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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Nós, Transmontanos, Sefarditas e Marranos - TORRE DE MONCORVO 4.º ENCONTRO DE HISTÓRIA E CULTURA JUDAICAS

Açoreira
Em termos de história e cultura judaica, Torre de Moncorvo constitui caso singular. Com efeito, no ano de 1976, quando em Trás-os-Montes fervilhavam comícios políticos, realizaram-se ali umas jornadas de cultura judaica, promovidas pela câmara municipal presidida pelo Sr. Almiro Sota. Seguiu-se a atribuição do título de cidadão honorário ao embaixador de Israel, Sr. Halevy-Milmar em reunião de câmara de Moncorvo de 1.6.1982 e o pedido de geminação da vila trasmontana com uma cidade israelita.

Quando se esperava que a iniciativa entrasse a “dar frutos”, no campo da cultura e do turismo e do estreitamento de relações culturais, aconteceu o contrário, certamente porque os responsáveis políticos camarários que seguiram consideravam o assunto de menor interesse. Só em 2002,no salão nobre da câmara se realizou uma sessão, com palestras de dois investigadores da Cátedra de Estudos Sefarditas e apresentação do livro “Subsídios para o Estudo da Inquisição em Torre de Moncorvo”. Anos depois, com o mesmo presidente da Câmara, Eng.º Aires Ferreira, foi apresentada a obra “Os Isidros – A Epopeia de uma Família de Cristãos-novos de Torre de Moncorvo” e um prospeto desenhando uma rota dos judeus na vila de Moncorvo, que ainda hoje é distribuído no posto de turismo local.

Entretanto, outros municípios lançaram iniciativas semelhantes (e muito mais agressivas, refira-se), no sentido de estudar e promover os estudos de cultura judaica, com vista à promoção de rotas de turismo. Foi o caso de Belmonte, Guarda, Trancoso, Castelo de Vide, Tomar…

Em 2015, com o atual Presidente da Câmara, Dr. Nuno Gonçalves promoveu-se a adesão de Torre de Moncorvo à Rede das Judiarias e realizou-se o 1.º Encontro de História e Cultura Judaica.

Nos dias 22 e 23 pp. teve lugar o 4.º desses Encontros. A organização foi da responsabilidade da câmara e coordenação científica da Dr.ª Adília Fernandes, e Dr. Adriano Vasco Rodrigues, Moncorvenses de incontestável saber e vasto relacionamento na matéria.

Congratulamo-nos com a iniciativa que trouxe a Torre de Moncorvo Mestres como o Sr. Professor Norberto Cunha, da universidade do Minho, o Sr. Dr. António Assis, da universidade Lisboa, o Sr. Professor Luís Reis Torgal, da universidade Coimbra, o Sr. Dr. Carlos de Almeida Barata, da universidade federal do Rio de Janeiro e o Sr. Dr. Fernando Rosas, da universidade Nova de Lisboa. Obviamente que não nos atrevemos a comentar os trabalhos apresentados, todos de âmbito mais ou menos geral, relacionados com a inquisição e cristãos-novos. Ao público presente agradou particularmente a intervenção de Fernando Rosas, fazendo uma brilhante história do judaísmo e da inquisição em Portugal. Tratou-se, em parte, da reposição de um programa já transmitido pela RTP-2.

De natureza mais particular e específica foi a conferência do Sr. Dr. Guilherme Maia Loureiro intitulada: – O Moncorvense Francisco Botelho de Morais e a importância da crítica das fontes de Genealogia Sefardita.

Antes de mais, cumpre render homenagem ao genealogista Dr. Loureiro pela preocupação que teve em preparar um trabalho adaptado ao local e ao público-alvo da conferência. Pela primeira vez, na história destes Encontros, alguém que veio de fora apresentou um texto especificamente dirigido ao auditório Moncorvense, tratando um tema referente à história judaica de Torre de Moncorvo.

Perdão: o tema não respeita apenas a Moncorvo, mas também a Freixo E. Cinta e outras terras trasmontanas. Na verdade, ao longo de 500 páginas de diligências para habilitação de António Coelho Meireles e seu irmão José Borges Varejão, desenrolam-se incríveis lutas políticas e questões sociais, mostrando grandezas e misérias da nobreza e da aristocracia cristã-velha da região e do viver quotidiano dos cidadãos.(1) Vamos contar.

Como sabem, a inquisição tornou-se numa poderosa e temida organização que dominava toda a sociedade, muito especialmente a partir da aprovação das leis de limpeza de sangue que proibiam o exercício de determinadas atividades e a entrada nas classes da nobreza e do clero aos cristãos-novos.

Por outro lado, era muito prestigiante e economicamente rentável ser funcionário ou colaborador da inquisição. O acesso, porém, era extremamente difícil e os pretendentes sujeitos a rigorosos processos de investigação.

Aconteceu que, em 1702, José Borges Varejão, filho do capitão-mor de Freixo, então solteiro e depois casado com a não menos nobre D. Maria de Távora de Carvalhais, apresentou o seu pedido para ser familiar da Inquisição.(2)

De acordo com o regimento da inquisição, abriu-se um processo para averiguar se entre os seus ascendentes houve algum com fama de judeu ou cristão-novo. Como o seu avô paterno (António Varejão de Gamboa) era natural de Torre de Moncorvo, foram também feitas investigações nesta vila, ouvindo-se uma dúzia de pessoas das mais velhas e credenciadas da terra. E entre elas foi chamado a testemunhar Francisco Botelho de Morais, que, além de capitão-mor da comarca e homem da governança da câmara, era um dos mais famosos genealogistas Trasmontanos, tendo escrito, entre outras obras, um “Nobiliário de Famílias nobres de Portugal e particularmente da província de Traz-os-Montes”. Em seu depoimento, Botelho de Morais, foi cáustico e, entre outras declarações, afirmou:

— José Borges Varejão é descendente de nação hebreia e cristão-novo por três vias, porquanto Pedro de Esportilho, casado com Mécia de Esportilho, cristão-novo inteiro, vivendo em Valhadolid, sua pátria, foi o dito Pedro Esportilho preso pelo santo ofício e queimado, e o seu retrato se pôs na sé da dita cidade ou igreja onde se costumam pôr semelhantes retratos. E a dita sua mulher com uma filha do mesmo nome vieram para Bragança aonde casou a dita filha com um homem principal e deles foi filha Maria Lopes Esportilho que veio casar a esta vila de Moncorvo e desta foi filho António de Castro, chanceler da correição e deste foi filha Maria de Castro e desta foi filho António Varejão de Gamboa e deste é filho Pedro Varejão de Gamboa, pai do justificante…(3)

Limpo, limpinho, maior clareza não podia haver, a respeito desta primeira via judaica. Além da via dos Portilhos, havia também sangue judeu proveniente de Maria Álvares de Castro que veio de S. Felices de Gallegos para Freixo a casar com João Fadiga. Desta Maria Álvares descendiam Maria Pinta, avó paterna de José Borges Varejão e Catarina de Meireles, avó materna do mesmo. Esta ascendência judaica das avós do habilitando fora já denunciada por outras testemunhas de Freixo. Aliás, havia pessoas que se recordavam de três filhas de Pedro Lopes da Fonseca e Maria Coelha Zuzarte que, em 1669, foram presas pela inquisição de Coimbra, acusadas de judaísmo e eram da família do candidato.

