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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Entrudo Chocalheiro reinventa-se em ano atípico e arranca com concurso de fotografia

 Se o ano passado o Entrudo Chocalheiro reuniu mais de 70 mil pessoas na aldeia de Podence, em Macedo de Cavaleiros, este ano pede-se à população que fique em casa.
Ainda assim, aquele é considerado o carnaval mais genuíno de Portugal não vai passar em branco e a primeira iniciativa já foi lançada.

De ontem até dia 13 de fevereiro está a decorrer um concurso de fotografia online, com o nome “Tradição de um Povo”, que habilita a prémios quem tiver as melhores imagens capturadas no entrudo de Podence, ficando a votação ao critério do público, como explica o Presidente da Associação Grupo dos Caretos de Podence, António Carneiro:

“O objetivo é divulgar e promover o Entrudo Chocalheiro. É um forma que arranjamos para que, todas as pessoas que já vieram ao nosso Entrudo, possam mostrar tudo aquilo que viram e as sensações, em termos fotográfico,s deste que é o Carnaval mais genuíno de Portugal. Todas as fotografias que nos chegarem, sendo que cada participante só pode enviar duas, serão colocadas na página oficial dos Caretos de Podence e as cinco que tiverem mais gostos serão premiadas.” 

O primeiro prémio vai ser uma viagem internacional integrada na comitiva dos Caretos, o segundo uma máscara de latão, o terceiro uma miniatura dos Caretos, o quarto um jantar “à Careto” para duas pessoas no entrudo do próximo ano e o último um gorro dos Caretos.

Mas as atividades não vão ficar por ai.

O ano atípico obriga a um reinventar da tradição e está a ser preparado um programa para acompanhar à distância:

“Estamos na fase final de elaboração daquilo que vamos fazer nos dias 14, 15 e 16. Na próxima semana teremos mais informações sobre aquilo que irá acontecer. Claro que será à distância, não haverá público mas vamos assinalar o Carnaval de Podence e o Entrudo Chocalheiro. Haverá atividades online e não só. Posso revelar que teremos Caretos à varanda e mais umas surpresas pelo meio.” 

Um ano em que a folia protagonizada pelos Caretos de Podence vai ter de ser mais contida mas não esquecida, neste que é o segundo entrudo desde que estes mascarados ostentam o selo de Património Imaterial da Humanidade.

Escrito por ONDA LIVRE

Câmara de Vinhais equipa veículo para ajudar no espalhamento de sal e na limpeza de neve

 O município de Vinhais acaba de investir 15 mil euros para equipar um veículo com um espalhador de sal e uma pá limpa-neves
O objectivo é manter as estradas do concelho em perfeita segurança, principalmente durante o inverno.

Luís Fernandes, presidente da câmara, assegura que esta é uma forma de tornar o serviço da Protecção Civil mais eficaz. "Estamos num concelho bastante grande e no Inverno estamos sempre sujeitos a gelo. Entendemos que era importante para prestar ainda um melhor serviço e salvaguardar mais a segurança das pessoas".

Este equipamento permitirá uma maior e mais rápida intervenção em condições climatéricas de neve e gelo. "Tal como este veículo temos outros dois, equipados da mesma forma. Temos também as próprias máquinas do município para fazer a limpeza de neve".

A estrada que liga Vinhais a Bragança é um dos pontos que ali mais perigo representa para os condutores. Apesar de a limpeza não ser da responsabilidade da câmara, Luís Fernandes, garante que com este equipamento será mais fácil limpá-la se for necessário.

Este inverno a câmara já espalhou mais de 40 toneladas de sal nas estradas municipais e até nacionais de todo o concelho.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Carina Alves

Jovens voluntários da Cruz Vermelha apoiam brigantinos em isolamento

 Os brigantinos que estejam em isolamento, por causa da Covid-19, têm agora o apoio dos jovens voluntários da delegação de Bragança da Cruz Vermelha Portuguesa
Esta entidade, acaba de lançar o projecto “Bragança, um Jovem Contigo!”, que servirá também para ajudar os cidadãos mais vulneráveis.

Emília Oliveira, coordenadora da Juventude da Cruz Vermelha, explica que se pretende quebrar o isolamento e apoiar as pessoas na execução de tarefas básicas diárias. "O projecto alarga-se ao espectro de pessoas que estejam em isolamento profilático, infectadas com o Covid-19 ou grupos de risco, nomeadamente os séniores e pessoas com doenças crónicas ou de risco. Os jovens disponibilizam a ir às compras e à farmácia, passear os animais de estimação, assim como fazer chamadas de acompanhamento, pois há situações de pessoas que estão a sofrer bastante com o isolamento e a solidão e nós ajudamos nesse sentido psicológico".

Emília Oliveira considera que esta é também uma forma de incentivar a que mais pessoas se juntem aos programas de voluntariado da Cruz Vermelha. "É um incentivo ao recrutamento de voluntários, quer para o geral, onde há mais de 60 voluntários, quer para a Juventude Cruz Vermelha, em que há 28".

Mariana Nunes é uma jovem voluntária da Cruz Vermelha de Bragança e sublinha que, em tempos como os que se vivem, era fundamental fazer alguma coisa por quem mais precisa. "Com a pandemia, sentimo-nos um bocadinho de mãos e pés atados e os nossos projectos ficaram em stand by. Tivemos que arranjar uma forma de ajudar as pessoas e quem precise de apoio tem a nossa ajuda".

A jovem de Bragança tornou-se voluntária há pouco tempo e considera que esta é uma experiência bastante gratificante. "Estar no terreno e ter experiências cara a cara é muito enriquecedor. Dá para perceber a gratidão das pessoas, que não têm mais que um sorriso para nos dar de volta. Quem gostar de experienciar uma coisa destas, agora é a altura ideal. Nós esquecemos as coisas más e focamo-nos em fazer o bem. A ajuda sempre foi precisa, é precisa neste momento e também será necessária no futuro".

As pessoas que pretendam tornar-se voluntárias ou saber mais sobre este projecto podem fazê-lo através do email dbraganca@cruzvemelha.org.pt ou contactando a instituição através do número 273 324 420.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Carina Alves

Inventariação das máscaras e festas de Inverno para candidatura à UNESCO está concluída

 Um ano depois de os caretos de Podence se terem tornado Património Imaterial da Unesco, eis que agora estão reunidas as condições para poder candidatar os caretos, as máscaras e as festas de inverno de toda a região do nordeste transmontano, de Zamora e Salamanca
A inventariação dos rituais já foi concluída. São 51 e integrarão uma candidatura conjunta para obter este reconhecimento.

Fazer o levantamento das tradições activas neste território era um dos passos que antecedia a inscrição no inventário nacional de Portugal e de Espanha. Esta é agora a próxima etapa, explica Hernâni Dias, presidente do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Zasnet, que vai apresentar a candidatura. "Aquilo que se pretende é fazer a candidatura e que venha a ter sucesso, sabendo que é um longo caminho que ainda temos que percorrer. Foi feito o inventariado de todas as mascaradas activas. Agora serão apresentadas, com o consentimento dos dois países, ao registo dos inventários nacionais, em Portugal no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, através da Direcção-Geral do Património Cultural e em Espanha na lista de Bien de Interés Cultural através da comunidade autónoma de Castela e Leão”.

