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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 29 de maio de 2022

O que procurar na Primavera: abelhinhas ou briza

 Carine Azevedo apresenta-nos uma pequena plantinha de nome curioso e que lhe traz memórias de brincadeiras antigas, que podemos encontrar por todo o Portugal Continental e nos arquipélagos da Madeira e dos Açores.

Foto: Alvesgaspar

A abelhinhas ou briza, como sempre a conheci, é uma daquelas plantinhas que me fazem recuar à minha infância. 

Recordo-me do aspeto leve e frágil das suas pequenas inflorescências, em forma de coração, a abanar ao sabor da brisa, no meio dos campos junto a casa. Recordo-me também de as colher e de brincar com elas, de as agitar como se fossem um espanta-espíritos natural, que depois levava e colocava numa jarra onde se mantinham bonitas por muito tempo.

Foto: Luis Fernández García

Por vezes, também me pareciam pequenos insectos que se movimentavam sobre o mesmo eixo, dando a ideia de que estavam a proteger alguma coisa valiosa.

Mais tarde, descobri que o nome científico desta espécie estava diretamente associado a essa característica de movimento das inflorescências.

O nome genérico Briza deriva do grego brizo, que significa “acenar”, e terá sido o nome dado inicialmente a um tipo de cereal, possivelmente centeio, mais tarde transferido para estas plantas – devido à particularidade das inflorescências se inclinarem para baixo e se moverem facilmente com a mais leve das brisas de ar, dando a ideia de que estão a dormir em pé.

O restritivo específico maxima deriva do latim maximus, e significa “maior” em alusão ao tamanho das suas espiguetas, as maiores do género, em oposição às restantes espécies Briza minor e Briza media, por exemplo.

Poaceae

A abelhinhas (Briza maxima) também é vulgarmente conhecida como bole-bole-maior, bole-bole, bule-bule, bule-bule-grado, campainhas-do-diabo, chocalheira-maior, quilhão-de-galo, entre outros nomes, e pertence a uma das famílias botânicas de maior importância para o homem, a Poaceae.

A família Poaceae, também conhecida como a família das gramíneas, é a quarta família botânica mais abundante da flora terrestre, só ultrapassada pelas famílias Asteraceae, Orquidaceae e Fabaceae.

É composta por mais de 11.000 espécies, distribuídas por 790 géneros botânicos, maioritariamente plantas herbáceas, embora existam espécies que alcançam grandes dimensões que se podem considerar lenhosas, como por exemplo o bambu-gigante (Dendrocalamus giganteus).

As espécies pertencentes a esta família são cosmopolitas e encontram-se praticamente em todo o mundo, nos mais diversos habitats, excepto em grandes altitudes.

Muitas das plantas desta família são a base da alimentação de grande parte da população humana. As mais conhecidas são o arroz (Oryza sativa), o milho (Zea mays), o trigo (Triticum aestivum), a cevada (Hordeum vulgare), o centeio (Secale cereale), a aveia (Avena sativa), a cana-de-açúcar (Saccharum officinarum), a erva-príncipe (Cymbopogon citratus),entre muitas outras.

Embora não possuam flores muito vistosas, algumas destas plantas também têm características ornamentais importantes, destacando-se as espécies comuns em relvados e em gramados e os bambus.

Um grande número de representantes desta família também fornece forragem para os animais, nomeadamente para o gado.

Em Portugal ocorrem cerca de 83 géneros nativos desta família, representados por pouco mais de duas centenas de espécies.

Abelhinhas

A abelhinhas (Briza maxima) é uma espécie pertencente ao género botânico Briza, representado em todo o mundo por cinco espécies, das quais três ocorrem de forma natural em Portugal.

A Briza maxima é uma planta herbácea, anual, com caules estriados, glabros, geralmente eretos, embora possam ser decumbentes. Os caules são verdadeiros colmos. São ocos e cilíndricos, com nós bem diferenciados e engrossados, que podem crescer até cerca de 80 centímetros de altura. 

As folhas são verdes, planas, inteiras, glabras, possuem uma forma linear e inserem-se nos espaços dos entrenós. Na junção entre o limbo e o pecíolo, possuem uma lígula membranosa, comprida e lanceolada, com margem áspera, revestida de pêlos duros e fortes, com uma bainha fechada e lisa.

As flores surgem entre abril e junho sobre um escarpo floral bastante fino, redondo, com quatro a cinco nós, maioritariamente envolvido pela bainha das folhas.

Foto: Ricardo Oliveira

Surgem em inflorescências, em forma de panícula simples, pouco densa, constituída por pequenas espigas (espiguetas), geralmente com várias flores com uma grande simplicidade estrutural.

As flores desta planta, assim como das restantes Poaceae, não possuem pétalas nem sépalas, uma vez que não precisam de atrair os insectos para serem polinizadas. A leveza destas flores permite que a dispersão das suas sementes seja facilmente feita pelo vento ou pela água.

As espiguetas são mais curtas que os pedúnculos, mais ou menos pendentes. São ovóides e juntam-se em duas filas compostas por oito a 20 flores hermafroditas, imbricadas e compridas lateralmente. São geralmente glabras ou por vezes pubescentes na metade superior.

As espiguetas são também maioritariamente esverdeadas e possuem, na base, duas glumas – brácteas protetoras estéreis e membranosas, de cor púrpura ou castanho-avermelhada. As glumas também têm uma função bastante importante na dispersão das sementes.

Foto: Donald Hobern/Wiki Commons

Quando maduras, as espiguetas assumem um tom dourado e ficam bastante lustrosas.

Por sua vez, o fruto é uma cariopse, ou seja, um fruto seco, indeiscente e monospérmico, comum das espécies pertencentes a esta família botânica.

Ecologia

A abelhinha é nativa da região mediterrânica, em países como Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia, Bulgária, Turquia, Síria, Jordânia, Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, entre outros, e da Macaronésia (Açores, Madeira e Canárias).

Em Portugal, ocorre em todo o território continental e nos arquipélagos da Madeira e dos Açores, embora alguns registos apontem para que possa ter sido introduzida nesta última localização.

