(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)
"Segurava a fotografia entre os dedos como uma pena solta pelo tempo e, lentamente, deixava-se inebriar pelo som mágico da imagem, pelo feitiço de sua perfeição..."
Hoje, sabia-lhe apenas a um desfecho de uma história desencantada num invulgar conto de fadas. Ausência imortalizada nas distâncias construídas pelo tempo. E ainda assim, os seus olhos turvavam-se em névoa transparente. As lágrimas abafadas num infinito de vontades.
À sua frente, sempre aquele rosto tão cheio de palavras que devorava com uma avidez deslumbrante, porque lhe traziam à memória uma presença inacessível. Promessas que o olhar dela seduziu, fazendo-as dançar diante de emoções desprevenidas a atirarem-se, em suicídio, do peito ansioso. E ele mastigara-as, com a força do desejo, porque eram dela. Porque sabia que ela as venerava com a mesma delicadeza de uma pintura imaculada.
Segurava a fotografia entre os dedos como uma pena solta pelo tempo e, lentamente, deixava-se inebriar pelo som mágico da imagem, pelo feitiço da sua perfeição...
Amara-a em vagarosas pausas, deleitado com o sabor de cada novidade, de cada pormenor, como uma mesa de iguarias que vai surgindo delicadamente debaixo de olhares gulosos. Tocara com sereno prazer aquela espontaneidade que o embriagava. Rendera-se aos encantos daquela sedução.
Então, mais uma vez, o rosto dela. Belo, límpido, a respirar ternura e elegância interior numa mistura de timidez selvagem e plácido ardor. O rosto dela, vibrante, de uma inocência branda que lhe acalmava a ansiedade aflita da alma, que lhe tranquilizava o coração abafado em agonia.
E ao recordá-la agora, sobre as memórias daquele retrato, esmagava um soluço contra as paredes do estômago. Caía num desassossego febril de a ter junto dele. Deixava-se transportar numa viagem etérea pelos seus pensamentos, a sufocarem-lhe o fogo sentido pela inexistência dela.
Que segredos esconde a força arrebatadora de uma paixão? Perguntou ao silêncio. Este respondeu-lhe, com a segurança quente de quem conhece melhor do que ninguém as suas próprias certezas, que ela não fizera nada. Simplesmente era.
Paula Freire. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome.
Acredita que a vida não dá certezas absolutas nem tem respostas fáceis. E que a sensibilidade humana nunca deve ser confundida com fragilidade.
É psicóloga e psicoterapeuta. Publicou “Lírio: Flor-de-Lis” e “As Dúvidas da Existência: Na Heteronímia de Nós”. Este último (em coautoria), assinado pelo seu heterónimo Lázaro Rios, a sua forma de liberdade mais pura e crua.
Gosta de viver sem ruídos desnecessários e inteira dentro da sua escrita. Tudo o resto são só excessos.

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