Não vamos falar das investigações que então se fizeram sobre a ascendência de S. Felices de Gallegos. Vamos ater-nos à denúncia de Botelho de Morais sobre os Portilho, uma família muito importante e que tinha descendência espalhada por todas as famílias nobres de Trás-os-Montes. Assim, infamar José Borges Varejão era infamar outras famílias nobres de Trás-os-Montes. Acresce que, antes e depois de Borges Varejão outros candidatos a cargos inquisitoriais ou eclesiásticos da descendência dos Portilho tinham sido considerados como cristãos-velhos, sem qualquer gota de sangue judeu, havendo quantidade de padres como era o caso, em Torre de Moncorvo, do padre Jacinto de Castro Borges, da Companhia de Jesus e do padre Bartolomeu de Castro Borges, beneficiado da igreja matriz de Moncorvo, filhos do Dr. João Gois e sua mulher, Ana Borges. Inclusivamente havia no tribunal de Lisboa, um inquisidor natural do Vimioso – Manuel Pimentel de Sousa – “que descende de Rui Gonçalves de Gusmão e Mécia Portilho”, conforme se escreve neste mesmo processo, em nota à margem.

Tudo isto foi contado por José Borges Varejão em uma longa exposição, acrescentando que Francisco Botelho de Morais “põe nas genealogias das pessoas a quem tem ódio, mácula”. E explicou que o ódio do genealogista vinha de tempos antigos, das lutas entre os Botelhos e os Castros, com “mortes e cortamento de pernas”… contos que darão um livro de história política de Moncorvo naquela época.

Obviamente que os inquisidores mandaram apurar a verdade. Voltou o comissário a Torre de Moncorvo, instalando-se no convento dos frades franciscanos, para evitar que fosse conotado com uma das parcialidades. Ele próprio explicou:

— Por evitar os juízos que os moradores faziam se vissem ir Francisco Botelho de Morais falar comigo tempo dilatado, porque me consta dizem em semelhantes ocasiões: “quem será o miserável sobre que cairá o raio de Francisco Botelho”, por lhe chamarem o inimigo comum e bem mostrar ser, pois o é de sua mulher e filhos, com os quais não só não trata, mas os desacredita por papéis, em litígios que com eles trás (…) na tal vila (Torre de Moncorvo) haveria mais de 70 anos tendo notícia houvera parcialidades entre a família dos Borges, de que descende o justificante e a família dos Botelhos e dos Castros, de que descende Botelho de Morais (…) parcialidades foram tais e os ódios, que continuadamente se andaram infamando nas partes mais públicas, e fazendo pendências que pareciam guerras civis naquela vila (…) nas tais pendências cortaram uma mão os Borges a Damião Caldeira, da família dos Botelho, de que procede o dito Francisco Botelho…(4)

Impossível no âmbito dessa página fazer uma descrição detalhada dos acontecimentos. Diremos tão só que as diligências se dilataram no tempo (por 40 anos!) e no espaço (foram também a Espanha, onde se provou que Maria Álvares descendia de uma família da nobreza, com brasão insculpido na igreja). E o candidato estava já “adiantado em anos e cheio de moléstias e achaques” quando os inquisidores decretaram a sua limpeza de sangue.

Enquanto as diligências de habilitação de José Borges Varejão correram, seu irmão, António Coelho Meireles, que fora juiz de fora em Viseu, corregedor em Portalegre e Coimbra e desembargador da relação do Porto, ascendeu à posição de desembargador da Casa da Suplicação, numa carreira de sucesso. E buscando mais prestígio social e proventos económicos, requereu a continuação do processo e o cargo de familiar do santo ofício. Foi-lhe a carta concedida em 16.9.1745. Nesta altura já Botelho de Morais era também falecido e desacreditado como genealogista.

Notas:
1 - A nossa investigação sobre este caso começou em janeiro de 2018 quando preparávamos a biografia de Antónia Coelho Zuzarte. – Jornal Nordeste, n.º 1106, de 23.1.2018.

2 - Os Familiares eram informadores e executavam as ordens transmitidas pelos comissários, como fossem as de executar as prisões e conduzir os prisioneiros às cadeias da inquisição.

3 - Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações, António, mç. 100, doc. 1793. Provou-se mais tarde, com documentos autênticos, que as informações de Francisco Botelho não eram totalmente verdadeiras.

4 - Ao corte da mão de Caldeira, terá seguido uma espiral de violência com Jerónimo Botelho de Vasconcelos, “cabeça do rancho contra a família dos Borges” a matar uns filhos do Dr. João Gois e os Borges a responder, matando Jerónimo Dessa, da parcialidade dos Botelhos. Razão teria o abade do Felgar ao falar de uma verdadeira “guerra civil” em Torre de Moncorvo.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães
in:jornalnordeste.com

ICNF multa Zamora por causa de trail "Transfronteiriza"

O Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) multou a Diputación de Zamora, por causa da realização da primeira edição do trail “Tranfronteriza”, no ano passado.
Segundo o jornal espanhol “La Vanguardia”, o instituto do governo português passou uma multa de 1551 euros, pelo facto de os atletas que participaram na prova, portugueses e espanhóis, terem passado pelo território do Parque Natural de Montesinho a correr em vez de a andar, como tinha sido permitido pelo ICNF, já que a autorização tinha sido passada para um passeio pedestre. O mal entendido ter-se-á ficado a dever a um erro de tradução.

A prova, também designada I Campeonato Ibérico da Reserva da Biosfera Meseta Ibérica, decorreu em Junho de 2017 e iniciou-se na localidade espanhola de Flechas e terminou na aldeia raiana de Rio de Onor, inserida no Parque Natural de Montesinho.

O total da multa ascendia a 2000 euros, mas visto que a Diputación zamorana, que organizou o trail em conjunto com a Reserva da Biosfera Transfronteiriça da Meseta Ibérica, acabou por aceder a pagar na hora, o valor foi reduzido para 1551 euros. O ICNF alega ainda que foi aplicada a multa mínima, que poderia ter ido até 30 mil euros.

Na competição participaram atletas portugueses e espanhóis em dois percursos, um de 13 e outro de 25 quilómetros, em caminhos do território da reserva da Serra da Culebra, em Zamora, e do Parque Natural de Montesinho, no concelho de Bragança. 

Escrito por Brigantia
Olga Telo Cordeiro
Foto: ArteDeportivo.com

O REFUGO DA POLÍTICA

A política é uma expressão notável da condição humana, a par da inteligência, das emoções e dos sentimentos, que rasgaram os horizontes da cultura e nos libertaram do determinismo puro e duro da natureza.

No entanto, a construção da humanidade não é um percurso tranquilo, gratificante e irreversível. A nossa passagem pelo mundo deixa marcas, autêntica pegada histórica, por semelhança com a ecológica, hoje razão para intentar mudanças de rumo na relação com o planeta. Pelo caminho ficam restos, escórias, o que designamos por refugo, capaz de contaminar o devir por tempo indeterminado.

Lamentavelmente, ao longo de muitos séculos, o ideal nobre da política não logrou distinguir-se de arremedos que o envolvem, numa dança macabra que poderá reconduzir-nos à barbárie. Arremedos fruto da cobiça, do primitivo instinto predador, mas também da condição bruta dos ignaros, vítimas ou serviçais de reizecos da selva.

Não faltam exemplos de pasmar neste século de surpresas para multidões que não quiseram ou não puderam olhar com esclarecida atenção para a vida real. Também nesta nossa terra, celebrado país de novecentos anos, rescende o fedor a politicagem, o lado ridículo da subversão da política.

Na realidade, não nos faltam gebos, fascinados pela sombra, a fazer-nos corar de vergonha, mais do que merecíamos, quando também tivemos a honra do governo de verdadeiros estadistas, embora a espaços, sem continuidade nem efeito estrutural que poderia garantir-nos destino bem diferente do que vamos sofrendo.

Casos notáveis de desavergonhados ou de brutinhos envaidecidos têm desfilados nos palcos da actualidade, dando razão a quem olha desconfiado para os regimes democráticos, sempre vítimas de demagogos, oportunistas e malandrecos.

É confrangedor ver como indivíduos que foram responsáveis por decisões políticas gravosas para o interior têm a lata de fazer pregações como se a memória fosse mesmo curta. Podíamos estar a falar de subalternos. Mas, não. Um ex-primeiro ministro e ex-presidente da República que, nas décadas de 80 e 90, empurrou o país para a situação que nos atormenta, foi a uma localidade onde o envelhecimento e a rarefacção das gentes mais se faz sentir, falar da necessidade de fazer filhos e de políticas para o interior.