Hernâni Dias admite que o processo é demorado e ainda há muito caminho pela frente. "Ainda há um longo caminho que temos a percorrer, mas não deixaremos de colocar todo o nosso empenho para que venhamos a ter sucesso no que pretendemos alcançar".

O responsável reforça que este processo é uma forma de valorizar as tradições ancestrais mantidas até aos dias de hoje e que têm muitas proximidades dos dois lados da fronteira. "Isto é também uma forma de reconhecermos e agradecermos aos grupos e colectividades, que têm conseguido manter com entusiasmo os seus ritos, no que tem a ver com a própria expressão cultural e com o apoio à candidatura. Queremos mostrar às comunidades e aos grupos que pertencem a uma área cultural que não é separada pela fronteira político administrativa, porque o que acontece em Portugal de alguma forma acontece do lado espanhol”.

A inventariação resultou numa publicação que foi disponibilizada no site da Academia Ibérica da Máscara.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Olga Telo Cordeiro

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

SEGURANÇA FRONTEIRIÇA EM TRÁS-OS-MONTES NA CORRESPONDÊNCIA DO GOVERNO CIVIL DE BRAGANÇA (1870-1874)

Verificação de correspondência suspeita

As buscas na correspondência particular suspeita poderiam desencadear-se, no sentido de obter elementos comprovativos da envolvência em movimentos políticos, estando esta na mão do destinatário ou impedindo que a mesma lhe fosse entregue, sem ser verificada previamente, para o qual foi alertado o Director dos Correios de Bragança.
Em carta enviada ao Ministério do Reino, o Governador Civil de Bragança dá conta das diligências tomadas a este respeito, relativamente a um padre espanhol suspeito, residente na cidade e entregue às autoridades portuenses: “Antes, porém, da saída deste eclesiástico, constou-me que ele tinha no correio uma carta de Espanha e que havia outra que suspeitei era para ele por vir dirigida sob o nome do dono da casa em que se achava hospedado. Ambas elas me foram apresentadas pelos destinatários e com autorização deles abertas perante mim, mas não continham coisa alguma que induzisse suspeita de ter relação com quaisquer planos carlistas, apenas manifestação de esperanças mui vagas de que em breve poderia voltar para Espanha e queixas pela falta de cartas do P.e Matias (...).
O Director do Correio desta cidade havia sido prevenido por minha ordem das desconfianças de que eu tinha de que por esta cidade vinham de Espanha e saíam para ali correspondências para muitos indivíduos suspeitos; pedi-lhe por isso vigiasse ele, avisando-me de tudo o que observasse. Efectivamente este hábil e inteligente funcionário preveniu-me de que certas cartas, pelas condições de segurança com que estavam fechadas lhe faziam crer que poderiam dar alguma luz sobre os planos e projectos que eu tanto ansiava descobrir.
Foi então que ordenei que as cartas não fossem entregues e pedi (...) instruções do que mais convinha fazer (...) autorizando-me V. Ex.ª para todas as diligências que fossem necessárias. O Director do Correio tinha também consultado o seu chefe e este o Ex.mo Ministro das Obras Públicas, obtendo em resposta que se satisfizesse as minhas exigências, mas na presença da autoridade judicial, o que me motivou que a abertura das cartas só pudesse efectuar-se no dia 11 (...). A morosidade e formalidades com que são praticados os actos judiciais, deu lugar a que só no dia 15 o auto e cartas me fossem entregues.
Estes documentos serão enviados a V. Ex.ª a logo que tenha feito certas investigações a que dá lugar um bilhete (...) dirigido por um espanhol ao furriel de Caçadores N.º 3, António Correia, convidando-o a ir ao Porto ou a escrever a Oróbio Brás, morador na Batalha. Este bilhete foi remetido ao Comandante do referido Batalhão para proceder aos devidos interrogatórios (...) indicando eu mesmo os pontos principais sobre que me parecia conveniente que o interrogatório recaísse”.
E a preocupação com a correspondência que se destinava ou vinha de Espanha, entre espanhóis e entre espanhóis e portugueses, mantém-se como prioritária, mesmo que nem sempre as suspeitas se concretizassem: “Constou-me que uma espanhola que reside nesta cidade mantinha activa correspondência com Espanha. Mandei hoje dar-lhe busca na pequena casa que ocupava e apenas lhe foram encontradas algumas cartas de um irmão que tem no vizinho reino, mas que não continham cousa alguma que indicasse que ela fosse receptora ou transmissora de correspondências suspeitas”.
Num outro ofício, enviado para o Ministério do Reino, indicam-se todas as dificuldades para obter informação sobre planos carlistas e os parcos resultados da apreensão de cartas suspeitas, depois de cumprir as formalidades legais exigidas para o efeito – auto de diligência e solicitação pela autoridade judicial da comarca. Algumas cartas eram escritas em estilo figurado, só podendo ser decifradas em Espanha; outras com indicação errada ou falsa de vilas ou povoações que não existem no Distrito; uma outra destinada a Alexandre Mosqueira, na Rua de Trás, não era conhecido o destinatário, procurado dias antes pelo carteiro, antes também de se terem feito diligências no sentido de obter informações sobre planos carlistas espanhóis na cidade de Bragança; a carta de Ramon Fontecha também não lhe foi entregue, por não se encontrar, de acordo com a indicação do carteiro no subscrito do envelope, nem foi reclamada no correio.
“As cartas apreendidas e abertas neste Governo Civil pela autoridade judicial pouca luz lançam na questão dos projectos carlistas (...) mas a carta N.º 11, 12, 13 foi a que mais chamou a minha atenção, acerca da qual procedi às mais rigorosas investigações (...) assinada com o pseudónimo de Roque, é um espanhol, que há perto de um mês residia nesta cidade, exercendo a profissão de marceneiro, chamado João Pelaes Álvares, natural de Pandorado, província de Léon e apresentou a cédula, de data recente, mostrando que não era emigrado. Mandei a cédula (...) ao Governador de Léon, ao qual pedi que me dissesse se o documento era legítimo ou se o seu portador se achava implicado em crimes civis ou políticos – ainda não obtive a resposta.
(...) Fiquei sempre suspeitando que ele não era o que se inculcava e esteve sempre mui cuidadosamente vigiado até que no dia 10 me constou que ele lançara ao correio uma carta para Lisboa, carta que fiz apreender (...). Chamou logo a minha atenção o bilhete (n.º 12) incluso na carta dirigido a um furriel de Caçadores N.º 3, convidando-o a ir ao Porto. Para averiguar o que a tal respeito pudesse haver oficiei logo o Comandante do referido Batalhão, dando-lhe conhecimento do bilhete e pedindo que ele procedesse a rigoroso interrogatório (...). Na administração do concelho foi interrogado o espanhol que escrevera a carta (...) a que foi presente o secretário geral deste Governo Civil, mas que não produziu resultado algum, pelas respostas contraditórias e de todo o ponto inacreditáveis que o interrogado deu. É certo, porém que a carta a que me tenho referido, dirigida a José Reis (...) era para um D. Pascual, que o interrogado se negou pertinazmente a declarar quem era, bem como qual a empresa ‘empreñada’ a que esta carta se referia, apesar de dizer que o conhecia. (...) Não podendo fazer aqui nenhumas outras diligências, acerca das cartas apreendidas, envio-as, com o respectivo auto a V. Ex.ª para os fins que tiver por convenientes; devendo, porém, certificar mais uma vez a V. Ex.ª que não poupo esforços para descobrir os planos e projectos carlistas e que por mim e pelos meus subordinados exerço e faço exercer a mais activa e constante vigilância sobre tão momentoso assumpto”.
O telegrama, dirigido ao Administrador do Correio de Vila Real, reflecte também as dificuldades da apreensão de cartas, suspeitas de traduzirem alguma cumplicidade com os planos revolucionários carlistas, onde a colaboração com várias instituições de distritos mais próximos se tornava imperioso: “Por motivos de grave suspeita rogo se envie ordens ao Director do Correio desta Cidade que retenha em seu poder as cartas de Espanha e as que daqui se expedirem e que por mim lhe forem indicadas até que o governo resolva a consulta que lhe dirijo sobre o assunto”.
Idêntico foi o conteúdo do ofício enviado ao Director do Correio de Bragança: “Por bem do serviço público, rogo a V. Ex.ª (...) enviar-me todas as 2.as e 4.as feiras uma relação das cartas procedentes de Espanha e das que para aquele Reino forem expedidas de Portugal, em que se declare – nome dos destinatários e residências, procedência postal, data da entrada na estação postal expedidora, data da saída – qual a língua do subscrito e, além destes acrescentará V. Ex.ª todos os mais esclarecimentos e informações que julgar convenientes”.
Para o administrador do Concelho de Bragança, envia-se em 21 Outubro de 1870 um ofício, referente às suspeitas em relação a um espanhol que recebia, frequentemente, correspondência de Espanha: “Luciano Martins (...) recebe frequentemente correspondências de Espanha que é de supor não sejam para ele mas que vindo sob o seu nome, encobrem os verdadeiros destinatários e como pelas comunicações que lhe tem sido feitas está V. Ex.ª ao par das tramas dos inimigos da ordem publica em Espanha e em casa do referido Martins residem alguns espanhóis, cumpre que V. Ex.ª chamando este indivíduo a essa administração procure investigar para quem são as aludidas cartas, qual o seu conteúdo e o motivo por que vem sob o seu nome, ocultando-se assim o verdadeiro”.
A procura da identidade de suspeitos, colaboradores e dos seus planos, passava forçosamente, por reter cartas ou documentos escritos e, através deles, obter informações comprometedoras e fundamentadas. Apesar de tudo, muitas vezes achavam-se apenas notícias com dados particulares ou familiares.