A Briza maxima pode crescer e desenvolver-se em locais com características ecológicas muito diferentes, preferindo ambientes secos e áridos. Pode ocorrer tanto em lugares com exposição solar plena ou mesmo semi-sombreados, e suporta a maioria dos solos, desde que bem drenados. Tolera o calor e também resiste a temperaturas mínimas de inverno, até aos 20º C negativos.

É frequentemente observada em terrenos cultivados e incultos, em prados, campos agrícolas, searas, baldios, em clareiras e orlas de matos, em bosques, pinhais, montados, olivais e pomares.

Foto: H. Zell/Wiki Commons

A Briza maxima, assim como as restantes espécies de Briza, é uma importante fonte de alimento de inúmeras larvas de insectos da ordem Lepidoptera, que inclui as borboletas e as traças, como por exemplo a Coleophora lixella (conhecida em inglês por ‘downland case-bearer’).

Esta planta também pode ser usada como forragem para animais.

Erva de jardim

A Briza maxima é também uma espécie interessante do ponto de vista ornamental. A sua silhueta leve e esbelta, as fascinantes e inúmeras espiguetas que balançam ao vento e que mantêm o valor ornamental durante a primavera e verão, tornam esta herbácea interessante em paisagismo para a decoração de canteiros ou em bordaduras ao longo de caminhos, em jardins naturais, em jardins de pedra ou até em vasos grandes, suficientemente grandes para formar densos tufos de plantas, e para decorar em terraços e varandas, combinada ou não com outras espécies herbáceas.

As suas hastes finas e folhagem esparsa não competem com outras plantas, logo também pode ser misturada com outras espécies anuais para criar prados floridos, sendo uma excelente opção para cobertura do solo.

A Briza maxima também é muito utilizada como flor de corte em arranjos de florais secos. As espiguetas mantêm um aspecto fresco e natural por muito tempo, dando um toque refrescante a qualquer arranjo de flores.

Alguns registos etnobotânicos referem que as espiguetas, ainda imaturas (verdes), são comestíveis e apresentam um sabor adocicado de baunilha ou alcaçuz. Antigamente eram mastigadas ou sugadas para perfumar o hálito.

Também há registo de que uma infusão com as inflorescências desta planta é útil no tratamento de picadas de alguns insectos como, por exemplo, o lacrau.

Outras Briza nativas

Além da Briza maxima, em Portugal ocorrem mais duas espécies do género Briza: a Briza media e a Briza minor.

As características das três espécies são muito semelhantes, estando as diferenças entre elas basicamente no tamanho da planta e das inflorescências, conforme o próprio nome indica.

Das três espécies que ocorrem em Portugal, a Briza media, também vulgarmente conhecida como bole-bole, bule-bule, bole-bole-intermédio, bulu-bule-intermédio ou chocalheira-intermédia é menos comum, possuindo uma distribuição mais restrita às regiões de Trás-os-Montes e Beiras, em habitats mais húmidos, em particular em áreas de lameiros e prados. Também há registo da sua ocorrência no arquipélago dos Açores.

Brisa media. Foto: Radio Tonreg/Biodiversity4All

A Briza media pode atingir os 75 centímetros de altura. As suas numerosas espiguetas medem cerca de quatro a sete milímetros, são esverdeadas ou ligeiramente purpúreas e possuem cerca de quatro a 12 flores. A floração ocorre nos meses de junho e julho.

Já a Briza minima, como o nome indica, é a mais pequena das três espécies nativas. Também é conhecida como bule-bule e pode designar-se bule-bule-menor, bule-bule-miúdo, chocalheira-menor, chocalheirinha, pandeirinha.  

Esta espécie ocorre em quase todo o país, nomeadamente em locais húmidos, como lameiros, prados e margens de linhas de água. Ao contrário da Briza maxima, é raro ocorrer em locais secos. Também ocorre nos arquipélagos da Madeira e dos Açores.

Briza minor. Foto: Becky/Biodiversity4All

A Briza minima pode atingir entre cinco a 60 centímetros de altura. As espiguetas são mais pequenas e também mais abundantes, em relação a qualquer uma das restantes espécies, e também são ligeiramente diferentes, uma vez que têm um aspeto mais triangular e são geralmente verde-pálidas. A floração ocorre de março a junho.

Existem Briza dos mais diversos tamanhos, mas todas elas com uma beleza particular. 

Se encontrar umas pequenas espiguetas a abanar ao sabor do vento, pare e explore para descobrir qual das espécies será.

Dicionário informal do mundo vegetal:

Estriado – provido de estrias, ou seja, sulcos finos e superficiais, geralmente paralelos entre si.
Glabro – sem pêlos.
Decumbente – caule ou ramo deitado sobre a terra, por onde se alastra e com a ponta levantada para cima. 
Colmo – caule cilíndrico com nós salientes, bem diferenciados e entrenós mais ou menos longos, revestidos pelas bainhas das folhas.
Entrenó – porção do caule compreendida entre dois nós consecutivos.
Limbo – parte larga de uma folha normal.
Pecíolo – pé da folha que liga o limbo ao caule.
Lígula – saliência membranosa situada na superfície interna das folhas de certas plantas.
Bainha – parte basal, mais ou menos alargada, de certas folhas e que envolve o raminho ou o escapo floral.
Escapo – haste floral.
Inflorescência – forma como as flores estão agrupadas numa planta.
Panícula – inflorescência em cacho ou em espiga.
Espiga – inflorescência indefinida simples, com as flores sésseis (que se insere diretamente pela base, sem pecíolo) inseridas, geralmente, sobre um eixo mais ou menos alongado. 
Espigueta – inflorescência típica das Poaceae, constituída por uma, duas ou três brácteas estéreis (glumas) na base.
Pétala – peça floral, geralmente colorida ou branca.
Sépala – peça floral, geralmente verde.
Hermafrodita – flor que possui órgãos reprodutores femininos (carpelos) e masculinos (estames).
Imbricada – disposição muito próxima das flores, geralmente sobrepostas como telhas ou escamas de peixe.
Pubescente – que tem pelos finos e densos.
Gluma – cada uma das brácteas estéreis da base da espigueta, geralmente duas, gluma inferior e gluma superior.
Bráctea – folha mais ou menos modificada, localizada na base da flor que a protege enquanto está fechada.