Ele, que retirou as vias férreas, centralizou os serviços no litoral, privilegiou as estruturas viárias junto ao mar e à volta das duas metrópoles, foi homenageado em Sernancelhe, terra que, como outras, poderia ter subido dos domínios do demo às portas do paraíso, neste meio século.

Estamos no verdadeiro reino do absurdo. Moribundos agradecem ao abafador que lhes cercou a alma de desânimo. Neste tempo todos falam do interior, até o referido Aníbal Cavaco Silva.

Ver-se-á se o sucessor terá coragem para exigir a verdadeira reversão da asfixia mortífera. Lembremos que também ele foi responsável de um partido de poder e não deu mostras de romper com a inércia instalada. Agora, que exerce uma magistratura de influência, não parece que tenha força. Mas, também não sabemos se terá vontade.


Teófilo Vaz
in:jornalnordeste.com

Campanha de apadrinhamento de crianças de S. Tomé apresentada em Bragança

Até hoje, está a decorrer em Bragança uma campanha solidária de apadrinhamento de crianças de São Tomé e Príncipe.
A iniciativa partiu de dois brigantinos, Fernando Teixeira e Victor Veloso que convidaram Cristina Paço de Arcos, da Fundação da Criança e da Juventude, uma ONG são-tomense.

O objectivo é claro: lançar a campanha de apadrinhamento e de sensibilização.

“É uma acção de sensibilização para que as pessoas conheçam o nosso trabalho lá”, explicou.

A campanha já teve início e já há um armazém com materiais para a construção de um refeitório em São Tomé.

O custo mensal de cada criança para a instituição é de aproximadamente 60 euros, e o custo mínimo por apadrinhamento é de 10 euros por mês, ficando ao critério de cada um o valor da doação.

Para ser padrinho de uma criança apenas é necessário contactar a associação, no entanto, existem outras formas de ajudar através da doação de calçado, vestuário, material escolar, artigos de higiene, livros e brinquedos.

Para contactar a fundação poderá fazê-lo através do email fundacaocriancajuventude@gmail.com ou no dia de hoje ir ao Pingo Doce de Bragança e ser um dos padrinhos das 300 crianças que a Fundação ajuda. 

Escrito por Brigantia
Maria João Canadas

SEGURANÇA FRONTEIRIÇA EM TRÁS-OS-MONTES NA CORRESPONDÊNCIA DO GOVERNO CIVIL DE BRAGANÇA (1870-1874)

INTRODUÇÃO
O Livro de Correspondência Expedida Confidencial apresenta-nos um conjunto de cartas, ofícios, circulares, telegramas, enviados para vários orgãos locais, nacionais e da vizinha Espanha, emitida pela Administração Geral do Distrito de Bragança, onde se apresentam algumas questões relacionadas com necessidade de promover a segurança do espaço fronteiriço entre Portugal e Espanha, circunscrito ao Distrito de Bragança e que envolvia as autoridades nacionais, regionais, as povoações raianas e suas gentes.
Reúnem-se, pois, ingredientes que suscitam a leitura atenta desta fonte e a exploração do seu conteúdo, atendendo às suas variáveis espacial e temporal, no sentido de melhor compreender o relacionamento institucional, entre estes dois países, numa zona de fronteira, como a do Nordeste Transmontano, bem como o espírito preventivo, de constante alerta a que era submetida a respectiva Administração Geral e os apelos que, constantemente, eram lançados aos organismos e autoridades regionais, solicitando a cooperação, envio e confirmação de informações, deslocações de forças militares, verificação postal e alfandegária, entre outros.
A fronteira constituía uma zona de passagem de pessoas, géneros, artigos, correspondência, informações que poderiam pôr em causa a actuação dos governos das duas nações vizinhas. Esta era, pois, uma zona que deveria ser vigiada, da qual se deveriam conhecer todas as movimentações, exercendo sobre ela uma atitude de prevenção, no sentido de não se comprometer a manutenção da ordem, tranquilidade e segurança públicas. Esta também uma importante atribuição do Governo Civil do Distrito de Bragança.
Algumas questões poder-se-ão, então, colocar:

1. Qual o contexto específico desta agitação política, de que a fronteira transmontana era reflexo evidente?
2. Sobre o que incidia a vigilância nesta zona?
3. Que mecanismos foram utilizados no sentido de garantir a segurança da fronteira?
4. Quais as atitudes preventivas do Governo Civil perante a agitação política espanhola de então?

APRESENTAÇÃO DA FONTE
O Livro da Correspondência Confidencial Expedida pela Administração Geral do Distrito de Bragança, Livro 26, Caixa 8, faz parte do Fundo Documental do Governo Civil de Bragança.
Fonte manuscrita do século XIX, reveste-se de uma componente regional, que a caracteriza, pela entidade que a emite, pelos conteúdos, mas que alarga o seu valor geral e nacional, também pelo significado desses mesmos conteúdos, pelos destinatários da correspondência, pelos temas confidenciais e sigilosos, que encerra e que transpõem a própria fronteira nacional. Estes cuidados denotam-se na falta de numeração de grande parte dos ofícios, na integração destes registos de correspondência em livro destinado a outros assuntos, na inexistência de paginação, em grande parte das folhas, no número sucessivo de cartas abordando os mesmos assuntos; sinal evidente de uma preocupação e necessidade de actualização constante.
Como documento oitocentista, é um documento de natureza formal e institucional que revela na sua leitura a formalidade, o pragmatismo, a institucionalidade das questões que regista e retrata; do órgão que faz cumprir a legislação vigente, preserva a ordem, a segurança dos governos e das populações, zela pelos acordos, tratados, especificamente entre Portugal e Espanha, nesta região nordestina, que tutela.
Nesta fonte, percepciona-se o diálogo entre os alcances regional, nacional e internacional das questões pertinentes que encerra; a forma como retrata o espaço, e o espaço de fronteira em particular, que deve ser vigiado, porque potenciador de perigos, de descaminhos, de ideologias revolucionárias, de tumultos, refúgio de rebeldes; microespaço que se comprime e dilata de uma forma tão subtil, tornando-o eleito para validação da eficácia legislativa e governativa.

CONTEXTO SOCIOPOLÍTICO
Mais importante do que caracterizar aqui qualquer contexto ou facção política, na sua especificidade, importa antes de mais, sublinhar os cuidados que rodeavam a preservação da integridade deste espaço de fronteira na manutenção da segurança das duas nações peninsulares.
A correspondência, incluída neste documento, encontra a sua razão de ser num contexto em que a Península Ibérica assiste a um período conturbado, pairando no ar a suspeição de movimentos de revoltas por parte dos adeptos do carlismo espanhol, que actuava primordialmente na zona norte de Espanha e miguelistas portugueses, de quem se dizia encontrarem naqueles verdadeiros auxiliares da causa que os movia e que, entretanto, demonstrava sinais mitigados.
Se, estes dois partidos, isolados poderiam favorecer focos de rebelião, a solidariedade entre eles constituía pois perigo para a estabilidade governativa de Portugal e Espanha.
Neste sentido, a leitura desta fonte conduz-nos à necessidade de identificar algumas das motivações do Governo Civil de Bragança, no que diz respeito à vigilância do espaço fronteiriço, onde era determinante a turbulência política e as movimentações revolucionárias espanholas de então e que preocupavam as autoridades de ambas as nações.
Da leitura dos relatórios do Governo Civil de Bragança, que nos foi possível consultar, datados de 1870, 1872, 1875, não se podem ler quaisquer tipos de registos relativamente a este cenário.
No entanto, em toda a correspondência externa expedida pelo Governo Civil neste período, encontramos transversalmente, a temática da agitação política da época em Portugal e Espanha e a vigilância dos eventuais contactos estabelecidos entre os revoltosos de ambas as nações peninsulares.