Livro de Correspondência da Administração Geral do Distrito de Bragança, N.º 26, Confidencial, Caixa 8, 162, Maço 33, Anos 1870-1874, Fundo Documental do Governo Civil de Bragança, no Arquivo Distrital de Bragança.

Maria da Graça Martins

Desporto Digital, é a nova rúbrica mensal do Diário de Trás-os-Montes!

 O Diário de Trás-os-Montes vai promover todos os meses um debate desportivo "Desporto Digital” entre personalidades desportivas de Trás-os-Montes. Os profissionais ligados ao desporto vão debater os temas desportivos de interesse para a região, com especial incidência no Desporto Amador.
O primeiro debate, “Desporto Digital”, contará com a participação de Gilberto Vicente (Treinador de Futebol), Ana Cunha (Jogadora de Futsal), Catarina Carvalho (Técnica de Desporto) e Francisco Valfreixo (Aluno de Ciências do Desporto – UTAD).

A nova rubrica será emitida em direto no Facebook do Diário de Trás-os-Montes todas as 1ª quartas-feiras de cada mês às 22h.

O primeiro programa, emitido já amanhã, quarta-feira dia 3 às 22h, terá como tema principal o impacto da pandemia do Covid-19 a nível do desporto.

Todos os programas terão um convidado surpresa, ligado ao desporto, que será revelado durante o debate. Fiquem atentos!

Aos domingos à noite, às 22 h, mantemos a rúbrica "Opinião Transmontana" com os convidados habituais para debater os temas semanais com mais evidência na região.

Para a semana teremos, dia 8, o segundo programa da rúbrica mensal “Opinião + Jovem”.

Regresso a “Um reino maravilhoso”

 “Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso”. Começa assim a prosa seca e sentida de Miguel Torga sobre as terras ora frias, ora quentes, mas sempre pobres e pedregosas de Trás-os-Montes. Era um tempo onde tudo era longe e difícil, até o sonho, embora sonhar fosse, então, um ato libertador e tão livre como o voo da águia imperial entre as fragas daquele “chão raivoso”.

Agora, o interior e a serra são destinos de aventura, o rústico deixou de pertencer ao pobre e remediado para ser um produto turístico.  Será que “Para cá do Marão” ainda “mandam os que cá estão!”?

O Reino mudou com os anos, embora os socalcos e os varandins, como os manjericos e o xisto que atapetava os caminhos ou servia de muro, se mantenham inalterados com o tempo. Há neste regresso a “Um Reino Maravilhoso” um país que continua e um outro que desapareceu. E ainda um outro, porventura, desconhecido ou muitas vezes ignorado. Passemos de novo a palavra a Miguel Torga para nos falar do que a objetiva de Miguel Mazeda nos procura mostrar:

Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.

Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:

– Para cá do Marão, mandam os que cá estão!…

Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?

Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena:

– Entre!

A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.