Carine Azevedo

Tartaruga-da-Flórida: esta invasora “ninja” saltou da televisão para os lagos e rios de Portugal

 No âmbito de uma série sobre espécies aquáticas invasoras publicada em parceria com o projecto LIFE Invasaqua, Bruno Herlander Martins (CIBIO) e José Teixeira (CIIMAR), investigadores e coordenadores ligados ao projecto H2020 Life Trachemys em Portugal, apresentam-nos uma estrela de televisão que hoje é mundialmente famosa, mas por razões muito preocupantes.


Que espécie é esta?

A tartaruga-da-Flórida (Trachemys scripta) é a espécie mais popular do planeta como tartaruga de água doce (ou cágado) de estimação. Caracteriza-se pela sua pele verde com listas amarelas e por apresentar uma mancha vermelha ou amarela, desde o olho até ao pescoço.

Tartaruga-da-Flórida, subespécie scripta. Foto: BHM

Esta tartaruga é nativa do leste dos Estados Unidos e das zonas adjacentes do nordeste do México, mas tem vindo a ser introduzida na natureza por todo o mundo, alcançando um enorme sucesso a colonizar diferentes ecossistemas de água doce. Isso deve-se em especial à sua dieta omnívora oportunista e generalista – que lhe permite comer os mais diversos alimentos – à facilidade com que se adapta a diferentes climas e habitats e ainda à elevada taxa de reprodução e longevidade. De facto, pode viver cerca de 40 a 50 anos. 

A proliferação mundial desta tartaruga, associada aos elevados impactos que está a causar nas espécies nativas, levou aliás a IUCN-União Internacional para a Conservação da Natureza a incluí-la na lista das 100 piores espécies invasoras do planeta.

Mas porque é que estas tartarugas são um problema?

Graças às suas características demográficas, comportamento e características físicas (morfologia), estas tartarugas têm uma elevada capacidade competitiva. Em causa estão por exemplo a baixa idade de maturação sexual – que lhes permite começarem a reproduzir-se ainda muito jovens – e também a elevada fecundidade, mas também o facto de serem maiores e mais agressivas do que os cágados autóctones (nativos de Portugal).

Por esses motivos, têm uma grande vantagem quando competem diretamente por alimentos ou por locais de termorregulação e de nidificação.

Ao contrário das nossas espécies nativas de cágados, nomeadamente o cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa) e o cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis), a alimentação destas tartarugas é muito mais abrangente, incluindo numerosas espécies de plantas e animais, como insetos e outros invertebrados, anfíbios, répteis, pequenas aves e mamíferos. Isso conduz à predação e competição com as espécies nativas, desregulando assim o equilíbrio e o normal funcionamento dos ecossistemas.

Cágado-mediterrânico. Foto: BHM
Cágado-de-carapaça-estriada. Foto: BHM

Estas tartarugas podem ainda contribuir para a dispersão de doenças e parasitas que podem afetar as populações nativas de cágados e outra biodiversidade aquática, e até mesmo os humanos. 

Como é que a tartaruga-da-Flórida chegou a Portugal e a outros países?

A introdução desta tartaruga fora da sua área natural de distribuição, um pouco por todo o mundo, deve-se principalmente ao facto de ser vendida como animal de estimação e muitas vezes fugir ou ser libertada por quem a comprou. Isto sucede quando os donos não têm condições ou vontade para as continuarem a manter em cativeiro, frequentemente devido às grandes dimensões que estas tartarugas atingem, à sua agressividade, grande esperança de vida ou más condições de higiene.

A produção da tartaruga-da-Flórida em cativeiro, para o comércio internacional de animais de companhia, iniciou-se na década de 1970, mas foi só com a transmissão da famosa série “Tartarugas Ninja”, no final da década de 1980, que a sua comercialização atingiu o pico máximo.

Tartarugas Ninja. Foto: Wiki Commons

Curiosamente, esta história começa com quatro tartarugas recentemente compradas numa loja de animais por um rapaz, que acidentalmente as deixou cair no esgoto.

A venda é permitida por lei?

Esta tartaruga está incluída, desde o final da década de 1990, no Decreto-Lei nº 565/99 (e na sua posterior atualização – DL 92/2019), que regula as espécies não indígenas de fauna e flora de Portugal. É considerada uma espécie com risco ecológico conhecido, e por isso a sua venda, detenção e libertação são proibidas.

No entanto, a falta de controlo e de aplicação dos regulamentos pelas entidades competentes tem permitido que continuem a ser ilegalmente comercializadas um pouco por todo o país, bem como a sua libertação na natureza. Por esse motivo, a tartaruga-da-Flórida foi já introduzida em diferentes lagoas, rios, ribeiras, parques e jardins públicos de Portugal. A situação é particularmente preocupante num conjunto de lagoas da Ria Formosa e do Algarve, onde se estabeleceram grandes populações reprodutoras desta espécie.

Grupo de tartaruga exóticas entre algumas nativas, no Parque Natural da Ria Formosa. Foto: BHM

E como se tudo isto não bastasse, a comercialização ilegal de outras espécies de cágados exóticos que apresentam características semelhantes à tartaruga-da-Flórida – incluindo de diferentes sub-espécies desta tartaruga – é cada vez mais frequente. E portanto, o seu aparecimento em vários ecossistemas naturais no nosso país tem vindo também a ser cada vez maior.

Há alguma forma de controlar a expansão destas tartarugas?

O controlo e fiscalização da venda destes cágados, através da aplicação dos regulamentos que já existem, será à partida a forma mais importante para lidar com este problema.

Tendo em vista a conservação da natureza e principalmente a viabilidade das nossas espécies de cágados nativos, é também essencial a realização de uma monitorização continuada das áreas potenciais de ocorrência desta espécie invasora, a deteção precoce da sua presença em novos locais e ainda a remoção desses indivíduos para evitar o estabelecimento de populações reprodutoras. Outra medida importante é o estabelecimento de planos de controle das populações já estabelecidas.