ANÁLISE DE CONTEÚDO
Nesta fonte manuscrita, podemos recensear um conjunto de aspectos que mereceram, por parte das autoridades locais, uma atenção especial, revestidos de um forte cariz institucional e confidencial e sobre a qual era exercida, primordialmente, a vigilância nesta zona da raia:

1. Apreensão de artigos ou material de guerra
2. Controle da pólvora de contrabando
3. Verificação de correspondência suspeita
4. Vigilância de espanhóis na raia. Informações sobre eventuais agitadores e revoltosos

A correspondência, cerca de 50 ofícios, circulares e telegramas, foi emitida durante o período em questão, pelos seis Governadores Civis do Distrito de Bragança de então: Carolino d’Almeida Pessanha (nomeado em 19/01/1870); António Joaquim Ferreira Pontes (nomeado em 25/05/1870); Jerónimo Barbosa de Abreu e Lima (nomeado em 02/09/1870); Diogo Albino de Sá Vargas (nomeado em 30/03/1871); Tomás António Ribeiro Ferreira (01/08/1872); Adriano José de Carvalho e Melo (25/11/1873 a 10/01/1877).
Destinava-se às seguintes entidades: Ministério do Reino; Governador Civil de Zamora; Governadores Civis (nomeadamente Vila Real e Guarda); Administradores, especialmente dos concelhos de fronteira como Vinhais, Bragança, Vimioso, Miranda do Douro, Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta; Comissário Geral da Polícia do Porto, General Comandante da Subdivisão Militar de Chaves; Comandante do Batalhão de Caçadores N.º 3 de Bragança; Alfândegas de Barca d’Alva, Bragança e Chaves; Director dos Correios de Bragança.

continua...

Livro de Correspondência da Administração Geral do Distrito de Bragança, N.º 26, Confidencial,
Caixa 8, 162, Maço 33, Anos 1870-1874, Fundo Documental do Governo Civil de Bragança,
no Arquivo Distrital de Bragança.
Maria da Graça Martins

IV Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro

IV Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro com elevação, sem a participação institucional que se impunha
O IV Congresso realizou-se nos dias 25, 26 e 27 de Maio, no nobilíssimo espaço do Pavilhão da Ciência e Conhecimento. Teve dos melhores oradores entre os melhores. Foi, por agenda, pré-aberto, pelas 18H30 do dia 25, pela brigantina e Directora do Pavilhão do Conhecimento, Rosália Vargas, a que se seguiu um momento etnográfico e musical - música celta, caretos e chocalhos - que nos transportaram às nossas raízes. A seguir actuou a fadista do Romeu – Mirandela, Tereza Carvalho, que prendeu toda a assistência e terminou com «Vivó Romeu» e encerrou com o brigantino, Paulo Bragança. A abertura foi feita pelo Presidente da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro (CTMAD) de Lisboa, Hirondino Isaías, historiando os Congressos trasmontanos e alto-durienses, o porquê do Congresso em Lisboa. 
Falou do futuro da região e da Grande Antologia de autores da nossa região, terminando com um «viva a Trás-os-Montes e Alto Douro» e «viva Portugal». Seguiu-se a homenagem ao Prof. Adriano Moreira com a projecção de um vídeo sobre a vida e obra da nossa maior personalidade viva. Adriano Moreira, a «estrela» do IV Congresso, falou das memórias de Grijó (como o forno comunitário da Rosa Moleira e a Capela do Divino Senhor dos Milagres), de algumas pessoas suas coevas e das suas memórias. Por ele fiquei a saber que esteve com Mário Soares no Aljube e ficaram amigos pela vida fora. Falou da «dramática Guerra Colonial» e que «estas guerras não se ganham, servem para ganhar tempo». 
Citou um general francês condecorado na humilhante guerra da Indochina e terá dito que «estava cansado de receber medalhas e pontapés no traseiro». Lembrou que de todos os impérios coloniais o nosso deixou a CPLP e gosta-se mais da nossa pátria como um contributo para o «Património Imaterial da Humanidade». Portugal a mais pequena nação europeia construiu um império. Referiu-se, ainda, a Assunção Anes Morais, pelo seu dinamismo em prol da academia de letras trasmontana. Seguiu-se a leitura da mensagem de saudação e apoio do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (não se percebe bem porque não passou, pelo menos, pelo IV Congresso).
A apresentação pública da «Antologia de Autores de Trás-os-Montes e Alto Douro e Beira Trasmontana», por Jorge Golias, foi um momento alto do Congresso, pela arrojada e grande obra, abrangência de Municípios e autores (uns 150) e pela forma teatral como foi apresentada (Jorge Golias implicou – Jorge dos Santos, Carlos Cordeiro, Elsa Bidarra, Elsa Moreira, João Rocha, Eduardo Botelho e Ludovina Ramos) na leitura duma selecção de excertos dos autores: M.ª Assunção Anes Morais, Joaquim Calheiros Duarte, Ana Luísa Pires, Rosália Vargas, Fernando Calado, Adriano Moreira, Jorge Lage, Henrique Pedro, Silvino Potêncio, M.ª Augusta Ribeiro e Carla Guerreiro. A esta grande obra referiu-se Adriano Moreira dizendo que «é o Espírito Santo do povo». 
Seguiu-se Edite Estrela, que soube repartir a presença entre o plumoso congresso socialista e este regional. Terminou o longo dia com intervenção do reitor da UTAD, Fontainhas Fernandes, demonstrando facilidade comunicativa e conhecimento do tema e conhecimento pelos lugares. A intervenção dos caretos, com vestes típicas, máscaras e chocalhos, música celta e as violas, cavaquinhos e guitarras, com canções que nos prendem e nos mergulham nas nossas memórias e cultura. A canção «Adeus ó Vale de Gouvinhas» assume-se cada vez mais como a embaixatriz musical de Mirandela. 
O jantar convívio no Restaurante do Pavilhão do Conhecimento encerrou o dia  com a noite alta.
O dia 26, o mais substancial, foi iniciado com António Chaves e o tema «Património e Turismo», intervindo Tó Zé Vale, artesão de máscaras, com loja de venda dentro das muralhas do castelo de Bragança e do grupo de caretos de Vila Boa – Vinhais. Seguiu-se Armando Fernandes muito seguro sobre as imensas potencialidades turísticas da nossa região, dizendo que os responsáveis do Turismo Norte olham quase só para o litoral – Porto, apelidando-os de um «desastre». E para que não houvesse dúvidas lembrou as potencialidades: das árvores como a Castanheira de Lagarelhos – Vinhais (mal cuidada), das luras, dos topónimos e das fragas. É preciso a fidelização dos turistas. Falou das indústrias da cultura – ferro forjado, cemitérios, montes da forca, cabanas e sons dos animais e Natureza. A isto acrescento eu os «Caminhas de S. Tiago» e os «Caminhos de Fátima», envolvendo o povo local. 
Seguiu-se Júlio Meirinho apresentando uma visão holística do desenvolvimento.  Continuou com o ensino superior, intervindo Jorge Valadares e Sobrinho Teixeira, tendo este referido que o distrito de Bragança tem a maior percentagem de alunos que vão para o ensino superior. Para resolver alguns problemas «a melhor estratégia é ir vendo como se vai fazendo» e corrigindo. É preciso canalizar e adaptar os fundos comunitários à realidade do Interior. Fontaínhas Fernandes, muito seguro, foi dizendo ser preciso discriminar pela positiva a nossa região. 
Prosseguiu com João Vilela e Liliana Ribalonga, sobre «Políticas de Proximidade, Ambiente e Floresta». Hernâni Dias, Presidente de Bragança, recordou que «os municípios da região com 5% investem 45% do total do país». Que «as relações transfronteiriças são excelentes. Os valores ambientais da região são imensos». Que a pegada ecológica e a sustentabilidade do planeta têm em Bragança um bom aliado. Artur Nunes, Presidente de Miranda, subiu ao palco para apontar a falta de ligações: IC5 à Sanábria, IP2 à Aoutovia das Rias Baxas e A4 a Zamora. No tema «Agricultura, Despovoamento e Saúde», Jorge Golias introduziu os oradores com um curto e oportuno apontamento. 
O Presidente dos agricultores, Francisco Athaíde Pavão, depois de um diagnóstico ao sector, propôs o cultivo de produtos endógenos e a sua certificação com uma carta de qualidade para os excelentes produtos e a promoção de toda a região. Como curiosidade de uma esmerada educação no berço, nunca passou à frente da mesa do painel, mas por trás. Usou da palavra Carlos Vaz que terá sido o «coveiro» da maioria das valências dos hospitais de Mirandela e Chaves. Berta Nunes, apelidou os trasmontanos de racistas para com comunidades exteriores. Defendeu o investimento e empregabilidade para combater o despovoamento. 
O governante Luís Vieira falou como se o fizesse para todo o país e já é longa a sua passagem pelo executivo e devia assumir algumas culpas que não fez. Devia ir à Ilha da Madeira e ver como o governo regional trata os produtores de banana, entre outros, antes de ser lançada no mercado. A criação do Estatuto de Agricultura Familiar por este governo pareceu-me um passo importante. 
Jorge Golias a apresentar a Antologia de Autores Trasmontanos,
Alto-durienses e da Beira Trasmontana
A Júlio Meirinhos sobre o painel «Regionalização e Poder Local» seguiu-se Isaltino Morais como peixe na água, não fosse ele um autarca modelo no desenvolvimento de Oeiras, um concelho rural passando-o para a frente do desenvolvimento, com indústrias, serviços e tecnologias de ponta, onde se vive com qualidade de vida. Defendeu que os trasmontanos não são racistas, mas cautelosos e só depois de conhecerem bem quem chega é que se dão. Apontou o seu trabalho na inclusão de ciganos e africanos em Oeiras, dando-lhe as mesmas oportunidades que aos demais. Lamentou que os autarcas do interior tenham desistido de lutar pela regionalização e andem de chapéu na mão, em vez de em bloco discutirem o poder. Júlia Rodrigues foi uma das autarcas rosa que soube dizer presente. Disse que há mais trasmontanos (cerca de 350.000) na Grande Lisboa do que em Trás-os-Montes. Referiu o muito trabalho que tem em mãos e que o encara como o «desafio da sua vida». 
Apelou aos trasmontanos que vivem em Lisboa que apoiem Mirandela e a região. Sobre «Empreendedorismo, Startup’s e Novas Tecnologias» Cátia Barreira introduziu o diálogo com uma das estrelas maiores do Congresso, Leandro Pereira – Winning de Valpaços – defendeu que temos produtos únicos e que devem ser definidas estratégias em grupo dos agentes económicos, políticos e sociais e que do Congresso devia sair um plano de acção para o futuro. Disse, ainda, que o mal era não haver motivação suficiente para as empresas se fixarem na região. A meu ver cérebros como o Leandro Pereira e a Cristina Coelho deviam ser cativados para trabalharem com as associações dos municípios. Intervieram os Presidentes dos Municípios de Carrazeda, de Murça e em substituição de Miranda – Júlio Meirinhos, de Vimioso – Coronel Martins Lopes, de Chaves – Jorge Valadares, Sta Marta de Penaguião – Armando Palavras, de Valpaços – Abel Moutinho e de Montalegre – António Chaves. 
Eu intervim para a necessidade de criação de mais Parques Biológicos, de «Caminhos de S. Tiago» e «Caminhos de Fátima» como alavancas de desenvolvimento. No dia 27 apenas estiveram activas as tendas de produtos da região, vinho, azeite, enchidos, pão, folares e artesanato.