BRAGANÇA: ANOS DE 1700: QUADROS SOCIAIS- PRESOS COMO FAUTORES DE HERESIAS

 Vimos o médico do partido da cidade de Bragança, Dr. Francisco Soares Franco passar um atestado em como Pedro Ferreira de Sá Sarmento estava doente e não podia apresentar-se no tribunal de Coimbra. O atestado e a carta do pai foram levados em mão pelo filho de Pedro que se apresentou em Coimbra em meados de Julho de 1715. Os inquisidores mandaram-no de volta a casa, dizendo que era o pai que devia apresentar-se, que o fizesse logo que ficasse melhor. 
Apresentou-se 4 meses depois, em 6 de Novembro, sendo interrogado, severamente repreendido e ameaçado como os demais. Regressou a Bragança, não sem que, tal como os outros tivesse que pagar as custas com as diligências. Vejamos agora alguns dados biográficos de Pedro Ferreira, que nasceu em Vimioso, por 1658, no seio de uma família da nobreza Trasmontana. Aires Ferreira Sarmento, seu pai, natural de Vinhais, viveu em Vimioso onde foi casar com D. Bibiana de Albuquerque e onde alcançou o cargo de capitão-mor, vindo a falecer ao comando das suas tropas, na tomada da praça castelhana de Alcanices, no decurso da guerra da Restauração. Nascido no Vimioso, pelo ano de 1658, Pedro Ferreira casou com sua prima D. Jerónima de Albuquerque Pimentel, da cidade de Miranda, filha de Paulo Macedo, cavaleiro da ordem de Cristo e familiar da inquisição. Foi coronel de cavalaria e governador do castelo da vila de Outeiro. 
Pelo ano de 1697, o casal morava na vila de Chacim, onde tinham propriedades. Por essa altura aconteceu em Chacim um verdadeiro tsunami, com a chegada de um corpo de tropas de Bragança, comandado pelo general Sebastião da Veiga Cabral, por requisição do comissário Bartolomeu Gomes da Cruz, a mando da inquisição de Coimbra, para prender uma vintena de judaizantes naquela vila. Nessa operação, o mais ativo “caçador de judeus” foi Pedro Ferreira de Sá que, por isso mesmo, recebeu um louvor e um novo encargo da parte do mesmo tribunal, conforme referido em carta para o comissário local, Manuel Gouveia de Vasconcelos: - Também nos constou que Pedro Ferreira de Sá, morador na mesma vila, obrou nas mesmas com muito zelo. V. Mercê, da nossa parte, lhe fará presente o nosso agradecimento (…) Temos notícia que alguns cristãos-novos dessa vila se querem ausentar; terá V. M. muito cuidado e vigilância neste particular, encarregando ao dito Pedro Ferreira de Sá…  Enquanto no seio da inquisição era apontado como herói e cristão zeloso, os familiares dos presos apresentavam em Coimbra uma petição retratando-o de “homem muito poderoso, de mau e perverso coração, muito ambicioso das fazendas alheias, tanto que, nas prisões que houve em Abril passado, foi senhor absoluto da disposição delas e como o seu ódio era tanto, as fez com um estrondo que nunca se viu”. 
Desfiavam depois um rosário de ilegalidades e roubos por ele executados. Veja-se apenas um excerto das acusações: - É notório que deu ocasião a que se roubassem as casas dos presos e ele dito, Pedro Ferreira publicamente roubou um macho, um colete de anta, duas espingardas, duas espadas e um muro de colmeias.  No seguimento das prisões e do louvor recebido, Pedro Ferreira apresentou no Conselho Geral da inquisição um requerimento pedindo a admissão como familiar do santo ofício. Para o processo avançar tinha de passar pela inquisição de Coimbra que deu o seguinte parecer ao inquisidor-geral: - Informamos Vª. Senhoria que o pretendente se houvera culpavelmente nas prisões que fez em Chacim e inventários dos presos, nos parece que Vª. Sª não defira o seu requerimento… 14 de Abril de 1698.  Efetivamente, não conseguiu aquele objetivo. 
Anos depois, morando já em Bragança, Pedro Ferreira empenhou- -se particularmente num outro projeto: o de ter uma cadeira na igreja do convento de S. Francisco, lá à frente, junto ao altar-mor, nomeando-o padroeiro do convento e significando isso o mais elevado estatuto social entre a gente da nobreza da cidade. Conseguiu que o guardião do convento e o ouvidor da cidade lhe concedessem a graça, certamente a troco de avultada contribuição financeira. Tamanha ostentação não cairia bem entre a gente da nobreza e as queixas chegaram ao Paço Real, em Lisboa. Veja-se a resposta: - Provedor da Torre de Moncorvo. Eu, El-Rei, vos envio muito saudar. Vi a vossa carta de 21 de Julho deste ano em que destes conta da diligência que fui servido encarregar- -vos sobre a liação do padroado da capela-mor do convento de S. Francisco da cidade de Bragança a favor de Pedro Ferreira de Sá Sarmento e o que sobre este particular obrara o guardião do dito convento e o ouvidor da mesma cidade. Em vista de tudo o que referiste se tinha obrado sobre a dita aliação, hei por bem ordenar-vos notifiqueis ao dito Pedro Ferreira de Sá Sarmento se abstenha do uso do dito padroado e mandareis tirar da capela-mor do dito convento a cadeira que nele tinha, se ainda ali estiver, advertindo-lhe que este negócio há-de ficar nos mesmos termos em que se achava antes de lhe ser concedido o dito padroado; e ao ouvidor da comarca, pelo excesso com que se houve com Joseph Morais Madureira em escrever ao geral de S. Francisco a favor do dito Pedro Ferreira de Sá Sarmento, chamareis à câmara e da minha parte lhe estranhareis severamente e que me houve por muito mal servido do que obrou neste particular. Rei. Lisboa, 17 de Setembro de 1715.
Como se vê, a segunda metade do ano de 1715 seria particularmente adversa para o coronel Pedro Ferreira, que se viu repreendido pela inquisição e pelo rei. Queixas sobre a honestidade e retidão de caráter lhe seriam também feitas pelo marquês de Fronteira, em Janeiro de 1706, a respeito de negócios de cavalos, conforme se depreende de uma carta sua, respondendo a tais queixas, existente nos arquivos da Torre do Tombo.  A essa altura ocupava o cargo de governador do castelo de Outeiro. Dois anos depois, em 13.9.1708, seria encartado no lugar de feitor e recebedor da alfândega de Vimioso.
Obviamente que todos os cargos em que fora investido eram acompanhados de compensações financeiras. Assim, por alvará de 30.3.1713 do rei D. João V, foi-lhe concedido o título de moço-fidalgo, com 100$000 réis de moradia e 1 alqueire de cevada por dia. Em 17.12.1715, nova carta de mercê do mesmo rei, concedendo-lhe a tença de 40 mil réis.  E as mercês não foram apenas para ele. Também para o filho, Francisco José Sarmento Lousada que, por alvará de 18.4.1713, foi também nomeado moço fidalgo da casa real. E também para o neto Pedro Ferreira de Sá Sarmento, que em 2.2.1716, recebeu idêntica mercê. E se Pedro Ferreira não conseguiu ser admitido no círculo dos familiares da inquisição, facilmente o conseguiu seu filho Francisco que, apresentou o pedido em Junho de 1713 e recebeu carta em 15.2.1714.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães

As Estrelas do Cego: "As Estrelas do Cego"

 Noite de Natal.

Terminara a missa. Repicavam sinos e o povo descia alegre os degraus em ruína da larga escadaria.

A noite era cheia de estrelas, luzes do altar imenso sob o imenso dossel de veludo azul, O céu muito frio parecia rir-se, a piscar os olhinhos alegres.

Ainda nos ecos da alta abóbada em berço ressoavam os últimos cheios do órgão do convento. Pela porta aberta de par em par, onde a multidão se acotovelava à saída, vinha de dentro da igreja um perfume religioso de flores, de fumo de incenso, de cera queimada.

O altar reluzia ao fundo, e as luzes inquietas enchiam de ziguezagues rútilos as lentejoulas e os fios de seda nos mantos bordados da Santa Família e na colcha de damasco do berço pequenino, em que o Menino Jesus dormia.

Tocavam sinos, e os repiques, como foguetes, subiam pelo ar denso da noite fria, entre a algazarra do povo, massa escura caminhando pela noite escura. A larga frontaria da igreja, comida pelo tempo, abafada num velho tapete de musgo, sobressaía no céu em mancha muito negra, donde jorravam feixes luminosos, ondas de harmonias, luz e cânticos de triunfo.

Um pequeno desceu a escada levando um cego pela mão.

Iam fechar-se as portas. Saíam os últimos devotos.

O cego era um velho corcovado, trêmulo, com a face cheia de rugas cruzadas, como um pedaço de papel amachucado. Os olhos sem luz voltava-os para o céu, meneando a cabeça constantemente, como se procurasse... o quê? E sorria. Dava a mão ao petizinho e descia os degraus tateando-os com o pé.