Trabalhos de campo com tartarugas exóticas. Foto: DR

Através dos nossos trabalhos no projeto LIFE-Trachemys, já há mais de 10 anos, foi identificada a presença de grandes populações reprodutoras de tartaruga-da-Flórida no sul de Portugal e definidos e testados os principais métodos e as técnicas mais eficazes de captura e controlo destas tartarugas. Apesar disso, desde então, a aplicação de medidas de controlo em ambiente natural tem sido inexistente, devido essencialmente à falta de financiamento no combate a esta problemática. 

Por outro lado, as campanhas de sensibilização e educação ambiental são também extremamente importantes para alertar e educar a população para desincentivar a compra e a manutenção destas tartarugas como animais de estimação, mas acima de tudo evitar a libertação de mais indivíduos na natureza.

E o que pode cada um de nós fazer?

Antes de adquirir um animal exótico, deve-se informar sobre a sua biologia e ponderar se o consegue manter durante todo o seu período de vida. Por outro lado, se possui um animal exótico e já não tem condições para cuidar dele, deve contactar o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) ou o Serviço de Proteção da Natureza da Guarda Nacional Republicana (SEPNA-GNR), para o encaminharem para o local mais apropriado.

Quatro curiosidades:

Dentro do grupo das tartarugas, distinguem-se as tartarugas-marinhas, as tartarugas-terrestres e as tartarugas-de-água-doce. Em Portugal, todas as tartarugas-de-água-doce são designadas de forma comum como cágados, e caracterizam-se por apresentarem um pequeno tamanho (muito menor do que as marinhas), carapaça achatada (para terem mais hidrodinâmica), patas com membranas entre os dedos (adaptadas para a natação) e pescoço comprido e estreito, com capacidade de retração para proteção sob a carapaça.

Os ninhos dos cágados são normalmente escavados nas margens das massas de água, mas estes animais podem deslocar-se de forma ágil até quilómetros de distância da água para encontrarem o melhor local para os seus ninhos.

Eclosão natural de ovo de tartaruga-da-Flórida no Parque Natural da Ria Formosa. Foto: BHM

A tartaruga-da-Flórida pode realizar até três posturas por ano, contendo cada uma em média 15 ovos, ao contrário das espécies nativas em Portugal, que normalmente realizam apenas uma postura e sempre inferior a 15 ovos.

Os cágados em Portugal normalmente realizam a hibernação durante o inverno e a estivação durante o verão. Nestas épocas procuram refúgios e reduzem a sua atividade corporal ao mínimo durante vários dias, para evitarem os períodos de frio ou de calor mais intensos.

Bruno Herlander Martins e José Teixeira

Alunos exploram património arqueológico na Torre de Dona Chama

Frane Selak

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O censo do lobo como ele é

 Os trabalhos de campo do novo Censo Nacional do Lobo-Ibérico, coordenado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), realizaram-se entre 2019 e 2021. Os resultados deverão ser conhecidos em 2023. A Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural ficou responsável pelo “Lote 3 - Nordeste Transmontano” do censo e esteve no terreno nesse período, na rota do lobo, nos concelhos de Vimioso, Bragança, Miranda do Douro, Mogadouro, Vinhais e Macedo de Cavaleiros.

Lobo-ibérico. Fotografia Sara Pinto/Palombar/Censo Nacional do Lobo-ibérico ICNF

Sara Pinto, uma das biólogas especialista na espécie que realizou os trabalhos no campo pela Palombar, falou-nos sobre a sua experiência, sobre o censo como ele é. E o trabalho é árduo e as jornadas são longas e, muitas vezes, não se vislumbra um único sinal dele: do lobo-ibérico.

Mas, em território onde pode haver lobo, há que desbravar até ao último recanto, até à última fraga, até à última senda, à procura de um indício, de uma imagem, de um som, no intento apaixonante para o descobrir. No terreno, a experiência aponta o caminho, orienta e apura os sentidos, mas a paisagem é, por vezes, bravia e, muitas outras, humanizada: o horizonte alarga-se e a peleja adensa-se. Há que ser persistente. O trabalho tem de continuar…

No campo, todos os sentidos contam

No campo, a par da experiência e do conhecimento, todos os sentidos contam. Ver, ouvir, sentir, intuir… Durante o censo, utilizaram-se métodos não invasivos para detetar a ocorrência da espécie, isto é, métodos que não lhe causam perturbação, nem implicam contacto direto. Os métodos são complementares e pretenderam confirmar a presença do lobo num determinado lugar ou de uma alcateia (grupo familiar), bem como a sua reprodução.

Entre os métodos usados estiveram a realização de percursos em veículos todo-o-terreno ou a pé, para uma avaliação mais apurada do terreno, com o intuito de encontrar indícios de presença, como pegadas e excrementos, estes posteriormente alvo de análise genética para identificação precisa da espécie; estações de armadilhagem fotográfica, estações de escuta e de espera. Na de espera, está-se atento a observar com uns binóculos ou telescópio se ele aparece; na de escuta, pretende-se ouvi-lo. Simula-se um uivo. Aguarda-se uma resposta… responderá? Quando responde, há um arrepio, um estado de contentamento. Está ali algures. Sara Pinto ouviu, numa das jornadas de trabalho, uma resposta, e esta encheu, por si só, todas as medidas.

Sara Pinto. Fotografia Miguel Nóvoa/Palombar.

Recorreu-se ainda ao uso de gravadores, que foram colocados no campo para tentar captar sons, como uivos e outros ruídos típicos dos lobos, durante períodos maiores de tempo. Este método complementar, que não estava previsto no censo, foi útil nalguns casos. A sua aplicação no campo resultou de uma colaboração realizada com os investigadores Helena Rio Maior e Rafael Campos, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO) da Universidade do Porto.

As pegadas surgiram nos caminhos, os excrementos também, as máquinas registaram momentos únicos, lobos em liberdade, no seu habitat natural. E, quando assim é, não há palavras para descrever. Aqueles instantes fixados em imagens valem tudo. Ali estão eles. Resistem.

Pegadas de lobo-ibérico. Fotografia Sara Pinto/Palombar/Censo Nacional do Lobo-ibérico ICNF.