Jorge Laje
in:atelier.arteazul.net

Tudo a postos em Vilarelhos ,Alfândega da Fé, para receber o Festival PAN

A aldeia de Vilarelhos, no Vale da Vilariça, em Alfândega da Fé, recebe no próximo fim de semana o PAN - Festival e Encontro Transfronteiriço de Poesia, Património e Arte de Vanguarda em Meio Rural.
O evento tem lugar de 6 a 8 de julho, mas a população de Vilarelhos há já algum tempo que se prepara para receber os mais de 100 participantes activos desta iniciativa, bem como os visitantes, o que na aldeia é um acontecimento inédito. 

Alojamento, alimentação, locais de realização das exposições, concertos e oficinas de arte, tudo está a ser organizado em articulação com a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia, mas também com a população local que, em alguns casos, vai abrir as portas de sua casa para que os participantes tenham onde ficar durante o fim de semana.

Os espaços públicos vão ser utilizados para as exposições. O edifico da Junta de Freguesia, a escola primária e a antiga central melífera vão, nesses dias, transformar-se em galerias de arte para acolherem as exposições e oficinas de arte deste Festival. No espaço central da aldeia, junto ao jardim, decorrerão espetáculos musicais e outras performances artísticas e até no Santuário da Nossa Senhora dos Anúncios se vai respirar o Festival PAN.

in:noticiasdonordeste.pt

Filandorra recria Lenda da Ponte da Misarela

O mês de Julho marca o início de digressão pelo interior norte da Filandorra – Teatro do Nordeste com um conjunto de espetáculos agendados para o ar livre e nos quais as populações são envolvidas como elemento ativo no processo de criação e participação numa experiência que privilegia o encontro e o diálogo a partir da linha de ação da Filandorra, Teatro e Comunidade.
Pranto de Maria Parda de Gil Vicente
Assim, no próximo Sábado, 07 de Julho, a Filandorra – Teatro do Nordeste vai recrear as lendas associadas à ponte medieval de Misarela, à qual a população local atribui a “mágica virtude de fecundidade”, num espetáculo teatral que vai envolver a comunidade local numa iniciativa organizada pela Associação Amigos de Misarela com o apoio do Município de Montalegre.

Rodeada de misticismo, a ponte que atravessa o rio Rabagão, na freguesia de Ferral, vai ser palco da recreação das duas lendas mais conhecidas: Uma ponte do Diabo, que atribui a construção da ponte ao próprio Diabo que do nada faz aparecer a ponte de pedra em troca da alma de um criminoso que fugia à justiça, e O Baptismo na Ponte de Misarela, mito que aconselha as mulheres com um historial de vários abortos, e que queiram levar uma nova gravidez até ao fim, a dirigir-se à ponte da Misarela, e esperar que alguma pessoa a atravesse para lhes batizar o bebé ainda na barriga com o nome de Gervásio ou Senhorinha. Quem quiser “arriscar” e descer até à ponte, construída entre penedos e vegetação exuberante, pode participar na recreação das lendas da ponte do diabo a partir das 22h30. 

No Domingo, dia 08 de Julho, e na aldeia de Vilarelhos em Alfândega da Fé, a Filandorra participa no PAN 2018 - Encontro e Festival Transfronteiriço de Poesia, Património e Arte de Vanguarda em Meio Rural, com o espetáculo Pranto de Maria Parda de Gil Vicente no largo da aldeia. Respeitando fielmente o texto, e com a colaboração dos elementos do grupo de teatro de Alfândega da Fé-TAFÉ, o espetáculo reveste-se de uma nova moldura cénica em que espectadores e atores se confundem no desenrolar da ação dramática: com recurso a adereços e guarda-roupa da época de quinhentos, o público é convidado a assumir "personagens" vicentinas, participando ativamente no espetáculo, nomeadamente no cortejo/procissão final que leva "em andor" a principal personagem, Maria Parda, mais pobre que os pobres que de goelas secas, morre à sede de vinho por não ter quem lho vendesse fiado.