— Ainda mais um, avô... E outro... E outro.

Fechou-se a igreja, o candeeiro da esquina mal alumiava o adro.

E o cego sorria e afagava a mão do pequeno.

O povo espalhou-se pelas ruas. Eram como estilhaços de alegria por toda a cidade.

Vinha a gente descendo pelos becos angulosos, pelas travessas em declive rápido. E parecia que todos levavam n’alma um pedaço de luz daquela noite em Belém cantada nos evangelhos, da alegria daquela música ouvida no templo, quando os sinos repicaram e o coro entoou o Gloria in excelsis! Todos falavam, todos riam, muitos cantavam. Era a ceia pronta em casa, era o dia seguinte todo ele inteirinho de descanso!

Noite de Natal! Noite de Natal!

E eu fui por ali abaixo também, atrás do cego.

O pequenito teria oito anos. Loiro. De olhos azuis. Olhava para as estrelas a rirem lá em cima.

Os olhos tinham a cor do céu, e o que neles brilhava tanto podia ser o reflexo das estrelas como a luz plácida da sua almazinha.

Caminhavam os dois por ali abaixo e conversavam. A voz trêmula do velho replicava compassadamente o pequenino. E o que ele dizia com a sua vozita infantil, linda como um trinado, devia de soar aos ouvidos do avô ainda como um cântico, como se um anjo daqueles, que haviam aos pastores anunciado a vinda do Senhor, houvesse ficado na terra; porque o cego continuava sorrindo e, ao descer pelos becos escuros e tortuosos, afagando a mão do netinho, fitava os olhos condenados às trevas lá em cima, lá muito em cima, donde vinha aquela luz toda, que alegrava os olhos da criança.

Conversavam os dois contentes. Eu ouvia bocadinhos do que diziam, palavras soltas, por onde, mais ou menos, reconstituía a conversação.

Esperava-os em casa a mãe do pequeno, filha do cego. Os dois levavam fome. A mulher ficara em casa fazendo a  ceia. E ao velho ouvi dizer, uma ou duas vezes, gulosamente:

— A canja.

E o pequeno:

— Degrau, avozinho.

E o cego, muito atento, vagarosamente, tateava o degrau com o pé, afagando a mão do neto, cantarolando. Pelos becos, pelas travessas, sob os arcos dos pátios irregulares, cheios de sombras, disseminara-se a gente. Íamos agora sós, nós três, naquele caminho.

Ouviam-se ainda passos ao longe, ecos de vozes, uma ou outra guitarra em lojas fechadas, onde brilhavam as frinchas das portas; de quando em quando, um bater de palmas ao guarda-noturno, passos correndo, um tinir de chaves. Um galo cantou numa trapeira.

— E tarde disse o velho.

Caminhavam mais depressa agora.

E eu ia andando atrás deles, sem saber por que, atraído talvez pela doçura do quadro, pelo encanto do grupo, pela meiguice das vozes, por ver tanta alegria onde tanta miséria se cuidava, tanta paz nas almas, onde tanta dor devia de supor-se.

Passei-lhes adiante. Esperei junto de um candeeiro. Queria ver-lhes ainda uma vez os rostos.

O cego continuava a olhar para o céu, meneando a cabeça. O pequenito ao lado, agora que na rua tinham acabado os tropeços, olhava para onde olhava o cego.

A cabeleira loira, toda em anéis, não lhe cabia dentro do chapéu e caía-lhe, revolta, pela testa, ao longo das faces; pelas costas.

Era lindo, lindo! E o cego, que o não via, continuava a sorrir!

Deixei-os passar adiante.

A rua alargava-se entre casarias irregulares. Caminhavam mais à vontade agora, mas tinham-se calado. Culpa talvez da minha indiscrição.

Faziam eco no silêncio da noite os nossos passos sobre a calçada, na rua deserta.

Pararam. O velho bateu cinco argoladas à porta de uma casa esguia, com grades de madeira nas janelas cheias de vasos. Passados poucos segundos, ouviu-se a pancada violenta do trinco puxado com força desde lá de cima.

O cego e o pequeno desapareceram na escuridão da escada. A porta bateu com estrondo.

Ouvi ainda o velho cantarolando, enquanto subia. Pouco a pouco a voz sumiu-se. Encostei o ouvido à fechadura: uma bulha de passos apagando-se, mais e mais, a cada volta da escada; uma voz muito alegre — devia de ser a da mãe do pequeno recebendo-os — palavras que não percebi... E fechou-se lá em cima uma porta.

***

Então passei para o outro lado da rua e fiquei-me a olhar para aquela casa.

Era noite de Natal, noite de festa, noite cantada pelos poetas. Talvez as cordas da minh’alma vibrassem ainda em uníssono com os cantos daquelas vozes tão devotas, singelamente entoados por detrás das grades do coro, hinos muito simples ao Deus Menino nascido.

No céu de imaculada pureza as estrelas vibravam raios de luz intensíssima. Fazia frio.

E eu quedava-me a olhar para aquela casa, tão pobrezinha, tão velha, tão escura, tão cheia de flores de alto a baixo!

Uma janela no telhado iluminou-se.

Começava a ceia do velho. Eu reconstituía o grupo dos três: a mesa encostada à parede na trapeira muito baixa, o velho aspirando os perfumes da sopa, a terrina sobre a toalha muito branca, o pequeno defronte do avô, e a mulher a sorrir-lhes, ouvindo-lhes as histórias, o trono, o presépio, a missa, o canto das freiras, a vinda por ali abaixo a horas mortas, a minha perseguição.

E o pai do pequeno? Ah! sim, esse também lá estava... Pois quem trabalha para sustentar a alegria naquelas almas?... Santa família!

Que deliciosa ceia! Que paz tranquila! Que boa noite de Natal!

Tanto falava o cego na canja, rua afora, pela mão do pequeno! Quem não tem olhos, tem melhor paladar.

E o pequeno como devora! E que é tarde e não costuma estar de vela àquelas horas! Comprida manhã terá na cama. Já os olhitos se lhe começam a fechar.

E o pai e a mãe a rirem, contentes de os verem assim!

Que boa noite de Natal!

Fitara os olhos na janela, já não sabia dali apartá-los. Também eu agora olhava para cima, como ainda agora o pequeno para as estrelas, o cego não sei para onde.

Por que olhava o cego para o céu?

Tornou o galo a cantar. Ouvi-o, ao longe, mais alegre, como quem já adivinha a madrugada.

Há quanto tempo estava eu ali? Por que olhava para aquela trapeira?

Encaminhei-me vagarosamente para casa.

Havia tantas estrelas no céu! Como era linda a noite de Natal! Como tinha razão o pequenito dos cabelos loiros de olhar para as estrelas! Que quantidade de luz! Tantas! Tantas!... Talvez o pequeno se lhe metesse em cabeça de contá-las! Houve uma, quando vínhamos pela travessa abaixo, que passou correndo, deixando um rastro muito longo... Era como a estrela dos Reis Magos. Que luz não tinham os olhos do pequenito! E o cego sorrindo ao pé dele, com os olhos tenebrosos postos no céu! Por quê? E que se lhe voltavam para lá os olhos d’alma, é que na alma tinha ele mais luz do que o pequeno nos olhos.