Muitas vezes sozinha no terreno, noutras acompanhada, Sara Pinto destaca o desafio que foi aplicar os métodos do censo num território tão humanizado e a preocupação por se ter deparado com comportamentos suspeitos de furtivismo durante os trabalhos no campo. Por outro lado, sublinha a sua maior satisfação: registar crias, adultos saudáveis e alcateias estáveis, embora outras, identificadas em censos anteriores, não se tenham confirmado. Há esperança para a conservação desta espécie ameaçada de extinção e o único membro que resta da família dos grandes carnívoros de Portugal.

O mito rural das “largadas de lobos”

No terreno, marcado por uma paisagem bastante humanizada, onde o mosaico agrosilvopastoril se intercala com paragens mais bravias, entre as populações locais, constatou-se que continua a haver quem acredite nas chamadas “largadas de lobos”. “Não se sabe muito bem por quem, mas anda por aí uma carrinha branca a soltá-los nos montes…”, a narrativa repete-se de aldeia em aldeia, de boca em boca, mas esta não passa de um mito rural. As chamadas “largadas de lobos” simplesmente não existem, nunca aconteceram.

As pessoas foram sempre afáveis, jamais houve animosidade. Mas é facto que o mito persiste e há que desmistificar. Sara Pinto explica que o desconhecimento das comunidades rurais sobre o comportamento e a ecologia da espécie poderá explicar, em parte, este mito. Muitos podem até saber que o lobo se pode movimentar por longas distâncias, mas poucos conhecem o seu comportamento dispersivo e que, nesta fase, pode percorrer dezenas de quilómetros e colonizar locais onde antes não existiam, bem como retornar a outros anteriormente ocupados.

Lobo-ibérico. Fotografia Sara Pinto/Palombar/Censo Nacional do Lobo-ibérico ICNF.

O facto de passarem anos sem que seja detetado um lobo por habitantes locais num determinado lugar, não significa que um dia este não possa vir a surgir novamente, ou pela primeira vez, exatamente por causa desse seu comportamento dispersivo, sobretudo no que toca aos lobos mais jovens que estão à procura de estabelecer o seu próprio território. Quando ele aparece, não surgiu “do nada porque o soltaram”, chegou porque o lobo se movimenta por longas distâncias quando está em dispersão, e o seu rumo nem sempre é o mesmo, nem o local onde se fixa.

Em 2011, o lobo Slvac fez um percurso surpreendente de 2000 km da Eslovénia para Itália, onde se fixou, depois de ter encontrado uma fêmea dispersante. Biólogos da Universidade de Liubliana que lhe tinha colocado um colar com GPS seguiram a par e passo a sua impressionante saga migratória. Na Península Ibérica, apesar de a distância percorrida em movimentos dispersivos ou os territórios dos lobos ser bastante inferior, estima-se que possam percorrer, ainda assim, uma distância que poderá variar de 13 km a pouco mais de 50 km. Em média 34 km.

Censo: uma ferramenta fundamental

É importante compreender e conhecer melhor a espécie para saber coabitar com ela e respeitá-la, afinal, o território é de todos, animais e pessoas. Saber acolhê-la, o Nordeste Transmontano também é o seu lugar, sem descurar as medidas que mitigam e reduzem os conflitos e combatem as ameaças mais evidentes para o lobo, como com a atividade pecuária e os casos de perseguição ilegal, por exemplo.

O Nordeste Transmontano é mesmo um santuário para a espécie e existem poucos casos de ataques contra animais domésticos nessa região. Há diversidade e um número satisfatório de presas selvagens, como javalis e corços, que os lobos preferem. É a sua dieta de eleição.

Lobo-ibérico. Fotografia Sara Pinto/Palombar/Censo Nacional do Lobo-ibérico ICNF.

Conhecer por onde anda o lobo é essencial para adotar melhores medidas de conservação e gestão da espécie. O censo é uma ferramenta essencial. Pretende determinar a presença, o número e a localização das alcateias atualmente existentes, a ocorrência de reprodução das alcateias identificadas, bem como compilar toda a informação existente para cada alcateia/zona de presença da espécie, e ainda obter outras informações sobre o lobo-ibérico. O propósito final é conhecer a área de distribuição atual da espécie em Portugal, bem como o número e situação dos seus grupos familiares.

Quantos lobos há em Portugal?

De acordo com dados do último censo nacional da espécie realizado em 2002-2003 e cujos resultados foram publicados em 2005, existiam, na altura, cerca de 300 lobos e 51 alcateias confirmadas. A área onde ocorriam abrangia cerca de 20 000 km², o que representa apenas 20% do seu território histórico. O lobo é uma espécie “Em perigo” de extinção e está protegida pela legislação nacional e europeia. Em Portugal, a lei de proteção do lobo é de longa data: 1988.

Lobo-ibérico. Fotografia Sara Pinto/Palombar/Censo Nacional do Lobo Ibérico ICNF.

Terminada a fase dos trabalhos de campo do novo censo, os dados de todos os lotes serão agora compilados e constarão de um relatório final, cujos resultados deverão ser divulgados pelo ICNF em 2023. O conhecimento sobre a presença e distribuição, no território nacional, desta espécie emblemática e histórica da Península Ibérica, é fulcral para seguir com a missão de garantir a sua proteção. Ficamos a aguardar, convictos de que, ao percorrer montes, sendas e vales, com os sentidos aguçados, poderemos sempre vê-lo, ouvi-lo, ou simplesmente pensar e sentir que está ali, onde pertence.

Além de Sara Pinto, a equipa da Palombar responsável pelos trabalhos no “Lote 3 - Nordeste Transmontano” do Censo Nacional do Lobo-Ibérico 2019-2021 integrou os biólogos João Santos e Duarte Cadete, este último da empresa Dear Wolf.

Por Uliana de Castro/Palombar

Hardança levam música e companhia à população de Ifanes

 Domingo, dia 29 de maio, o grupo de música tradicional “Hardança”, vai à aldeia de Ifanes, animar musicalmente o serão no âmbito dos concertos de primavera, que o município de Miranda do Douro está a promover para levar a atividade cultural às várias aldeias do concelho.