A mesma experiência cénica é proporcionada na noite de 14 de Julho ao público de Vinhais, com a singularidade deste espetáculo ter a colaboração do grupo de Gaiteiros de Zido e integrar crianças e jovens vinhaenses no desfecho das oficinas de teatro que a Filandorra vai realizar nos dias 11 e 12 de Julho no âmbito do Programa Ocupacional de Verão. O espetáculo tem lugar pelas 21h30, num “regresso ao passado” com pipos e aduelas de vinho generoso por toda a praça do município de Vinhais, outrora terra de vinhas e vinhedos.

in:noticiasdonordeste.pt

"A bem das populações, é urgente alterar o plano de ordenamento de Montesinho"

Os representantes políticos das populações que vivem na área do Parque Natural de Montesinho estão contra a recondução do Plano de Ordenamento daquele espaço protegido. O Plano, em vigor desde 2008, deverá continuar sem alterações.
Foto: Artur Machado/Global Imagens
Os autarcas de Bragança e Vinhais, os dois concelhos que estão na área do Parque, dizem que, até agora, a tutela não deu ouvidos à vontade das populações para alterar uma série de regras que só os prejudica.

Hernâni Dias, presidente da Câmara de Bragança não poderia ser mais claro. "Deve ser imediatamente suspenso este processo de recondução e iniciar um outro de alteração do Plano de Ordenamento do Parque", defende.

O autarca brigantino diz que esta posição da Câmara já vem desde 2008, altura em que o Plano de Ordenamento entrou em vigor. O presidente queixa-se das inúmeras regras que são impostas às populações que ali vivem, como "cortar giesta para plantar castanheiros", uma produção que "alimenta" a economia transmontana, entre outras, e também de que os pareceres vinculativos que pertencem ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), "são obrigatórios em diversas situações e por isso restringem a atividade agrícola em vários casos".

O presidente da Câmara de Vinhais assina por baixo e acrescenta o fator tempo que muitas vezes leva à desistência de quem quer investir. "A construção de armazéns agrícolas, sendo o nosso concelho essencial agrícola, por exemplo, encontra sempre pareceres e dificuldades. Muitas vezes demoram muito tempo e os agricultores acabam por desistir".

Mesmo para o corte de árvores nos terrenos dos proprietários são necessárias autorizações que Luís Fernandes diz não fazerem qualquer sentido.

Enquanto o processo não anda, a autarquia de Bragança já enviou um documento, aprovado em reunião de Câmara em finais de fevereiro, com todas estas preocupações, para o ministério do Ambiente, o ICNF e a gestão do Parque.

Entretanto, nos finais de maio, vários deputados do grupo parlamentar de PSD, liderados por Adão Silva e José Silvano, eleitos pelo círculo de Bragança, levaram à Assembleia da República, um projeto de resolução para suspender o processo de condução do Plano de Ordenamento do Parque Natural de Montesinho a programa especial.

"Receios são infundados"

Célia Ramos, a secretária de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza, garante que os receios dos autarcas não se justificam. À TSF, a responsável adianta que mais do que rever, o Governo está a fazer um programa completo de gestão de Montesinho, melhorando muito o plano que está em vigor.

"Estamos a elaborar um programa que, necessariamente, não vai ser igual ao que está atualmente em vigor. Até porque a Lei de Bases altera a figura do plano para programa, o que não é absolutamente inóquo. A preservação da Natureza também depende da presença de pessoas. Nós certamente vamos conseguir encontrar um consenso. E portanto, acho que há aqui fantasmas, que já tentei esclarecer".

Além de Montesinho, o Governo promete concluir até ao fim do ano mais de uma dezena de novos planos e programas de ordenamento do território em áreas protegidas.

Célia Ramos adianta que alguns já estão a ser preparados, como o de Alcobaça-Cabo Espichel e o do Litoral Norte. "Ainda durante este ano, passaremos certamente para a aprovação dos 14 planos das áreas dos parques. Dentro das áreas protegidas, demos prioridade ao Parque Nacional da Peneda-Gerês e aos outros 13 parques naturais porque são as amostras mais representativas do nosso património natural".

Afonso de Sousa
TSF

Bragança, agosto 2008

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Equipa do G.D.B. em Leon

A RTP visitou a Domus Municipalis de Bragança

Era a casa da câmara desde o século XIV, onde se reuniam os homens que decidiam sobre os assuntos da cidade.

Peritos fazem avaliação do território Terras de Cavaleiros Geoparque Mundial da UNESCO

Dois peritos das Redes Europeia e Global de Geoparques da UNESCO estão de visita ao território do Terras de Cavaleiros Geoparque Mundial da UNESCO para fazerem a 1ª Reavaliação do território.
Andreas Schuller da Alemanha, e Huang Tao
 da China com os Caretos de Podence
Os dois peritos, Andreas Schuller da Alemanha, e Huang Tao da China, vieram com o objetivo visitar com algum pormenor esta realidade e proceder à 1ª reavaliação deste território, enquanto membro do Programa Internacional de Geociências e Geoparques da UNESCO. 

Durante 3 dias será reavaliado o trabalho que tem sido realizado no âmbito da geoconservação, educação e enoturismo nos últimos 4 anos, depois da integração e do reconhecimento feito pelas Redes Europeia e Global de Geoparques da UNESCO do Geoparque Terras de Cavaleiros que ocorreu no ano de 2014.

in:noticiasdonordeste.pt


A feira de S. Pedro conta com cerca de 200 expositores e com um cartaz musical para todas as idades.

AS ESTRUTURAS ECONÓMICAS DE BRAGANÇA E A SUA LENTA TRANSFORMAÇÃO (1820-2012)

Isolado, fechado a todo o progresso, estacionário e em repouso há mais de um século, quando por toda a parte o trabalho redobra de atividade e cria verdadeiros milagres, o Distrito de Bragança é forçado a assistir impassível a todos eles, sem poder tomar parte nesse progresso, e sem que até, no seu isolamento, a maior parte das vezes nem sequer conheça as manifestações de vida que lá vão por fora.
Esta é que é a verdade. E por semelhança continuará a sê-lo enquanto este isolamento se não quebrar, porque então a mais poderosa de todas as alavancas sociais – a remuneração segura ao trabalho – obrará também aqui prodígios na cultura.
O que urge é que esse dia não venha muito remoto, porque um repouso tão prolongado quase se assemelha ao da morte, e tanto para os povos como para os indivíduos, é repouso este de que nunca mais se desperta.
(Annaes agricolas do districto de Bragança. Primeiro anno, 1876 a 1877, Porto, 1878)

A economia do Concelho de Bragança, desde o Antigo Regime até ao século XX, como de toda a Terra Fria, sempre assentou no cultivo do centeio e na criação de gado. Inserida numa região agrícola caracterizada pela pobreza dos solos, pelo arcaísmo dos instrumentos de trabalho e técnicas de cultivo, por uma estrutura fundiária que não favorecia o investimento de capital na terra, pela baixíssima utilização de adubos, pelo reduzido grau de comercialização das produções, e pela escassez do crédito, a serra e o planalto do centeio e o lameiro do boi sempre constituíram, no dizer de António Sérgio, “as escoras máximas do viver económico” do Alto Trás-os-Montes.
A natureza do solo, o relevo acidentado, a secura de verão e o rigor do inverno, não favorecem a agricultura, assim se explicando a importância dos gados e a extensão dos lameiros e baldios, aspeto abordado de forma mais desenvolvida no primeiro capítulo desta obra.
Sobre este quadro de fundo, há que inscrever, quanto ao Concelho de Bragança, a indústria das sedas, que ciclicamente animou a economia da capital do Nordeste Trasmontano, até se extinguir totalmente na segunda metade do século XIX.

Vejamos, assim, como evoluiu a economia do Concelho de Bragança nos séculos XIX e XX.