E vejo-os ainda a descerem pelos becos, o velho meneando a cabeça, o pequenito a dar-lhe a mão — “Degrau, avozinho” — ambos com os olhos no céu, a estrela a correr...

Que lindas estrelas vê o cego!

Nota:
Texto-fonte: D. João da Câmara. Contos, 1900.

Programa “Sénior Ativo em Miranda do Douro

 As atividades do Programa “Sénior Ativo” do Município, proporcionam a melhoria da qualidade de vida, através dos benefícios da prática da atividade física regular e estimulam a coordenação motora, agilidade, flexibilidade, força, autoconfiança e autoestima.
A Câmara Municipal de Miranda do Douro está a desenvolver um programa para os mais idosos ocuparem os seus tempos livres. O Programa “Sénior Ativo”, pretende proporcionar aos munícipes de ambos os sexos, com mais de 55 anos, a oportunidade de ocupar o seu tempo livre de uma forma ativa, contribuindo para a manutenção dum estilo de vida saudável.

As atividades do Programa “Sénior Ativo” do Município, proporcionam a melhoria da qualidade de vida, através dos benefícios da prática da atividade física regular e estimulam a coordenação motora, agilidade, flexibilidade, força, autoconfiança e autoestima. O projeto é colocado to em ação através da plataforma zoom, às segundas e quartas a partir das 10h.

A PRINCESINHA E O PRÍNCIPE DE PINDORAMA

Por: Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS
São Paulo (Brasil)
(colaborador do Memórias...e outras coisas) 

A época em que tudo ocorreu não se sabe ao certo. O reino, era o das infindáveis ”Terras de Santa Cruz”. Lá, vivia uma rainha muito boa. O maior sonho da rainha era dar à luz uma filha e cuidar e educar a princesa com muito carinho. No entanto seu marido, o rei, gostava muito de festas e jogos de bravura, mas concordava com a rainha pelo fato de não terem herdeiros.

Ocorre que a Providência quis dar uma alegria à rainha e a abençoou com a maternidade. A rainha acabou por dar à luz uma linda menina. Como parte de seu plano, a rainha a educou dentro das boas regras, ensinou-lhe modos, etiqueta, valores morais da vida, obediência e  companheirismo. Ensinou-lhe também línguas estrangeiras, para que a princesinha se sentisse à vontade quando tivesse contato com os seus iguais de mais ao norte ou mais ao sul, e até em terras longínquas. Tinha já quinze anos quando o rei deu uma festa, onde havia jogos de força e coragem. O rei queria que a princesinha conhecesse os catorze príncipes que vinham participar dos jogos. E assim foi: de mais a oeste, veio o príncipe de Pindorama; de noroeste, veio o príncipe de Novo México, mai ao norte, o príncipe da Colúmbia Britânica, mais ao sul, o príncipe de La Plata, das terras longínquas, viriam os príncipes de Madagascar, da Romênia, de Islamabad, de Shandong, de Hokkaido, da Mongólia, de Nápoles, de Valpaços e Sanfins, da Mongólia e de Liechtenstein. todos eles, devidamente treinados nessa arte de jogos.

No dia determinado começou o torneio: formaram-se sete pares de príncipes, pois eram catorze príncipes que se enfrentariam, tentando derrubar o oponente do cavalo com o auxílio de uma maça de guerra sem, no entanto, ferir o oponente. O torneio levou toda a manhã; depois de um descanso para comer, voltaram os finalistas. A princesa ficou observando os dois cavaleiros que mais a encantaram: o príncipe de Pindorama e o príncipe da Romênia. Ela foi até a pista e entregou um véu, partido ao meio, aos dois concorrentes. Era o que o rei queria; os dois príncipes agora lutavam também pela mão da princesa! Mas, no primeiro embate, o príncipe de Pindorama caiu do cavalo e quebrou o braço esquerdo (que usa para dirigir o cavalo). O príncipe da Romênia esperava que o concorrente desistisse, mas o príncipe de Pindorama confirmou que mesmo com  um braço quebrado, ele iria lutar pela mão da princesinha. Quando o príncipe da Romênia já se preparava para dar a estocada final, o príncipe de Pindorama, tomou-lhe a maça de guerra com o braço direito, e guiando o cavalo só com os joelhos, conseguiu derrubar por terra o oponente, e assim venceu o príncipe da Romênia!

Nos dias seguintes, as festas continuaram, com as presenças dos reis de Pindorama, onde se festejou o casamento da princesinha com o príncipe de Pindorama.

- E viveram felizes para sempre!

Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS. É natural de Cravinhos-SP. É Físico, poeta e contista. Tem textos publicados em 8 livros, sendo 4 “solos e entre eles, o Pequeno Dicionário de Caipirês e o livro infantil “A Sementinha” além de quatro outros publicados em antologias junto a outros escritores.

30 hectares livres de eucaliptos em acções da Palombar e AEPGA

 Ao longo do ano passado, foram feitas acções de eliminação e controlo de eucaliptos, numa mancha de mais de 30 hectares, no concelho de Vimioso
Estas acções são fruto de um projecto da Associação Para o Estudo e Protecção do Gado Asinino e da Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural. Com o “Hotspot da Biodiversidade”, estas duas associações transmontanas pretendem trocar os eucaliptos por floresta autóctone.

José Pereira, presidente da Palombar, admite que ainda há muito trabalho para fazer, dado que os eucaliptos são de difícil eliminação. “Isto não significa que os eucaliptos tenham sido eliminados porque se trata de um trabalho a médio prazo, de cerca de cinco anos ou mais, até que as árvores percam a força e vão dando lugar a outras espécies”.


Além de cortar os eucaliptos, as associações têm em vista apoiar a regeneração natural com azinheiras, sobreiros e zimbros. O processo já está em marcha mas prevê-se que demore algum tempo. “São árvores de crescimento lento, portanto é normal que o processo seja um pouco demorado, porque levará um determinado tempo até que atinjam um porte considerável que permita abafar o crescimento de eucaliptos”.

O “Hotspot da Biodiversidade” abrange o vale dos rios Sabor, Maçãs e Angueira, nos concelhos de Vimioso e Mogadouro e foi anunciado no final de 2019.


José Pereira mostra-se satisfeito com o trabalho já realizado e admite que as associações estimam que este ano se faça ainda mais. “Já fizemos bastante trabalho porque, além de desbastar as árvores, também estamos a triturar grande parte da matéria lenhosa que dali sai para a devolver ao solo. É uma forma de repor alguns nutrientes que possam perder- -se com estas acções”.

O eucalipto é originário da Austrália e é considerado uma espécie invasora prejudicial, que promove a redução da biodiversidade do território, assim como contribui de forma significativa para a propagação de incêndios.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Carina Alves

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

GOSTO DE…

Por: Maria da Conceição Marques
(colaboradora do "Memórias...e outras coisas...") 