Após os Concertos de Primavera realizados em Palaçoulo, Genísio, São Martinho, Malhadas, Vila Chã da Braciosa e Sendim, agora é a vez de Ifanes, receber um serão musical que vai realizar-se na igreja paroquial, este Domingo, às 21h30.

O concerto em Ifanes vai ser interpretado pelo grupo musical “Hardança”.

De acordo com Fabíola Mourinho, a compositora e vocalista do grupo, os “Hardança” eram um sonho antigo, que começou a realizar-se em 2019.

Com a pandemia, o recém-formado grupo teve que enfrentar as dificuldades da ausência de concertos e do contato com o público.

O reportório musical dos Hardança incluiu sobretudo temas originais, cantados em português e mirandês e outros temas provenientes do Cancioneiro Tradicional Mirandês.

“Os temas originais estão muito ligados às minhas vivências de infância e de juventude, às festividades locais e às raízes mirandesas”, indicou.

Uma das músicas mais conhecidas dos “Hardança” é o tema “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”, composto em fevereiro de 2020, para o Dia Internacional dos Museus.

“Foi um tema publicitado nas redes sociais e que alcançou uma grande notoriedade”, lembrou.

Do reportório musical dos “Hardança” destacam-se ainda os temas: “As froles de las arribas”, que ganhou o festival da Canção, em Miranda do Douro. E o tema de Natal, “Nasceu o Menino”.


Letra e Música: Fabíola Mourinho | Intérpretes: Bruno Berça; Fabíola Mourinho; Licínio Castro

O grupo “Hardança” é constituído por Fabíola Mourinho, guitarrista, compositora e intérprete; por Bruno Berça, na percussão (gaita-de-foles, caixa e bombo); e Licínio Castro, na viola.

O nome “Hardança” é uma palavra mirandesa, que significa “herança”. Segundo Fabíola Mourinho, este nome foi escolhido para agradecer a herança cultural da Terra de Miranda.

«A “hardança” ou “herança” é o que nos define. Nós cantamos as memórias que nos nossos avós e os nossos pais nos transmitiram, explicou.

Sobre a participação dos “Hardança” no Concerto de Primavera, em Ifanes, no próximo Domingo, Fabíola Mourinho mostrou-se radiante com a oportunidade de participar nesta iniciativa do município de Miranda do Douro, que tem como propósito oferecer um serão musical às populações das aldeias do concelho.

“Esta iniciativa é excelente! Por vezes, as pessoas que vivem nas aldeias estão muito isoladas, têm dificuldade em deslocar-se a Miranda do Douro e vivem até esquecidas. Ao realizar estes serões musicais nas aldeias, estamos não só a proporcionar-lhes a oportunidade de usufruir da música, mas também de viver um momento de encontro e de partilha com outras pessoas”, afirmou.

HA

sábado, 28 de maio de 2022

VAI DE RODA.TERGNIER. PICARDIE. FRANÇA. 1985

PARTE I
PARTE II

Carrazeda de Ansiães: roteiro para descobrir o Tua a caminhar

 Em Carrazeda de Ansiães, as caminhadas pela natureza permitem conhecer paisagens dos vales dos rios Douro e Tua, património histórico e cultural, museus, gastronomia e vinhos.

Olhos do Tua, Carrazeda de Ansiães. (Fotografia de Maria João Gala/GI)

Não há nada como comer uma maçã de Carrazeda à dentada. A primeira é sempre uma explosão de sumo, como se ali estivesse à espera de ser libertado. Mas as seguintes não se ficam atrás. É maçã de altitude produzida no planalto de Ansiães, tão cheia como os bagos de uva que dão afamados vinhos ou os de azeitona com os quais se produzem reputados azeites. Há mais sumo nas terras que tiveram dos primeiros forais do território que é hoje Portugal, traduzido em património histórico, cultural e natural. E, por isso, vale a pena deter-se nelas por uns dias.

Aos poucos, a Câmara Municipal de Carrazeda tem vindo a criar uma rede de trilhos pedestres com distâncias e dificuldades para todos os gostos. Muito para atrair os amantes das caminhadas. Tanto os que são de fora e se deslocam de propósito, mas também para os locais conhecerem melhor a sua terra. O presidente, João Gonçalves, não esconde que um dos objetivos é “atrair turistas” e é o que tem acontecido, com muitas pessoas a irem “passar o fim de semana para fazerem os percursos”.

Também há quem os percorra de manhã e regresse a casa após o almoço. Foi o caso de António Saraiva que saiu de Coimbra às 3.00 horas da madrugada para chegar a tempo de fazer um trilho que começa e acaba em Vilarinho da Castanheira, no mesmo dia em que também lá estavam Maria Magalhães e Fernando Oliveira, que tinham viajado desde Esposende. Não se importam de levantar cedo e percorrer centenas de quilómetros à procura dos melhores trilhos.

O Miradouro dos Olhos do Tua, com vista para o vale e rio. (Fotografias de Maria João Gala/GI)
O miradouro fica no limite nordeste da aldeia do Castanheiro do Norte.

Já havia três no Parque Natural Regional do Vale do Tua e esta primavera estão a ser inaugurados mais cinco. Todos homologados e sinalizados para que possam ser feitos em total autonomia e segurança. Alguns têm vista para o rio Douro, nas áreas de Vilarinho da Castanheira, Pinhal do Douro, Ribalonga e Linhares. Ao percorrê-los pode demorar-se várias horas entre belas paisagens com vinhas e olivais ou matos tipicamente mediterrânicos.

Estes trilhos foram desenhados pela Portugal NTN, com sede em Mirandela. Já tem “cerca de mil quilómetros de pequenas rotas traçados nos distritos Bragança e Vila Real”, de acordo com Domingos Pires, sócio-gerente da empresa. Uma das principais caraterísticas dos cinco trilhos que agora estão a ser inaugurados em Carrazeda é que podem ser calcorreados de forma isolada, ou em conjunto, à medida da capacidade física de cada um, pois todos têm troços em comum. Digamos que “apesar de serem pequenas rotas, já que todas têm menos de 30 quilómetros de extensão, é possível ter no terreno percursos com mais que aquela distância”, salienta ainda Domingos Pires.