A ECONOMIA DO CONCELHO DE BRAGANÇA NO SÉCULO XIX

Em finais de Setecentos, mais concretamente em 1780-1781, o magistrado bragançano José António de Sá traçou na sua descrição da província de Trás-os-Montes um fresco impressionista da economia da região, ou melhor dizendo, do Alto Trás-os-Montes, ou Terra Fria, uma vez que não dedicou qualquer importância à região do Alto Douro, ou Terra Quente.
Quanto à agricultura, Sá regista que o arado utilizado era muito imperfeito, o mesmo acontecendo com as grades com dentes de madeira, que serviam apenas para alisar a terra. As lavouras eram rudimentares e “as colheitas e as sementeiras sem melhor regime”. Nas terras de afolhamento semeavam-se os mesmos produtos todos os anos.
Os lavradores dedicavam-se apenas à produção dos cereais, da batata, cujo alqueire se vendia entre 60 e 80 réis, e da castanha, muito abundante, que registava o preço de 50 réis o alqueire, uma e outra suprindo a escassez do pão, insuficiente para alimentar a população.
Para além das “causas físicas” que explicavam uma agricultura rotineira, em “decadência” e na “infância mais miserável”, Sá indica ainda as “causas morais” que explicavam tal situação, nomeadamente, a “estupidez e ignorância dos lavradores”, a sua pobreza, o desprezo com que eram olhados, os imensos baldios e terras incultas, as dificuldades dos transportes e o arrendamento de muitas propriedades.



A criação de gado não tinha “perfeição alguma”, sendo o número de cabeças escasso por falta de pastos.
Alguns lavradores eram tão pobres que tinham de arrendar os bois para lavrarem a sua terra por uma certa quantidade de pão, por vezes aos espanhóis. Havia pouco leite, de forma que, mesmo no verão, em Bragança, só com “empenhos” se conseguia.
Os lavradores eram extremamente ociosos. “No tempo que lhes restava de trabalhar a terra, não se ocupavam mais do que em viver em descanso. Não sabiam ofícios, nem os pretendiam aprender”.
Havendo bastantes lãs na província, não existia uma só fábrica de panos. Vendiam as lãs para comprarem depois os panos, “dando aos outros o ganho que eles podiam lucrar se fossem industriais”. As cidades e as vilas experimentavam “faltas notáveis de carvão e lenha”. Não havia uma fábrica de louça vidrada, não obstante haver excelentes argilas e barros que podiam facilitá-la, não se fazendo mais do que quartos e panelas, comprando aos castelhanos o resto da louça, o mesmo acontecendo com os “vidros, que também compram aos castelhanos”.
A província era “militar; a tropa gasta muito ferro; contudo não há uma só fábrica dele, havendo minas consideráveis e riquíssimas… como no monte de Montesinho e outras partes, em que muitos sinais e escórias mostram o grande trabalho que os antigos tiveram neles”. Deste descuido tinha a província “tudo a perder, porque da Espanha vem o ferro para a tropa, pregos e panelas”.
“Havendo abundância de cascas de carvalho e sobro, não há uma só fábrica de atanados, advertindo que há muitos couros, mas todos os que se gastam e os bezerros vêm de fora da província. Sucede muitas vezes no verão, não levarem os rios bastante água para moerem as azenhas; falta o pão, de sorte que se reparte por justiça; contudo não há um só moinho de vento. Numa palavra: faltam as artes de primeira necessidade; os homens são contumazes em se desabusarem e ainda aquelas coisas que são facílimas e de muito interesse não as querem seguir, por não se apartarem do costume dos seus maiores. As artes que usam estão numa suma imperfeição por falta de instrumentos e métodos. Observo na Ribeira da Nau dois homens serrarem o pau mais grosso do Brasil.
Em Trás-os-Montes, choupos, pinhos e outras madeiras deste género ocupam quatro homens, por não serem boas as serras”.
A única exceção a este panorama industrial era apenas a fábrica da seda de Bragança, “das mais famosas, não só da província, mas do Reino”, que Sá trata autonomamente, dada a sua importância.
Ter-se-á alterado significativamente este fresco setecentista da economia transmontana e do Concelho de Bragança em particular, na centúria seguinte? Quatro décadas mais tarde, já em pleno regime liberal, uma representação da Praça do Comércio de Bragança, de novembro de 1821, dá-nos um lúcido panorama da economia da Cidade e do seu Município, inserida, logicamente, no contexto do Nordeste Trasmontano.
O comércio da Cidade de Bragança era alimentado, basicamente, pelos produtos industriais ingleses e pelos panos oriundos da China e das fábricas portuguesas; pelos vinhos, gados lanígero e caprino, de produção local, e pelos produtos importados pelos espanhóis.
Os produtos industriais referidos, assim como o ferro, eram regularmente transportados para Bragança, das praças de Lisboa e Porto, por almocreve, em bestas, o mesmo acontecendo com o arroz, o bacalhau, o açúcar e o sal. Este comércio, segundo a representação que estamos a seguir, apresentava as seguintes limitações:

