma época em que nada disto se sabia. Décadas mais tarde, podemos apreciar os monumentos antigos dos maias da mesma forma que apreciamos os do Egipto ou da Grécia, com o seu verdadeiro enquadramento histórico. Mais importante ainda, acho eu, é que agora temos acesso à história mais profunda das Américas e os maias contemporâneos podem reivindicar o seu próprio legado ancestral.
David Stuart, Explorador da National Geographic é professor do Departamento David and Linda Schele de Arte e Escrita Mesoamericana e director do Centro da Mesoamérica da Universidade do Texas, em Austin. É também o autor do novo livro The Four Heavens: A New History of the Ancient Maya.
Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.









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