Ao desenhar os trilhos houve sempre o cuidado de os fazer passar junto a locais com interesse histórico, como moinhos de água ou monumentos, aldeias ou miradouros, em que pontuam o da “Fraga da Ola”, qual varanda sobre o vale do rio Douro, e os que se debruçam para o vale do rio Tua, “Olhos do Tua” e “São Lourenço”, ambos construídos em ferro e assinados por Paulo Moura. Estes dois últimos estão no parque natural cuja fortuna está, para além das vistas, na diversidade florística e faunística.

Joia da coroa

Esta oferta de Carrazeda de Ansiães é o mote para poder descobrir muitas mais riquezas deste concelho do sul do distrito de Bragança. A joia da coroa do património é a Vila Amuralhada de Ansiães, mais conhecida por Castelo, Monumento Nacional desde 1910. Uma fortificação com mais de cinco mil anos de história, que foi importante baluarte defensivo durante a Reconquista Cristã. O rei leonês Fernando Magno não ficou indiferente e atribuiu a Ansiães a primeira a carta Foral, no século XI. É uma das cinco mais antigas do território que hoje é Portugal.

A Vila Amuralhada de Ansiães. (Fotografias de Rui Manuel Ferreira/GI)
Este património soma mais de cinco mil anos de história.

Até ao século XVIII ainda viveram lá pessoas. Hoje resta a ruína, em algumas partes ainda bem preservada. A Igreja de São Salvador, com um portal principal que é um exemplo puro do Românico, é a principal referência. O tímpano “Pantocrator” destaca-se pela iconografia de “Cristo em majestade”. À volta do templo há vestígios da atividade que ali foi desenvolvida em tempos, como o que se supõe serem lagares escavados na rocha para a produção de vinho, necrópoles e ruínas das antigas casas. Fora dos muros, mais sepulturas junto à Igreja de São João Batista.

Do Castelo de Ansiães a vista alcança terras de vários concelhos vizinhos e o Castelo de Numão, no concelho de Vila Nova de Foz Côa. Diz-se que haverá um túnel que em tempos ligou os dois passando por baixo do rio Douro. Apesar de não existirem evidências de que alguma vez tenha existido, não custa nada, olhando desde a cisterna, imaginar o trabalho que teria sido necessário para o construir. No chamado “fundo da vila” de Carrazeda foi criado o Centro Interpretativo do Castelo de Ansiães, onde é possível conhecer melhor a história do monumento, bem como, por ordem cronológica, a do próprio concelho.

Memória rural

Há quem lhe chame Castelo da Lavandeira, a aldeia mais próxima, que terá acolhido muitos dos que abandonaram a vila amuralhada procurando uma vida menos difícil. A Câmara de Carrazeda criou ali o Núcleo Museológico do Azeite que faz parte do Museu da Memória Rural. Fotografias de Leonel de Castro mostram o processo desde a colheita ao seu emprego na produção de bolos económicos, por exemplo. Há ainda um lagar tradicional de prensa com parafuso central e muitos utensílios ligados à arte. Ainda em Lavandeira, vale a pena apreciar a Igreja de Santa Eufémia, em cujo teto sobressaem 12 caixotões pintados.

O Núcleo Museológico do Azeite. (Fotografias de Rui Manuel Ferreira/GI)

Outro núcleo daquele museu foi criado junto à aldeia de Luzelos. Pretende mostrar ao visitante, através de utensílios, documentos e imagens, como era produzida a telha tradicional, desde a recolha do barro, passando pela modelagem e a cozedura, até à distribuição. Painéis gráficos e documentos de vídeo que recorrem a imagens de recolha etnográfica e documentação fotográfica antiga ajudam a compreender o processo.

Para breve está prevista a abertura de mais um núcleo em Seixo de Ansiães, dedicado aos ferreiros e aos ferradores. Vai albergar o espólio doado por um antigo ferrador e recriar uma oficina de ferreiro, para além de abordar aspetos relacionados com elementos patrimoniais, como são os cinco núcleos de insculturas rupestres, popularmente conhecidas como “fragas das ferraduras”.

O Museu da Memória Rural, em Vilarinho da Castanheira.

A sede do Museu da Memória Rural está em Vilarinho da Castanheira. É abrangente em relação à preservação da cultura rural e do património imaterial de Trás-os-Montes e Alto Douro. Diferentes ofícios tradicionais como ferrador, canastreiro, pescador do rio Douro, padeira, queijeira, pastor, tanoeiro, sapateiro, funileiro, tosquiador, tecedeira, moleiro e corticeiro, entre outros estão ali representados. Além da exposição estática de objetos e utensílios, este espaço serve-se da tecnologia para melhor passar a mensagem. E recusa-se a ser apenas um espaço expositivo. Frequentemente realiza iniciativas ligadas ao ciclo do queijo ou da lã, para que os visitantes possam, por assim, dizer, “meter as mãos na massa”.

Moinhos

Junto à aldeia de Vilarinho da Castanheira foram recuperados os moinhos de rodízio do Ribeiro do Coito. Estão inseridos num espaço de lazer bucólico, denominado localmente como “aldeia dos moinhos”, em que o visitante pode aproveitar o contacto com a natureza enquanto apura a compreensão do engenho que foi empregue na construção daquelas estruturas

Por falar em moinhos, ainda está para se perceber a razão por que foi instalado um de vento junto à que hoje é uma das portas de entrada na vila de Carrazeda. A arqueóloga da autarquia, Alexandra Lopes, tem tentado encontrar explicações, até porque são estruturas para moagem de cereal que não abundam na região de Trás-os-Montes. Só há sete e cinco estão no concelho carrazedense ou junto aos seus limites.

O moinho de vento de vento às portas de entrada na vila de Carrazeda.

O moinho de vento junto à vila data de 1900 e, segundo Alexandra Lopes, funcionou “no máximo 15 anos”. O formato, muito baixo e largo, também levanta interrogações, pois “não se enquadra nos parâmetros” deste tipo de estruturas. Apesar disso, a recuperação promovida pela autarquia conseguiu que funcionasse, mesmo que só para turista ver, uma estrutura granítica que todos se habituaram a ver em ruínas e albergue de silvas.