Café amargo.
Dormir de olhos abertos,
Para vasculhar o mundo,
Nestes dias confinados
Dentro dos dias despertos!
Gosto de gente, adaptável,
com alma e coração
Emotiva e vibrante
Gente com gente dentro
De vida, insaciável.
A viver, com emoção.
Gosto, de gente de paz,
Gente de mente diversa            
De mobilidades frementes
Gosto de gente frenética.
Gosto de gente e de bichos
Flores, jardins e sementes.
Gatos com olhos de céu
Pardais com olhos de estrelas,
Gente com olhos de gente! 
Gosto de fidelidade, 
Humildade e caridade
De pessoas descomplicadas,
Que dos espinhos, fazem rosas
Risos, em bocas formosas,
Com hálitos a sol e a menta,
Gente sã e alucinada,  
a trepar pelas paredes 
Gente com gente dentro
Gente com tudo e com nada. 
Gosto do sonho e ilusão 
A vida é uma armadilha
Uma mina e um vulcão.
Gosto, mesmo é de gente,
Gente com gente dentro. 
Gente com coração.

Maria da Conceição Marques
, natural e residente em Bragança.
Desde cedo comecei a escrever, mas o lugar de esposa e mãe ocupou a minha vida.
Os meus manuscritos ao longo de muitos anos, foram-se perdendo no tempo, entre várias circunstâncias da vida e algumas mudanças de habitação.

Chuvisca e os Guardiões das Sementes Nativas em destaque no PNL 2027

 O PNL 2027 - Plano Nacional de Leitura 2027 sugere o livro Chuvisca e os Guardiões das Sementes Nativas editado pela Azimute na sua rubrica Livros PNL – Destaques: Livros para celebrar o Ano Internacional das Frutas e Vegetais 2021.
O livro Chuvisca e os Guardiões das Sementes Nativas, escrito por Margarida Fonseca Santos e ilustrado por Carla Nazareth, é uma viagem mágica pelo mundo das sementes e das tradições das Aldeias Pedagógicas. Francisco e Teresa partilham as preocupações de Chuvisca, a nuvem das sementes e por isso vão à procura de quem os ensine a recuperar os saberes antigos para salvar as sementes em perigo. Iniciam, assim, numa aventura que os leva a descobrir, de forma lúdica, a necessidade de preservar as sementes nativas, o valor da alimentação saudável e das relações intergeracionais.

As Nações Unidas, através da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), declararam 2021 como o Ano Internacional das Frutas e Vegetais dedicado à sensibilização sobre o importante papel das frutas e legumes na nutrição humana, segurança alimentar e saúde.

Podes comprar AQUI o livro.


𝗡𝗲𝘀𝘁𝗲 𝗙𝗲𝘀𝘁𝗶𝘃𝗮𝗹 𝗱𝗼 𝗕𝘂𝘁𝗲𝗹𝗼 𝗲 𝗱𝗮𝘀 𝗖𝗮𝘀𝘂𝗹𝗮𝘀 & 𝗖𝗮𝗿𝗻𝗮𝘃𝗮𝗹 𝗱𝗼𝘀 𝗖𝗮𝗿𝗲𝘁𝗼𝘀, 𝗱𝗲𝘀𝗮𝗳𝗶𝗮𝗺𝗼𝘀 𝗮 𝗮𝗱𝗶𝘃𝗶𝗻𝗵𝗮𝗿, 𝗮𝘁𝗲́ 𝗮𝗼 𝗽𝗿𝗼́𝘅𝗶𝗺𝗼 𝗱𝗶𝗮 𝟱 𝗱𝗲 𝗳𝗲𝘃𝗲𝗿𝗲𝗶𝗿𝗼, 𝗼 𝗽𝗲𝘀𝗼 𝗱𝗼 𝗯𝘂𝘁𝗲𝗹𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘀𝘁𝗮́ 𝗻𝗮 𝗶𝗺𝗮𝗴𝗲𝗺 (que tem entre 1.000 e 1.150 gramas).

 Para participar, basta deixar um comentário na fotografia com a sua aposta e identificar 5 amigos. Pode participar quantas vezes quiser. 

A primeira pessoa a comentar o peso acertado ou mais aproximado, sem o exceder, ganha uma caixa com produtos que estão à venda no Festival do Butelo e das Casulas – Online, AQUI e que contém um butelo, casulas, vinho, mel, azeite, uma navalha e uma máscara de Careto.


Documentário sensibiliza para importância de proteger o tartaranhão-caçador e os serviços que presta aos ecossistemas

 No âmbito do projeto “Reconecta-te à Natureza - As aves fazem mais do que cantar”, a organização não governamental de ambiente Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural produziu o vídeo/documentário de curta metragem “Proteger a rapina das searas”, que pretende sensibilizar a comunidade em geral e os agricultores em particular para a importância de proteger o tartaranhão-caçador (Circus pygargus), uma ave de rapina migradora que tem um estatuto de ameaça “Em perigo” de extinção em Portugal e cujas populações têm registado um declínio continuado no território nacional. Este vídeo também visa alertar para as ameaças que colocam esta espécie em risco e destacar os serviços que presta para os ecossistemas.


Que ave é esta? De onde vem? Em que território habita? Que ameaças enfrenta? Quais são os serviços que presta para os ecossistemas e os agricultores? Como a podemos proteger? Com foco nesta rapina das searas, o vídeo responde a estas e a muitas outras questões relacionadas com a espécie e centra-se num território, o Planalto Mirandês, um dos últimos redutos para as aves estepárias no norte de Portugal. Um dos propósitos é revelar como o tartaranhão-caçador contribui para assegurar a produtividade dos campos cerealíferos e o equilíbrio dos ecossistemas, através dos serviços que oferece para o meio ambiente, que são muitos.

O vídeo alerta igualmente para uma das principais ameaças para esta ave, a atividade da ceifa, e para a necessidade de implementar, em colaboração com as comunidades locais e os produtores agrícolas, medidas que promovam a sua proteção e conservação nos terrenos cultivados com cereais.

O vídeo sublinha ainda a importância de estudar e obter mais informações sobre a população de tartaranhão-caçador que ocorre no Planalto Mirandês, com o propósito de aumentar o conhecimento sobre esta e contribuir com dados sistematizados para a definição de medidas de conservação, proteção e gestão da espécie nessa região mais eficazes e baseadas na evidência científica.

Projeto vai criar Rede de Amigos do Tartaranhão-caçador

O projeto “Reconecta-te à Natureza - As aves fazem mais do que cantar” também prevê a implementação de ações no seu território de intervenção, a Comunidade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes (CIM-TTM), com vista à identificação e monitorização de ninhos de tartaranhão-caçador para promover a sua proteção e sucesso reprodutivo, em estreita colaboração com os agricultores locais, com o intuito de criar uma “Rede de Amigos do Tartaranhão-caçador".

Sobre o projeto “Reconecta-te à Natureza - As aves fazem mais do que cantar”

Still de vídeo. Tartaranhão-caçador. Crédito Gonçalo Mota.

O projeto “Reconecta-te à Natureza - as aves fazem mais do que cantar”, o qual é financiado pelo Fundo Ambiental – Ministério do Ambiente e da Ação Climática”, tem como principal objetivo sensibilizar a comunidade para os serviços fundamentais prestados pela avifauna aos ecossistemas, com o propósito de informar sobre a sua importância e papel vital e alertar para os problemas que têm provocado o declínio de várias espécies de aves associadas aos ecossistemas agrícolas.

