(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
A pá da máquina continuava a atacar afincadamente a parede de terra, no mesmo local onde se iniciara o serviço há dois anos. Aqueles últimos três metros da colina teriam de desaparecer, transformados num planalto onde seriam instalados os painéis solares. O local alternativo ordenado pelo pai não tinha suficiente exposição solar e ficaria sempre com menos aproveitamento.
Cada pazada removida era como que uma libertação e uma afirmação de autoridade. Ao atirá-la na ribanceira, era como se estivesse ele próprio a enterrar o cadáver do pai.
Uma pazada pelas vezes em que o pai lhe gritara por conjugar mal o latim; outra pelos livros que o obrigara a ler e pelos símbolos odiados que queria vê-lo decorar; outra ainda pelas mãos velhas e húmidas, que fora obrigado a apertar, e pelos ósculos babados das mulheres que acompanhavam aqueles homens silenciosos. Empurrava cada uma daquelas lembranças pela colina abaixo, mas não se sentia aliviado.
Tomás não abrandou. A pá continuou a ferir a colina, arrancando-lhe terra pazada após pazada, enquanto a voz do pai lhe roncava ainda na memória.
O céu cobria-se gradualmente com as nuvens escuras e reflexos faiscantes iluminavam-nas a espaços.
Repentinamente, o som de metal a raspar em pedra firme misturou-se com outro, oco e profundo, que rompeu os ares e fez vibrar o chão.
O cão sobressaltou-se e ergueu as orelhas, antes de avançar, saltitante, para ver o que produzira o som.
Também Tomás saltou da escavadora para tentar perceber o que acontecera.
Perante eles estava uma superfície de pedra calcária completamente lisa que desaparecia na terra em todas as direções e a abertura que ele fizera já tinha mais de dois metros de diâmetro. Não era esperado encontrar ali vestígios de construção.
Tomás pegou numa pá da cabine da máquina e escavou um pouco de cada lado, tentando chegar ao extremo da pedra. Abriu mais um metro para a esquerda e para a direita sem encontrar o fim, mas revelou uma fratura oblíqua antiga, suficientemente larga para albergar uma mão na sua parte mais aberta.
Decidiu-se pelo que lhe pareceu o caminho mais rápido e voltou à máquina. Com a pá, fincou um dos dentes na fissura e usou toda a potência para empurrar para o lado. Novo som oco e outra vibração forte fizeram-se sentir, enquanto a fratura se alargava e a laje parecia querer enterrar-se no chão.
O cão ladrava nervosamente na direção da abertura.
Tentou outra vez recorrer à força bruta da escavadora, mas cada vez que afastava o pedaço da laje para o lado, o resto da pedra inclinava-se mais, fechando a abertura.
— Raios partam… — resmungou Tomás ao descer da cabine. — Cala-te Freixo! — Gritou para o cão que não parava de ladrar. — Nem consigo ouvir os meus pensamentos.
O animal pareceu ressentir-se da ordem e olhou-o com aqueles olhos quase humanos, enquanto emitia um ronco de despeito.
Durante a vida de Afonso de Rochaforte, Freixo acompanhara-o nas caminhadas e nas caçadas. Depois da morte do patriarca, passara a seguir Tomás para toda a parte. Mantinha-se sempre perto, vigilante e sereno, mas raramente procurava uma carícia. Às vezes, quando o surpreendia a observá-lo em silêncio, Tomás tinha a impressão incómoda de que o cão ainda esperava ordens de outro homem.
A escavadora trazia consigo uma caixa com todo o tipo de ferramentas próprias para a remoção de terras e pedras. Escolheu uma barra de mina com cerca de um metro de comprido e tentou afastar as pedras espetando o ferro pontiagudo na fenda e usando o peso do corpo para empurrar. Praticamente não se moviam.
Voltou para a máquina e começou a escavar tentando encontrar o extremo esquerdo do pedaço que se soltava da pedra maior. Freixo recomeçou a ladrar insistentemente na direção da abertura.
Por fim logrou encontrar o limite, após cerca de mais um metro de escavação. Assim que o conseguiu, a parte mais pequena pareceu rodar sobre si mesma e desapareceu deixando uma abertura escura.
O cão estava possuído. Ladrava furiosamente e corria em volta da abertura até que entrou de chofre e desapareceu no escuro.
— Freixo! Para! — Gritou Tomás inutilmente. — Anda cá, rapaz! Espera, não entres aí!
Episódio seguinte - Sacrum – III TRES
By Manuel Amaro Mendonça 4 de Setembro, 2026
Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/

Sem comentários:
Enviar um comentário