Esculturas em granito

Porque é a andar a pé que melhor se conhecem as localidades, é dessa forma que visitam as dez obras em granito que compõem o Parque Internacional de Escultura de Carrazeda de Ansiães, que foi desenvolvido entre 2000 e 2009. A ideia foi de Alberto Carneiro, um dos nomes maiores da escultura em Portugal, falecido em 2017, e que tem uma galeria no CITICA. Além de ter assinado “Os Sete Livros da Vida”, junto à Biblioteca Municipal, convidou mais nove escultores de renome portugueses e estrangeiros para deixarem a sua marca no concelho.

A Loja Interativa de Turismo dispõe de informação detalhada para que as pessoas possam apreciar as esculturas em posse de maior conhecimento. Nos roteiros distribuídos aos turistas são dadas coordenadas para se orientarem durante a visita. Na vila, ainda há para ver obras em granito de escultores da terra, como a “Escultura Interior (Es)” de Paulo Moura, junto à Agrupamento de Escolas, e as “Pedras de Identidade” de Hélder de Carvalho.

Vale do Tua

Um dos locais mais atrativos do concelho de Carrazeda de Ansiães é a localidade de Foz-Tua, onde muita gente chega de comboio, quantas vezes apenas para comer nos restaurantes locais e conviver, antes de regressar a casa pela mesma via, na última viagem do dia. Num dos antigos armazéns da estação ferroviária foi instalada uma das portas de entrada no Vale do Tua. Tem lá informação vasta sobre onde deve ir, o que comer e onde ficar no concelho.

Do outro lado da linha ferroviária do Douro, noutro velho armazém recuperado, está o Centro Interpretativo do Vale do Tua. O guia José Luís Carvalho explica a dimensão cultural e humana dos cinco concelhos que fazem parte do vale (Carrazeda, Alijó, Vila Flor, Murça e Mirandela), bem como a história da linha de comboio e a construção da barragem que alterou completamente a fisionomia do vale.

O Centro Interpretativo do Vale do Tua. (Fotografias de Rui Manuel Ferreira/GI)

Desde a estação ferroviária há um percurso pedestre com 3,5 quilómetros de extensão que leva o visitante até um miradouro onde é possível ver de perto do paredão da barragem de Foz-Tua, bem como a central hidroelétrica desenhada por Eduardo Souto de Moura. Este prestigiado arquiteto conseguiu que quase ficasse dissimulada na paisagem, de forma a não colidir com o estatuto de Património Mundial de que o Alto Douro Vinhateiro se orgulha desde finais de 2001.

Ao passar naquele trilho, junto à Estrada Nacional 212 e à ponte sobre o rio Tua que une os concelhos de Alijó e Carrazeda, localiza-se a antiga casa dos cantoneiros que a autarquia transformou na Foz-Tua Wine House. Dispõe de uma sala de exposição e venda de produtos regionais, outra de provas, um pequeno auditório e uma esplanada com vista para os rios Tua e Douro. Onde se guardavam enxadas, ancinhos e demais ferramentas dos homens que traziam as estradas um brinco, divulgam-se e vendem-se agora vinhos, fumeiro, compotas, mel, queijos, frutos secos, entre muitas outras iguarias do concelho a preço de produtor.

Há provas de vinhos e degustações na Foz-Tua Wine House.

Funciona também como um posto de turismo avançado no território, onde é prestada toda a informação sobre os locais a visitar e o horário de funcionamento das infraestruturas turísticas e culturais do concelho de Carrazeda.

Novo alojamento

Para comer não faltam sugestões, como os restaurantes Beira Rio, na aldeia ribeirinha de Foz-Tua, e a Taberna da Helena e o Convívio, ambos nas proximidades da igreja na vila de Carrazeda. Ao lado deste último acaba de ser inaugurado o alojamento The Village House que resulta da recuperação de um velho edifício em pedra. Possui sete quartos com todas as comodidades e ainda uma piscina. Resulta de um sonho de André Morgado, filho dos gerentes do restaurante, e da namorada, com o objetivo de ser “mais uma opção de qualidade para passar uns dias no concelho”.

A posta com batata a murro e o polvo do restaurante Beira-Rio. (Fotografias de Rui Manuel Ferreira/GI)
Luís Morgado, responsável pelo restaurante Convívio.
A Taberna da Helena.
O The Village House, um novo alojamento local.

À entrada da vila existe o único hotel de quatro estrelas do concelho – o Grapple Hotel & SPA. O nome resulta da conjugação das palavras uva (grape) e maçã (apple), duas das principais culturas agrícolas do concelho. Abriu em finais de 2021 graças ao empenho de Carmina González, uma lusodescendente de 36 anos que se mudou para Carrazeda de Ansiães, concelho ao qual tem ligações familiares. Assumindo que foi um “risco bem estudado” investiu ali 2,8 milhões de euros, com apoio de fundos europeus. “Portugal não é só Lisboa, Porto e Algarve. Há que chamar as pessoas para verem o que temos”, salienta Carmina.

Nos primeiros meses de funcionamento tem conseguido o objetivo de manter uma boa ocupação, tanto nos nove quartos e nas três vilas de tipologia T1 e T2 como no restaurante, onde o chef Hélder Sousa se aplica para dar uma vida diferente aos pratos típicos da região. “Estamos a ter um bom retorno, o que me confere o sentimento de que fiz bem em investir”, salienta Carmina, satisfeita por estar a ver também uma “grande adesão” de quem vive na região.

O Grapple Hotel & SPA é o único quatro estrelas do concelho.
O hotel foi inaugurado recentemente em Carrazeda de Ansiães.

O hotel, onde trabalham 14 pessoas, tem ainda sala de eventos, piscinas exteriores de água salgada, SPA com piscina interior, jacuzzi, sauna e banho turco. É um projeto da arquiteta Daniela Rebelo e tem decoração da autoria da reconhecida decoradora nacional, Nini Andrade Silva.

Publicação original aqui.
Eduardo Pinto