O projeto tem como foco dois grupos de avifauna: os passeriformes e as aves de rapina.

No caso dos passeriformes, aborda os serviços que estes prestam para os ecossistemas associados a hortas, pomares e florestas; e, no que se refere às rapinas, as ações incidem sobre espécies diurnas ligadas ao habitat das searas, tendo o tartaranhão-caçador (Circus pygargus) como espécie bandeira, e noturnas, associadas às quintas, apresentando como espécie de destaque a coruja-das-torres (Tyto alba).

OS NETOS

 Andavam todos pasmados, a falar baixinho pelos cantos.

O d. Afonso parecia outro!

Se fosse um Afonso qualquer!... mas o dom, o quarto, o do Salado!... Quem jamais o vira assim de olhar tão doce na sombra do supercílio carregado, de riso tão lhano sob as enormes barbas patriarcais, honradas entre as mais honradas dos afonsinos?

O Coelho, que havia muito, andava tramando o crime, até disse baixinho ao Pacheco: — “Ali há coisa!” O Pacheco já a farejara, olha quem! E entretanto, o d. Afonso, todo fora dos eixos costumados, dizia graças, quando passava alguma dama a rojar sedas na peugada da linda Inês.

Ia seu caminho o drama tenebroso. Tanto haviam feito, que já tinham escangalhado o sossego da que depois de morta foi rainha. E o cetro, sobre que tão famigerados heróicos havia de bordar o dr. Ferreira, parecia pesar nas mãos do monarca menos do que se fora de pequisbeque, talvez tanto como de papelão dourado.

É que naquela noite...

O homem tinha um fraco: pelava-se pela canja!

Ele em pessoa comprara a galinha, uma ave amarela, que era uma beleza, gorda anafada... Depois do muito regatear, e por ser a ele, d. Afonso, é que a soloia a vendera por 620! Um rico pedaço do touu1nh, um bom naco de presunto, o belo chouriço, cheirinhos, arroz da melhor tenda... Ora adeus! Um dia não são dias. Aquela noite de Natal havia de ser falada!

E, por debaixo dos longos bigodes brancos, brancos de neve, El-rei lambia os beiços.

Chovia a potes.

O drama terrível, a mais calamitosa tragédia da história pátria, ia-se pouco a pouco desenrolando.

Inês lamentava-se. Os horríficos algozes haviam-na trazido ante o rei. Eram três judeus de calvário de Semana Santa, muito capazes de dar sete pesadelos a quem não estivesse prevenido. Muito cabelo, muita sobrancelha, muita barba, vozes de tiranos. Ela erguia para o céu cristalino os olhos piedosos, atentava nos meninos cheios de sono, falava ao avô cruel nas brutas feras e nas aves agrestes, na mãe de Nino e nos irmãos que Roma edificaram; queria ir fosse lá para onde fosse, para a Citia fria ou para a Líbia ardente, contanto que a tirassem dali. Era de partir os corações! Mas aqueles patifes, de punhais desembainhados, sanhudos, faziam esgares!

E a desditosa amante do príncipe, entre soluços e lágrimas, pensava: — “Que demônio tem hoje o d. Afonso?

O rei só via a canja, os olhinhos da gordura, o arroz muito branco... E arregalava o olho e abria a venta!

Ah! que delicioso quadro! Que lhe importavam a linda Inês de rojo a seus pés, as iras do filho apaixonado, a política do reino, as Espanhas, os Castros?

Uma trapeira, que, toda envolta em arroz de telhado, era como um ramalhete, numa rua estreita, escura, tortuosa, para lá lhe fugia o pensamento. Em volta dela cantavam pardais todas as manhãs, e o sol, mal nascia, pintava-lhe os vidros como se fossem pedras preciosas, rutilantes. Tanta paz lá dentro, tanto riso de crianças!

Noite de Natal muito fria. Ah! como chovia lã fora! Cantava a água, caindo em jorros das biqueiras sobre as pedras das calçadas. Como estavam lamacentas as ruas, cheias de poças! O vento do sudoeste arrastava pelo céu as nuvens desgrenhadas, e chovia sem descanso.

Lá dentro da trapeira, tanta luz, tanta alegria!

Noite de Natal! A toalha resplandecia muito branca sobre a velha mesa herdada dos avós, um nadinha coxa e remendada. Era um velho traste amigo, naquela noite todo enfeitado para a festa. O candeeiro, entornando sobre a alvura do linho um círculo de luz aconchegador, fazia faiscar as lâminas das facas, estriava com fogo os cabos muito limpos das colheres. O pão, há pouco vindo do forno, ainda fumegava embrulhado na flanela, e seis guardanapos engomados ostentavam formas caprichosas, em cima dos pratos: pombinhos, leques, romãs abertas.

Lá dentro, na cozinha, riam as crianças: A mais pequenina, uma gorducha rosada e muito loira, fechava os olhos cansadinhos de sono, teimando em não querer deitar-se, que havia com as mais velhas de assistir à grande festa.

E a panela a chiar e o vinho a aquecer e o quebrar das nozes!

Vá lá um homem ralar-se com a política do reino, ter consciência de sua altíssima missão, compreender o direito divino, recalcar no coração a piedade e ser cruel contra o próprio filho meio louco de amor e que a dor tornaria completamente louco, contra os infantes seus netos, contra a formosa fidalga chorosa, que deixava espalhar pelos ombros os fartos cabelos pintados de loiro!

— Pois sim, cantem — pensava ele.

E respondia tão distraído, tão fora do sentimento, que todos, pasmados, diziam:

— O d. Afonso... ali há coisa!

Corriam-lhe pelas faces uns arrepiozinhos, impaciências perceptíveis sob as enormes barbas todas brancas, fazendo-lhe tremer as asas do nariz e os cantinhos das fartas sobrancelhas.

O filho, o d. Pedro, com voz de trovão, arrancava do peito as últimas exclamações e afastava-se a largos passos para ir pegar em armas. A corte, atônita, aflita, corria para a vasta janela rendilhada para ver o desgraçado amante atravessar os pátios, chamar os seus, com eles dispor a vingança. Era então que o velho herói do Salado, desgraçadinho, cheio de lágrimas na voz, com o coração dilacerado, diante do corpo inanimado da linda Inês, havia de soluçar altíssimas filosofias sobre a vaidade das vaidades, o peso daquela coroa sobre as cãs, daquele cetro nas mãos decrépitas.

— A canja, a canja! — pensava ele.

E ainda o eco murmurava os últimos gemidos daquele diabo de tragédia, e já o d. Afonso galgava a quatro e quatro os degraus da escada, sem coroa, sem cetro, sem barbas, respondendo ao contra-regra, que o chamava para ir agradecer os aplausos da claque:

— Vão para o diabo!

E, meia hora depois, que alegria!

Quando chegou a casa, em volta da mesa, a filha, o genro, os três netinhos, todos a cantarem o hino da carta:

— Tchim! Tchim!... Taratatchim! Taratatchim! Que bem que cheirava a canja!

Aquela noite de Natal havia de ser falada!

Nota:
Texto-fonte: D. João da Câmara. Contos, 1900, extraído da edição de 1974 da Editora Três