Número total de visualizações do Blogue

Pesquisar neste blogue

Aderir a este Blogue

Sobre o Blogue

SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 6 de setembro de 2026

Conto de Fadas

Por: Paula Freire
(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


 "Segurava a fotografia entre os dedos como uma pena solta pelo tempo e, lentamente, deixava-se inebriar pelo som mágico da imagem, pelo feitiço de sua perfeição..." 

Hoje, sabia-lhe apenas a um desfecho de uma história desencantada num invulgar conto de fadas. Ausência imortalizada nas distâncias construídas pelo tempo. E ainda assim, os seus olhos turvavam-se em névoa transparente. As lágrimas abafadas num infinito de vontades.

    À sua frente, sempre aquele rosto tão cheio de palavras que devorava com uma avidez deslumbrante, porque lhe traziam à memória uma presença inacessível. Promessas que o olhar dela seduziu, fazendo-as dançar diante de emoções desprevenidas a atirarem-se, em suicídio, do peito ansioso. E ele mastigara-as, com a força do desejo, porque eram dela. Porque sabia que ela as venerava com a mesma delicadeza de uma pintura imaculada.

    Segurava a fotografia entre os dedos como uma pena solta pelo tempo e, lentamente, deixava-se inebriar pelo som mágico da imagem, pelo feitiço da sua perfeição...

    Amara-a em vagarosas pausas, deleitado com o sabor de cada novidade, de cada pormenor, como uma mesa de iguarias que vai surgindo delicadamente debaixo de olhares gulosos. Tocara com sereno prazer aquela espontaneidade que o embriagava. Rendera-se aos encantos daquela sedução.

    Então, mais uma vez, o rosto dela. Belo, límpido, a respirar ternura e elegância interior numa mistura de timidez selvagem e plácido ardor. O rosto dela, vibrante, de uma inocência branda que lhe acalmava a ansiedade aflita da alma, que lhe tranquilizava o coração abafado em agonia.

    E ao recordá-la agora, sobre as memórias daquele retrato, esmagava um soluço contra as paredes do estômago. Caía num desassossego febril de a ter junto dele. Deixava-se transportar numa viagem etérea pelos seus pensamentos, a sufocarem-lhe o fogo sentido pela inexistência dela.

    Que segredos esconde a força arrebatadora de uma paixão? Perguntou ao silêncio. Este respondeu-lhe, com a segurança quente de quem conhece melhor do que ninguém as suas próprias certezas, que ela não fizera nada. Simplesmente era.


Paula Freire
. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome. 
Acredita que a vida não dá certezas absolutas nem tem respostas fáceis. E que a sensibilidade humana nunca deve ser confundida com fragilidade.
É psicóloga e psicoterapeuta. Publicou “Lírio: Flor-de-Lis” e “As Dúvidas da Existência: Na Heteronímia de Nós”. Este último (em coautoria), assinado pelo seu heterónimo Lázaro Rios, a sua forma de liberdade mais pura e crua. 
Gosta de viver sem ruídos desnecessários e inteira dentro da sua escrita. Tudo o resto são só excessos.

Sem comentários:

Enviar um comentário