A população depressa esqueceu(?) esse pequeno pormenor quando foi anunciada a sua formatura em medicina. Houve festança farta, com comes e bebes, tudo à custa daquele abastado proprietário, que manifestava mais felicidade e orgulho do que os Pais verdadeiros. ( Há Pais que são mais Pais do que os verdadeiros Pais, sem serem Pais). De facto, quando morreu, deixou tudo em testamento ao Doutor. Por alguma variável que rege o nosso destino, os Pais morreram primeiro, com uma diferença de vinte e oito dias. E o Doutor fez de tudo para lhes prolongar a vida, assim como igualmente se empenhou em salvar os Pais adoptivos, que morreram cerca de dois meses e meio depois, com um intervalo de três semanas.
O Doutor Alberto tinha a alcunha do “ Doutor Coelho”, por andar sempre, mas sempre, a roer uma cenoura! Ele lá saberia já das propriedades do caroteno dessa raiz tuberosa, conhecida dos gregos e dos Romanos. O seu termómetro e o estetoscópio eram a cenoura! Era um médico extraordinário: bastava olhar para o paciente e, com uma pequena apalpação, ditava o diagnóstico e a receita para aviarem na Farmácia do Dr. Leite ou na Farmácia da Dona Carmen, em Moncorvo. ( Ou, na maior parte das vezes, receitas caseiras, para fazerem em casa!). Era um homem corpulento, de corpo bem atestado, com um bigode à Barão, devidamente frisado e retrocido. Usava umas lunetas na ponta do nariz, o que lhe dava um ar austero e nobre. No entanto, era de trato suave, afável e sedutor. Tinha o carisma e as incongruências dos verdadeiraos génios. Não era de sorriso fácil, mas tinha um sorriso meigo e luminoso. Era um humanista de mão-cheia. Impôs-se pelas suas qualidades humanas e científicas.
O Dr. Alberto era respeitado tanto como homem, como médico. Todos os respeitavam de chapéu na mão. Cortesia, benevolência e amabilidade, tudo isso recebia sem uma ponta de orgulho. A vaidade não era o seu principal defeito. Sabia distinguir e respeitar as reverências, os sorrisos verosímeis ou cínicos, as benevolentes vénias ou as insinuantes subalternizações. Apesar de dócil, não se deixava empalidecer com qualquer contrariedade e não deixava a verdade enterrada pelo medo. Se não vejamos:
Um dia combinou uma caçada com o Lérias, o Augusto Pinto, o Julho do Marmeleiro e com o Catrineta que, apesar da amizade desde garotos, que até se tratavam por tu, não lhe perdoava o boato de ter enganado a sobrinha – coisa que não passou disso mesmo, boato – podemos jurar a “ pé juntos “.
Encontraram-se de manhã bem cedo em frente à capela de Nossa Senhora, junto do chafariz. Quando estavam todos, abalaram em direcção à Malhadinha, com as caçadeiras em bandoleira. Faziam-lhes companhia um lebreiro, dois perdigueiros e um galgo, que chegava a atingir os setenta quilómetros por hora, propriedade única do Augusto Pinto e um furão (de uso proibido pela Venatória), pertencente ao Catrineta. Alimentava-o com os ratos que apanhava na loja, de ovos das galinhas que roubava à mulher, de peixes do Sabor e de vísceras. Mas impunha-lhe uma dieta rigorosa um ou dois dias antes da caçada, para ter apetite.
Quando chegaram ao alto da Malhadinha foi cada uma para seu lado. Avançavam lentamente, sem fazer barulho, com os cães em pulgas , de orelhas em radar, prontos para avançar.
- Biste-sio? – perguntou o Julho do Marmeleiro.
- Bi, mas foi imbora. Num quis arriscar o tiro – justificou o Julho.
No entanto, os cães encurralaram-no num silveiral denso, onde ninguém conseguia entrar. Nem os cães! Catrineta pegou no furão que, de orelhas em riste e focinho espetado, avançou com alguma dificuldade.
- Bai...bai e apanh´ó. Trai-o cá.
Passados seis a sete minutos, eis que sai o coelho a toda a velocidade. Augusto Pinto apontou e disparou.
- Acertáste-le?
- Penso que sim, que le dei.
De facto, daí a pouco já vinha o lebreiro com ele nos dentes.
Durante a manhã só o Augusto Pinto, o Catrineta e o Julho do Marmeleiro tinham sido bafejados pela sorte, ficando em branco o Dr. e o Lérias. Almoçaram todos sentados nas fragas, cada qual do que levou na marmita. O garrafão circulou a boa velocidade por entre todos. Quem carregava mais no acelerador era o Lérias e o Catrineta. As larachas eram mais do que a caça. Isto faz-me lembrar uma pintura de um restaurante onde eu almoçava com muita frequência. Era o “ Flor de Santo António “, do senhor Manel e da D. Lurdes, precisamente na Rua de Santo António à Estrela, a uns trinta metros da Basílica da Estrela, ao cimo da Av. Infante Santo. Tinha um reservado, no qual almoçava, com uma grande e bonita pintura com motivos de caça e de pesca que dizia: “ Neste lugar convivem pescadores, caçadores e outro aldrabões”. ( Infelizmente fechou devido à idade dos seus proprietários). E as tchotchices que disseram durante a merenda, também me faz vir à memória uma outra frase que ouvia enquanto criança: “ No tempo das perdizes, tanto mintes, quanto dizes”.
A seguir ao almoço retomaram a empreitada. Dividiram-se conforme quiseram, apenas seguiram juntos o Dr. Alberto e o Catrineta. Quando estavam num descampado eis que lhes surge uma lebre. O Dr. Já tinha uma bela e moderna Beretta de dois canos justapostos de calibre dezassete e alma lisa! A coronha era feita de pau de nogueira.
- Deixa-o comigo, que o tenho na mira – disse o Dr. Alberto.
- Atão, bá! Tchega-le com força.– aquiesceu o Catrineta.
Pum...e a lebre fugiu! Outro Pum... também em vão!
- Pois...Prás pedrizes e prós coelhos num há cá dótores. Num nos conhecem e num s´agatcham c´mo algumas – resmungou.
- O que é que estás praí a dizer?! – disfarçou, compreendendo a indirecta…
- Pois, pois...Sim,sim...Fai-te de nobas. Sabes bem o qu´eu quero decer. Num és burro ninhum... – disse num tom ríspido.
O Doutor Alberto chegou-se junto dele de dedo espetado e disse-lhe com calma, mas com a voz segura:
- Ó rapzinho...Olha que eu também cago atrás das paredes e limpo o cu às pedras!! Pensas o quê?
Receita Santa. O Catrineta meteu os pés ao caminho e abalou para a aldeia. O Dr. Alberto morreu aos 74 anos com uma enxada nas mãos, a cavar uma oliveira!