• era feito em bestas, uma vez que as estradas não permitiam o movimento de carros, de que resultava um alto custo do transporte; para evitar esta situação, tornava-se necessário melhorar a navegação do Rio Douro até ao Foz Tua, e estabelecer outro depósito comercial na foz do Rio Sabor, porque sendo estes dois pontos centrais à província de Trás-os-Montes, toda ela se forneceria daqueles depósitos, uma vez construídas estradas até Bragança e Miranda do Douro; também seria muito útil que se fizessem duas estradas, de Bragança à cidade do Porto, uma por Mirandela, Vila Real e Penafiel; e a outra por Chaves, Guimarães e Braga;
• as alfândegas que se achavam na região fronteiriça, bem como as estabelecidas nos lugares de Zoio, Izeda e Vale de Nogueira, dependentes da alfândega de Bragança, de nada serviam senão para demorar e onerar os almocreves com guias e inspeções desnecessárias; acontecia muitas vezes não estar o funcionário em casa, nem a alfândega aberta, causando isto demora e despesa aos condutores, sem que a Fazenda Nacional lucrasse coisa alguma; tornava-se necessário, pois, suprimir tais alfândegas;
• a falta de taxas certas na alfândega, que regulavam o preço dos diferentes produtos; após o Tratado de 1810 com a Inglaterra, uma grande parte das fazendas que daí eram importadas variavam frequentemente na qualidade e denominação; ora, não havendo na pauta uma taxa específica para as mesmas, ficava o seu despacho sujeito a uma avaliação arbitrária, segundo o despachante, donde resultava que a mesma fazenda comprada por diferentes negociantes, mas pelo mesmo preço, ficava a uns mais cara do que a outros, por força dos diferentes direitos que pagavam, levando a que uns vendessem com lucro e outros com prejuízo; era urgente colocar taxas fixas a tais produtos, de forma a cessarem as arbitrariedades cometidas, prejudiciais ao comércio e à Fazenda Nacional; 
• os produtos das fábricas nacionais, como panos de lã, chapéus, estamparias e outros, pagavam direitos de saída para Espanha, e como não igualavam em qualidade aos produtos de Inglaterra, estes eram preferidos pelos espanhóis; por outro lado, a peça de algodão proveniente da China ou de Inglaterra, que pagava direitos na entrada em Portugal, passando depois a ser estampada nas nossas fábricas, pagava novos direitos na saída para Espanha, ao contrário da peça de chita inglesa que pagava só os direitos de entrada em Portugal e nenhuns de saída; assim, as estamparias das nossas fábricas não podiam concorrer com as estrangeiras; era necessário que os produtos das nossas fábricas estivessem livres de direitos na saída para Espanha;
• o comércio de tendas volantes e de vendilhões revelava-se também muito prejudicial à praça de Bragança, uma vez que não pagavam direitos pelas fazendas de contrabando que vendiam, não pagavam os regulares tributos lançados aos comerciantes, e muitas vezes, tomavam fazendas a crédito, que também nunca pagavam; tornava-se necessário aplicar a lei que proibia as tendas e vendilhões;
• uma das causas que abatera “extraordinariamente” o comércio de Bragança era o “estado nulo” a que se reduzira a fábrica dos tecidos de seda, que 40 anos antes atingira “grande auge” na Cidade, contando nela quase 300 teares, quatro tinturarias, 12 ou mais tornos, e outras dependências da mesma fábrica, que ocupavam para cima de 1 500 pessoas de ambos os sexos e de todas as idades, o que elevava a mão-de-obra mensalmente acima de três contos de réis; por 1820-1821, achava-se reduzida a menos de 40 teares, e esses mesmos nem sempre efetivos, apesar de o Concelho de Bragança e outros municípios da região serem suscetíveis de criar seda de qualidade igual à estrangeira, podendo ser fiada tanto ou mais fina do que aquela que vinha de Itália; para se reanimar esta indústria, importava promover o consumo dos seus tecidos, limitando a venda dos tecidos estrangeiros, tanto de seda como de algodão, e facilitando a venda dos tecidos de Bragança em todo o Reino; também seria muito útil à mesma fábrica aliviá-la dos 3% que pagava do novo imposto que passara a vigorar a partir de 1801.
A venda dos vinhos de produção local para Espanha constituía a produção mais importante de Bragança, por ser de muita abundância, boa qualidade e poder-se duplicar a sua colheita. Porém, o seu comércio sofria grandes obstáculos, devido aos direitos que pagava na saída do Reino e na entrada em Espanha.
Cada almude de vinho pagava à saída setenta réis, e em Espanha, por cada cântaro, ou meio almude, novecentos e sessenta réis. Por tal razão, os espanhóis só por contrabando o podiam adquirir. Para evitar isso, eram indispensáveis duas coisas: terminar com os direitos de saída, e desonerar os espanhóis de tirarem “passe” nas alfândegas, determinando-se que todas as pessoas que conduzissem bestas carregadas de odres com vinho fossem livres de entrar e sair por onde quisessem, sem serem importunados pelas alfândegas e aduanas, pois deste modo, os vinhos de que abundava a região seriam consumidos em Espanha, com preferência aos seus, porque todo o território espanhol que confinava com o Município de Bragança não colhia vinho, e só o tinha em Fermoselle, Zamora e Toro, que lhes ficava mais distante do que “esta terra”, não tendo, “os espanhóis outro motivo que lhes embarace o contrabando do nosso vinho, senão a falta de liberdade de entrarem e saírem, por onde lhes faça conta para mais facilmente o introduzirem em Espanha”; os agricultores que produziam vinho não tinham outro produto de que pudessem tirar o dinheiro necessário para pagarem os tributos e comprarem os produtos de que necessitavam; era pois de “reconhecida utilidade e vantagem ao comércio e agricultura” dar a liberdade de passagem para Espanha aos nossos vinhos, aguardentes e vinagres.
A venda dos gados lanígeros e caprino para Espanha era de contrabando ou de comércio ilícito, o que provocava grande prejuízo ao comércio e à agricultura de Bragança, porque não tendo este gado saída no Reino, ficava a venda reduzida ao consumo dos açougues, que se revelava muito diminuto. A dificuldade de venda limitava a sua criação, o que originava a falta de estrumes, lãs, leite e peles, com grave prejuízo do comércio e agricultura.
Animada a criação destes gados pela venda para Espanha, viríamos a ter mais lãs para melhor surtir as nossas fábricas, mais peles para evitar a entrada de carneiros de Espanha, e mais carnes e sebo para o consumo.
Tornava-se, pois, muito útil, autorizar a venda e passagem livre destes gados para Espanha.
Seria também de grande utilidade ao comércio de Bragança permitir a livre entrada em Espanha do sal, sebo e azeite, pois traria maior comércio, mais agricultura e mais numerário, quando os direitos que estes produtos pagavam à Fazenda Nacional eram insignificantes.
Por sua vez, os produtos que os espanhóis exportavam para Bragança resumiam-se ao pão e gado vacum, e em menor quantidade ao ferro, cobertores, carneiras, sumagre e sardinha.
Quanto à importação do pão, tornava-se necessário impedir a entrada de cereais e animar a agricultura, através do roteamento e divisão de campos baldios, aproveitar as águas das ribeiras e reduzir as matas concelhias.
Em Bragança e seu Concelho, havia muitos campos baldios, que apenas davam algum pasto para o gado, e que, se roteados, dariam muito grão. Nalgumas aldeias, os baldios eram suficientes para sustentar o dobro da sua população. E as matas do Concelho estavam, na sua maior parte, em terrenos suscetíveis de boa agricultura.
O gado vacum, importado da Galiza, abastecia a região e era objeto de comercialização para grande parte do Reino. Era em quantidade tal que mal podia calcular-se, sendo admitido sem pagar direitos. A sua entrada não poderia ser travada, sob pena de não haver carnes para o consumo dos açougues. Como este gado entrava muito barato, impedia a sua criação na região, pois o lavrador bragançano tinha mais utilidade no trabalho dos bois do que no das vacas, não querendo por um baixo preço sujeitar-se ao trabalho e risco da criação dos mesmos gados.
O meio para animar “estes povos” à sua criação e aumentar o rendimento do Tesouro Nacional e evitar a pouco a pouco a entrada daqueles gados, seria dar o exclusivo de transportes, exceto em tempo de guerra, aos que trabalhassem com vacas, e impor o tributo de oitocentos réis por cada boi e quatrocentos réis por cada vaca, vitela ou bezerro que entrasse de Espanha.
As compras de ferro e cobertores, que nos levavam bastante numerário, não podiam ser evitadas a não ser por meio de ferrarias e fábricas estabelecidas em Trás-os-Montes, para o que havia bastante aptidão, graças à abundância de ferro, lenha, água e lãs. E a entrada de sardinha só poderia ser diminuída animando a pesca nos nossos portos, tornando mais fácil o seu transporte e reduzindo os dias de abstinência da carne.
Em suma, ao tempo das Cortes liberais, na década de 1820, a economia do Concelho de Bragança apresentava os traços seguintes:

• no setor industrial, apenas se destacavam as sedas, aliás, em franca decadência quando comparada com o nível de desenvolvimento que atingira em finais de Setecentos;
• no comércio, verifica-se um certo dinamismo motivado pelo consumo da Cidade, mas sobretudo pela importação e exportação de numerosos produtos para Espanha; deste país, Bragança recebia os cereais e o gado vacum, fundamentais para as necessidades da sua população, sardinha, cobertores e ferro; e exportava sobretudo, vinho, gado lanígero e caprino de criação local, mas também os panos ingleses, orientais e portugueses, com largo predomínio para os primeiros, mais baratos e de melhor qualidade; grande parte do comércio com Espanha era feita por contrabando;
• inexistência de estradas que ligassem Bragança ao Rio Douro – a principal via de comunicação para o Nordeste Trasmontano –, e à cidade do Porto, quer por Mirandela-Vila Real, quer por Chaves-Braga; os transportes dos produtos que animavam o comércio de Bragança eram garantidos pelos almocreves; a inexistência de vias de comunicação provocava um significativo aumento do preço dos produtos;
• agricultura rotineira, arcaica nas práticas e instrumentos utilizados, assente no centeio, na batata e na
criação de gado, que se manteve até ao século XX como o setor económico estruturante do seu viver.
Acrescente-se, ainda, que as coudelarias de Trás-os-Montes, situadas nas vizinhanças de Bragança se encontravam já extintas. A criação de cavalos de excelente raça, a “Andaluzia pequena”, que fornecera ao exército estes animais – várias centenas de éguas em finais de Setecentos –, terminara, sendo necessário recorrer-se ao gado cavalar vindo de Espanha.

continua...

Título: Bragança na Época Contemporânea (1820-2012)
Edição: Câmara Municipal de Bragança
Investigação: CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade
Coordenação: Fernando de Sousa